ERRAR ASSIM NÃO É HUMANO

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Em poucos dias, os exércitos de Israel e do Sri Lanka assumiram “erros técnicos” que custaram a vida a 18 e a 45 pessoas, respectivamente, somando-lhe várias dezenas de estropiados.
Em ambos os casos, boa parte das vidas que se perderam eram de crianças. No caso singalês, tratava-se de uma escola o alvo do bombardeio por parte das tropas governamentais.
Numa época em que até pelo Google se conseguem obter imagens nítidas de qualquer ponto do planeta, estes erros de palmatória, crimes sem castigo, não têm justificação possível.
Ou têm, mas não a que mais abona a favor dos autores destas chacinas.
O exército israelita, sob a orientação eficaz dos seus serviços secretos, já por diversas vezes conseguiu eliminar com precisão cirúrgica indivíduos que se deslocavam num automóvel.
Isso pressupõe uma capacidade tecnológica e uma presença no terreno que invalidam as margens de “erro” constantemente invocadas pelos responsáveis impunes destas atrocidades (cada vez menos) mediáticas.

O exército singalês, cujo protagonismo macabro se verificou na própria nação que lhe compete proteger, não pode alegar a falta de conhecimento da localização de um estabelecimento de ensino.
Uma barragem de artilharia é uma operação que leva bastante tempo a preparar, requer uma logística complicada e envolve muita gente e muitos meios. É quase impossível acontecer um “erro” desta envergadura.

Em ambos os casos, tresanda a massacre deliberado, a ajuste de contas. Estes “equívocos”, cuja impunidade denuncia o cariz deliberado, visam apenas subir a parada na hedionda escalada que os dois conflitos têm revelado ao longo de décadas.
Se assim não fosse, rolariam cabeças e alguém teria que enfrentar a justiça pelas culpas inscritas no seu cartório.
Mas não é isso que se verifica. São “coisas que acontecem”, acasos que a estatística pode explicar se um governo sanguinário assim o entender.

Contudo, enquanto no Tribunal de Haia um congolês responde pela mobilização de crianças para a guerra, transmitindo ao mundo a noção de que é possível incriminar e sentenciar estes nojentos worldwide, ninguém levantará o dedo contra as altas patentes dos exércitos que acabam de ceifar mais esperança na sua sementeira de ódio.
Basta colocarmo-nos na pele dos irmãos e dos pais das crianças tamil e palestinianas que se viram obrigados a recolher os pedaços das meninas e dos meninos desfeitos pelas explosões “erradas”…

Estas exibições grotescas de infâmia servem para banalizar a morte, para a multiplicar ao ponto de ir empurrando os massacres para as páginas interiores dos jornais e para as referências discretas nos noticiários das rádios e das televisões.
E servem também para evidenciar a baixeza deste tipo de conflitos onde não têm explicação possível tais “erros” que nem numa guerra convencional se podem tolerar.

Não existem crianças de primeira e de segunda. O horror vive-se com a mesma intensidade em qualquer ponto do globo e deixa um rasto de dor e de sede de vingança que agudizam e eternizam estas manifestações do que os seres humanos revelam de pior.

Ainda mais cruel do que permitir que estas coisas aconteçam é consentir que a sua repetição sistemática as torne menos pérfidas aos olhos de quem as observa a prudente distância, (por ora) imune às respectivas repercussões.

À factura pesada que o futuro não deixará de nos apresentar por estes “erros” sem perdão.
publicado por shark às 09:56 | linque da posta | sou todo ouvidos