BANHA DA COBRA

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Já me preocupei mais com estas coisas, mas continua a incomodar-me a forma como muitas pessoas abraçam a falta de ética sem qualquer espécie de hesitação.
Isto a propósito de uma reunião de negócios na qual participei neste fim-de-semana cheio de obrigações, onde me confrontei mais uma vez com a arrogância e o desplante com que a malta do papel assume os seus esquemas marados para intrujar os incautos e os pobres de espírito.
Confesso que tinha comprado a ideia, quando numa primeira abordagem me forneceram a informação essencial acerca do que estava em causa. Nessa altura, por delicadeza, não coloquei qualquer questão e concentrei-me nos aspectos financeiros e de natureza prática. Soou-me demasiado simples, confesso, mas acreditei que a reunião seguinte traria a lume as questões de pormenor.
E trouxe, de facto, mas não com a frontalidade que esperava e de modo algum com os contornos que um negócio sério deve possuir.
O negócio, afinal, é explorar a debilidade financeira e/ou psicológica dos cidadãos, explorando sem pudor a confiança que inspiram nas outras pessoas.

Foi a meio da reunião, que envolveu meia dúzia de pessoas, que alguém deixou escapar uma discreta inconfidência, um desabafo entre dentes que outrem silenciou com um gesto que não passou ao largo da minha atenção reforçada. Passei de moderadamente eufórico, descontraído o bastante para negligenciar algumas incongruências no discurso, a exageradamente atento a todos os sinais de alerta. E esses começaram a surgir em barda, logo que o meu cérebro esqueceu o “barulho das luzes” e, lucros cessantes, focou a sua missão nas tarefas defensivas.

Não tardei a somar dois mais dois, enquanto observava o comportamento dos restantes “parceiros” numa aventura comercial certamente lucrativa para alguns mas que não encaixa de todo no meu conceito de actividade legítima.
Passei então de observador participante a figura de corpo presente, uma mudança de atitude que não terá passado despercebida à organizadora do evento e principal interessada na minha “conversão” à causa que implicaria o empenho da minha influência junto de outros “sócios” potenciais para o negócio da china.
Não é algo que encare de ânimo leve, admito, dar a cara por algo em que não sinta os pés bem fincados no chão.

E mal acabou a reunião tomei nota das áreas menos claras de toda aquela concepção “milionária” que antes me soara tão simples e inteligente, tão feita à medida de quem vive há uns anos o papel de mercador.
Bastaram alguns minutos de raciocínio e outros tantos na exploração dos motores de busca. O embuste revelou-se em toda a sua dimensão.
A empresa sedeada num paraíso fiscal (economia paralela), a ausência de papéis, a omissão de uma sede física em Portugal (reduzindo a coisa a um site quase sem conteúdo) e a “importação” descabida de termos contratuais aplicados noutro país onde acabei por descobrir ter acontecido um colapso da “galinha dos ovos de ouro” que lesou um número inquantificável de empresários menos desconfiados do que eu.
Uma fraude concebida com base em esquemas já existentes, devidamente ornamentada com o glamour que trai qualquer pessoa crédula, ambiciosa e vulnerável aos números com dígitos dignos do euromilhões.

De acordo com quem decidiu meter a boca no trombone e se afirma vítima do esquema, os responsáveis pela instalação da cena no seu país piraram-se para o nosso quando a coisa descambou.

Por isso vos deixo um aviso muito simples: se alguém da vossa confiança insistir em vos arrastar para uma “oportunidade única” que se recuse a identificar nesse contacto e alegar estar na presença do “responsável pela entrada em Portugal de uma multinacional europeia”, desconfiem. E se querem um conselho amigo, recusem o convite e, das duas uma, abram os olhos a quem vos propuser o “negócio” ou abram os vossos e ponham-se a pau relativamente a quem se mostrou tão empenhado em vos enriquecer…
publicado por shark às 11:15 | linque da posta | sou todo ouvidos