Segunda-feira, 31.07.06

SERVIÇO PÚBLICO JUDAICO-CRISTÃO

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Hoje, num noticiário do canal público de televisão, ouvi referir o bombardeamento israelita a Cana, onde terão perecido quase quarenta crianças, como um “acidente”.
Eu não acredito em bombardeamentos acidentais, sobretudo numa época em que é possível atingir um alvo humano a partir da localização do seu telemóvel (como os israelitas já provaram).
Bombardear alvos civis, como o fazem igualmente “por acidente” os combatentes do Hezbolah, nunca pode merecer uma operação estética, um embelezamento verbal para minorar os seus contornos facínoras.

Este tipo de discurso (ninguém chamou acidente à colisão de dois jactos comerciais com as torres do World Trade Center e na óptica de quem executou esse atentado tratou-se de um acto de guerra), denuncia os partidos que se tomam num conflito onde toda a prudência e isenção são boas conselheiras.
Se existisse uma razão, se alguém estivesse do lado certo nesta espiral de violência, seria fácil encontrar uma solução diplomática e pacífica para o conflito israelo-árabe e para as suas repercussões mundiais naquilo a que damos o nome de terrorismo (acto cobarde, deliberado e nunca acidental).

Há poucos dias, as bombas israelitas atingiram (também por acidente?) instalações da ONU no Líbano e causaram a perda de quatro funcionários das Nações Unidas.
Já morreram “por acidente” mais de meio milhar de pessoas desde o início desta sequência de acidentes provocados (lembram-se?) pelo rapto de um único soldado de Israel.

Chamar acidente à chacina deliberada de crianças, como aconteceu por exemplo em Beslan, é uma infâmia e mostra o quanto não se consegue disfarçar para onde pende o fiel da balança na perspectiva “imparcial” da Imprensa naquilo que assume cada vez mais os contornos de uma guerra entre mundos. Os pequenos detalhes também contam e contribuem para diabolizar os “maus” e minimizar os pecados do “bons”.
E eu não distingo com tanta nitidez essa fronteira. E mais: não duvido que se o mundo ocidental estivesse no lado errado do equilíbrio de forças, o terrorismo constituiria uma opção. Exemplos: os métodos da ETA para reclamar a independência do País Basco e, recuando no tempo, os atentados bombistas perpetrados pela resistência nos países ocupados pela Alemanha na II Guerra Mundial.

Não foram acidentes os bombardeamentos a Guernica, a Dresden, a Hiroshima. Tal como não são acidentais os alvos seleccionados pelos mísseis das duas partes envolvidas no conflito que a RTP noticiou esta manhã.
A escalada, o gesto indigno que acicata a sede de vingança num povo que se quer hostil para justificar a sua eventual aniquilação à bruta, constitui uma arma de que qualquer guerra cruel se faz. É isso que fazem, deliberadamente, as partes envolvidas na insanidade que o Médio Oriente protagoniza mas o mundo inteiro interpreta também neste filme com inocentes e com culpados em ambos os lados da barricada.

Apesar de me assumir “ocidental”, não ponho as mãos no fogo por quem me “representa” nesta espécie de cruzada judaico-cristã. Mas também não me revejo na colocação de engenhos explosivos nos transportes públicos para reivindicar seja o que for.
Por isso não gosto de pender para lado algum desta salada letal, tal como não entendo o critério “jornalístico” de uma informação veiculada como a que citei acima.

Morreram quase quarenta crianças vítimas de uma explosão provocada por um dispositivo militar e não pelo rebentamento de uma bilha de gás.

Bombardeamento é um acto deliberado que visa atingir um alvo específico para obter determinada consequência.
Um acidente é um acontecimento súbito, fortuito e imprevisto.

Na Redacção da RTP deveria existir alguém capaz de distinguir estes conceitos elementares.

É para isso que os contribuintes sustentam o tal serviço público que inclui a verdade e a objectividade por inerência.

Pelo menos no Jornalismo digno desse nome.
publicado por shark às 12:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 30.07.06

FIM DE SEMANA ALENTEJANO 2

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Fotos: Shark
publicado por shark às 22:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

FIM DE SEMANA ALENTEJANO

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Fotos: Shark
publicado por shark às 21:56 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 29.07.06

A POSTA À PRESSA

A TMN inventou um concurso para os patos seus clientes que adquiriram uma placa GSM. A prova consiste em testar, em simultâneo, a paciência e a capacidade de improviso de quem só pode utilizar a internet durante um máximo de cinco minutos antes de perder o sinal.
Para quem bloga, o desafio é ainda mais interessante pois priva-nos de ilustrar as postas e obriga-nos a despachar a escrita e respectiva publicação (sob pena de só o conseguirmos à 16ª tentativa).

Embora só esteja disponível nalguns pontos do país, esta modalidade pode ser praticada de norte a sul, nomeadamente no litoral alentejano onde me encontro nesta altura.
Volto já.

Logo que possa e tenha sinal.
publicado por shark às 17:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 28.07.06

A POSTA PRA VER

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Fotos: Shark
publicado por shark às 18:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

NÃO TE PIRES, MARIA JOÃO

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Nenhum país resiste a uma sangria de valores como a que enfrenta Portugal. Sangra pessoas, este país entregue aos vampiros oportunistas e aos medíocres comodistas que lhe impedem a circulação até ao enfarte fatal.
Soa pessimista, fatalista até. Mas só os muitos distraídos ou os que se estão nas tintas não percebem que se instalou uma decadência que nem as euforias patrióticas suscitadas pelo futebol conseguem disfarçar.

Uma das melhores pianistas do planeta é portuguesa e acaba de desertar do combate por um sonho a que dará corpo numa Pátria que não a sua, que o deixou definhar. Belgais transformou-se num projecto de vida para uma virtuosa que queria fazer algo de bom pela terra que a viu nascer.
Não a deixaram, à conta daquela visão curta e mesquinha que caracteriza as últimas vagas de decisores desta nação.

Neste país dos alvarás, onde cada iniciativa requer uma inesgotável paciência para enfrentar a burocracia mental dos que mandam, impressos, requerimentos, autorizações, passe por cá amanhã ou depois, quem manda é o outro a seguir, cresce o desalento de quem se propõe fazer a título individual o que compete ao colectivo estatal que todos suportamos.
O rocambolesco exemplo da colecção que Joe Berardo quase implorou que deixassem ficar em Portugal é outra nódoa das que envergonham e desanimam, outro indicador do quanto esta parvónia se transforma aos poucos numa gigantesca repartição de incapazes, de sanguessugas, de bloqueadores.

Será no Brasil que Maria João Pires dará corpo à sua visão. Lá fora, onde se interessaram pela sua ideia genial. Serão brasileiras as crianças beneficiadas pelos horizontes alargados no conceito de uma portuguesa que nunca nos renegou até que a paciência finalmente se esgotou.
Como tantos outros que abdicam com mágoa, impotentes, da sua terra natal.
E assim sangra Portugal os seus melhores, os que querem fazer.

Na pauta dos que só entendem a música (e o resto da cultura) em tom de marcha à ré, escrevem-se nota por nota, como adágios de frustração, os hinos da despedida a um país que mete dó.

Menor.
publicado por shark às 12:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Quinta-feira, 27.07.06

QUANDO DEI POR MIM...

...Já passava das cinco da matina. E por isso decidi ir assistir ao início do dia sobre o Tejo.
Bom dia para todos/as vós.


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Fotos: Shark
publicado por shark às 09:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

CONTO COM UM FINAL FELIZ

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O velho Baptista, muito tempo depois, ainda frequentava todos os dias o tasco onde ambos se encontravam anos atrás. E ela também.
Cruzavam-se em silêncio, magoados. Estavam separados pelas divergências inconciliáveis de uma relação que nunca deveria ter acontecido. Mas aconteceu, para desassossego dos dois.

Não voltaram a falar depois, mas todos os dias cumpriam o estranho ritual ressentido. Ele sofria e não sabia se com ela se passaria igual. Nenhum deles encontraria uma forma de contornar a situação derradeira, aquela que os havia empurrado para longe um do outro, como carrinhos de choque em permanente rota de colisão. Batiam e fugiam, batiam e fugiam. Até que a última volta chegou.
Um dia os seus feitios embateram sem pára-choques e os danos não se ficaram pela mossa habitual. Foi perda total e a pista fechou.

O velho Baptista, no entanto, olhava para o tempo que restava e torcia-se por dentro de cada vez que a observava sem poder trocar uma palavra sequer. E aquela mulher, tudo em si o gritava, tornara-se uma parte importante, essencial até, do seu quotidiano. Algo que não conseguia explicar, vinha de dentro, incontrolável. Achava-se cheio de razões para nada mais querer daquela pessoa e entendia que assim fosse também do outro lado da questão.

Um dia entrou pelo tasco cheio de determinação. Passou de raspão pela mesa dela, linda como sempre, e deixou tombar sobre o tampo um pedaço de papel.
Depois saiu, mirando à distância a expressão desdenhosa que ela exibira quando lera o que ele havia escrito, antes de o amarrotar e deitar para o chão.
O papel dizia apenas “Não”.

Dias depois, o velho Baptista repetiu a graça.
Outro papel amarrotado, outro esgar incomodado. Mas ele não desistia do que abraçara como uma missão. Trazia o papel na mão, saturado do afastamento que entendia como um cruel castigo.
O segundo papel dizia “Consigo”.

Durante uns tempos, o ancião não apareceu no tasco e ela temeu o pior. Mas não deixava transparecer, orgulhosa, mantinha-se ciosa da sua razão.
Recordava cada uma das asneiras que ele cometera na sua perspectiva. E não reconhecia a sua parte da culpa. Pelo menos não a admitia.
Mas também ela sentia a necessidade de o ver de vez em quando, sozinho, numa mesa qualquer daquele espaço comum.

Disfarçou a alegria que sentiu quando o viu regressar, com um ar abatido, estivera doente talvez. E ele passou pela mesa devagar, olhos nos olhos dela, e deixou o terceiro recado com uma expressão de dor.
Dizia apenas “Viver”.

E ela, intrigada, fingiu-se amuada e machucou-o como aos anteriores enquanto ele espreitava pela montra e seguia o seu caminho habitual.

No dia seguinte ele apareceu outra vez. Parecia desanimado, mas insistiu. Com um aspecto cansado, aproximou-se sem pressa e parou durante uns segundos a curta distância, como que a contemplá-la. Ela fez de conta que não percebeu, conversou com o parceiro da mesa do lado e ignorou o velho Baptista como se ele não estivesse ali.
Pela primeira vez ele não deitou de imediato o papel na mesa. Dirigiu-se ao balcão e pediu uma caneta emprestada, vermelha, e escreveu algo no papel que no caminho de saída deixou tombar mais uma vez.
A última, percebeu ela quando reparou que pela primeira vez eram duas as palavras sem sentido que ele lhe entregava, uma a vermelho e a outra de cor azul.
Esta mensagem dizia “Sem Ti”.

Nos dias que se seguiram ele voltaria, como sempre, ao tasco para a ver. Mas já não escrevia coisa alguma, apenas se sentava em silêncio e bebia o seu café.
Depois saía e olhava-a por detrás do vidro antes de seguir.

Cada dia que passava ela notava o esforço que ele fazia para insistir na sua presença naquele local, vexado e visivelmente desgastado pela ausência de uma reacção.
Ele perdera a esperança, dias depois da última entrega do que considerava uma tentativa de aproximação. A possível, naquelas circunstâncias.
Notava-se no seu olhar perdido numa esquina da mesa ou nas pontas dos pés, na sua apatia, a tristeza que lhe provocaria a incerteza de ela ter entendido ou não o seu recado infantil.

Ela resistia, teimosa, mas sentia-se receosa que ele deixasse de aparecer de vez.
Nessa tarde decidiu oferecer-lhe algo em troca, um sinal qualquer que lhe desse a entender que talvez houvesse uma forma de reatarem a comunicação.
Levantou-se da mesa depois de escrever algo num guardanapo e de o embrulhar em torno de algo que falaria por si.

Passou de raspão na mesa do velho Baptista e deixou cair o guardanapo com um gesto gracioso. E seguiu para a porta, altiva, sorriso nos lábios que dissimulou no momento em que o espreitou enquanto ele abria o guardanapo que dizia apenas “Prova-o” e quatro pedaços amarrotados de papel espalhados à sua frente lhe arrancaram o primeiro sorriso que lhe via desde o dia em que se haviam beijado pela última vez, demasiado tempo atrás.
publicado por shark às 00:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quarta-feira, 26.07.06

I LOVE MY CITY

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Foto: Shark

Vejam mais abaixo algumas imagens da Lisboa que amo.
publicado por shark às 20:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

(LIS)BOA TODOS OS DIAS

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Fotos: Shark
publicado por shark às 20:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 25.07.06

A POSTA DESIDRATADA

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Foto: Shark


O arbusto seco, mirrado pelo calor, soprado pelo vento, rebola sem rumo pelo piso de pó à espera que alguém o siga com o olhar, testemunha, naquela parcela derradeira do caminho que o acaso escolheu.
Cambalhotas sucessivas, mudanças imprevistas de direcção. Está tudo na mão daquele sopro ocasional, no silêncio de um longo funeral que a natureza marcou.

No deserto, a vida das coisas acontece devagar e extingue-se sem dor. O silêncio ao luar e o cheiro da morte que a chuva ausente intensifica, perante a implacável rudeza do sol que não se compadece de ermos assim.

A erva ruim que cresce na saudade da última gota que pingou num pedaço qualquer de chão é o ornamento macabro do inferno ressequido que a Terra oferece como uma visão do futuro global.
O horizonte distorcido pelo efeito das ondas de calor, vida própria animada numa dança colorida de castanho com azul que só vê quem consegue sobreviver. As miragens produzem-se assim, nas mentes sequiosas de imagens milagrosas como oásis verdejantes em pleno nenhures.

A sede de vida a enlouquecer, aos poucos, a alma que pinga pelo suor com os outros líquidos essenciais. Gota a gota no chão, semente escondida de planta bandida e oportunista que as bebe para depois romper de surpresa por entre o tapete de desolação.

E o arbusto que caminha encontra o final da linha com um ramo encravado sob o peso de um calhau. Agita-se num último estertor, ajuda-o o vento, mas a luta é inglória.

E nesse fim da sua história deixa-se ficar com raiz voltada para o céu até um dia se transformar em pó.
publicado por shark às 16:03 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA PRA VER

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Fotos: Shark
publicado por shark às 12:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

A POSTA NA MARATONA

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- Porque é que andas nesse alvoroço, pá?

- Ando a perseguir os meus sonhos. Não os vês lá ao fundo?

- Porra méne, mas olha que eles correm comó caraças!...
publicado por shark às 10:13 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA QUE SE ESTAVA MESMO A VER

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Foto: Shark

Os preconceitos e os pressupostos, depois de despidos, deixam-nos a consciência como uma árvore de folha caduca a meio de Dezembro. Atafulham-nos como erva daninha e corrompem os mais bem cuidados jardins das boas intenções em cada um de nós.
Juízos de valor, manias, palpites, certezas infundadas, esperanças mutiladas pelo faz de conta no nosso interior.
Supera o amor, essa armadilha que se instala ao longo de uma (co)existência recheada do calor humano que tanta trampa atrai e faz circular nos nossos contactos sociais. Adultera-nos o comportamento, a massa disforme de informação que julgamos necessária para melhor identificarmos os inimigos potenciais em cada pessoa.

Claro que não o assumimos dessa forma, pelo menos os mais reservados. Chamamos precaução a essa desconfiança permanente que cedo ou tarde nos faz recuar os dois passos quando ainda mal avançámos um.
Presumimos, intuímos, concluímos até. Se isto então aquilo. Logo vi que ia ser assim. Já estava a prever. Embruxamos diante da bola de cristal embutida no nosso cérebro como um aneurisma pronto a explodir ao primeiro sinal de confirmação da nossa teoria rebuscada.

A confiança limitada, sempre atrás das costas o cutelo do chega pra lá. E os outros sempre tão sagazes, moldados na mesma forma de pão-de-ló, eu não te dizia, estava-se mesmo a ver e as outras confirmações que os factos produzem quando antes nos induzem que a outra ou o outro podem sempre ser uns maus.
Às vezes até são, de vez em quando (que nem aqui a coerência se impõe). E a gente sofre e junta mais um prego no caixão pré-fabricado da nossa fé em extinção.
Outras vezes é a nossa perspectiva adulterada a pregar a partida no desenrolar da situação.
O fenómeno (de)corrente das más interpretações.

Sempre de pé atrás, progredimos aos solavancos pelos caminhos da proximidade possível. Tropeçamos aqui e além, no meio da fuga uns dos outros, as fintas de corpo que a mente nos impõe. Malmequer. Bem me quer. A sorte de acertarmos na pétala melhor e de entregarmos um pouco mais da nossa poupança emocional. Um juro elevado que suporta quem nos atura enquanto a paciência dura nos outros ou em nós.
Costas voltadas, acusações veladas, tiros às cegas num alvo a motor.

E mesmo o amor definha às mãos de tanta suspeita apriorística, de tanto receio com o nosso umbigo maior. Muito sensível às ameaças do exterior. O mundo inteiro, por causa do dinheiro ou simplesmente porque cada vez somos mais idiotas na nossa incursão pelo estranho mundo dos videntes e das médiuns. Paranormal, esta tendência absurda para o conflito interior que alastra como uma praga pela periferia onde acaba por eclodir uma incompatibilidade artificial. Anticorpos contra a infecção, o mal nos outros que pode comprometer-nos a estabilidade beata a que nos agarramos para explicar cada episódio imbecil. Quantas vezes o estúpido somos nós.
Mas em regra só o assimilamos nessa perspectiva quando os danos são profundos demais.

Às vezes dá-me a impressão de que existe um gigantesco equívoco na educação de uma geração inteira, uma enorme rasteira no nosso mecanismo de compreensão do que a felicidade implica e dos (falsos) sacrifícios que pode acarretar. Um medo terrível de tombar de um pedestal que nos isola de forma fictícia dos males na multidão. Todos iguais, exímios na diabolização do parceiro, o passo mais óbvio para a guerra das rosas entre pessoas de bem.
Pensava que, percebi diferente e é-me indiferente se gostas ou não.

A etapa seguinte mais temerosa, lição aprendida à custa de um engano que não queremos repetir. A vida a fugir, nós e o tempo investido às apalpadelas pelo meio da teia viscosa das certezas sem nexo e das falências de relações com tudo o que faria falta para vingarem por si.
Às cegas, retalhamos uns aos outros a tranquilidade que só na confiança se conquista. Cortamos os laços sem querer porque deixamos de os distinguir no meio do breu.
Minamos a solidez.

E depois vagueamos como fantasmas numa busca patética do eterno sossego. No meio de uma sucessão de histórias incompletas onde (quase) nunca acontece um final que nos pareça feliz.
publicado por shark às 00:04 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 24.07.06

VISÕES - Ponte Vasco da Gama

161_6160.JPG 188_8825.JPG 190_9027.JPG Fotos: Shark
publicado por shark às 17:23 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA QUE ME CUSTA ESCREVER

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Como já assumi por diversas vezes mas não me importo de repetir, sou um gajo desconfiado e com tendência para a paranóia. Isso pode explicar-se por diversas razões que se prendem com o feitio mas também com uma sucessão de eventos que me sustenta a fobia da traição.
E não falo (neste caso) da traição em sentido restrito, a cena dos cornos, mas da que está ligada à deslealdade. Laços familiares, emocionais ou de amizade devem ser sagrados e vivo com pesos na consciência por cada gesto que identifico como uma afronta a essas ligações.

Contudo, não é raro ver-me confrontado com a quebra desses vínculos por parte de terceiros, pessoas muito próximas até. E são esses episódios que me vão tornando cada vez menos receptivo à proximidade com os outros.
Ainda assim, não é o acto de traição de que sou alvo que mais me perturba mas sim a injustiça de me ver questionado sem motivo nessa matéria.

Volto a insistir que tenho os meus pecados e não sou um santo (também) nesse aspecto. Todavia, quando dou mais do que devia por um amigo não admito que me apontem o dedo como a um suspeito e ponham em causa a minha lealdade.
Mais do que um insulto, é uma desconsideração e uma injustiça. E fazem-me perder de todo a cabeça com a raiva que toma conta de mim.

São as pequenas merdas de que qualquer pessoa se faz. Cada um tem as suas. E por isso nunca me senti compelido a abdicar dessa revolta instintiva, mesmo sabendo e admitindo que é legítimo da parte dos outros sentirem o mesmo perante as minhas parvoeiras desconfiadas.
É um beco sem saída para as hipóteses de sucesso de qualquer relação de amizade próxima comigo, como é fácil de concluir.
Mas sempre insisti que qualquer pessoa merece um desconto pelas suas fraquezas se em troca oferecer compensações.

A quem as nega não concedo hipótese de retrocesso. Ou seja, se me atingem por sistema com aquilo que entendo como ofensas, desmazelos ou injustiças e nem se esforçam por me dar em troca algo de compensador desse desequilíbrio não há mesmo nada a fazer.
Porque em causa está o respeito que merecemos uns aos outros, muito mais importante do que o orgulho imbecil que corrói a estima pelo ar de desprezo que instila.
Até ao ponto sem retorno…

E na maioria dos casos, o pormenor mais estúpido e grotesco, até bastaria um simples pedido de desculpa para encerrar definitivamente a questão.
publicado por shark às 10:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Domingo, 23.07.06

PALAVRAS PERDIDAS

Palavras que escondem as mágoas são como mentiras piedosas dirigidas a quem as pronuncia. São gatos escondidos com o rabo de fora, ocultam a alma que chora por dentro, como um lamento em surdina que ninguém pode ouvir.
E ninguém quer, afinal. Tristezas dos outros não passam de estorvos à felicidade instantânea que se bebe da alienação. A sede de solidão, isolamento, e as repercussões inevitáveis na sensibilidade que parece não fazer falta quando apenas o próprio está em causa.

As palavras assim ignoradas fecham-se em copas no naipe das espadas que trespassam o coração de quem as proferiu. Transformam-se em lacraus, cercados pelo fogo das verdades que queremos esconder. Rabo de fora, na ponta um ferrão venenoso que num acto de traição inocula um antídoto poderoso contra os benefícios da lucidez.
Tombamos de vez nas garras do desconsolo, incapazes de despertar. O resto da vida para gozar, oferecida de bandeja com todas as iguarias de que a felicidade genuína se faz.

Palavras a sorrir, palhaços pobres, para quem nos ferir, gestos nobres desperdiçados, laços dourados nas prendas para a ingratidão. Mentiras piedosas, fachada, a revolta abafada em nome da ilusão. Até se impor a razão, por linhas tortas, escrita nas palavras mortas para a esperança no milagre sempre adiado. Cravadas no peito de quem faz de conta enquanto pode que melhores dias virão.

Palavras de fel, aguçadas, para escarafunchar as feridas. Das mágoas lambidas sem medo da dor.

As palavras esquecidas falavam de amor.
publicado por shark às 19:39 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 22.07.06

A POSTA QUE HÁ QUEM ME PREFIRA COMO SOU

A partir de certa altura comecei a notar um desfasamento entre a minha atitude e a de muitos dos que me acompanhavam pela vida nos dias da juventude. De repente ficaram mais sérios do que eu, a maioria. Cresceram mais depressa e mergulharam na pose adulta enquanto eu insistia em agarrar-me ao que podia para retardar a minha entrada naquilo que me parecia uma seca de estado de espírito.

Sem deixar de assumir as responsabilidades normais para um gajo como os outros, enveredei sempre por um culto paralelo de traços que apreciava e me recusava abdicar.
A maluqueira, sobretudo. A capacidade de desbundar depois de adulto boa parte das coisas que pintam como impróprias a partir de uma “certa idade”.
Eu não sei que idade é essa e francamente não me interessa.
Honro os meus compromissos “crescidos” mas não deixo de incutir algo do puto em mim em tudo o que faço e em muito do que sou.

Acredito que essa insistência em preservar a irreverência, alguma ingenuidade e disponibilidade para a aventura me torna um tipo diferente para melhor. Menos certinho, menos alinhado, menos cota.
Todavia, tenho consciência de que alguns desses tiques de chavalo me inferiorizam aos olhos de quem prefere pessoas “maduras”, constantes, regulares.

Aliás, desde há muito percebi que o meu feitio imprevisível constitui um barómetro para o quanto alguém gosta de mim.
Enquanto se divertem com as peculiaridades que o meu lado adolescente produz, encantados com essas diferenças, não escondem o seu apreço.

Confirmo o fim do estado de graça quando vejo as mesmas pessoas, carregadas de desdém, a resumirem a sua falta de pachorra no que já se tornou num clássico da minha existência.

Vê se cresces, dizem eles.

Quem me conhece e me estima de verdade sabe que isso corresponderia à morte em vida de um gajo como eu.

Contudo, na maioria dos casos isso pouca relevância assume para quem me tolera enquanto dou jeito, acham piada, é bom prá paródia e tal, e se está a cagar em mim quando as facetas joviais colidem com os seus interesses sempre manifestamente superiores aos de quem, afinal, não passa de um gaiato aos seus olhos onde já espreitam as cataratas de uma velhice prematura.

Mas eu sou teimoso, fico assim.
Só me interessa agradar a quem gosta de mim.
publicado por shark às 01:12 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 21.07.06

PALAVRAS SISUDAS

As minhas palavras não bastam e as ondas arrastam as areias dos castelos, movediças, até ao ponto onde a memória os esqueceu.
Tudo o que se varreu e já não basta escrever nestas pedras de gelo expostas ao calor de um sol apagador e da falta de zelo nas más interpretações.
A fúria que resulta da incompreensão. Distância maior, ao longe o amor a desaparecer para lá do horizonte, a cor a esbater no céu que a noite escureceu na sua ausência.

Até que amanhece, um novo dia, por detrás dessas pálpebras agora fechadas, quando os olhos reflectem o que o coração me diz a sorrir e as tuas palavras sisudas não conseguem, mesmo à bruta, desmentir.
publicado por shark às 15:39 | linque da posta | sou todo ouvidos

VAMOS A LA PLAYA

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Fotos: Shark
publicado por shark às 12:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quinta-feira, 20.07.06

INSANIA

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Foto: Shark

Até os pássaros no céu alinham em formação e desenham um Vê. Que recuso, viro a cara para o outro lado, um olho meio fechado e o outro a fingir que também cegou.
Voam para longe, onde a minha vista não alcança a mensagem do despertador que me grita a hora de acordar está aí.

O esquadrão alado fala-me do tempo desperdiçado a dormir sobre o assunto. E eu sinto muito que este sono inquieto desperte desfeito nos sonhos por concretizar.

Despejo água benta de uma gamela, presunção, sobre esta nojenta ramela que me tolda a percepção.
E um dia espreguiço o olhar no voo das aves, quase sem querer.

Fica então acordado que em cada sonho frustrado existe um sinal para ler.

Nas entrelinhas do oráculo ou nas entranhas da minha intuição.
publicado por shark às 21:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

TRAVESSA DO FALA SÓ

Nem tudo o que luz é ouro.
E eu sou um garimpeiro pitosga...

Amador.
publicado por shark às 16:09 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Pelo menos é o que parece, com o tempo a fazer cara feia nuns lados e a sorrir escancarado nos outros...
publicado por shark às 12:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

AMIZADE CIUMENTA

Enquanto fumo um cigarro à janela vejo do outro lado da rua o meu amigo que “gosta muito da minha companhia” mas anda sempre demasiado ocupado para tocar à minha porta. Porém, tem tempo para andar atento, todos os dias, a ver se um outro amigo (melhor do que eu, a avaliar pelo cenário) está em casa para poder com ele conversar.
E entretanto eu vou fazendo o meu papel e procuro-o, com insistência, feito melga.
Posto no meu lugar, e dado que os amigos comuns que moram no meu prédio também reparam nessas merdas, as conclusões não podem ser agradáveis ou lisonjeiras. E embaraçam-me de alguma forma.

E por isso sou capaz de fazer de conta que não estou em casa da próxima vez que ele vier em busca da solução de recurso para entreter o ócio em que pretende transformar-me.

E vou seleccionar melhor as companhias, para evitar este tipo de constatações que me magoam e inferiorizam.
Estamos sempre a aprender...
publicado por shark às 11:47 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NA FACHADA

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Fotos: Shark
publicado por shark às 10:48 | linque da posta | sou todo ouvidos

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

Postas mais frescas

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