A POSTA À CATANADA NOS PRINCÍPIOS

Nem me passa pela cabeça investir um minuto que seja da minha atenção a ver a entrevista ignóbil que uma (alegada) Procuradora, uma tal de Maria José Martinho, concedeu à RTP.

E basta-me uma vista de olhos pelos títulos da Imprensa, sempre atenta ao verdadeiro sumo das histórias, que chama a atenção das audiências para o facto de o triplo homicida ter utilizado uma catana por ser menos ruidosa para perceber o móbil deste crime que compensa porque qualquer pessoa capaz de rentabilizar as declarações de um morto, proferidas num determinado contexto e sob pressupostos óbvios, é igualmente capaz de prevenir a possibilidade de existência de um qualquer descendente a quem pudesse indignar de uma forma mais efectiva este desrespeito como o senti.

 

Nem hesito em afirmar a minha total concordância com a solução encontrada pelo assassino para colocar um fim à sua saga, em absoluta sintonia com o meu profundo asco relativamente ao acto com que inscreveu o seu nome no rol de bandalhos sonantes.

A morte de tal criatura é um alívio para todos e quem não o assumir dessa forma está apenas a dar uma pala qualquer.

Contudo, mesmo um verme asqueroso, como gostaria de ter podido chamá-lo na cara em vida e vou sem dúvida entendê-lo depois de morto, possui direitos que se estendem para lá do final feliz por si escolhido e que derivam no mínimo da decência dos que cá ficam e, acima de tudo, pelo facto de o verme como o sinto ter nascido e morrido tão humano na essência como eu ou a tal procuradora da ignomínia.

 

É essa condição que me obriga a reconhecer a indecência de chamar verme a um gajo que já não se pode defender da minha injúria e ainda mais deveria obrigar uma procuradora a guardar para a Justiça tudo aquilo que ouviu em circunstâncias completamente distintas das actuais.

Claro que todos os (alegados) jornalistas a quem pareceu oportuna e do interesse público esta exibição grotesca de falta de brio e de ética e de moral e de tudo quanto nos possa defender destes atropelos não saem bem num boneco onde até já tinham brilhado pelo bom senso de não dissecarem a cena do crime em todo o horror nela contida.

Estas cumplicidades estão no fundo associadas às impunidades de todos os envolvidos neste tipo de conluio em prol do abastardar definitivo dos códigos de conduta que se esperam de qualquer pessoa mas mais ainda das que exercem determinadas funções.

 

E enoja-me o facto de a atitude da procuradora dos interesses obscuros de uma Comunicação Social cada vez mais abjecta me conseguir repugnar ao ponto de quase me ver obrigado a defender a memória póstuma de um assassino cobarde para manifestar a minha indignação contra a falta de vergonha de quem participou de forma directa ou indirecta nesta tão sincera transmissão televisiva da realidade dos factos como, mesmo sem ser em modo reality show travestido de coisa séria, os intuímos mas quando expostos nestes moldes quase preferíamos nem saber.

publicado por shark às 15:53 | linque da posta | sou todo ouvidos