PELA (ES)CALADA

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Irrita-me esta propensão da populaça no mundo islâmico para pegar por tudo para fazer granel nas ruas, para atacar os “infiéis” por mais absurdo que seja o pretexto.
Por tudo e por nada, toca a queimar bandeiras, igrejas, automóveis e a berrar aos tiros o ódio do momento como se esse ódio lhes alimentasse o estômago e a fé.
Ou porque o escritor tal insultou o Alcorão, ou porque uns Zé-ninguém da Dinamarca fizeram umas caricaturas insultuosas para o Islão ou porque o Santo Padre (que não foi tão “bento” como o pintam) citou um imperador bizantino que insultou o Profeta séculos atrás.
Matam pessoas com base nesta reacção de virgens ofendidas que apenas tem servido para lhes criar uma imagem no mundo ocidental que em nada serve a causa de que fazem a apologia.

Uma freira sexagenária que trabalhava num hospital somali foi abatida a tiro por causa do insulto que serviu para mais uns incitamentos dos líderes religiosos fundamentalistas.
Isto cabe na cabeça de alguém?
Se por cada disparate que sai das bocas descontroladas de alguns fanáticos fossem executados membros das respectivas Igrejas o mundo transformar-se-ia num imenso faroeste. E essa, paradoxal, é a versão que veste melhor os bushes deste planeta panela de pressão, a gente boa que se pendura nos receios com a segurança para transformarem aos poucos o ocidente cristão numa imensa fortaleza e o oriente islâmico numa gigantesca, (in)discriminada e ameaçadora horda de talibãs.

Por outro lado, não se papa o grupo de que o Sumo Pontífice e seus conselheiros nem faziam ideia de que aquelas palavras proferidas nesta altura provocariam o estardalhaço que ainda mal começou. Como alguém dizia algures, ou foi de propósito ou foi uma tirada imbecil e despropositada. Qualquer das duas opções, num Estado a sério, democrático, deixaria o líder em péssimos lençóis e provavelmente conduziria à respectiva destituição do cargo.
Mas no Vaticano só mesmo a morte pode destituir um incapaz que o acaso (pois, a vontade de Deus…) imponha e os factos confirmem nesse particular.

Também me irritam os paninhos quentes com que (quase) toda a gente neste nosso santo bastião da cristandade civilizadamente hipócrita se apressa a cobrir as causas e os efeitos da “boca” desnecessária que os santos lábios não quiseram ou não souberam reprimir.
Os dois lados da barricada estão à mercê de líderes que não inspiram fé alguma na sua capacidade de resolução do problema que se agrava dia a dia com gestos cobardes, palavras insensatas e novas revelações do esterco ético em que se atolam uns e se conspurcam outros.

E a nós, cidadãos comuns de cada um dos extremos cada vez mais opostos, resta aguardar que esta gente perceba que a ninguém interessa um conflito destas dimensões e ainda menos interessa que dêem à costa alguns figurões que o agudizem. Em nome de qualquer fé, pois a fé principal consiste em termos uma vida em paz e sem mais medos do que aqueles que derivam, por exemplo, das calamidades naturais associadas ao aquecimento global ou do desespero que se vive em boa parte do hemisfério sul e cujas consequências se desenham negras nas fronteiras duma Europa encravada no seu papel de eminência parda que não sabe para que lado cair no meio dos interesses específicos de cada uma das nações que a integram.

Nós aguardamos, que remédio, pelo bom senso desta gente que manda.
Mas a avaliar pelo que está (e pelo que não está) à vista é melhor esperarmos sentados…
publicado por shark às 11:00 | linque da posta | sou todo ouvidos