A CORDA

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Foto: Shark

Como uma cobra amestrada, a corda enrolou-os num abraço terno e proporcionou-lhes o aconchego que tanto sentiam precisar.
Deixaram-se ficar naquele nó, amarrados, como um só.

Mas a corda começou a esticar, aos poucos, sentiram-se abafar com a proximidade excessiva. Demasiado apertados, os sonhos desvanecidos na realidade sincera que nunca escondia a dimensão da asneira, teimosia e fé, ou o desequilíbrio que aos poucos se instalava naquela ligação.
A voz da razão ou outra coisa qualquer. Os caprichos de uma mulher irreverente, livre como o vento, embarcação irrequieta e incapaz de se prender a um cais por mais tempo do que o necessário para encher o porão com os resumos uma lição que reaprendia. Depressa enfunaria as velas para zarpar, confiante numa rota incerta que adivinhava segura e amparada. Não temia o naufrágio, guiada pela luz distante das estrelas ou do sol, ou de um patético pirilampo artificial no cimo das falésias mais hostis, fantasia. Talvez um nónio ou um simples mapa, assinalada na carta a cruz de um tesouro que buscaria às cegas com a ajuda do instinto pirata que confiava sem hesitar.
E ele, igualmente navegador, também buscava o amor mas sufocava com a pressão do cordame no peito que parecia rebentar.

A corda a esticar na vertigem do aumento da tensão. Cada um na sua ponta, puxando em sentido oposto para enganar o desgosto com pretextos sem nexo. Um jogo doloroso, aquele passo ansioso adiante que prenunciava sempre os dois passos no sentido de recuar.
E a corda, enfim, esticava e logo veria se aguentava as forças combinadas dos dois extremos em oposição.

A esperança que partia e a corda que se seguiria, no limite da força centrífuga que a esticava.
Porém, nenhum deles largava a ponta de vez. Navegavam em círculos com um raio crescente, seguiam em frente sem abandonarem a órbita em torno de um magneto que parecia provir apenas do coração mas tinha origem também na cabeça. A névoa espessa que mal lhes permitia descortinar o outro no lado de lá de uma vida cada vez menos comum. Ideias erradas, expectativas frustradas, o livre arbítrio da especulação.

Perdiam a razão estupidamente no meio de um conflito latente, cediam ao jogo do empurra e trocavam acusações de falsas pequenas traições que lhes mitigavam o desconforto provocado pela fricção na palma de cada mão agarrada a uma corda que antes os unia e agora só servia como fraco argumento para os afastar.
Ele queria nadar para longe dali, poupar-se à corrosão daquele ácido verbal, daquela guerra que lhe fazia mal. E no entanto amarrava no pulso a ponta do fio para não perder o rasto de volta e para a saber capaz de regressar ao ancoradouro sã e salva, onde sempre encontraria a segurança de uma baía de confiança.
Ainda que fustigada pelo tremendo temporal que desabava de quando em vez sobre as velas enfunadas que eram velas apagadas sempre que o vento parecia decidido a não soprar outra vez.

Presos por um fio, em permanente rodopio nas bordas daquele remoinho de emoções, o carinho nos corações e a vontade de escapar ao aperto que há muito deixara de existir.
Esforçavam-se por resistir à tentação demoníaca da separação inequívoca, pressentiam a falta que o outro faria naquele ou em outro dia marcado pela saudade que parecia não vergar como a corda desfeita que já não prendia ninguém.
Apenas fazia de conta, pedaços inúteis, fragmentos de memória cada vez mais difusa nas imagens de um passado sem futuro num presente que lhes dizia fica um pouco mais.

A corda partida, esgaçada pelo tempo a lutar contra a sua própria passagem, inexorável, numa missão impossível que nenhuma persistência conseguia explicar.

E eles a observarem à distância o outro, a partir do ponto preciso de onde seriam avistados meio caminho depois, cada um em busca da bandeira branca que sinalizaria a paz que os reuniria algum dia no centro da circunferência imaginária onde corda alguma voltaria a limitar-lhes a navegação.
publicado por shark às 20:28 | linque da posta | sou todo ouvidos