UM COTA BACANO

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Aqui há tempos, o Cap chamou-lhe a banda sonora da sua vida. E tem toda a razão, pois The Great Gig In The Sky, um tema imortal dos meus adorados Pink Floyd que ontem ocupou parte da musicalidade do meu serão, é das mais belas produções da década de setenta que tanto de bom nos ofereceu em matéria musical.

Eu sou um incondicional dos sons criados no intervalo entre 1967 e 1987. No espaço dessas duas décadas encontram-se todos os meus álbuns favoritos e a maioria da música que ouço por estes dias. Os Supertramp, com a obra prima Crime Of The Century e com o Breakfast in America que tantou me impressionou e que adquiri no dia do lançamento em Portugal. Os Genesis com o seu Seconds Out, ao vivo, e que pude ver também no cinema, sob o título Genesis e White Rock (com música do teclista Rick Wakeman, um tratado e imagens de desportos de inverno). Os Marillion, com o soberbo Misplaced Childhood. Os U2. A malta da new wave, Ian Dury, Fischer Z, The Police, The Clash e tantos outros. E os Pink Floyd, com tudo o que produziram após a fase psicadélica e até à saída de Roger Waters que tanto os amputou.

E os Foreigner de Four, os Boston de Dont Look Back, The Doors, Janis Joplin, o saudoso Bob Marley, The Queen. Uma galeria de gandas malhas e de pessoas invulgares, capazes de traduzirem em música e em palavras a essência das suas ideias e das suas emoções. Boa parte da minha vida a ouvir as suas expressões, deliciado, convertido às suas causas, influenciado para sempre em muito daquilo que sou.
E agradecido pela Revolução que me permitiu conhecer a maior parte destes sons clandestinos, proibidos pela seita de Salazar e seguidores.

Uma das mais marcantes recordações do final da minha infância foi ouvir o Animals, dos Pink Floyd, no sopé da Serra da Estrela, imponente, sob um manto de estrelas e com o fumo intenso dos charros dos meus primos e amigos mais velhos a apresentar-me outra dimensão da vida que não tardaria a partilhar. E outra, anos mais tarde, num ocaso na Ilha do Pessegueiro, com mais três grandes amigos e muito e bom material prá carola, ao som do Wish You We Here, também dos Pink Floyd, inesquecível.
E mais uma data de sensações intensas gravadas na mona e na pele que se arrepia só de ouvir os primeiros acordes de um som que se associa de imediato a um ou mais lapsos de tempo em que uma pessoa se sentiu incondicionalmente feliz.

Tento dar uma oportunidade às novas bandas e aos novos sons, mas fica-me Nirvana, Evanescence (vejam só!), Pearl Jam, Faith No More e pouco mais, um ou outro tema da Alanis, do Lenny Kravitz, Red Hot Chili Peppers (nem por isso tão novos assim). Nada que me influencie ou me impressione ao ponto de entrar na minha galeria dos imprescindíveis, das coisas que não dispenso ouvir, todos os dias, para me sentir bem. Claro que tenho em conta o facto de isso poder estar ligado ao envelhecimento a que nenhum de nós escapa, de uma forma ou de outra. Mas aprendo a lidar com isso sem nóias, pois orgulho-me das minhas referências como espero que os meus descendentes se orgulhem das suas e não me sinto obrigado a vivê-las com a mesma intensidade das que absorvi, apenas para provar que sou um puto novo e cheio de vontade de viver.
Essa prova, apresento-a a mim mesmo nas decisões que tomo e no estilo de vida que escolhi, na irreverência que sempre cultivei em tudo que faço, em tudo o que fiz e em tudo o que farei. Mas serei eu próprio, produto das influências a que aderi e nunca uma versão freak de um gajo que camufla a passagem do tempo com adereços teatrais e com falsos interesses que não me representem tal e qual sou. Mesmo que isso implique uma maior atenção da malta ao meus grisalhos.
Eu não me importo de ser cota, desde que me sinta sempre um cota feliz e bacano
publicado por shark às 10:36 | linque da posta | sou todo ouvidos