EYES WIDE SHUT

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Muitos gostam de o comparar ao Holocausto, pelos contornos. Eu acho isso errado, pois soa a desculpa de mau pagador, a falso alívio de consciência pelo retrato de algo de similar acontecido aos europeus (ocidentais).
A realidade de Darfur, (mais) um genocídio sistemático de pessoas a que mesmo os noticiários voltam a cara para o lado oposto, é terrivelmente mais cruel do que a sofrida pelos Judeus às mãos dos nazis. E a reacção do resto do mundo é, seguramente, mais hipócrita.

A crueldade de que vos falo reside no facto de hoje, o momento em que acontece a chacina e a tortura de milhares de pessoas, existirem uma data de mecanismos de que o mundo da II Guerra Mundial não podia valer-se para pôr fim a uma indignidade colossal.
Hoje, o mundo dispõe da Organização das Nações Unidas, de comunicações muito mais eficazes (Imprensa, Internet), de exemplos a não seguir, de força bélica para destituir qualquer líder sanguinário pela força (excepto nos Estados Unidos da América, a menos que seja por via económica. E mesmo aí…).
E o mundo não intervém.

Enquanto escrevo estas linhas é bem provável que mais algumas aldeias tenham sido arrasadas, as mulheres violadas, os homens assassinados e as crianças sobreviventes a engrossarem a gigantesca fila de espera para a morte por inanição.
É disso que estou a falar nesta posta. De um pedaço do nosso planeta onde um governo ditatorial executa uma limpeza étnica com o conhecimento (e o inerente beneplácito) global.
Todos de olhos fechados, a vida continua, enquanto pessoas sofrem horrores que um terço das tropas estacionadas no Iraque e no Afeganistão bastariam para impedir.

Não tem comparação possível com o Holocausto, por muito que os historiadores contemporâneos alinhem na versão que aos políticos mais interessa. Como interessa aos cidadãos comuns, todos nós que não vivemos na pele (mais escura mas de sangue igual ao que nos corre nas veias) de quem padece algures, a quem incomoda viver com tais pesos distantes na consciência.
“Aquilo é em África, lá acontece a toda a hora.”
Mas não devia.

E compete-nos evitar que assim seja. Como? Pressionando cada Governo de cada país para que utilize os seus dispendiosos recursos em termos de política externa (diplomatas, militares, etc.) no sentido de pressionar quem efectivamente dita as regras numa ONU refém da injecção dos dólares que a sustentam. Intervindo pelos meios ao nosso alcance para incutir vergonha na cara e na atitude de quem nos representa nessas matérias. Rejeitando esta doutrina do deixa andar (deixa morrer) que nos vai sair cara num futuro tão pouco distante que já se faz sentir em diversas fronteiras europeias.

Num futuro que se desenha pouco favorável nas descrições vindouras do quanto de hediondo as gerações que ocuparam a Terra neste período fizeram ou permitiram.

Num tempo que só pode registar-se na História como o mais negligente que a Humanidade conheceu.
publicado por shark às 23:42 | linque da posta | sou todo ouvidos