ESTRELA CADENTE

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Julgava-se protagonista quando nem figurante se podia aspirar naquela película. Nem conseguia decorar as poucas intervenções que lhe competiam, trocava as falas e estragava mais um take com as suas calinadas de palmatória. Paupérrima, a sua actuação.
Contudo ambicionava e até se acreditava sob a luz de uma ribalta que não merecia, iluminação artificial.

Nem sabia fazer de conta, incapaz se revelava de cumprir até o seu papel secundário na vida de merda que o acaso lhe reservou. Esqueceu até se algum dia amou, tanta energia esbanjada na promoção de um estatuto que ninguém lhe reconhecia seu.
Sonhava apenas. E fingia ser feliz assim. Mas ninguém comprava a ideia, depressa descobriam que não vivia e apenas encenava tudo o que fazia para parecer muito melhor.

Louvava o amor nos seus desempenhos, simulava o calor. E depois gelava com a frieza do desdém que não escondia quando a máscara caía e a insensibilidade ficava a nu. Despia-se para revelar o vazio, a alma oca que recheava com a fúria louca memorizada num guião qualquer. Interpretava outro alguém pois por dentro renegava tudo quanto podia ter, olhos postos nos objectivos impossíveis de alcançar. Não os queria, afinal, apenas pretendia louvar as glórias inventadas pela sua imaginação depois de descartadas as realidades que lhe desvendavam a inépcia para fazer a sério o que gostava de brincar.

Parodiava a sua condição na pele das outras pessoas, apontava-lhes a dedo os defeitos e limitações que rejeitava na sua concepção modelar. Vestia-se personagem e vivia uma viagem fantasiada a bordo de um corpo que não era o seu. Na sua cabeça, um implante de sonhos floridos sobre o aterro imundo que cobria a custo, remendos maltrapilhos, com as farsas que interpretava para esconder a verdadeira dimensão da tragédia. A vida esgotada a personificar existências irreais para uma plateia indiferente e entediada pelo culto da mentira piedosa que já toda a gente decifrava nos bastidores.

Pedia com frequência um voto de confiança que traía mais tarde com a mania das grandezas, esborratada a maquilhagem com as lágrimas que improvisava para cada ocasião, a conta-gotas, ou azedada a expressão facial com acessos irreprimíveis do mau fundo, tiques de vedeta numa carreira a definhar pela natureza glaciar das suas emoções fingidas.

Um dia, memória traiçoeira, trocou sem querer os papéis e o pano tombou de vez sobre o palco improvisado onde as cadeiras vazias aplaudiam num silêncio sepulcral a solidão que pretendia esconder.
E nessa derradeira actuação, escrutínio real, o público optou pela abstenção.

Ninguém se dignou comparecer.
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publicado por shark às 12:44 | linque da posta | sou todo ouvidos