A POSTA NA BANDALHEIRA À PORTUGUESA

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Foto: Shark

Por opção consciente, porque não tenciono criar uma “princesinha” burguesa que apenas conheça a vida folgada da classe média com posses, inscrevi a minha filha no Ensino Público. Por isso e porque entendo que o Estado tem a obrigação de gerir os cerca de dez mil euros de impostos que me saca sem apelo em cada ano, criando as condições necessárias para que ela receba uma formação escolar decente.
Não cria.
E as recentes “inovações” que visam assegurar a permanência das crianças nos estabelecimentos de ensino até às 17:30h, aliviando os pais da pressão e do encargo de encontrar soluções para ocupar o tempo dos miúdos, não funcionam.
Pelo menos na Escola Básica que a minha filha frequenta.
Em causa está um período de tempo cuja gestão, antes cuidada pelas Juntas de Freguesia, foi agora entregue às Câmaras Municipais. E a de Lisboa, um buraco negro sorvedouro de dinheiro, não está a honrar o seu compromisso financeiro e deixa os monitores de Educação Física, Música e Inglês sem receberem os seus vencimentos. O resultado é óbvio. Os monitores não recebem e baldam-se. Mais de cem crianças ficam assim “penduradas” ao longo de mais de uma hora no interior de uma escola, vigiadas por apenas um adulto e sem um espaço coberto onde possam ao menos brincar nos dias chuvosos.
O mais caricato é o facto de os pais, mesmo sabendo que os seus educandos se encontram nessas condições e mesmo podendo observar os filhos a partir do lado de fora das vedações, não podem ir buscá-los à escola antecipadamente pois os responsáveis da mesma recusam abrir os portões de acesso ao longo do período em causa, invocando questões de segurança (alegadamente porque não dispõem de pessoal em número suficiente para acautelarem os acessos) .

Neste contexto, é fácil de entender que professores e auxiliares têm todo o interesse em boicotar a boa intenção do Ministério pois sobram para eles, sem qualquer retribuição, a responsabilidade e o trabalho acrescidos. E no meio estão as crianças, encurraladas num espaço sem condições adequadas para esta época do ano e à mercê dos desígnios da sorte, e os pais, entalados entre a decisão de encontrarem alternativas externas (caras) e baixarem os braços perante a inépcia do Estado em controlar as autarquias, ou arriscarem deixar as crianças em circunstâncias nada tranquilizadoras.
A terceira alternativa, a mais correcta e que tem em conta os pais cuja situação financeira e/ou laboral nem lhes permita escolhas, é pressionar o Ministério da Educação e todas as entidades ligadas a mais esta exibição do país de treta que estamos a permitir, no sentido de assumirem os seus compromissos ou, no mínimo, de imporem às Câmaras Municipais o honrar daqueles que em má hora lhes delegaram.

Não é fácil pugnar por quaisquer direitos numa nação de irresponsáveis, de muros de betão que delimitam os seus feudos e as suas regalias por detrás de uma postura que nunca tem em conta os interesses alheios. São instituições e pessoas herméticas, sempre lestas a sacudirem a água para o capote alheio enquanto se aguarda que o pior aconteça para alguém ter que tomar decisões drásticas nas quais, por norma, nunca cabe a punição exemplar dos verdadeiros culpados dessas broncas que podem custar muito caras a crianças entre os seis e os dez anos de idade.

Contudo, como encarregado de educação e como pai, não posso confiar a terceiros desta laia a segurança da minha filha e resta-me, no âmbito da Associação de Pais ou por iniciativa própria, encostar à parede todos quantos possuam a autoridade para resolver a situação, ainda que isso me possa custar muito tempo e neuras constantes a que os meus impostos deveriam bastar para me pouparem.
Os impostos e a seita de incompetentes que minam pela raiz o futuro que os nossos herdeiros merecem num país onde cada vez menos há esperança num amanhã em condições.

E isso explica em boa medida o facto de nos últimos anos serem mais as saídas do que as entradas nas estatísticas dos fluxos migratórios nas fronteiras portuguesas.
publicado por shark às 11:40 | linque da posta | sou todo ouvidos