A posta na proliferação dos maus sinais

Desde pequeno ensinaram-me que o dinheiro dos impostos serve, entre outras coisas, para pagar a construção de infra-estruturas vitais como, por exemplo, as estradas.

Essa aprendizagem servia para me preparar para vir a ser, à semelhança das gerações anteriores, um contribuinte exemplar e só isso explica a necessidade de ensinarem tal coisa a um adolescente nas escolas.

 

Aprendi a respeitar essa forma de organização do Estado, da Nação que igualmente me ensinaram a amar, sobretudo antes do 25 de Abril, como uma Pátria pela qual valia a pena morrer nas colónias ultramarinas.

Contudo, existiu de facto uma Revolução que, entre outras coisas, me ofereceu a liberdade de questionar a forma como são conduzidos os destinos no meu Portugal democrático mas nem por isso menos vulnerável a um retrocesso radical ao tempo em que teria que pagar sem um pio tudo quanto o Estado considerasse legítimo para o seu sustento.

E é nesse contexto que abracei a hipótese que me foi dada de pertencer a uma geração livre dos espartilhos próprios de uma ditadura e de poder contestar aquilo que me pareça susceptível de violar os limites da intervenção dessa máquina poderosa à qual confiamos a gestão do essencial no funcionamento do país.

 

A extorsão institucionalizada

 

Voltando ao exemplo dos impostos e das estradas que acima refiro, um exemplo daquilo que considero abusivo é o dos sistemas de controlo de parqueamento na via pública, vulgo parquímetros, precisamente por se tratarem de uma dupla tributação.

O pavimento que todos custeamos permite duas utilizações: a circulação de viaturas e o respectivo estacionamento. Tarifar o mesmo é algo de absurdo e só um lorpa aceita a coisa com base na argumentação hipócrita do controlo do estacionamento abusivo (os impostos também suportam a vigilância nas ruas) e, ainda mais nojenta, a que invoca a protecção do ambiente que, sendo assim tão prioritária, bastaria incidir na própria motorização dos veículos impondo-lhe regras simples mas firmes de limitação do seu efeito poluente.

 

Essa é a minha perspectiva enquanto cidadão quase falido e ainda assim sem fugas aos impostos e por isso sem pés de barro na base das minhas afirmações. Os parquímetros não são mais do que uma indevida fonte complementar de financiamento das maiores autarquias que, sendo legal, não possui qualquer tipo de moralidade ou de ética subjacente. Chamo-lhe mecanismo de extorsão.

Por isso aqui há dias, quando fui prestar a assistência possível a alguém acamado por cerca de quinze minutos e me deparei com uma pequena multidão reunida em torno do meu carro já com um reboque preparado e uma carrinha/escritório da Polícia Municipal a postos para o saque, fiquei indignado e não o escondi e por isso não obtive perdão para os 141 euros que me exigiram para impedir que me levassem o carro para um parque qualquer.

Acabei, no entanto, por me perceber estúpido na atitude para com a meia dúzia de operacionais ali destacados para o raid ao automobilista incauto.

 

Em causa está um troço da rua Maria Brown, perto do Colombo, que possui estacionamento reservado a residentes identificados por um dístico nos seus carros, facto de que eu deveria ter tomado conhecimento através de um sinal de trânsito plantado ao lado de uma árvore cujos ramos o cobrem de forma parcial e muito conveniente para a brigada cuja rapidez denuncia a sua proximidade do local transformado numa ratoeira ignóbil.

 

O povo é quem mais abusa

 

Porém, a minha contestação foi mal direccionada quando por fim me explicaram que aquela situação fora exigida pelos próprios residentes, gente fina em apartamentos dispendiosos que se sentia incomodada com as enchentes em dias de bola ou nas épocas altas da área comercial vizinha.

Ou seja, foi um grupo de cidadãos com poder económico e social que impôs ao município a criação daquela armadilha, legitimando o esquema de uma forma que me deixou esclarecido quanto à reeleição de um indivíduo como Cavaco Silva para chefe de um Estado que os cidadãos parece quererem direccionado para caminhos que colidem em absoluto com os que eu preconizaria.

 

Agora reparem: se eu desenvolvi para com os parquímetros um asco especial, como posso ter numa conta decente qualquer tipo de gente capaz de utilizar a sua influência para defender o conforto do seu feudo local à custa de um esquema tão óbvio na distorção que representa de valores simples como o da partilha do espaço público e que afinal entendem como seu, ao ponto de reclamarem a imposição de um privilégio tão mesquinho?

 

A minha desilusão, semelhante à que enfrentarão alguns bem intencionados da nossa classe política quando confrontados com estas hordas de ovelhas com tiques de lobo no meio do rebanho, tirou-me a força para contestar no momento em que teria de tomar uma decisão relativamente ao pagamento da coima em causa. Paguei e parei de refilar porque me senti envergonhado pelos meus concidadãos daquela artéria da capital.

 

E desde então tenho tentado reparar em mim os estragos em matéria de confiança e de respeito pelos outros que, queiramos ou não, são a maioria reflectida a cada novo pleito eleitoral e que tem confiado de forma desastrosa o leme de um navio que, enquanto passageiro da classe económica, não consigo deixar de temer apontado a icebergues tão ameaçadores como o da entrega do poder a crápulas capazes de aplicarem o mesmo critério, o mesmo princípio medonho em causa neste exemplo da rua Maria Brown a todo o território nacional e com ramificações bem mais complicadas ao nível da relação que queremos manter com quem manda demais e afinal deveria, acima de tudo, apenas organizar.

publicado por shark às 18:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)