PALAVRAS AO VENTO

A brisa, discreta na proveniência como uma inadvertida flatulência, cumpriu o seu papel anónimo e soprou aos ouvidos sedentos de uma das correntes de ar que lhe alimentavam o ego, um concubino cego que guinchava pelas frinchas das janelas como um violino triste que só tocava a solidão que sentia porque a brisa não lhe concedia outra hipótese de sonhar.

Mas a brisa não sabia amar, apenas soprava histórias de encantar (aos que não conseguia alcançar) que lhe ocultavam a natureza foleira, umas histórias à maneira, vira-bicos, mais uns pequenos arrufos para exibir uma indignação que provinha apenas da frustração de ver cada vez mais reduzido o seu harém imaginário, as hipóteses em aberto que mantinha com o poder que detinha sobre a circulação do ar nas mentes adormecidas dos ventos que adoravam a máscara e ignoravam a essência por detrás.

A brisa parecia capaz, assim o soprava, de ser aquilo que esperava quem dava ouvidos à sua música celestial. Mas tinha pouca paciência quando a sua inconsistência se expunha descarada e alguns ventos se revelavam furacões, contrariavam as ilusões de manter amarradas as trelas nas pernas da cadeira feita trono onde sentava a sua pose superior.
Mas desconhecia o amor e a amizade também. Não considerava ninguém capaz de lhe justificar um desvio do olhar embevecido com que mirava o seu reflexo invertido, aquilo que gostava de se pintar.

Fútil, afinal. Desdenhosa, buscava uma saída airosa sempre que o vento soprava mais forte e denunciava a sua incapacidade para gostar a sério dos objectos do seu culto de personalidade frustrada de uma brisa enamorada pelo som da sua passagem. E nada mais.
Também sabia gostar das manifestações de si, tudo aquilo que conotava com a sua alma de fingir. Refugiava-se nas poucas realidades que não lhe podiam escapar, as suas.
Errante pelas ruas de uma amargura que consolidava em cada fracasso da sua estratégia inevitavelmente individual.
Queria soprar sozinha, a brisa comezinha incapaz de ocultar a falta de substrato nos aspectos essenciais.

Impunha regras, ditadora, e punha o rabinho de fora sempre que chegava o momento de provar o seu valor. Desculpava-se com o mal nos outros, sua alteza, e nunca reunia a franqueza bastante para assumir as suas falhas, imaculada na sua sensibilidade de fachada que a traía no momento de se provar capaz e de responder ponto por ponto, cobardolas.
Sempre muito concentrada noutra coisa qualquer, distracções. As suas precisões de loba solitária sem tempo nem motivação para atender aos males da alcateia estúpida que uivava e assim incomodava o silêncio resignado que melhor lhe servia os propósitos de brisa autónoma. Heterónima de um vendaval feito de azedume e de pó.

Nunca acabaria só, claro, habilidosa na arte de insuflar pela surra as correntes de ar que a iluminavam ou construíam, idolatravam e seguiam até ao dia em que a brisa parava de soprar as melodias de embalar e o seu desprezo ecoava com o som de um trovão.

Buscava então, como quem não quer a coisa, as alternativas que se perfilavam no horizonte deserto de emoção, depois de esgotada a utilidade subserviente dos que a adoravam em vão.

Soprava promessas, escondia premissas, varria pecados de uma memória irregular que apenas registava o suficiente para agradar o gosto dos outros e o seu.

Aquilo que pareceu. Mas nunca conseguiu demonstrar.
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publicado por shark às 13:50 | linque da posta | sou todo ouvidos