Domingo, 31.01.10

A POSTA NOS ESPAÇOS EM BRANCO

O alívio tão evidente quando não precisa de estar presente a lembrança, o excesso de confiança que tudo pode degradar, corrosivo, com o calcanhar de Aquiles possessivo a tirar com uma mão aquilo que não deu com a outra.
A desculpa sistemática que se torna automática quando a soma das coincidências já minou as paciências dos dois lados da barricada numa batalha perdida por não existir um alvo a abater, pontapé para canto que já nem suscita um lamento mas apenas a progressiva debilidade na reacção.

 

A incómoda sensação de não valer a pena tentar resolver o problema que afinal parece sempre resultar de um mal menor e nunca da agonia de um amor, um equívoco entre tantos que azedam os poucos momentos do contacto possível e desviam a atenção do essencial da questão mesmo quando não sabemos sequer qual é.
A dúvida que prejudica a fé de quem não abraça o cepticismo mas precisa de ver para crer, em si própria, essa pessoa que tenta dizer em vão aquilo que lhe vai no coração mas esbarra numa muralha de pedra que espalha o azedume como regra porque acaba por trazer a lume as questões mal abordadas ou simplesmente relegadas para um amanhã distante ou nenhum.

 

A necessidade de abrandar, ou no mínimo de aligeirar a pressão abdicando aos poucos da vontade de reclamar e antes deixar andar ao sabor do vento o efeito provocado pelo tempo e levar menos a sério tudo aquilo que para os outros seja levado a brincar.
A certeza de não ficar com pesos na consciência apenas por aceitar a influência de factores impossíveis de controlar, agindo a todo o tempo com o sopro do vento de feição para insuflar o coração rumo ao melhor resultado final que é o da vitória total contra a saturação que se desenha na expressão e fica com as costas desnudas nas palavras acaloradas de um pequeno conflito qualquer.

O que se disser a mais serve apenas para depois alimentar a fornalha onde se reacende a tal batalha que não é preciso travar porque não existe algo a ganhar ao longo da disputa onde na prática ninguém escuta o teor da argumentação.

 

E essa é a melhor razão para deixar cair tudo aquilo que se possa sentir mas sirva de pretexto para questionar os factos (alegadamente) bem definidos que possam sustentar todas as certezas, dados adquiridos, e suscite as tristezas que um dia serão invocadas por quem prefira reclamar vitória por assim se sentir melhor do que reescrever, para assim prevalecer, uma história bonita de amor.

publicado por shark às 21:40 | linque da posta | sou todo ouvidos

NÃO, NÃO ESTAVA A BRINCAR NA POSTA ABAIXO...

 josé cid ao vivo

Foto: Shark

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publicado por shark às 14:07 | linque da posta | sou todo ouvidos

I WONDER...

Um sábado que acaba com um gajo a aperceber-se do facto de estar sentado a assistir a uma actuação ao vivo do José Cid não pode ser um sábado normal.

 

publicado por shark às 12:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 29.01.10

AVIÃO ESCONDIDO COM O RABO DE FORA

avião escondido com o rabo de fora Foto: Shark

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publicado por shark às 15:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 28.01.10

O HELICÓPTERO E OS CARROSSÉIS

Desde as 18 horas de hoje os camiões da malta dos carrosséis têm estado a fazer a vida dos moradores da zona oriental de Lisboa e dos automobilistas dos arredores num inferno.

Buzinas bem sonoras marcam a passagem da comitiva em protesto e que tem dado imenso nas (ou)vistas.

 

Curioso é o facto de um helicóptero pesado andar a seguir os camionistas por todo o lado, tendo inclusivamente mantido um foco de luz ligado à moda de Los Angeles durante boa parte da "perseguição".

Confesso que não faço ideia a quem pertence a máquina voadora e quem está a pagar o respectivo combustível. mas olho para o céu e vejo apenas um veículo de controlo e de intimidação, presumindo que não irá disparar sobre os manifestantes caso eles entendam obstruir alguma via de comunicação... 

publicado por shark às 22:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

SEM SINAL DE TI

Espera que te diga aquilo a que me obriga a condição masculina, a iniciativa tem que ser minha (são tradições...) ou serei desacreditado e ficarei posto de lado na tua deliberação. Espera que peça a tua mão para um beijo nas suas costas, o desejo que apostas existir no meu olhar que insiste em fugir para partes tuas que anseio ver tão nuas como a alma que (afinal não) expões.

 

Guarda para mim o que tens de mais precioso, para lá do corpo generoso, essa vontade de amar que te esforças por demonstrar pelos meios ao teu alcance e eu pareço só olhar de relance mas devoro com a ansiedade de quem aguarda cada sinal.
Torna-me indispensável, fundamental, nos teus dias e aproveita as alegrias que te dou e que compensam tudo aquilo que sou de menos positivo.

 

Espera que me torne mais activo neste caminho que precisamos percorrer, este tempo necessário para aprender o outro em toda a sua dimensão. Abre um pouco o coração e aligeira esses filtros que impedem de passar tudo aquilo que quero dar mas hesito por não confiar em mim enquanto capaz de ser assim como me precisas. Ou em ti, na tua capacidade de conviver com a verdade que me define, para lá do que se afirme nos esboços grosseiros que te permito espreitar.

 

Espera por mim num lugar onde nos saibas sossegados, para sentires os teus medos dissipados como vapor da transpiração, uma espécie de (sinais de) fumo dos corpos em ebulição que podemos soprar a dois. Deixa que fique para depois o acerto das agulhas, a devida arrumação desta informação que entulhas para mais tarde reciclares nessa estação de tratamento, esse teu filtro com que avalias os amores em cada tempo que te predispões a viver uma paixão.
Aceita o amor, essa emoção superior que te arrebata, não receies aquilo que escapa à tua atenção e que possa trair a intenção de defenderes com unhas e dentes os teus bastiões mais importantes contra traições e outras ameaças já experimentadas em tempos que são águas passadas e que se lavam com um beijo presente de um amor que seja amante no futuro também.

 

Espera que te trate sempre tão bem que me queiras, por inerência, com toda a certeza possível, afastado jamais do tempo que te reste viver.
Mas não presumas que espere eternamente sentado pela maior clareza, pela imprescindível coerência dos teus sinais que continuo sem perceber.

publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quarta-feira, 27.01.10

A PONTE RAINHA

a ponte rainha

Foto: Shark 

publicado por shark às 16:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

BRIOL (2)

Claro que não posso dar-me ao luxo de falar do tempo, das condições meteorológicas, em duas postas seguidas. Claro.

Mas porra, com os dedos gelados como pode um gajo ter vontade de escrever postas acerca de outra coisa qualquer?

publicado por shark às 10:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 26.01.10

BRIOL

Está um frio de Dezembro.

publicado por shark às 14:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 25.01.10

CÚMPLICE POR OMISSÃO

Sempre que num livro ou num filme me vejo confrontado com os demasiados exemplos do nível de barbárie que a História documenta, genocídio, holocausto, massacre, extermínio e tantas outras palavras que albergam horrores que ninguém deveria algum dia conhecer, não consigo evitar o jorro de lágrimas que me denuncia lamechas e me expõe à realidade da minha condição de cúmplice por omissão em quaisquer acontecimentos que uma intervenção enérgica da opinião pública pudesse evitar neste presente no qual me compete, como a qualquer pessoa, onde quer que seja, lutar por todos os meios ao alcance pela erradicação de todos os resquícios de desprezo pela vida e pela dignidade humana que possam eclodir sob capas políticas, religiosas ou outras, num ponto qualquer do planeta.

 

É difícil de gerir, o equilíbrio entre o lirismo de querer acreditar na bondade da natureza humana e o pragmatismo de actuar em força e sem contemplações contra as manifestações que desmintam esse pressuposto. É ainda mais difícil de vencer o desejo de vingança, este por si mesmo uma derrota, para sentir algum sabor a justiça no macabro prazer que qualquer retaliação faculta. É impossível, no entanto, cruzar a ténue linha que nos deita a perder enquanto pessoas de bem por incentivar o (ab)uso da força na manutenção de uma segurança tão débil quanto ilusória.
Nenhuma revolta, justa ou não, pode ser esmagada à bruta pela força das armas. O mesmo espírito dos resistentes que ao longo dos tempos enfrentaram o mal olhos nos olhos está presente nas gerações que o transmitem sob os pretextos ou atenuantes mais à mão, perpetuando-se dessa forma na memória colectiva de povos cansados de sofrer, mas calejados o bastante na arte da sobrevivência para ludibriar e combater sem tréguas, por desgaste, qualquer agressor.

 

São as lições que a História nos oferece e deveriam suscitar um alerta permanente, sempre que constem tiranias, ditaduras, regimes fanáticos em embrião que possam constituir uma ameaça que nascerá da conjuntura como da reacção à injustiça que não poderemos, igualmente, tolerar.
Matar o mal pela raiz não pode depender de operações militares cirúrgicas que decepam a esperança com a primeira vítima criança que qualquer acto de guerra possa provocar. Tal como não é razoável acreditar que alguma paz dure para sempre enquanto existirem focos de fome, de repressão, de miséria, de injustiça, de desequilíbrio tão flagrante como aquele que arrasta para a morte clandestina nas águas do Mediterrâneo milhares de cidadãos do hemisfério sul em busca de uma vida melhor que lhes negamos cá como nas suas terras de origem entregues ao caos.

 

Choro, sim, perante a dimensão do horror com que alguns dos tais episódios “irrepetíveis” conseguiram provar-nos que somos, a Humanidade, capazes de atingir. Visto a pele de pais, de filhos, de pessoas como eu que se perderam num turbilhão com que o seu tempo os armadilhou.

 

E envergonho-me, muitas vezes, do meu papel indirecto em tudo aquilo que não impeço e de que tomo conhecimento, sempre tarde demais, no conforto burguês e civilizado, dos filmes, dos livros e, pior que tudo, dos telejornais.

publicado por shark às 23:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

UM ACTO FALHADO

É um dado adquirido sem o facto consumado.

publicado por shark às 18:13 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)

(OL)FACTOS E SONS

Nem sempre estamos virados, escribas e leitores, para os temas profundos. Faz parte das nossas precisões a de desanuviar de vez em quando e para isso também um blogue pode servir.

 

Ainda assim, existem grandes questões da humanidade (pelo menos de alguma) que podem ser abordadas neste contexto de bebedeira de liberdade de expressão que a blogosfera representa onde a deixam.

E quem fala em bebedeira associa com facilidade a ideia da comezaina e daí ao tema principal desta posta vai um som. O som que as pessoas produzem quando, por alguma corrente de ar na parte da canalização a que julgo chamar-se esófago, abrem a boca e arrotam.

 

Arrotar, nesta nossa civilização ocidental com tantas regras e preceitos estapafúrdios, é algo que soa ordinário, malcriado, boçal.

Não vou aqui fazer a apologia do arroto livre e sem restrições, mas não me inibirei de chamar a vossa atenção para um claro indicador da base de sustentação hipócrita de toda esta repulsa que o acto de arrotar suscita à maioria de nós.

Em causa está o absurdo de uma pessoa arrotar sem querer (vamos partir desse pressuposto para facilitar a vossa digestão do raciocínio) e cada testemunha presente ser mimoseada com um inadequado "com licença".

Com licença?

 

Tanto quanto me ensinaram, as pessoas devem pedir licença antes de efectuarem determinado gesto e não depois de dispararem uma qualquer sonora bujarda das que são rejeitadas neste nosso mundo tão polido. Ou seja, temos aqui um paradoxo daqueles que podem provocar azia nos sistemas digestivos mais ácidos pois a boa educação insiste no tal pedido prévio de licença antes (e perdoem-me a redundância anterior - ou deveria pedir-vos licença?) e neste caso concreto recomenda que o mesmo seja levado a cabo depois.

E é aqui que sustento a hipocrisia da coisa, que aflorei mais acima, por ser mais do que evidente que é quase gozar com os outros pedir licença para algo que já ninguém pode impedir que aconteça. A pessoa cumpre em simultâneo os preceitos estipulados, manifestando uma espécie de arrependimento palerma por uma reacção natural e espontânea em determinadas condições, e por outro lado insulta os presentes com o descaramento de um pedido parecido com aqueles de licenciamento para o início de uma obra à qual, por mero acaso e assim, já só falta pintar a fachada...

 

É de fachada que se trata, claro, pois não faz sentido termos que nos responsabilizar por incidentes involuntários e que ainda por cima fazem parte dos mecanismos naturais de qualquer organismo.

Quero com isto dizer que não sendo possível o tal pedido por antecipação, no tempo devido para permitir aos outros uma palavra a dizer acerca do assunto, também não faz sentido que tenhamos que apresentar o subsequente pedido de desculpas que o "com licença" neste contexto claramente representa.

 

Mas isso leva-me a extrapolar para outros fenómenos análogos do ponto de vista da sonoridade humana e não tenho a certeza de que queiramos, escriba e leitores, abordá-los nesta ou em futuras postas...

 

 

publicado por shark às 12:54 | linque da posta | sou todo ouvidos

AS VIDAS DO LADO

Chega-se ao escritório na vila de Moscavide numa manhã de segunda-feira e aparece a vizinha do lado horrorizada com o facto de no serão anterior lhe ter aterrado no terraço um vizinho de um dos pisos acima.
O relato do sucedido mais a hipótese de explicação para o acto tresloucado de outro homem desesperado com a forma como a vida o pressionou, pela voz da vizinha visivelmente perturbada a caminho do emprego a que não pode faltar a pretexto do seu estado de nervos e do cansaço normal de uma noite mal dormida depois de assistir de perto a uma tragédia talvez ainda maior porque o homem, com quem uma pessoa se cruzou ao longo de uma década sem mais do que meia dúzia de diálogos de circunstância, afinal sobreviveu a três pisos de voo picado e seguiu vivo para o hospital.

Entretanto acabou por morrer.

 

É mesmo segunda-feira e a semana deste edifício podia ter começado melhor.

publicado por shark às 09:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sábado, 23.01.10

TAKE ME TO THE SKY

rastos no céu

Foto: Shark 

publicado por shark às 22:36 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 22.01.10

IL SILENZO

Palavras demais. Deixadas à solta para saltarem de boca em boca como os beijos que as silenciam.

Palavras que arrepiam como lábios que enfatizam o toque com o calor da respiração, na pele, no coração, curto-circuito que transforma corpos inteiros em estradas para as palavras demasiadas que saturam quando ouvidas por quem já não tem espaço para as albergar nem vontade de as aturar por soarem excessivas.
Palavras banidas aos poucos por quem toma consciência da sua irrelevância na maioria das ocasiões. Mesmo quando exprimem emoções que deveriam ser todas prioritárias e nunca desnecessárias por se revelarem incapazes de cumprir o seu desígnio de transmitir aquilo que alguém sentiu ou pensou.
Palavras como gotas de água num copo que há muito transbordou. Derramadas como leite que ninguém chora porque fome só existe lá fora e a de conversa é mitigada noutro tempo ou noutro espaço qualquer.

 

Palavras que ninguém quer por serem indesejadas, sejam verdades que se preferem caladas ou apenas vontades que são mal interpretadas por quem as acha, por defeito, palavras demais.

 

E só lhes sentem a falta depois de expiradas as palavras finais.

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publicado por shark às 18:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

QUATRO JÁ LÁ VÃO

Estou mesmo satisfeito.

E não é só por hoje ser sexta-feira, é que o nosso querido Presidente da República completa hoje quatro anos de mandato e eu não podia estar mais contente com a efeméride.

 

É que só falta mais um...

publicado por shark às 17:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quinta-feira, 21.01.10

ERROS DE CASTING

Um repórter da RTP, Vitor Gonçalves - se a memória não me atraiçoa, ficou ferido na sequência da réplica de sismo ocorrida ontem no Haiti.

O jornalista, em pânico, terá saltado da janela do seu quarto de hotel acabando com lesões numa perna e traumatismo crânio-encefálico.

 

O director desportivo do Sporting, Sá Pinto, andou à pancada com o levezinho (Liedson) nos balneários na sequência de uma discussão a propósito de um erro infantil do guarda-redes da equipa ocorrido num jogo com uma equipa do escalão secundário que o clube de Alvalade até ganhou.

Ao que se sabe, o goleador leonino terá tentado defender o colega perante o público que o assobiava e o Sá Pinto (célebre por ter agredido em tempos o então seleccionador nacional, Artur Jorge) não gostou.

publicado por shark às 09:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

SAUDADE DO VERÃO

o mar em flor

Foto: Shark 

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publicado por shark às 00:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 20.01.10

FRUTO PROIBIDO

Como um gaiato obeso, guloso, diante da montra de uma pastelaria, ele olhava mas tudo fazia para reprimir qualquer manifestação do desassossego que lhe provocava a mulher mais bonita que algum dia conhecera.

 

Sorvia cada minuto em que podia privar por algum pretexto com aquela criatura perfeita que o perturbava ao ponto de lhe alterar a pulsação, de descompassar o coração com o impacto do seu encanto de menina num corpo de mulher.
No entanto, sabia ser proibido qualquer sinal ou insinuação. Reduzia à contemplação a sua iniciativa, ainda assim num esforço tremendo para esconder no olhar tudo aquilo que ela fazia disparar nos bastidores do seu emocionário.

 

Pensava-a em muitos momentos, os mesmos em que se aplicava nos esquecimentos de que necessitava para controlar o efeito daquela imagem no seu peito acelerado e no cérebro agitado que cogitava por instinto as abordagens possíveis para tentar algo mais. Coisa pouca, talvez um pouco de tempo para com ela partilhar um momento longe dos papéis que lhes competiam, das peles que vestiam no contacto institucional...

Depois a vida continuava e ele sentia sempre que tardava a seguinte ocasião em que não permitia que se fizesse ladrão por temer as consequências de um desaire quase certo, sempre que estava tão perto daquela diva ao ponto de quase lhe sentir da pele o mesmo calor que os olhos dela irradiavam sob a forma de luz.


Temia-se absurdo por se atrever capaz de ignorar tudo aquilo que traz de inconveniente a uma pessoa um avanço despropositado, de arriscar um resultado mais desastroso ainda do que o embaraço de uma recusa liminar de qualquer passo que pudesse dar noutro sentido que não o admissível naquelas circunstâncias.

Mas adivinhava as consequências da sua decisão, daquele esforço de contenção de um impulso irreprimível de forçar um milagre possível, um desfecho positivo em potência.
Aquela mulher, por coincidência, era um anjo em versão humana e quase o fazia acreditar que talvez devesse avançar um pouco mais para não se concretizar depois o pesadelo que antevia de cada vez que percebia que o tempo que os aproximava não seria duradouro, iria acabar.

 

E ele, tão perto do tesouro, já sabia que estava marcado o dia em que se esgotariam as hipóteses de o tocar.

publicado por shark às 14:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

A POSTA QUE A JUSTIÇA NÃO É CEGA MAS APENAS UM NADINHA CURTA DE VISTA

Um fulano com 39 anos de idade disparou à queima-roupa sobre o peito de um sexagenário, tendo este morte imediata. Até ver ficou em liberdade, obrigado ao transtorno de se apresentar duas vezes na esquadra da polícia.
Dez indivíduos foram apanhados com menos de vinte quilos de haxixe. Estão há dez dias sem poderem tomar banho, detidos em condições pouco menos do que abjectas na Bela Vista (Porto).

 

Podem vir os juristas que quiserem tentar explicar esta diferença de critérios aplicada a um assassino (alegado e mais não sei o quê) e a traficantes de drogas leves (que, ao que se sabe, não matam seja quem for).
Não sou um cidadão mais esperto do que os outros, mas na minha modesta opinião prefiro ter à solta gajos que ganham a vida a ganharem dinheiro à custa da teimosia do Estado em manter ilegal algo que poderia render impostos e fugir de imediato ao controlo das redes de tráfico do que animais capazes de dispararem uma arma de fogo sobre alguém.

 

Enoja, esta evidente caça ao homem por parte das autoridades e do sistema judicial relativamente ao crime hediondo do tráfico de cannabis porque deixa bem clara a intenção de mostrarem serviço à conta de pequenos criminosos, enquanto os traficantes das drogas que destroem vidas e andam de jacto particular não são incomodados na mesma proporção, acabando depois por revelarem em casos como o do assassino (alegado, já sei) de Ribeira da Pena a exagerada brandura de costumes que tantas vezes dá raia quando os bandalhos à solta aproveitam o ensejo para repetirem as suas façanhas.

 

Eu entendo que juízes e polícias num país como este sintam o receio normal de quem se vê obrigado a enfrentar redes de tráfico que envolvem gente poderosa que pode, por exemplo, ameaçar-lhes as famílias e não consta que exista na nossa magistratura alguém do calibre de um Baltazar Garzón (embora seja óbvio que se multiplicam os mãos largas capazes de imporem medidas de coacção que soam quase como recompensas para os prevaricadores).
Não tenho, todavia, a mesma complacência para com os pesos e as medidas com os quais tentam impressionar o pagode sempre que deitam a mão aos perigosos facínoras que trazem haxixe a bordo de traineiras para ganharem uma ninharia por comparação com os que traficam drogas duras e movimentam milhões.

 

E temo que estes indicadores exprimam uma fragilidade da Justiça que nos poderá sair muito cara no futuro, pois o tempo não atenua o problema e antes o agrava por permitir o alastramento dos tentáculos de redes cada vez mais sofisticadas e poderosas que aos poucos se apropriam de pessoas pelo medo ou pela ganância tal como instalam, ao deixarem assassinos (presumíveis inocentes, pois é) à solta, um clima crescente de impunidade que é um convite descarado à justiça pelas próprias mãos por parte das vítimas (e seus familiares) desta corja que nos ameaça.
 

publicado por shark às 10:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 19.01.10

EU GOSTO DE ANIMAIS

em amena cavaqueira

Foto: Shark 

publicado por shark às 21:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

POR LINHAS TORTAS

Como um lago tranquilo onde surge, imprevisível, uma imensa ondulação. No calor de uma intensa discussão, inesperada, nunca fica salvaguardada a sensatez e coloca-se em causa tudo aquilo que se fez até então.
No interior do coração agitado pela tormenta, fruto de tudo o que se enfrenta fora do contexto, existe um mecanismo muito lesto a separar as águas que o amor uniu. Parece até que a paixão sumiu num banco de nevoeiro que se instalou a tempo inteiro diante do olhar perturbado pelo mal-estar suscitado e torna-se fácil perder de vista o objectivo que motivou a conquista que tanta felicidade acarretou.
E afinal foi o medo que ocultou esse segredo transmitido por sucessivas gerações que viveram as suas paixões, o receio de perder quem se ama por não se ser muito bom na cama ou qualquer outra razão imbecil, o ciúme ou outra emoção vil das que só servem para corroer sem nexo a relação de confiança que deveria fazer parte de um altar.

 

A segurança de navegar num leito seguro e isento de malícia ou despeito perdida numa carícia que ficou por concretizar. Um desperdício, esse hábito, esse vício que todos temos de confundir aquilo que sabemos sentir mas ficamos baralhados pelas acções inexplicáveis e pelas sensações desagradáveis que em tempos passados alguém nos provocou.
Sinais de alerta que a mente criou com o poder da imaginação a partir de uma má interpretação de algo que aconteceu ou ficou por realizar.
As coisas que ficam por contar pelo temor de poderem beliscar o amor ou mesmo destruí-lo e que agitam o lago tranquilo com tempestades num copo como se provam no rescaldo, dúvidas por esclarecer e o coração a bater acelerado pelo motivo mal explicado no meio da confusão, no seio da ondulação artificial nascida a partir de reacções descontroladas.

 

As vidas assim desperdiçadas na ansiedade de uma flutuação a bordo de tábuas de salvação desnecessárias, destroços marginais às histórias de amor originais que se afogam aos poucos num mar de interrogações.

As respostas e as soluções adiadas até se darem quase por perdidas as hipóteses de reconciliação, o equívoco de uma desilusão sem eira nem beira que pode comprometer uma vida inteira ao longo da qual o arrependimento poderia chegar pelo esclarecimento que não se pode obter quando sopra nas almas o vento da desconfiança, quando se vê arrastada a esperança para o fundo e parece que o fim do mundo chegou.

 

Contudo, é essa aflição que fica, esse aperto no coração que nos indica que o amor não desertou.
 

publicado por shark às 17:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

ONDULAÇÃO

É uma pena não inventarem um daqueles equipamentos xpto que produzem energia renovável a partir do movimento das ondas do mar mas que seja aplicável às oscilações no humor.

publicado por shark às 17:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 18.01.10

CARA DE PEDRA

cara de pedra

Foto: Shark 

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publicado por shark às 09:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 17.01.10

A POSTA NAS COISAS PEQUENAS

Coisas pequenas, a que nem ligamos na maioria do tempo em que nos deixamos alienar por um conjunto de obrigatoriedades que nos impomos, ou assim o permitimos pela vida lá fora, e nos distraem das questões (verdadeiramente importantes) de pormenor.
Pode ser a luz de um sorriso de boas vindas como a constatação de ser sempre perfeita a primeira escolha, a reacção instintiva a um estímulo qualquer.
Pode ser uma coisa típica de mulher, uma simples manifestação da sua inteligência emocional ou da intuição fora do comum que as torna ainda mais fascinantes do que já resultam à vista desarmada de um corpo bonito ou de uma tirada brilhante que nos impressiona.

 

Pequenas coisas a que só damos valor quando nos deixamos levar pelo amor até à visão clara de tudo aquilo que alguém possui para nos presentear ao longo do tempo em que partilhamos um momento que seja da existência.
Gigantes na dimensão, quando abrimos o coração ao que interessa e renegamos aquilo que a cabeça nos propõe em alternativa, carregada do esterco normal que o papel social acarreta. A deturpação das prioridades que o quotidiano implica, mais os medos que a perda de confiança nos outros primeiro e em nós próprios em consequência nos somam quando a pressão se faz sentir com força demais.

 

A dificuldade extrema de gerir vidas a dois, num mundo talhado para uma atitude individual, solitária a bem dizer, e que torna cada história de amor numa missão (quase) impossível faz parte do mesmo problema, dessa amálgama de influências que nos dispersa e em última análise nos afasta da simplicidade das emoções. Uma catadupa de complicações nascida do nada, do exterior, que nos afasta aos poucos do amor genuíno e sem reservas, que nos inibe de aceitar que é normal esse perigo de alguém se apaixonar pela pessoa ou no tempo errados e que é bom sentirmo-nos apaixonados pois essa é uma das formas mais bonitas de percebermos como é bom ser feliz.

 

Coisas pequenas, ou nem por isso, que fazem toda a diferença perceber ou sentir. A alegria de fazer alguém rir das nossas chalaças, de constatar o prazer que provocam as nossas presenças na sua vida e tudo em vice-versa.
Coisas que sempre o coração e jamais a cabeça poderá descodificar para a linguagem acessível da felicidade que é mesmo possível quando sabemos distinguir a mensagem que o peito tenta transmitir da que o outro centro emissor (que nada percebe do amor) nos impinge para afinal nos arrastar para a má onda e a tristeza.

 

Mas eu tenho a certeza que um dia conseguiremos alcançar a vitória e assim mudaremos a História com o poder que o amor pode revelar quando nada interfere com a sua actuação.

 

Jamais na cabeça, sempre no coração.

publicado por shark às 17:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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