LUA NOVA

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Se alguém me dissesse há vinte anos atrás “vais ver que é bestial ser quarentão”, desatava a rir e retorquia com um “pois, está bem...”. E essa postura arrogante de quem se imagina fresco e jovem para toda a vida, o que mais tarde os factos desmentem, é uma das explicações possíveis para esta sede de viver que faz toda a diferença.
Essa diferença faz-se sentir em todos os domínios da minha existência. Amo mais tudo o que de bom a vida tem para me oferecer.

Ter quarenta anos implica termos chegado ao ponto de que falávamos quando eram óbvias algumas limitações, ao nível da maturidade e da experiência de vida e noutros aspectos que dependiam da condição económica e social de cada um. Com o corpo a reagir melhor aos estímulos e a mente menos condicionada por várias pressões, uma conjugação poderosa, a vida adquire um novo e fascinante significado. Até porque a noção da passagem do tempo, mais presente, obriga-nos a encarar de outra forma as oportunidades que nos surgem ao longo do caminho. Mais do que importantes são valiosas, pois o ritmo acelerado que o dia a dia impõe e as cicatrizes de algumas mazelas que limitam, ou mesmo inviabilizam, o pleno usufruto das coisas boas da vida tornam uma pessoa mais atenta e disponível quando essa hipótese rara se concretiza. Ou deviam tornar.

Este tipo de discurso, embora vindo de quem vem, não implica o elogio incondicional da dinâmica “bute lá”. Por boas oportunidades entendo as que encaixem no perfil de cada um de nós, em cada sensibilidade e vocação, e não me refiro a nenhuma área específica. Por outras palavras, não é só de sexo que estou a falar. Mas também. E o sexo é muito melhor aos quarenta. Da fase do “provar algo a alguém (ou a nós próprios)” à do “provar algo de alguém (e a recíproca é verdadeira)” vai uma distância considerável. E esta última não invalida a primeira. O corpo reage como há vinte anos atrás no entusiasmo e acrescenta os estímulos e as sensações de quem sabe o que procura e como o alcançar. Faz todo o sentido para mim e transmite-me a confiança necessária para que tudo corra pelo melhor.

Mas também o amor tem maior potencial nesta fase da vida. É possível desenvolver uma paixão adolescente, arrebatada, mas que hoje conseguimos controlar nas proporções com a ajuda das referências que coleccionámos e das condicionantes que enfrentamos. Sem perdermos o norte às nossas prioridades e contudo, entregues de corpo e alma ao enlevo por outra pessoa. De uma forma serena ou mesmo pueril, mas libertos da ansiedade natural dos dias do acne e da precipitação. Enquanto a vida deixar.

E não ficam por aqui as mais valias que descubro a cada dia no meu trajecto rumo ao estatuto de quarentão. Darão talvez origem a outras postas, pois gosto de trocar impressões convosco acerca das coisas que me preocupam ou me seduzem.
Não me espanta por isso que os meus quarentas venham a ser bastante marcados pela blogosfera e pelas pessoas que como eu a fazem.

Partilho convosco estas conclusões para rentabilizar uma das facetas que um blogue nos faculta, dar-me a conhecer a quem me lê, e para proporcionar-vos uma oportunidade de dizerem de vossa justiça e assim percebermos todos um pouco melhor de que massa somos feitos e em que medida ela se aproxima da substância das outras pessoas.
No fundo, um ponto de partida decente para as relações que entre nós se estabeleçam por esta via ou a partir dela. Sejam elas do tipo que forem, independentemente da sua duração.
A amizade e o afecto, tal como os entendo nos dias que correm, encontram-se na blogosfera com a mesma credibilidade e grau de confiança do que numa mesa de café. Apenas, como a Mar muito bem refere na sua posta de dia 17 do corrente, começam ao contrário.
Se calhar como a própria vida deveria começar.
publicado por shark às 12:30 | linque da posta | sou todo ouvidos