MORAL DIVINAL

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Gravura integralmente preenchida com gente hetero e unida pelos sagrados laços do matrimónio.


O indivíduo, quarentão com um ar distinto, entrou pelo meu escritório e estendeu a mão com uma folha colorida de papel e perguntou:
- Posso deixar-lhe o tratado?
E eu disse que sim.

O “tratado” consistia afinal num folheto destinado a explicar o que é uma religião falsa na perspectiva das Testemunhas de Jeová. Knock, knock! Shit happens.
E é elucidativa em muitos aspectos, esta propaganda fascista de distribuição impune.
Fascista é um termo forte? Então regalem a vista com esta passagem:

“Em países ocidentais, grupos religiosos nomeiam gays e lésbicas como ministros em suas igrejas e pressionam o governo a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Até mesmo igrejas que condenam a imoralidade toleram líderes religiosos que abusaram sexualmente de crianças.”

Estão a ver o paralelo subtil, a associação de ideias natural neste raciocínio “divino”?
Gays, lésbicas e violadores de crianças enfiados no mesmo saco, escória imoral na visão cristalina destes pregadores inconvenientes na presença e no discurso.
Tudo em nome de Deus, claro, como se infere da citação que compõe esta pérola:

“Não sejais desencaminhados. Nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem homens mantidos para propósitos desnaturais, nem homens que se deitam com homens… herdarão o reino de Deus.” (Coríntios 6:9, 10)

A revista Asiaweek, citada pelos fulanos, alerta que “o Mundo está à beira da loucura”. E eu só posso concordar. Sob a capa de uma religião, estes lunáticos sentem-se no direito de invadir a minha privacidade para divulgarem ideologias merdosas. Isentos de punição, a coberto de um estatuto que lhes permite proferirem este tipo de atoardas insidiosas, de incitarem por inerência e contra o próprio espírito da legislação e os princípios deste país a descriminação das pessoas em função dos seus hábitos e preferências sexuais, sem hesitarem em associar homossexualidade e pedofilia às claras, no seu “tratado” que não passa de uma declaração de guerra a uma parte da população.
Em nome de Deus, o deles.

E eu, agnóstico, não consigo vislumbrar um deus que defina a capacidade de liderança de um ser humano, a sua integridade, em função do género a quem dedica o seu desejo e o seu amor. Não consigo encontrar a fé em deuses reaccionários, ícones tutelares de um conceito de moralidade questionável, desprezível, à luz do bom senso dos homens e estapafúrdio se entendido numa dimensão divina.
Estes puritanos que afirmam que “os verdadeiros adoradores não são divididos por raça ou cultura” vetam essa condição aos que, mesmo crentes e praticantes de uma forma de estar na vida exemplar aos olhos do padrão definido por estes juízes de pacotilha, enveredem por um comportamento sexual que fuja ao estipulado na concepção medonha desta religião “verdadeira”.

Se dependesse destes cromos, podem ter como certo que me assumiria ateu.
publicado por shark às 12:57 | linque da posta | sou todo ouvidos