HOJE DEU-ME PRÁQUI

É quase unânime o coro dos que afirmam que a blogosfera anda meio murcha. Nós próprios, na qualidade de leitores, sentimos essa falta de… de… empenho por parte de alguma malta que bloga. Ou melhor, sentimos que algo mudou e que a coisa ficou menos interessante, menos apelativa.
Porém, não é fácil perceber o quê e porquê mudou ao ponto de se instalar esta noção no discurso corrente. As diferenças que se fazem sentir residem no fim da euforia dos encontros de blogues (agora são raros e, regra geral, muito “sérios”), no evidente retraimento da “oferta” em matéria de comentadores (aqui no Weblog temos uma das explicações como certa…) e no fim de alguns projectos dos quais se sente a falta.
Continuo a encontrar posts bem esgalhados, blogues originais e pessoas porreiras por detrás de alguns nicks. No entanto, é óbvia a saturação por parte de alguns colegas e a cristalização de outros tantos numa receita que manifestamente já se esgotou. E eu tento enquadrar o charco numa dessas categorias, fazer auto-crítica, no sentido de combater o que eventualmente possa estar menos bem, embora (como os outros) não consiga distinguir no meu trabalho o impacto das tais mudanças que toda a gente aponta mas ainda ninguém conseguiu clarificar de forma concreta.

Blogar é uma actividade que requer tempo, capacidade e motivação. Tudo o resto é acessório, como a influência dos outros no nosso “estilo” ou na escolha dos temas sobre os quais pretendemos emitir umas palavras ou imagens.
E um dos aspectos acessórios que mais desiludiram as pessoas na blogosfera foi o relacionamento entre as pessoas que blogam. Na maioria dos casos não correu bem a transição do virtual para o analógico e isso fez esmorecer alguns entusiasmos e deitar a perder alguns projectos que justificavam melhores destinos.

Todavia, a essência da coisa mantém-se inalterada e tendo a acreditar que se trata de um caso de expectativas em excesso. É que isto de acompanhar um espaço que se quer dinâmico e atractivo (não me venham com o discurso do “blogo como quero, só para mim” que eu bem os/as vejo a afirmarem que se estão nas tintas para os números para logo a seguir postarem a análise “regional” da sua estatística) exige muito de quem se expõe aos critérios alheios e responde com o orgulho pelo resultado final daquilo que é capaz de produzir de borla. E isso cansa, quantas vezes desanima e perde todo o sentido quanto tentamos justificar esta opção de comunicar com os outros sem protecção alguma contra a má vontade, a inveja e todas aquelas pequenas mazelas que quem bloga tem mesmo que suportar ou então partir para outra...

O Charquinho, de acordo com a única referência disponível (e que é pública) tem actualmente uma média de (os senhores da "concorrência" têm a caneta à mão?) cerca de 600 visitas por dia. Um décimo bastaria para justificar o meu melhor, mas este número implica uma responsabilidade acrescida. E este pressuposto aplica-se a todos nós que blogamos. Se o fazemos por impulso voluntário, por outro lado também assumimos a carga moral/ética de justificar o tempo dos outros (eu sei que estou sempre a insistir neste aspecto) e isso implica necessariamente que façamos a escolha entre fazer o melhor possível ou arrumar as teclas.

Numa fase em que na blogosfera portuguesa estão prestes a surgir os primeiros projectos profissionais, com objectivos bem definidos e uma forma de blogar mais disciplinada, só a qualidade servirá de critério no inevitável processo de selecção natural ao qual, de resto, já estamos a assistir (e não me venham com a conversa de que um blogue com 30 visitas por dia pode ser tão bom como um com o dobro ou o triplo, pois um blogue bom - e bom poder querer dizer apenas bem concebido, apelativo, e nem reflectir a capacidade ou a bonomia intrínsecas dos/as criadores/as) sai do anonimato – leia-se “deixa de estar às moscas” – com naturalidade, mais cedo ou mais tarde, e os blogueiros/as com mais mania do que talento podem andar dez anos nisto que nunca passam da dimensão que a sua capacidade ou a do seu trabalho justificam. E não faltam exemplos dessa realidade nua e crua, por muita serradura que as alegadas “vedetas” tentem impingir do alto da sua veterana insistência no milagre que os números desmentem sem perdão.
Há blogues bons que não atraem multidões, mas os blogues excepcionais, concebidos de forma séria e bem comunicada, acabam por se destacar na multidão.

Alguns colegas nem se expõem nessa fria prova dos nove à sua apregoada cultura, ao talento que os “outros” (quais?) lhes reconhecem e a toda a “fama” que alegadamente possuem mas os factos comprovam não se traduzir em nada de palpável (quantidade de visitas, de comentários e de linques – que Gatos Fedorentos ou Abruptos valem pela sua qualidade e pelo que a estatística revela, ou não passariam de porreiros mas discretos Murcons ou de irrelevantes Charquinhos).
Não basta ser isto ou saber aquilo. É preciso levar a sério o que se faz, ignorar o peso relativo das tricas que a ninguém interessam e saber de facto, ter argumentos para cativar quem visita.
O resto são desculpas de maus pagadores e o que interessa é cada um/a conformar-se com os resultados (os seus e os dos outros) e fazer a coisa mesmo só pela pica que isto dá.

E é a falta de pica daqueles que já não conseguem alimentar fantasias que contagia, que transmite a falsa noção (que eu também “comprei” até há tempos atrás) de que não existem espaços interessantes e agradáveis, livres do mofo que emana dos pequenos grupelhos mais virados para o convívio (leia-se promoção recíproca, em muitos casos) do que para o esforço de impressionar e seduzir quem nos visita.

Porque se virmos a coisa sem tretas, quem não se interessa com a opinião de quem vê não precisaria da exposição para nada…
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publicado por shark às 20:48 | linque da posta | sou todo ouvidos