LIDES DOMÉSTICAS

Limpas estas paredes das memórias que lhe cobrem a pintura e somam à estrutura um volume que torna apertado esse espaço até ninguém lá caber.
Aperto na garganta, a boca que canta os males a espantar, os cotovelos a abrirem caminho por entre imagens e sons em demasia num tempo que se quer reflexão. Sem lugar à recordação nestas paredes molhadas, as telas forradas com um papel de fantasia (erótica) tão húmido e espesso como o nevoeiro de uma noite sem espaço para a luz.

Escovado o estuque como uma pele, até sangrar. A forma de expurgar lembranças que toldam o raciocínio e enfraquecem o coração. Líquido vermelho a escorrer e cada parede a verter para um balde a cabidela de emoções proibidas e de coisas perdidas que sufocam as ideias como acentuam a solidão.

Limpas agora, vazias dos retratos estáticos que a vida lhes pendurou como espantalhos para os corvos da cidade sonhada feliz. As asas do desejo negro nas penas do degredo de quem arranha as paredes, ardor, como as costas de alguém num momento de paixão.

Limpas estão.

A porta fechada para impedir a entrada dos fantasmas barrados em camadas de pó, alergia.

Lá dentro a alegria de um tempo que passou, renegada cá fora na expressão endurecida da pessoa só que vira as costas à saudade e busca um sopro gelado de libertação.
Ou apenas demolida essa construção de papel, congelada em cubos pequenos pelo frio passageiro do Inverno no amor, camartelo.

À espera do inferno interior no degelo. Rosto derretido num sorriso esquecido perante as flores imaginárias que brotam espontâneas do chão, iluminadas, no final das madrugadas de insónia, pelos primeiros raios de sol acolhidos pelas janelas escancaradas, o calor endiabrado de um fauno decalcado nas paredes dessa sala também, só para te desassossegar (a cabeça).

Talvez amanhã as consigas limpar bem (ou o tempo arrefeça).
publicado por shark às 21:20 | linque da posta | sou todo ouvidos