NAS COSTAS DOS OUTROS

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Ontem, enquanto aguardava um amigo numa esplanada do Parque das Nações, reencontrei uma pessoa conhecida que já não via há algum tempo. Uma antiga colega de escola, com quem nesse tempo havia feito todo o sentido cultivar a amizade e embarcar em episódios pontuais de intensa paixão. Bonita e inteligente, a minha amiga (tal como a lembrava) era uma pessoa de bem e tinha-a em elevada conta, mesmo já decorridos alguns anos sobre o nosso último contacto.

Confesso que fiquei feliz por reencontrá-la e admito que me agradou recordar com ela alguns momentos magníficos que vivemos a dois. Em meia hora de conversa recuperámos a proximidade perdida, pois tudo batia certo com a imagem que ambos retínhamos um do outro. Excepto algumas alterações próprias do processo de amadurecimento, sulcos que a vida escava em algumas das nossas características sem deformar a essência da personalidade de cada um.
Pelo menos, era o que as nossas palavras faziam depreender.

No entanto, eu lembrava-me bem do aspecto que mais me marcara na jovem que ela era: a sua lealdade incondicional às pessoas que considerava suas amigas. Virava-se do avesso quando alguém se metia com “os seus” e, apesar de baixinha, quando lhe saltava a tampa era mesmo a abrir. O meu respeito por ela, a primeira das razões que nos aproximaram anos atrás, desenvolvera-se a partir de uma situação na qual um conhecido seu tentava emporcalhar a imagem de uma pessoa das relações da minha amiga.
No final do diálogo a que assisti, o fulano abandonou a cadeira com o rabinho entre as pernas e com a certeza de que dali nunca mais levava coisa alguma. Chanfrado, aplaudi a garota de pé, no meio do bar, e depois apresentei as minhas desculpas por ter partilhado a conversa que decorreu em timbre elevado o bastante para se ouvir em toda a sala.
Foi assim que a conheci.

Quando o meu amigo chegou, outra surpresa. Já se conheciam. Passámos a conversar a três, acerca das voltas que a vida dá para se cruzarem os nossos caminhos e tentámos descobrir os amigos comuns que pudessem entretanto existir. E eles descobriram um, ao qual ela se referiu como uma excelente pessoa por quem nutria imenso carinho e consideração. Pela descrição pareceu-me um gajo porreiro, mas por infeliz coincidência o meu amigo detestava o rapaz e passou a destilar o seu azedume. Ridicularizou-o, até. E ela, a anos-luz da mulher que eu recordava, sorriu e em momento algum tentou acabar com aquela situação que me soava desconfortável mesmo sem conhecer o protagonista.

Inventei uma desculpa e deixei-os na mesa, após algum tempo a assistir em silêncio aos termos deselegantes que o meu amigo, certamente teria as suas razões, empregava na descrição do amigo dela. Caiu-me mal, vê-la a sorrir da maledicência dirigida a uma pessoa que afirmara prezar e o meu filme não era aquele com toda a certeza.
Por isso os deixei, sem ficar com um contacto dela para utilização futura.

Não cultivo amizade com pessoas incapazes de entenderem que a falta de lealdade é uma forma de desrespeito pelas pessoas que em nós confiam. Nem me agarro às recordações felizes para perpetuar ilusões.
A amizade séria não se compadece das grandes como das pequenas traições. Nas costas dos outros, lá está, vejo as minhas...
publicado por shark às 12:39 | linque da posta | sou todo ouvidos