A QUíMICA QUE NOS TRAI

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Adolescente, ria-me dessa piroseira de que as miúdas falavam umas com as outras. Com um brilho nos olhos e sorriso maroto nos lábios, elas levavam a coisa a sério e acreditavam mesmo naquilo.
Eu, bruto como quase todos os rapazes na puberdade, achava aquilo tão irrealista como qualquer das muitas manias de gaja que elas, mais desenvolvidas, partilhavam umas com as outras.
Mas um dia deixei de ser virgem. E nesse dia, entre outras importantes ilacções, concluí que afinal as raparigas tinham razão. A química existe e é responsável por inúmeras atracções inesperadas e intensas, como por fenómenos de rejeição que podem converter-se até em nojo.

Nem sei se acontece com todas as pessoas, mas muitas já me confidenciaram (re)conhecer essa reacção (química?). É de extremos. Atrai ou repele. Ou não existe de todo e nesse caso é muito provável que estejamos perante alguém que nos será indiferente.
Em casos mais intensos, nem é preciso tocar efectivamente a outra pessoa para se ter a percepção da harmonia ou da incompatibilidade das químicas. Quase por instinto, rejeitamos quem nos desagrada e esse desagrado pode ter origem num cheiro, no som da voz, na falta de luz no olhar. Mas também pode nem ter uma explicação tão óbvia.
E o contrário é ainda mais notório. Alguém que não conhecemos surge perante nós e provoca-nos sensações agradáveis a todos os sentidos. Desorienta, essa manifestação. Apanha-nos desprevenidos e sem saber como lidar, assim de repente, com a situação. A uns falha-lhes a fala, a outros sobe-lhes a pulsação. A mim? Não digo.

Esse mal explicado mecanismo (uns dizem-no hormonal, outros meramente olfactivo, outros ainda apontam para um conjunto de factores diferenciados) é responsável por muitas complicações na vida de todos nós. A química certa com a pessoa errada ou a química errada com a pessoa (que se julgava) certa são meio caminho andado para uma bronca das antigas. É que nem sempre conseguimos dominar os impulsos, os bons e os maus, os adequados e os inconvenientes, quando nos confrontamos com essa surpresa.
A química transcende o poder de alguns sentidos. Uma pessoa visualmente agradável e muito bem cheirosa pode provocar-nos uma sensação desagradável quando nos toca a pele. E a pele nunca engana, como o algodão. Se não atinamos com o toque, está tudo estragado. Mas se constatamos precisamente o oposto é uma gaita e lá estamos num momento que muitas vezes nem ousámos fantasiar. Ou pretendíamos até evitar de todo.

Embora a química da paixão tenha algo de místico na sua concepção, é inegável para muitos de nós a existência desse processo alheio a qualquer facto racional. A pessoa que esteve sentada na cadeira diante de nós pode inspirar-nos tanta atracção como um cinzeiro. E a pessoa que se senta na mesma cadeira no dia seguinte pode fazer disparar os alarmes todos, antes mesmo que um simples cumprimento seja trocado. E são estas últimas que confirmam a razão das adolescentes a quem devia ter prestado mais atenção na altura. É um pesadelo afastarmo-nos desses seres humanos que algo em nós diz serem talhados à medida da nossa composição molecular. E não é pelo que se vê, mas pelo que se intui e depois se manifesta no sentir.

É uma pena que algumas contingências da vida nos confrontem com essas criaturas enquanto outras conjunturas pareçam criadas precisamente para nos obrigar, a contragosto, a reconhecer a impossibilidade de com elas algum dia partilharmos mais do que uma relação distante, uma ilusão silenciada ou um desejo (mal) reprimido.
publicado por shark às 10:21 | linque da posta | sou todo ouvidos