Terça-feira, 31.07.12

VAMOS POR PARTES...

 

vamos por partes

 


Foto: Shark

publicado por shark às 19:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

A POSTA NUM MÁRIO MUITO ENCRESPADO MAS SEMPRE DE PEQUENA VAGA

Utilizar este extraordinário veículo de comunicação para difamar pessoas é algo de tão errado que nem se justifica tentar explicar porquê.

Porém, a liberdade de opinião permite-nos de forma legal destilar qualquer embirração pessoal, sobretudo quando a pessoa em causa personifica muito do que de errado encontramos em áreas sensíveis para qualquer país.

 

Um dos pilares da Democracia mais corroídos pelos males que nos afectam é a Comunicação Social, nomeadamente pela concentração em grandes grupos (o caso Murdoch deixa-nos conversados), pela falta de critério na selecção de prioridades noticiosas e, de uma forma geral, pelo desrespeito crescente que o Jornalismo fomenta com uma notória e progressiva perda de qualidade e, acima de tudo, de isenção.

É nesta última que encaixo o meu ódio de estimação, passe o exagero, por um indivíduo inenarrável que dá pelo nome de Mário Crespo.

 

Um jornalista deve ser objectivo, rigoroso, imparcial. Deve também saber o seu lugar quando no exercício da função, o da pessoa que noticia e não o centro das atenções. E deve ainda, quando exerce num meio de CS como a televisão, possuir uma boa imagem televisiva (tal como se evita locutores de rádio com problemas de dicção, não por discriminação mas por ser lógico e razoável).

O Mário Crespo falha em toda a linha.

Não é objectivo porque altera o eixo de gravidade da notícia em função do seu critério pessoal, enfatizando aquilo que entende relevante e não o que de facto é. Não é rigoroso porque investigação, confirmação de idoneidade das fontes ou da veracidade dos factos noticiados são tarefas que nem deve lembrar-se como se executam, ficando portanto à mercê do rigor de terceiros. Não é imparcial, de todo, e não esconde a hostilidade para com tudo o que mexe à esquerda da sua própria corrente ideológica que insiste em impor como barómetro da verdade que o Mário Crespo anseia anunciar como uma boa nova, a sua e por isso a mais acertada.

 

O Mário Crespo é um fulano com quem facilmente se embirra, nem que seja pela diferença de tratamento que sua alteza aplica aos entrevistados em função da sua simpatia pessoal ou da reverência tantas vezes excessiva mas sempre traída pelos apartes típicos de quem agarra o posto pela antiguidade e se acha montes de importante, um opinion maker de polichinelo a perder-se numa função que o impede de brilhar à altura da convicção firme que a postura alardeia.

É um fenómeno inexplicável da televisão em Portugal, uma espécie de Artur Albarran mas sem o carisma e o look necessários para ser apresentador de sucesso em programas de terceira categoria.

O Mário Crespo, e deixei de forma intencional para o fim este item da minha embirração pessoal com o individuo em causa, é feio e tem expressões faciais que acentuam essa sua característica, pelo que só mesmo o talento poderia justificar-lhe a carreira televisiva e esse eu nunca consegui distinguir por entre as doses maciças de lapsos, de excessos, de incorrecções e de lugares-comuns que brotam daquela figura quase sinistra.

 

Mas de todos os defeitos que lhe possa encontrar para poder sustentar a minha falta de apreço pela pessoa, vou sempre destacar o que ele representa de negativo num contexto em que o país precisa mais do que nunca de profissionais sérios, independentes e mais interessados nos factos dos outros do que no mal disfarçado esforço de promoção pessoal, em busca de uma notoriedade e de um estatuto que, no caso em apreço, nem mesmo a exposição mediática que muitos dispensávamos conseguirá algum dia granjear.

 

publicado por shark às 08:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Segunda-feira, 30.07.12

A POSTA A METRO

 

a todo o mundo

 


Foto: Shark

publicado por shark às 21:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 29.07.12

A POSTA EM VIAS DE EXTINÇÃO

As lições da História em matéria de (maus) comportamentos humanos impedem-me de fazer finca-pé na noção de que não existem alegados ecologistas que aproveitaram a onda do ambiente para surfarem o sucesso financeiro. Concedo esse benefício da dúvida aos que tentam a todo o custo desacreditar os avisos e os números (que são factos) que comprovam não apenas as alterações climáticas que vamos sentindo na pele mas igualmente a sua ligação com um dos preços mais altos do nosso progresso movido a combustíveis fósseis.

Porém, a concessão que faço à possibilidade de infiltração de oportunistas em qualquer causa humana estende-se à que aplico à hipótese de existirem alguns indivíduos inteligentes mas tragicamente equivocados entre a falange de imbecis que tentam desmentir sem sucesso uma verdade tão inconveniente quanto insofismável.

 

Aquilo que os números provam, o disparar da carga de dióxido de carbono na atmosfera ao longo das últimas décadas e a relação directa entre essa subida a pique com as das temperaturas no mundo inteiro, as mesmas que derretem glaciares e transformam o mar numa fábrica de temporais como a Humanidade nunca enfrentou, é algo de tão temível como a queda de um calhau semelhante ao que aterrou no Iucatão, México, em termos de possibilidade de extinção global da vida no planeta.

Nem os apoiantes da indústria petrolífera, a mais interessada em chutar o assunto para canto enquanto ainda duram as reserva de crude e que se lixe o resto, conseguem desmentir a verdade dos instrumentos de medição. Apenas refutam a explicação óbvia para esses números assustadores, empurrando a culpa para a própria Natureza e para os seus ciclos que já impuseram meia dúzia de períodos bem gelados ao longo do último meio milhão de anos, na sequência de aquecimentos globais espontâneos.

 

É essa a principal teoria daqueles que tentam, por ordem, desacreditar e ridicularizar cientistas ou políticos de topo que tenham a desdita de abraçar o combate pelo planeta, dos que denunciam os sinais de alarme que a cadeia de poder político-financeira predominante tenta abafar a todo o custo para salvar o que resta de um modo de vida que sustenta as suas fortunas pessoais e garante muitos postos de trabalho, é certo. Mas em causa estão consequências dramáticas num futuro tão próximo que já começaram a fazer-se sentir, nomeadamente na perda irreversível de vidas em calamidades naturais, de espécies entretanto extintas pelos efeitos da poluição e nos danos cada vez mais irreparáveis no equilíbrio já de si instável dos humores da mãe-terra.

Fecha-se a ritmo acelerado a pequena janela de oportunidade que permite uma existência normal, ou apenas a própria existência, a seres tão frágeis como os que habitam este planeta entre os intervalos de eventos, cataclismos, que redesenham e repovoam a superfície da Terra que estamos agora a envenenar.

 

A minha maior irritação, para além de começar a perceber o lugar que ocupará na História, em havendo uma, o grupo de gerações que integra a minha, é perceber que não existe um esforço real de argumentação por parte dos advogados do diabo que se concentram em alijar responsabilidades ao ponto de criarem um espaço de manobra reduzido, reasonable doubt, de apostarem no descrédito de mensagens importantes a que urge prestar mais do que a devida atenção, que clamam por uma urgente intervenção à escala mundial no sentido de inverter a actual tendência ou, no mínimo, de preparar a Humanidade para a colheita de tempestades que a apatia generalizada continua a semear.

publicado por shark às 20:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

O SHARK? CONHEÇO-O BEM.

 

vi com estes que a terra ha de comer

 


Foto: Shark

publicado por shark às 18:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)

A POSTA QUE JÁ SINTO O CALOR NAS SOLAS

Uma experiência que jamais esquecerei foi a que vivi ao longo do evento foleiro que para qualquer lisboeta constituiu o incêndio do Chiado.

A imagem que se agarrou a mim como uma cicatriz impossível de disfarçar foi a que apreciei no cimo do Elevador de Santa Justa e que me deu a perspectiva black & white do que ali aconteceu nesse dia: de um lado o Chiado como sempre, intacto. E do outro uma fotografia a preto e branco de uma rua qualquer de Varsóvia após mais um bombardeamento aéreo.

 

Chorei perante o que vi, esmagado pelo que senti quando um local importante da minha cidade, da minha vida, morreu à mercê das chamas porque nenhuma reconstrução é feita em sintonia com o passado que se pretende, alegadamente, preservar. As cicatrizes são feridas curadas mas as memórias daquilo que representam, da dor que acrescentam às coisas boas que a vida nos dá, permanecem e permitem-nos constatar que depois de uma experiência traumática nada fica igual.

Alternei a vista entre os dois lados daquela passagem aérea, daquele corredor por cima da fronteira entre o céu e o inferno que alternavam consoante o ponto onde concentrava a visão, o que restava e o que desapareceu, a sorte da salvação a pairar quase como uma maldição sobre o lado daquele pedaço de vida que me servia como termo de comparação com o outro, dantesco, de um azar tão grande que só podemos entender como uma expressão visível daquilo que simplificamos com a palavra mal.

 

A vida pode colocar-nos sobre essa linha de separação sem nos oferecer uma perspectiva tão clara como a do pouso que escolhemos, um grupo de amigos, para assistir tão perto quanto possível a um dia triste da nossa história de alfacinhas como nesse dia, como nunca antes, me percebi.

O mal de um lado e do outro o bem, claros e distintos, sem qualquer espécie de dúvida ou de hesitação, sem qualquer influência subjectiva ou de uma má companhia sempre a jeito para explicar os nossos equívocos e até os desvarios.

Pode até o chão arder sob os nossos pés que nos quedamos imóveis como a rã em lume brando até ser tarde demais, distraídos com a influência externa ou interna de um impulso circunstancial ou apenas embalados numa estranha, porque perigosa, espécie de fé que se traduz na postura típica de quem acredita que tudo se haverá de compor.

 

É muitas vezes assim que nos deixamos tombar para o lado que acreditamos errado, adormecidos pela rotina, entorpecidos pela fadiga, desequilibrados pela ambição. Sem pontos de referência tardamos a distinguir o que nos serve melhor e uma vez apanhados de surpresa pelas circunstâncias reunimos forças em torno dos adornos indispensáveis para a justificação para terceiros que abraçamos como nossa, a verdade forjada ao sabor da conveniência que acaba por funcionar como um biombo que nos priva do tal termo de comparação que, na maioria dos casos, só o futuro nos exibirá.

Aquilo que podia ter sido, em contraponto com aquilo que a realidade nos dá, essa realidade que vivemos em função de pressupostos, de falsos pretextos, de paredes invisíveis erguidas no labirinto em que nos lançam os diversos poderes que manipulam o destino e as convicções à medida dos seus interesses egoístas e imediatos. Pessoas e organizações que nos cobrem os olhos com a serradura que funciona como um manto de nevoeiro a cobrir o lado em que não nos acreditamos capazes de cair até sermos obrigados a inventar-nos, histórias da carochinha, noutro lado qualquer ou baixarmos ainda mais os braços ao ponto de nos preocuparmos menos com o lado onde estamos e mais com a explicação atabalhoada de como nos fizeram lá chegar.

 

Alguém foi responsável pelo que aconteceu ao Chiado, quer por interferência directa, fogo posto, quer por resultado da negligência que resulta criminosa nos factos mas desculpável no plano das omissões que, no fundo, qualquer um pode protagonizar. Na prática o resultado é o mesmo, o desastre, e restam as cinzas e o entusiasmo político e/ou financeiro que se erguem como fénix dos escombros com o entusiasmo postiço de quem quer fazer radicalmente diferente mas pinta na preservação de fachadas uma ilusão de retorno ao que estava como dantes e isso, todos sabemos, nem no plano das boas intenções é tal e qual.

De um lado vai estar sempre o bem, ou aquela terra de ninguém a que chamamos o mal menor, e do outro o mal propriamente dito, aquilo que só não dói com uma anestesia chamada hipocrisia que nem precisam ser os outros, esses malandros, a contemplarem como recurso para dourarem uma das muitas pílulas que acabamos por tomar, panaceias éticas e morais, no sentido de podermos acreditar que não transpusemos a tal linha separadora entre o tudo como dantes e a ruína inerente à constatação dos factos que nos provam que quem anda à chuva molha-se e estamos, quantas vezes, mergulhados em águas mais turvas do que nos julgaríamos capazes de experimentar.

 

O Chiado é apenas um exemplo de entre muitos outros episódios, muitos recentes, que são como um arreganhar da dentuça dos muitos males que nos acontecem e, na sua maioria, apenas porque os deixamos acontecer. Apenas porque nos deixamos entorpecer pela soma combinada de pressões ou apenas pelas promessas que são ilusões de que, discretos e atinados, seremos como as princesas e os príncipes dos contos encantados se soubermos sempre desempenhar bem determinado papel que nos impõe quem se sabe no lado mais favorável do cenário e por lá pretende ficar, absolutamente nas tintas para a ruína temporária de uns quantos que, nas suas visões rasteiras, não passam de danos colaterais em face dos benefícios para outros no futuro que é sempre o presente de quem possua os meios, o egoísmo e o despudor necessários para o poderem influenciar.  

publicado por shark às 16:49 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 25.07.12

(LIS)BOA TODOS OS DIAS

como iguais


Foto: Shark

publicado por shark às 00:29 | linque da posta | sou todo ouvidos

EM CANAL ABERTO

O líder dos socialistas e potencial Primeiro-Ministro mostrou-se chocado perante as imagens ao vivo da destruição provocada pelo fogo no Algarve e desabafou: “isto não é como ver na televisão”. Ou algo do género.

Até admito que tenha sido uma tirada espontânea, quiçá sincera, de um português confrontado com o resultado de uma política qualquer de terra queimada que ateia pirómanos ao serviço de interesses obscuros e lhes facilita a combustão com a falta de limpeza do mato que apanha tanto de surpresa os autarcas no meio de um incêndio rural no Verão como as sarjetas entupidas constituem um desafio renovado a cada inundação urbana em cada Inverno que passa.

 

Uma das maiores aflições que a falta de traquejo dos políticos destes dias me provoca é o notório alheamento dos mesmos da realidade tal como ela está a acontecer em Portugal. Não vale a pena invocar os concertos esgotados, os estádios lotados e as vendas em crescendo de Ferraris, a crise está a instalar-se de armas e bagagens de forma progressiva, galopante, e os discursos permanecem colados à questiúncula político-partidária, ao remoque, à gestão do imediato com a vista posta numa ambição qualquer.

A crise, que na boca da maioria dos políticos soa apenas como uma palavra forte, tão forte como maremoto mas igualmente dependente da percepção que pessoas afastadas de uma realidade conseguem formar a partir do que lhes chega no meio da confusão, no meio da pressão que inevitavelmente a gestão da crise, esse palavrão, lhes acarreta enquanto transtorno incontornável, enquanto conjuntura desfavorável para quase todas as recompensas que um cargo de poder, não viremos a cara à verdade, lhes proporciona, é um mal menor, um problema dos outros, para quem nunca a experimentou.

 

Lembrei-me do tal desabafo de António José Seguro e liguei-o de alguma forma neste texto à postura competitiva dos nossos líderes perante o monstro que nos atormenta porque, haja quem me desminta, se calhar tanto a multiplicação de incêndios como o alastrar da crise estão ligados ao alheamento à realidade de quem a vê pelos olhos de terceiros que, num contexto de exercício do poder com tudo o que isso implica, dificilmente a transmitirão com maior nitidez do que a televisão conseguiria. E porque a crise, não a palavra forte mas a debilidade humana à sua mercê, insiste em entrar pelas portas do cidadão comum que, para um político de topo, ficam quase nos antípodas das que governantes, aspirantes (chamam-lhes candidatos), deputados (um terço deles a partilharem funções com outras exercidas em nítido risco de sobreposição de interesses) e toda a corte financeira associada estão habituados a transpor.

 

No fundo é assim

 

A crise entrou hoje pela minha porta numa versão diferente da que venho experimentando ao longo do meu processo de decadência social, não sob a forma de mais uma ameaça relacionada com uma conta ainda por pagar mas com uma aparência muito humana.

Sim, a crise é uma palavra mas as suas consequências têm pernas.

A crise, a que hoje deu à costa para se exibir em toda a sua pujança, não entrou sem se certificar de que toda a gente ficava com a certeza de que não pretendia assaltar alguém. Repetiu três vezes o aviso que pudesse contrabalançar a aparência, que a de uma crise é sempre assustadora.

Entrou e explicou a custo, desdentado e com alguns copos a mais, que está desempregado e precisava de ajuda. E depois aprofundou.

 

A crise de hoje é um desconhecido, meu antigo colega de ofício, dezoito anos no tempo de vacas tão gordas que é fácil para mim entender que aquela pessoa, a crise, vem do mesmo mundo que cada vez menos é o meu, a classe média que a crise rasteirou.

Emprego e família perdeu-as no turbilhão. A casa foi algum tempo depois.

E ele, a crise, a explicar, a custo na pronúncia mas com desconcertante lucidez e com a desenvoltura no discurso de quem obteve bastante formação escolar, que se sabia embriagado mas precisava mesmo de se anestesiar depois da enésima entrevista de emprego marcada pelo organismo do Estado a quem isso compete, apenas para ouvir repetido o mesmo não acrescentado ao argumento da idade, 53 anos, que faz de um homem um trapo no que respeita ao mercado de trabalho.

A crise, aquela tão próxima que lhe sentia o hálito carregado de anestesia, verteu lágrimas aqui e além durante o tempo que lhe concedi para se apresentar, até porque não estava ali para assaltar mas apenas porque era a terra da sua infância, para onde fugia quando se sentia desesperado, e porque ele precisa de ajuda todos os dias para mais uma realidade impossível de transmitir pela televisão que é a da luta pela sobrevivência em sentido restrito. Passa longe de quem manda, a crise verdadeira, mas cola-se à vida de quem a sente na pele, pegajosa, a suar frio perante os apertos crescentes que aproximam uma pessoa, qualquer pessoa, de um ponto perigosamente próximo do declive para onde resvalou aquele meu antigo colega, um dos fatos com gravata que se cruzavam comigo em corredores prósperos onde todos acreditavam que em fazendo bem iriam fazer aquilo para a vida inteira.

 

Números que caminham

 

A crise que hoje me entrou pela porta, indumentária de recurso com marcas visíveis de um quotidiano menos limpo do que o dos políticos que gemem as suas impressões marcantes, os números terríveis, a estatística do desemprego, os números constrangedores, sem o amparo de uma condição financeira sólida, de uma multidão de conselheiros, de poderosos, de gente que sempre viu a crise pela televisão e até calhou estar distraída a conversar na altura ou a tomar decisões importantes para a vida da Nação, essa crise com duas pernas teve emprego, teve família, teve casa, teve carro, teve uma vida que entretanto se perdeu.

 

Perturbado, fiquei a ver a crise caminhar sobre duas pernas, um número da pessoa, rumo ao espaço para pernoitar por si encontrado na Gare do Oriente e que, um luxo, quase lhe garantia que alguém lhe ofereceria uma refeição, enquanto numa reacção instintiva mesquinha e egoísta pensei de imediato no cenário em que estou mergulhado e que tanto me aproxima do nível de crise daquele cidadão educado de classe média e ampla experiência profissional numa área medonha do meu ofício, os sinistros de acidentes de trabalho, e que ninguém emprega por já ter 53 anos e são apenas mais seis do que os meus e o futuro que a crise ao vivo e a cores me acenou surge como um borrão escuro desfocado no horizonte do pensamento, esboçado de forma grosseira no equilíbrio precário da minha condição.

 

E agora que falo nisso, nunca tinha visto a crise por esse prisma a partir das imagens na televisão.

publicado por shark às 00:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 21.07.12

HÁ FESTA NO ESTENDAL

festa no estendal

Foto: Shark

publicado por shark às 12:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quinta-feira, 19.07.12

A POSTA NA CHAPA DE PAPEL

Lembro-me de há uns anos o surgimento de um novo banco, nem me lembro de qual, ficar marcado pelo ponto mais forte da sua argumentação publicitária: não iriam existir as famosas chapas metálicas numeradas que nos permitiam adivinhar mais ou menos quanto tempo iríamos secar numa fila sempre comprida.

Foi uma novidade de peso, à época, por assinalar a entrada de novos players (acho que lhes chamam assim, e de forma apropriada) com uma postura competitiva cheia de amanhãs que lucram.

Presumo que a banca tradicional, monolítica, tenha ficado em choque (em cheque?) com o que esse fim inesperado das chapinhas implicava: mais pessoal ou, ainda pior, mais eficiência no atendimento.

Coisas que custam dinheiro. E como se sabe, essa é uma dor que banco algum consegue suportar.

 

Foi um prazer abrir conta nessa instituição bancária jovem e modernaça, livre do bafio que tresandava na concorrência entretanto às voltas com a contabilidade associada à adopção desse modelo revolucionário do cliente atendido à chegada, coisa nunca vista e que o tal banco (seria o BCP?) capitalizou como pedrada no charco num mercado do deixa andar.

A coisa funcionava, de facto, e funcionou por muitos e bons e alastrou à totalidade da banca e nós, consumidores, agradecemos a mudança.

Porém, e nas histórias que envolvam bancos existirá sempre um porém, a passagem do tempo foi degradando o número de dígitos antes da palavra milhões e chegou o dia em que a fila ordenada por um traço pintado no chão entrou em cena.

Sem chapa, é certo, mas quase tão demorada como nesses dias dos caixas sempre de trombas que vociferavam “chapa 53! chapa 53!... chapa 54” e um gajo ficava agarrado por perder um minuto a acabar de beber o café.

 

A verdade é que a pessoa habitua-se a estas alterações para pior e o tempo passa muito depressa nas mentes cifrónicas dos mentores do sistema bancário e algum iluminado não tardou a somar dois mais dois (que num banco é sempre igual a 3 na óptica do cliente e a 5 nas ambições da empresa).

Hoje em dia, décadas passadas sobre a tal iniciativa arrojada do banco novo a estrear, o sistema já encontrou no progresso tecnológico um substituto à altura das chapas metálicas de outrora que permitiam impor um ritmo de trabalho sem grandes acelerações a quadros de pessoal exagerados.

Agora servem para colmatar as lacunas em termos de recursos humanos ao mesmo tempo que poupam aos bancários dias inteiros a gritar o número da chapa, papel transferido para as maquinetas com botões que nos permitem escolher a fila mais adequada para secar.

 

Pelo menos foi o que me ocorreu quando, dejá vu, me vi a fazer contas aos números que faltavam para chegar ao que estava impresso no pequeno pedaço de papel que aquela máquina (do tempo) me disponibilizou.

publicado por shark às 23:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS

associação de ideias

Foto: Shark

publicado por shark às 22:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

A POSTA BEM DESCONVERSADA

Existem várias expressões populares cujo sentido nunca entendi, embora perceba a respectiva intenção.

De entre as várias que poderia aqui citar ocorre-me apenas a que mais se coaduna com a conjuntura pessoal: estar com a telha.

 

Eu sei o que é estar com a telha e, por mero acaso, hoje poderia fornecer material de sobra para o telhado de uma mansão. Das antigas.

Contudo, o facto de saber que estou com ela não me esclarece o porquê de estar com a telha e não com um algeroz. Isso não me irrita só por si ao ponto de poder afirmar-me com a telha, mas põe-se a jeito para uma embirração e era precisamente isso que a minha telha parecia reclamar quando me predispus a esgalhar uma posta.

 

Gosto de começar pelos alicerces na construção de um raciocínio, mas o caso concreto eleva-me até precisamente à cobertura do mesmo. E é aí que tento perceber a lógica da coisa.

Ora bem, a pessoa está aborrecida, com a neura, irritadiça, sente-se de rastos. Não faria sentido imaginar-se de rastos num telhado, embora possamos concordar que qualquer pessoa podia ficar com a telha se desse consigo nesses propósitos, e por isso julgo que não passa por aí.

 

Olhando para as telhas um tipo tenta imaginar porque acha o povo que estar com uma delas equivale a um estado de espírito execrável e não consegue sintonizar bem a imagem. Pelo contrário, para ver alguém com a telha basta percorrer as ruas de uma zona atingida por um vendaval: a falta de telhas dá cabo do humor do proprietário de um imóvel e não o facto de ter, hipoteticamente, restado no sítio apenas uma das muitas que o vento soprou até fazer voar.

De resto, é nessas ocasiões que se percebe a dimensão da telha de cada um. Os mais optimistas olhariam para a tal telha solitária como um pretexto perfeito para o cliché infalível: podia ter sido pior. Já os outros, com uma telha do caraças, eram capazes de arremessarem eles próprios a sua telha remanescente para o chão lá em baixo.

 

E por aqui se vê o quanto o facto de estar com a telha pode contribuir para multiplicarmos pretextos para agravar essa sensação desconfortável, porquanto bem coberta. A ideia que dá é que a pessoa parece ter acordado num daqueles dias em que os acontecimentos são como telhas sopradas pelo vento e, por coincidência, sempre na direcção certa para aterrarem de esquina na nossa cabeça.

Aí já percebo melhor do que se trata.

 

É a desconversar que a gente se entende.

publicado por shark às 16:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

A FORÇA MAIOR DA AUSTERIDADE

força maior

Foto: Shark

publicado por shark às 00:52 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NA PROPOSTA CERTA COM A MAIORIA ERRADA (2)

A iniciativa do Bloco de Esquerda a que faço alusão na posta abaixo é um passo importante na correcção de um problema que só a ignorância alimenta e tem o meu inteiro apoio, só pecando por tardia e por acontecer quando a actual maioria no Parlamento não permite qualquer esperança de aprovação da medida proposta.

Contudo, isso não mudará a verdade dos factos: impõe-se o debate acerca do assunto, cada vez com maior emergência numa altura de crise que só ganharia com o fim da circulação ilícita de dinheiro que a proposta do BE preconiza.

 

Quem quiser dar a volta ao texto e fugir ao óbvio só precisará refugiar-se na argumentação consolidada ao longo de décadas de proibições das quais apenas resultaram benefícios para os traficantes de canábis e para os consumidores que gostam de acrescentar a pica da ilegalidade às suas experiências de vida. Para os cidadãos comuns que consomem a substância sobra o estigma associado pela ignorância que nem permite a distinção entre drogas duras e leves (as que estão em causa) e para o país acrescentam-se mais custos desnecessários para a Justiça e mais viveiros de economia paralela em larga escala.

Só com uma grande dose de hipocrisia, de preconceito ou de interesse financeiro directo alguém poderá defender que a situação actual tem algo de bom seja para quem for para além dos que citei.

 

A informação acerca da canábis abunda na internet e só não percebe o que está verdadeiramente em causa quem não quiser. As opiniões, como é natural em todos os assuntos polémicos ou melindrosos, dividem-se entre os papões de alegados estudos científicos que de concreto têm provado quase nada em matéria de malefícios para a saúde do consumidor moderado e os argumentos lógicos dos que, mesmo não consumindo, enfatizam a questão de princípio implícita nesta estranha teimosia de muitos Estados no investimento em “combates ao flagelo” sem distinguir os alhos de substâncias como a heroína, a cocaína e outras drogas químicas mais recentes e os bugalhos da canábis. A influência social destas duas realidades é absolutamente incomparável, tal como o comportamento dos consumidores se distingue à vista desarmada.

Neste aspecto o argumento de que muitos começam pelas leves e partem daí para uma existência medonha associada ao vício adquirido é o mais batido e se não peca pela verdade fá-lo pela transparência da estatística que remete esses casos para uma irrelevância inevitável.

 

Na verdade só estão em causa más vontades despoletadas pelo desconhecimento dos factos, pelo preconceito associado a décadas de proibição e de propaganda alarmista e apenas porque sim.

O formato proposto pelo Bloco salvaguarda os interesses de quem consome e os de quem não o faz, oferecendo ao país uma solução bastante consensual, devidamente fiscalizada e que constituiria um golpe de misericórdia nas receitas chorudas de intermediários que fogem ao controlo do Estado e só servem para desviar a concentração das autoridades e dispersar forças no combate aos verdadeiros flagelos associados à venda e ao consumo de substâncias comprovadamente perigosas para a saúde e para o funcionamento da sociedade.

Resta-me referir que não se trata de uma iniciativa inédita, já estando a provar-se eficaz em diversos países.

 

O provável chumbo parlamentar da proposta do BE, neste contexto, não passará de um adiamento de algo que só quem não queira enfrentar o tema com seriedade pode considerar um malefício.

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publicado por shark às 00:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 18.07.12

A POSTA NA PROPOSTA CERTA COM A MAIORIA ERRADA

O Bloco de Esquerda finalmente vai honrar os seus pergaminhos (e o seu discurso) com uma proposta digna de uma alternativa séria de poder.

publicado por shark às 19:09 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 16.07.12

FLOWER POWER

o vizinho de cima

Foto: Shark

publicado por shark às 01:14 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 15.07.12

O ESTRANHO NÃO CASO DO NÃO ASSUNTO QUE TODA A GENTE COMENTA

Apesar do esforço notório das cúpulas laranja no sentido de minimizarem a questão Relvas e de toda a gente ter percebido que o filão em matéria de anedotário está a esgotar-se, de vez em quando aparece mais alguém a botar discurso acerca do tal tema que ninguém percebe porque merece tanto alarido mas acerca do qual toda a gente parece ansiosa por dar uma palavrinha.

Agora foi o líder da JSD a exibir toda a sua pujança de galaró ao contrapor ao não assunto do seu bem sucedido antecessor com um não caso, defendendo que o Ministro Relvas só deve demitir-se caso não cumpra o prometido no programa do Governo.

 

O jovem líder laranja, tão empreendedor na missão de desvalorizar a polémica da licenciatura high speed, nomeadamente pelo recurso in extremis à bendita legalidade, acabou por fazer a apologia da permissividade tradicional perante o político que rouba, mente, omite ou defrauda mas pelo menos apresenta obra feita.

Esta complacência perante os caciques a quem tudo se desculpa desde que apresentem obra feita (leia-se ganhem eleições com maiorias retumbantes), excepção feita ao singular Isaltino, faz parte de uma escola muito apreciada entre os social-democratas e o raciocínio do seu chefe jota comprova a rapidez de assimilação da matéria estudada que tão bons resultados garantiu ao tal quase ex-Ministro que passou a ser igualmente, aos olhos da opinião pública, um quase ex-doutor.

 

Depois de corrido à boatada o anterior Primeiro-Ministro que começou larilas e acabou intruja, todos pensámos que o PSD iria exterminar também essas novas oportunidades políticas para a malta que inclui no seu passado a trapaça académica, de caminho aproveitando para corrigir os excessos dos seus líderes regionais sem tento na língua e nas contas públicas. Mas não, afinal a indecência das licenciaturas fáceis do tempo de Sócrates só serve de argumento para derrubar Primeiro-Ministros, ainda que nenhuma ilegalidade seja provada, assumindo o estatuto de não qualquer coisa quando está em causa um político que cumpra as promessas eleitorais e outras.

Assim sendo, e por associação de ideias, nada pode forçar uma demissão ministerial enquanto estiver a ser cumprido o programa do Governo porque é esse o critério defendido por um destacado líder nacional dos social-democratas.

 

Uma não batota descarada

 

Esta seria para mim uma não posta, mas apenas se não estivesse em causa o perfil e os critérios de quem está ao leme do país num dos seus momentos mais complicados das últimas décadas.

Embora os meus oito anos de Blogosfera não me permitam a equivalência à licenciatura de Comunicação Social, pelo menos enquanto não abraçar a vida política, consigo entender as diversas ameaças à minha Pátria se confiada a gente que pensa e age assim e sinto-me obrigado a partilhá-las.

As possíveis consequências deste tipo de chapinhar no lodo vão desde o descrédito do Ensino Superior (privado por inerência e público por tabela) ao do próprio exercício governativo (o povo não aprecia situações manhosas, mesmo quando dentro da capa da legalidade), passando pelo impacto incontornável sobre a confiança da população nos critérios partidários de selecção dos candidatos a governantes.

 

Com tudo isto perde a do costume, a tal de Democracia que parece cada vez mais impotente e indefesa à mercê de quem legisla (mal) e que é também quem mais parece beneficiar dessa legislação manca e suas abébias curriculares.

E perde um país inteiro, entretido no escrutínio dos seus líderes quando deveria poder concentrar-se no esforço de recuperação suplementar que deve ser fomentado pelo empenho mas também pela conduta irrepreensível de quem acaba por servir de bom ou de mau exemplo para a maioria.

A resposta dessa maioria pode muito bem vir a revelar-se um não, obrigado...

publicado por shark às 21:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 13.07.12

PEDE A CHAVE AO PAI NATAL E DIZ QUE VAIS DA NOSSA PARTE

abre a felicidade

Foto: Shark

publicado por shark às 20:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quinta-feira, 12.07.12

PICARETA NA AUSTERIDADE

Cheira-me que o Governo espanhol não vai encontrar ouro no buraco em que se está a meter com esta história dos mineiros...

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publicado por shark às 21:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

A ULTIMA PEDRA

A passagem do tempo parece limpar, como o vento, o rasto deixado, na areia da memória, por algo que não terá passado de uma história das que nem valem a pena recordar.

Com a ajuda das ondas do mar, a brisa soprada pelo tempo vai apagando, vai varrendo do solo os resquícios da desilusão remanescente, vai tornando irrelevante a marca indelével de um momento que se deseja impossível de repetir.

O passado cheio de vontade de partir para o esquecimento absoluto, abandonado no edifício devoluto onde se acumula o entulho, perdido num canto ocupado pelo barulho da cacofonia de sons imaginários de muitos acontecimentos secundários deixados para morrer num espaço afectado pela surdez.

O presente dominado pela lucidez que no passado falhou a sua missão e deixou turvar a visão da realidade ao ponto de quase justificar uma saudade disparatada nesta altura em que já pouco resta, pois nada dura para sempre quando não presta, quando se usam materiais de construção aldrabados.

E no futuro restará apenas a última pedra, poupada aos trabalhos de demolição entretanto desembargados.       

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publicado por shark às 14:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 10.07.12

VISTA DESAFOGADA

vista desafogada

Foto: Shark

publicado por shark às 21:52 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA QUE APRENDEMOS SEMPRE À NOSSA CUSTA

Na minha actividade profissional de agente de seguros acabo por ter contacto directo com uma faceta da realidade empresarial portuguesa que explica alguma da sua debilidade perante esta crise ou qualquer outra.

É arrepiante perceber a quantidade de empresas sem seguros facultativos como o das instalações ou mesmo obrigatórios como o de acidentes de trabalho.

No fundo, o empresário português típico é uma pessoa de fé. Se a coisa corre bem compra o tal BMW em leasing e se correr mal, logo se vê

 

O exemplo dos seguros, que é porreiro porque estou na minha praia, apenas ilustra uma forma de estar sem rede que requer muito equilíbrio. Se um empreendedor entende que nas suas preocupações os seguros são coisa secundária acaba por entregar o futuro da sua iniciativa aos caprichos do destino, o que explica como de repente quase toda a gente parece ter sido apanhada com as calças na mão, mesmo no meio de uma crise em câmara lenta como nunca vivemos uma.

A malta acha sempre que vai correr tudo bem. Da mesma forma que acreditam piamente que aquilo do euromilhões é mais uma questão de tempo, também confiam na mesma conjugação astral favorável para darem emprego a uns quantos desgraçados que não vislumbram, por entre a fezada de terem um posto de trabalho, o quanto abraçam a mesma política do logo se vê quando nem por curiosidade tentam perceber se existe um seguro para lhes valer se tiverem um acidente no exercício das suas funções.

 

Parece coisa de somenos importância, mas acaba por ser uma forma de precariedade quase tão clara como a de um trabalhador a prazo ou mesmo temporário.

Há direitos dos quais não podemos abdicar apenas para facilitar a vida dos que negligenciam as suas obrigações.

Um trabalhador com o azar de cair de uma escada no horário de trabalho e ficar sem capacidade para prover ao seu sustento e ao da sua família não pode só nessa altura descobrir que a sua vida futura está nas mãos da habilidade dos advogados do patrão para o pouparem ao encargo imprevisto em causa.

 

Essa fé no logo se vê está na origem de boa parte da caldeirada em que o país mergulhou, confiado a gente incapaz de se preocupar a sério precisamente por desconhecer o conceito de preocupação, gente capaz de reclamar o doutor antes do nome depois de completar uma licenciatura sem esforço, sem mérito e mesmo sem moral. Entendidos na matéria que é precisamente aquela que contornaram à custa da mesma esperteza saloia dos empresários que poupam na prevenção para esbanjarem nos sinais exteriores de uma solidez tão aparente como a sua capacidade para liderarem seja o que for.

 

Se há lição que Portugal precisa de aprender desta provação em lume brando é a de que é preciso fiscalizar quem manda, pois a vida, como o ciclo económico, é como os interruptores e a qualquer momento as luzes do sucesso dos figurões de circunstância deixam de cintilar.

E quando a festa deles acaba sobram sempre espalhadas pelo chão as canas dos foguetes para outrém apanhar.

publicado por shark às 14:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 08.07.12

A POSTA QUE NO PIOR PANO TAMBÉM CAI A NÓDOA

Sempre que um político é apanhado nas teias de uma situação menos apropriada a sua prioridade é garantir que tudo foi feito nos termos da Lei. Nada ultrapassa em urgência a certificação de qualidade da pessoa sob suspeita, espalhando ao vento o artigo do decreto que legitima, do ponto de vista legal, a actuação em causa.

Essa definição da prioridade dos políticos em maus lençóis deixa clara a preocupação em manter impoluto o registo criminal, em detrimento de qualquer outra aflição acessória pelo efeito dominó que os escândalos sempre impulsionam.

Porém, começa a ser cada vez mais notório o interesse dos cidadãos por coisas que pareciam ter caído em desuso.

A legalidade permanece obrigatória mas a idoneidade, sobretudo em tempo de crise, adquire maior relevância e para mal dos nossos pecados a maioria da classe política ainda não percebeu esse trocadilho.

 

O caso da moda é o do Ministro Relvas, o político que aparece mergulhado em todas as caldeiradas que este Governo produz e agora foi identificado como um dos felizes contemplados com um canudo que podia ter saído na farinha amparo.

Mais uma vez, e trazida a inconveniência à baila depois de tanto tempo de distração, o esforço foi concentrado na sensível questão da legalidade, da transparência, de uma legitimidade estritamente formal.

O problema do Ministro Relvas, como de todos os que o antecederam nesse tipo de assunto melindroso e de todos os que lhe venham a suceder no embaraço, é a tal percepção do povo que não acha piada nenhuma a falsos doutores, ainda que a lei e suas alarvices os licenciem.

É que o povo até reconhece o mérito de quem queima as pestanas para lá chegar e por isso não se mostra compreensivo para com os cábulas e os oportunistas.

 

É no fundo um problema de formação, ou de falta dela. Mas acima do cariz muito duvidoso das equivalências múltiplas já comprovadas ergue-se a falta de formação pessoal implícita na aceitação deste tipo de expedientes, muito para lá da respectiva legalidade. É um problema ético e moral, porque suscita questões pertinentes acerca da capacidade de liderança.

Esse é um ponto fraco absolutamente inaceitável num momento decisivo para o país, tão necessitado de um Governo como lhe foi prometido na sequência da queda forçada do anterior.

 

E é por esse mesmo motivo que pouco mais restaria a um Ministro digno desse nome, a um doutor digno desse título ou a um senhor propriamente dito do que a demissão do cargo, por iniciativa própria e a bem da vergonha na cara que é o mínimo que a população pode exigir.

Cada dia que passa sem que essa demissão aconteça é menos um que falta para mais um Governo cair.

 

publicado por shark às 21:37 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 06.07.12

(LIS)BOA TODOS OS DIAS

sardinha da boa

Foto: Shark

publicado por shark às 23:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 05.07.12

AGORA ACÓRDÃO TODOS

É impressão minha ou somando a decisão do Tribunal Constitucional às declarações de Passos Coelho acerca da mesma temos, na prática, aberto o caminho para o corte dos subsídios de férias e de Natal para todos os trabalhadores sem excepção?

publicado por shark às 21:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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