Domingo, 30.04.06

TERAPIA

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Os milagres, fruto do acaso, acontecem. Conjugações perfeitas para um desenlace ideal.
Mas o acaso, que não é fruto dos milagres, também acontece por si. Não estava escrito, mas às vezes conjugam-se forças malignas (e outras) com o intuito de provocarem uma súbita vontade de reescrever a(s) História(s).
Basta às vezes um pequeno empurrão da mente, de algum instinto de conservação, e eis-nos capazes de cometer os excessos oportunos que nos evitam maçadas. Ou descambam num mal pior.

E o pior é nunca conhecermos as repercussões. Nunca sabemos se as nossas decisões são as mais indicadas para nos poupar às ditas maçadas, aos fretes que pretendemos inconscientemente evitar. E por isso nos deixamos levar, arriscamos que algo corra mal, o pretexto ideal para nos safarmos à justa do que nos incomoda enfrentar. Pelo receio da pior escolha.

Porque temos sempre opções alternativas, quando às expectativas se junta um impulso real.
Depois analisamos as coincidências, medimos as consequências e até achamos que há males que vêm por bem. Como a tempestade medonha que se abate sobre um incêndio difícil de controlar. Oportuna, surge no horizonte como uma benção cinzentona por substituição. Do mal o menos, direito por linhas tortas e assim. Todas as histórias têm um fim que os meios justificam. E cada evento inesperado surge com o cunho gravado de uma premonição, com a clareza de um sinal.

Os azares, fruto de coincidências aziagas, acontecem também.
São evidências reveladoras de que alguém optou pelo caminho pior, nesta vida que de opções se vai fazendo aos poucos.

Ou não, porque às vezes a desgraça de uns pode ser a sorte de outros.
publicado por shark às 23:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

EUCARISTIA DOMINICAL PAGÃ

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Já aqui afirmei repetidas vezes o quanto adoro mulheres. E isso não faz de mim um machão das dúzias, pois igualmente assumi a minha quota de flopes e o facto de isto (eu) não ser o da Joana.
Isso seria interpretável dessa forma se algures eu tivesse reduzido essas criaturas soberbas a algum papel específico na minha existência, nomeadamente a satisfação de algumas necessidades primárias. Não reduzo. Porque representam para mim um dínamo, um gerador de toda a energia vital para o normal funcionamento do conjunto que formam as minhas partes.

Boa parte de mim funciona pelo amor. E é aqui que entro no âmbito desta posta dominical, mais ligeira. Tentei perceber o porquê de estas duas maravilhas do mundo, o amor e as mulheres, constituírem a principal atracção do espectáculo da vida tal como a experimento. E encontrei alguns paralelos que podem explicar esta minha apetência para os dois temas em apreço.

O amor surge na nossa vida de rompante. Nunca estamos à espera. E nunca sabemos o que esperar dele e de nós quando aliamos o desnorte emocional à euforia sem controlo.
O amor apodera-se da nossa vontade, conduz-nos pelos caminhos que lhe interessam, manipula-nos a acção.
O amor pode ser a fonte das mais agradáveis emoções ou a origem dos mais graves dilemas. É caprichoso nos humores.
O amor é sempre belo e arrebatador. Pode seduzir-nos para uma viagem ao céu ou arrastar-nos pelas orelhas, enganar-nos, até ao mais duro padecimento dos pecadores. Porém, nunca questionamos o destino final da viagem e avançamos sem freios até darmos de trombas com um precipício bem fundo ou com um paredão qualquer.
E nem mesmo aí deixamos de amar as memórias…

Por outro lado, apesar de um amor poder destabilizar na boa todo o sistema (imuno)lógico que nos protege das doenças do coração em sentido figurado (como sede romantizada da paixão), é também a melhor vacina contra todos os males que nos possam afectar na mona. Enquanto se ama, tudo à nossa volta sorri. Flores e passarinhos, estrelas e foguetões, de tacha arreganhada aos nossos olhos apaixonados num mundo intenso e feliz.

Mas também chega a mostarda ao nariz deste sentimento que equiparo a uma manifestação de Deus tal como o concebo no agnosticismo que benze a minha ignorância em matéria de fé. Um amor atraiçoado, em crise ou acabado é devastador como um imenso temporal. Do oitenta ao oito em milésimos de segundo. E vice-versa também.
Imprevisível, adorável, insubstituível, mais uma porradona de argumentos para o tornar num vício que metadona alguma consegue substituir.

E as mulheres?

Bom, considerando na minha liturgia o amor como Deus, as mulheres são como Jesus.
Representam na terra o Senhor.

E os senhores personificam a sua cruz.
publicado por shark às 18:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

POR LINHAS TORTAS

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Também é um alívio entendermos que determinado problema não tem solução.
Mesmo sem o desfecho que preferíamos, fica resolvido na mesma.
Por inerência.
publicado por shark às 17:31 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 29.04.06

A POSTA NA REDENÇÃO POSSÍVEL

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É um alívio, sempre que podemos observar a nossa superioridade moral de uma perspectiva realista. De um ponto mais baixo, portanto. Daqueles em que as nossas (más) acções nos colocam, mal as percebemos como um erro grosseiro e colossal.
As coisas capazes de nos provocarem vergonha, a fustigarem-nos a consciência por colidirem com o conceito de superioridade de forma frontal. E desaba um gajo do pedestal onde apenas ele se colocou, ufano, cheio de certezas no cagar e de firmeza nas convicções nas quais se empoleirou.
É então que as outras pessoas ficam maiores aos nossos olhos, iguais e não inferiores pelas suas inevitáveis fraquezas que cedo ou tarde identificamos.

Acontece aos melhores, mesmo aos que só se acreditam nesse nível mas não estão. Eu tenho a minha conta de violações de alguns valores e princípios que abracei em teoria. Actos ou palavras que contrariam a intenção manifestada, a superioridade alardeada, rasgam em pedaços o frágil pergaminho em que nos apontamos sempre com o corrector à mão.
Lições de humildade, por nos obrigarem a amochar perante os pontos fracos da nossa gestão pessoal. Lições de estratégia, por nos ensinarem a optar por outros caminhos perante as derrotas com que o tempo nos ensinou. Lições de vida, afinal, que devem servir para nos aproximarem mais do que vale a pena e ignorar os aspectos acessórios que nos perturbam a concentração.

Falo-vos do quanto nos faz bem entendermo-nos vulneráveis à contradição, à imensa pressão de pedaços de existência condicionados por um factor exógeno qualquer. Dos tais que, regra geral, nos empurram de carola para a asneira e nos deixam à mercê de quem, regra geral outra vez, não concede o perdão. Porque há sempre quem nos atire de volta os estilhaços da deflagração do disparate ou da maldade que fizemos, a vida encarrega-se do que Deus deixa escapar por sobrecarga de trabalho neste mundo senil.
Falo-vos do facto de valer a pena agacharmo-nos para espreitarmos a nossa verdade tal como ela é, sem flores, sem adornos atenuantes ou enfatizações subjectivas.
Sentimo-nos menos obrigados a representar um papel, aceitamo-nos com as cargas pejorativas que a nossa intervenção possa criar.

Aprendemos a lidar com essas limitações, enfrentando-as, partilhando-as com quem merece confiança. De fora, vê-se a realidade dos factos com maior nitidez. Os olhos do outro, transparentes, detectam melhor as nossas fraquezas e acabam por suportar muitas vezes as consequências da sua exibição. Pelos olhos do outro detectamos as falhas que a nossa cegueira não permitia identificar. E é assim que conseguimos conviver com alguém, receptivos à denúncia do que nos escapa na avaliação do que nos trai.

É assim, pelo intercâmbio de mazelas que aprendemos nas nódoas negras alguma lição útil para o passo a seguir. A luz que ilumina o traçado correcto a percorrer.
É também esse um dos motivos para a solidão ser muito traiçoeira para a nossa construção como pessoas. A sós somos incapazes de recriar o termo de comparação que nos orienta, ficamos entregues à funcionalidade da nossa lucidez. Que, todos sabemos, sucumbe à maioria das grandes emoções.

Sinto-me bem por reconhecer o mal naquilo que me representa. Porque gosto de o combater, sem tréguas, para sentir que de alguma forma progredi na minha evolução.
Sem peneiras, pois um gajo consegue sempre puxar pelos brios e oferecer a si próprio e aos outros as devidas compensações pelo transtorno e os benefícios que se extraem das consequentes ilações.

Aceito-me imperfeito. E assim renuncio ao direito de apontar nos outros as suas falhas sem com eles partilhar as minhas.

Fico sem vontade de emitir juízos de valor.
publicado por shark às 23:02 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

BOA ZONA

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Foto: sharkinho

Para quem gosta das minhas fotos e tem curiosidade em conhecer melhor a zona onde acontece a minha vida analógica criei o LX ZONA ORIENTAL.
Este blogue pega pela derradeira utilidade da extinta Casa de Alterne, mostrar fotografias, embora tenha um âmbito mais restrito.
Convido-vos a visitarem esta nova manifestação virtual do que sou e de como vejo o que me rodeia.
publicado por shark às 15:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 28.04.06

A POSTA INSANA

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Agride-o a luz que lhe invade o espaço privado de penumbra, sempre que alguém entra no quarto para alargar um pouco mais as correias da camisa de forças.
publicado por shark às 23:36 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho
publicado por shark às 18:11 | linque da posta | sou todo ouvidos

E PARA CONCLUIR

Alguém vestiu a pele de cordeiro com o nítido intuito de lesar os meus interesses e os da minha parceira de blogue. A verdade veio à tona por coincidência, apanhou-nos de surpresa.
Agora, identificada a verdadeira natureza de quem nos prejudicou, resta-nos tentar entender porquê.

É estranha, esta animosidade que se gera sem razão que o justifique. E na blogosfera está sempre a acontecer, como se fosse regra encarar os outros como peças de um jogo de xadrez.
Somos pessoas, carne e osso, por detrás desta capa virtual. Aplicam-se os mesmos princípios aqui como em qualquer outra dimensão da vida que vivemos no tempo que nos calhou.

Estou desiludido, mais uma vez, e embora tenha o meu quinhão nas desilusões que proporcionei, nunca pensei que alguém se desse a tanto teatro só para lesar os interesses de alguém por simples embirração.

Este meio alberga gente perigosa, por muito que não possa parecer.
Vou dar menos conversa. Para minha protecção.
publicado por shark às 12:06 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 27.04.06

A POSTA PARA VER

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 21:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)

A POSTA NA COINCIDÊNCIA II

É um clássico. Uma amiga que há muito não via, professora universitária, a preparar o regresso ao mundo virtual. Os amigos e as amigas. Os amigos e as amigas da blogosfera. O mundo pequeno, onde todos se conhecem embora não pareça.
Uma conversa, um convite para um evento ligado à nossa comunidade, quem vai quem não vai. Ligações entre as pessoas. Coincidências. Revelações.
Fazem-se perguntas. As respostas não batem certo com o figurino, relativamente a terceiros. Ficamos ambos a saber (a duvidar) o mesmo, em simultâneo, boquiabertos e embaraçados pela surpreendente descoberta.
O mundo minúsculo. E o destino brincalhão.

Combinamos questionar as pessoas em causa, para testarmos a sua reacção e percebermos a verdade dos factos antes ocultos que o nosso diálogo revelou.

A minha verdade, a parte que me tocava, foi sem dúvida a mais foleira.
Mas já nada me surpreende.

As pessoas são assim...
publicado por shark às 20:59 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NA COINCIDÊNCIA

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O mundo é cruelmente pequeno...
publicado por shark às 20:36 | linque da posta | sou todo ouvidos

COM AS LETRAS TODAS

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Dezassete dias depois, o AEIOU ainda não respondeu à primeira e única solicitação que lhes fiz. Sou um cliente dos que pagam pelo espaço ocupado, o que me deveria garantir o obséquio de uma resposta em prazo razoável a um pedido muito simples.
Apesar de – e que isso fique bem claro - este blogue não ser um blogue colectivo (é o meu espaço e partilho-o com quem me apetecer, embora responda apenas pelo que eu próprio escrevo e afirmo e nunca pelo que a Mar ou qualquer outra pessoa aqui publique), solicitei aos novos proprietários do Weblog que fornecessem uma password distinta para a autora a quem abri as portas do charco (precisamente para que, cada macaco no seu galho, nunca existissem dúvidas acerca da autoria do que aqui se divulga e para legitimar e garantir a autonomia de cada autor/a).

Dezassete dias depois, continuo sem uma resposta à minha solicitação. Este indicador, somado à ausência de qualquer menção no site do AEIOU à comunidade que representamos (nem mesmo nos “links essenciais” da homepage deles), evidencia a falta que o Paulo Querido faz e fará na gestão corrente das miudezas do Weblog.
Não há espaço de manobra para benefícios da dúvida, nem mesmo após as duas intervenções da nossa “gestora dedicada” no espaço do Weblog.
No abecedário dos novos donos não existe uma letra que nos ligue a quem parece ter comprado para deixar cair.

Quem não está bem muda-se. Quanto a isso, nada a obstar e tenho na minha mão esse recurso no momento da renovação contratual (até já preparei um espaço alternativo no Blogger). Mas estava bem e ambicionava ficar melhor. Os sinais indicam o sentido contrário e sente-se o desconforto de quem vê ressurgirem as macacoas no funcionamento da plataforma e não sente do “outro lado” a mesma disponibilidade para o contacto a que, mal ou bem, estamos habituados neste grupo de centenas que movimentam milhares.
O silêncio da nossa parte será interpretado como uma anuência a este estado de coisas e ninguém conte com o Sharkinho para alinhar de forma passiva perante as realidades que acima enunciei.

Senhores responsáveis pelo AEIOU: a minha voz dissonante não é um caso isolado e está na hora de levarem mais a sério o esforço de quem criou e de quem mantém viva esta virtualidade bem real que adquiriram.
Agradeço a vossa atenção e fico a aguardar a resposta em falta.

Actualização: como podem constatar na caixa de comentários desta posta, já existe uma explicação para a ausência de uma resposta (provável extravio do email) e a Cátia Pitrez está em contacto connosco para resolver o problema.
Pode ser que ultrapassados os problemas de comunicação as coisas se componham...
publicado por shark às 10:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Quarta-feira, 26.04.06

DIA NEGRO

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Foto: sharkinho

Foi o pior momento da história recente do planeta em termos ambientais. De repente, um reactor nuclear decidiu atraiçoar a fé da Humanidade numa energia alternativa ao petróleo em extinção. Explodiu, sem motivo aparente que não a inadequada manutenção e eventual falha humana na resposta à situação de emergência, e envenenou tudo em seu redor.
Ou pelo menos tentou, embora a Natureza tenha sabido reagir ao ataque vil e insidioso da cicuta em forma de radiação.

As pessoas não. Muitas morreram na altura e outras ainda hoje pagam o preço dessa traição energética que alertou o mundo para a condição decrépita das instalações nucleares naquela zona do globo.
A proliferação de centrais nucleares, de que o nosso país está, felizmente, a salvo nesta altura, deixa no ar o temor pelos efeitos nefastos que podem resultar de uma desatenção ou do excesso de confiança nos mecanismos de controlo destas bombas-relógio que, para mal dos nossos pecados, constituem um mal necessário em função da escassez de alternativas realistas para a bronca que se prepara à medida em que se esgotam as reservas petrolíferas.

O disparo do preço do petróleo, aparentemente incontrolável, empurrará ainda mais as nações dependentes do ouro negro para a solução nuclear e continuarão a multiplicar-se estes infernos potenciais na paisagem.
Contudo, crescem de tom as vozes dos que receiam a insistência nesta opção, nomeadamente os ambientalistas, precisamente pelo rasto cancerígeno deixado pela tragédia que Chernobyl conheceu.

Esta data ficará marcada na História como um dos momentos mais tenebrosos que o progresso tecnológico nos exibiu. Não há bela sem senão e se é verdade que nada antes fazia prever esta traição por parte de uma central nuclear (pelos apertados esquemas de segurança que as rodeiam), não é menos verdade que um pouco mais de atenção aos sinais de alerta poderia ter evitado o pior.

Temos que acreditar que ficou aprendida a lição em definitivo e que nenhuma nova oportunidade será concedida a estes reactores de sobreaquecimento fácil.
E de torcer para que continuem bem longe de Portugal essas ameaças latentes cujas bocarras venenosas (ver foto) podem a todo o instante semear pelo ar que respiramos o cheiro fétido da morte, do engano fatal que pode constituir este investimento numa fonte de energia que até nos resíduos da sua exploração engloba um risco de proporções inimagináveis.

Porque felizmente existem alternativas para evitar a repetição destas tristes efemérides.
publicado por shark às 13:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Terça-feira, 25.04.06

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As três idades da mulher, por Gustav Klimt

De quando em quando, volto ao tema. É tão recorrente quanto inevitável. Resultado de pouca apetência para o disfarce, de sermos mais dados à transparência que à performance ficcionada de um nick.
Andamos por aqui, anos a fio, a desfiar contas de rosários que, na vida real, não contamos a qualquer um. Desmascaramo-nos nas palavras que partilhamos com olhos estranhos. Confessamos mágoas e amores e registamos anseios, numa ilusão febril de garantir que perdurarão para a posteridade. A nossa mais a dos milhões que a eles terão acesso.
Despertamos sensações de doce calor nas emoções alheias, fazemos amigos e inimigos virtuais, somos sujeitos a julgamentos de quem acha que nos conhece pelas mostras de carácter que nos lê. E que podem ser tão verdadeiras quanto a marca de uma camisola da contrafacção.
Há de tudo e para todos os gostos, nesta democrática sociedade de classes que decalcamos para aqui.
Não invento uma pessoa fabulosa por detrás do que aqui escrevo, tal como não o faço na realidade analógica que me acolhe os dias. Dá-me gozo ser eu própria a personagem que represento, em qualquer dos casos. Com virtudes e muitos pecados capitais. Nem melhor nem pior do que ninguém. Just me.

Desconfio que sou composta de fraquezas e delas faço a força que me sustém. Encaixo peças de contradições e extremos incompatíveis, que fazem de mim um puzzle muito pouco fácil de entender.
Sou tantas vezes anjo quanto pecadora, padeço de soberba e ira mais vezes do que gostaria mas não tenho inveja de ninguém e a gula, só se fôr de uma refeição com muitas velas e um bom vinho, à mistura com a companhia perfeita. Da avareza nada sei, ocupada que estou em garantir a subsistência e desbaratar o resto nos pequenos prazeres que fazem com que valha a pena viver: uma cerveja gelada numa esplanada com os pés na areia, um fim-de-semana inesquecível num pequeno hotel perdido no cimo do monte, uma tarde de sal na pele e mar no olhar, enroscada em alguém muito especial. Emociono-me, tantas vezes, com a humildade, as crianças, com as Causas. Mas também com um céu rasgado de cores naquele momento em que a noite se espreguiça de mansinho ou uma música que nos desliza pelos sentidos. Noutras ocasiões, sou uma estátua de gelo.
Confesso a preguiça. Opto, sempre que posso, por saborear o remanso das manhãs ou deitar cedo com um (muitos) livro(s) à cabeceira e usufruir do luxo do descanso, sem culpas.
E pratico a luxúria com despudor. Quando me deixo ir, drag around pelo turbilhão de dois corpos em sincronia perfeita. Sempre que dedos de seda me percorrem a curva do pescoço e se quedam esquecidos por entre o meu corpo ou um sussuro morno me sopra os lábios e os cabelos. Em todas as vezes que o brilho de um olhar antecipa o arrepio e um beijo no interior dos pulsos desencadeia uma tormenta.

Vivo pois, vivo e sonho muito, à minha medida, sem complexos ou condicionantes, por muito que mos tentem impôr. E curto à brava observar os outros, descodificar intenções, ler-lhes os olhos, intuir a verdade e honestidade tanto como a fraude.
Dou de barato a maledicência e a dor de corno e faço o que me dá na gana, sempre e quando entendo que o quero fazer. É assim desde que, muito cedo, descobri que não há grilhetas capazes de domar a força de uma vontade. Foi assim que me ensinou quem me pôs no mundo, me abriu os olhos à injustiça, me mostrou o valor de reclamar direitos e cumprir deveres.

É este, hoje, o tributo que lhes presto. O do orgulho em ser como sou.
E é esta, a liberdade que canto neste dia. A minha.

Mar
publicado por shark às 00:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

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Obriguei a vida a libertar-me aos poucos de uma série de grilhões e de empecilhos que me atrofiavam. Essa missão ainda não se completou e acabo por gerir a existência como uma espécie de revolução inacabada. Como aquela que comemoramos, contra a vontade dos que prefeririam a carta branca para impor regras em benefício próprio e de um reduzido séquito de compadres e de serviçais.

Era um puto quando aconteceu o 25 de Abril, sorte minha. Poupei anos em Caxias ou uma vida de merda, clandestino num exílio qualquer. O meu contacto com o cariz bafiento e hediondo do regime fascista (bois pelos nomes, claro) circunscreveu-se à porrada que os professores davam na escola, com o beneplácito do Estado, da Igreja e da família, e a mais meia dúzia de pormenores a que um chavalo dava pouca importância.
Retive o que interessava, dos meus passeios em chaimites e da observação da euforia colectivista que enlouquecia a vizinhança.

Grupos, clubes, comités e associações nasciam por todo o lado porque todos queriam fazer coisas. Todos queriam o seu quinhão da liberdade conquistada e do poder que o povo nunca cheirara, excepto na versão (vam)pidesca que lhe irrompia pela porta de casa em madrugadas de terror.
Coisas a que ninguém dá valor, por soarem ficcionadas. Mas a ficção fazia-se de pessoas perseguidas, torturadas, sem licença para exprimirem os pensamentos que a maioria recalcava no plano secreto dos medos justificados. Coragem do desespero, a que movia algumas pessoas pelo underground das ideias proibidas.

Quem não alinhava (amochava) sentia na pele e na vida as consequências inevitáveis que os bufos ou os senhores inspectores impunham em nome de um ideal doentio, de uma vergonha para qualquer nação civilizada.
Só descobri essas verdades depois, mas julgo que aprendi a lição.
A minha rebeldia, exibida em todos os palcos que pisei, seria certamente a minha perdição no futuro alternativo que a Revolução me poupou. Assim, acabou por constituir o mote para o pouco que dei de mim à luta pela consolidação dos valores que só a liberdade garante.

A minha liberdade não é negociável. Nem aceita passiva a mais pequena limitação, se injustificada. Apenas a disciplina que reconheço necessária para impedir o desgoverno das multidões e a rédea solta para oportunistas, facínoras e medíocres.
Só neste aspecto a democracia me falhou (bom, a lei do aborto e a eleição do Cavaco também me ficaram atravessadas…). Eles andam aí e contornam sem problemas todos os débeis mecanismos de controlo que acabam por lhes legitimar os abusos, quando manipulados com estratagemas que não passam de ratoeiras para quem se veja no meio do caminho dos múltiplos poderes feudais, o caciquismo que abunda em todas as dimensões do quotidiano.

A minha liberdade serve para falar sem mordaças, amar sem reservas, pensar sem espartilhos e escrever sem temer o lápis azul. Sem o papão de uma guerra colonial estapafúrdia (que a minha Pátria é, sempre foi, Portugal mais as ilhas. E Olivença, do ponto de vista do Direito Internacional, enfim…).

Tenho para mim como certa uma existência sem papões mandões que pretendam controlar-me a cabeça e a vontade que ela consegue produzir.

E por isso não esqueço a gratidão devida a quem me ofereceu este dado tão adquirido que até parece eterno.
Não é. A liberdade pode perder-se de muitas formas e na maioria dos casos só percebemos que a perdemos quando batemos com a mona nas grades insidiosas, de aparência inofensiva, que nos cercam cada movimento, cada pensamento, cada manifestação de vontade própria. A ilusão em que nos embebedam enquanto refinam a sua maquinaria instalada na democracia para nos subverterem pela ambição, até cuspirmos veneno de cobras.

A luta continua e eu não deixo cair o chavão.
A nossa velha Revolução anda a precisar de obras.
publicado por shark às 00:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 23.04.06

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Se os dvd e os download piratas prevalecerem, estes dois podem ter que mudar de vida...

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...como parece ter acontecido com o criador desta cena, apesar de muito mais bonito e melhor dotado do que o par anterior.

Mesmo quem, como o Lobo Antunes, afirma que um livro (uma criação) deixa de nos pertencer mal o partilhamos com outras pessoas não deixa de reclamar o seu quinhão na hora de fazer as contas.
O direito de autor não é uma maçada para quem usufrui do que alguém criou. É uma pequena compensação pelo que de bom representa o esforço de quem produz arte ou cultura. É a remuneração pela prestação de um serviço que só alguns conseguem executar com mestria.
É exactamente o que acontece com qualquer trabalho em benefício de terceiros.

Para os blogueiros, a questão do direito do autor faz parte da pasta anárquica em que desenvolvemos os nossos actos de criação virtual. Na ausência de qualquer tipo de legislação séria que nos garanta, no mínimo, que nos peçam licença para divulgarem (ou se apropriarem) dos textos ou das fotos que publicamos, ninguém precisa pedir.
Contudo, e sobretudo nos casos em que o talento de quem faz sobressai, faz pouco sentido que ninguém se sinta disposto a remunerar essa produção (como o faz quando publicada noutro suporte, como um livro ou um jornal) e ainda menos sentido se encontra no desplante com que abarbatam palavras e imagens e lhes chamam suas.

Esqueçam a questão financeira, se vos melindra, e concentrem-se na indignidade subjacente a esta questão. E tomem o parágrafo anterior como uma analogia para o que verdadeiramente está em causa: ninguém gosta de trabalhar de borla e mesmo quem gosta precisa de sustentar a vidinha.
É muito bonita a imagem do criador desprendido, mãos largas, que oferece ao mundo com generosidade o que a sua mente produz. Mas corresponde a um ideal romanceado que não tem lugar nos nossos dias porque o mundo mudou.
Daí, de toda a riqueza que uma obra pode gerar estipulou-se uma pequena parcela para remunerar os seus autores. O resto da compensação é o reconhecimento da autoria, do valor intrínseco, da capacidade de quem fez.
A apropriação indevida desse merecido retorno é a tal (outra) indignidade que o direito de autor evita.

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Para isto fazer sentido (postar à borla), os livros sobre blogues deveriam ser de distribuição gratuita.

Claro que este critério deveria aplicar-se a alguma blogosfera, embora se adivinhe nesse caso a deserção das enormes audiências que apenas distinguem os muito bons (seja no que for). Mas sobretudo deve aplicar-se aos domínios onde a criação efectivamente gera riqueza, até porque só assim será possível o acesso de muitos talentos a uma carreira e a um modo de vida baseados no conceito da propriedade intelectual. Não é um dogma, é uma questão prática, elementar, de sobrevivência da arte e da cultura numa sociedade onde predomina a tirania do vil metal.
São já poucos os que aceitam dar de si enquanto vegetam na miséria ou numa vida atormentada pelas contas por pagar. Acabam por desistir, ocupam-se num ofício qualquer e um dia descobrem que perderam a vontade de criar em part-time o conteúdo empoeirado das suas atafulhadas gavetas.

Por isso é importante a questão do direito de autor e por isso é determinante exterminar qualquer forma de pirataria. Pelo respeito que nos merece quem possui um dom e pela mesma decência que justifica uma retribuição a cantoneiros, a professores, a escriturários, a todos quantos contribuem de alguma forma para termos uma vida melhor (logo à partida por termos quem saiba e se predisponha a executar essas tarefas).
Os artistas, quaisquer criadores, fazem parte de um aspecto decisivo desses pequenos nadas que nos agradam e nos contrabalançam as perdas por desgaste que um dia normal acarreta.

Apesar de algumas formas de expressão, como a música e o cinema, estarem associadas a muito glamour e a pessoas milionárias, existe um batalhão de anónimos que vive por conta dos postos de trabalho sustentados por essas indústrias. Ou seja, o argumento de que eles tão cheios dele e um gajo tem é que comprar barato para não lhes encher mais o cu não colhe. Se, como acontece no futebol, me insulta o nível de absurdo que atingem as retribuições dos dotados em Hollywood, insulta-me de igual forma assistir à agonia das editoras discográficas que prenuncia idêntico destino para as distribuidoras de cinema que a net e o suporte DVD ameaçam.
Muita gente, técnicos de imagem e de som, tradutores, motoristas, carpinteiros, vivem das receitas legítimas que são geradas por este fenómeno global.

O mesmo acontece no âmbito da Literatura e de outras formas de expressão cultural e artística, igualmente ameaçadas se o direito de autor for questionado ou pirateado de alguma forma.

O plágio, como a cassette pirata ou outra roubalheira qualquer, constituem faces da mesma realidade com perna de pau.
Constituem as ameaças dos corsários da actualidade nas suas navegações marginais pelos pântanos da baixeza de carácter e da mediocridade em pechinchas.

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VInde a mim, criancinhas incautas, quero-vos impingir umas cópiazinhas baratas. (Foto: sharkinho)
publicado por shark às 19:06 | linque da posta | sou todo ouvidos

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Foto: sharkinho

O primeiro livro que li causou-me uma impressão de tal forma marcante que nunca mais o esqueci nessa condição pioneira. Foi o meu primeiro contacto com conceitos horríveis, como a escravatura e o racismo. Mas também foi a primeira vez que tomei conhecimento da densidade que as pessoas revelam, no que de bom e no que de mau as caracteriza, e que me vi forçado a optar por um modelo à medida da minha sensibilidade imberbe da altura.
Chorei a ler. Pela injustiça, pela abnegação, pela dedicação, pelo ódio, por todas as emoções que uma autora condensou naquilo que hoje se comemora.

O primeiro livro que li fala de liberdade e foi escrito por uma mulher. Uma feliz coincidência, se calhar, reunirem-se na frase anterior três dos meus amores mais preciosos. Ou então terei que assumir sem hesitação a influência desse primeiro amor pelas Letras no homem em que me tornei.
Odeio a repressão, a lei do mais forte, a exploração do homem pelo homem. Amo a liberdade e nunca aceitaria que dela me privassem. E adoro as mulheres, porque me atraem como um magneto poderoso e, se calhar, porque foi uma mulher que me ofereceu a primeira experiência, o primeiro mergulho num mundo que nunca mais deixei e que está na origem da minha presença na blogosfera. Porque se escreve e porque se lê.

Harriet Beecher Stowe (por coincidência partilha o apelido com uma das mulheres cuja beleza mais me impressiona, a actriz Madeleine Stowe) foi uma abolicionista cujo trabalho em muito contribuiu para o clima que deu origem à Guerra Civil americana.
Foi uma lutadora, esgrimia as palavras para golpear as consciências dos que toleravam a aberração esclavagista que grassava no seu país.
Os livros como arma, como grito de liberdade, mesmo no acto de quem os escreve para fomentar a sua privação. Porque é preciso ser livre para escrever, sobretudo para combater as correntes que agrilhoam o pensamento livre e a propagação das ideias. E das emoções proibidas.

É essa a dimensão que mais comemoro neste dia, associado a muitos dos melhores momentos que conheci ao longo da minha existência.

E agrada-me que aconteça em pleno mês de Abril.
publicado por shark às 17:00 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 22.04.06

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 18:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sexta-feira, 21.04.06

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 22:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

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A blogosfera duplica de tamanho a cada seis meses. Já existem mais de 35 milhões de blogues e surge um novo espaço a cada segundo que passa. Um por segundo!
Isto implica que a blogosfera está sessenta vezes maior do que há três anos.
Contudo, existe quem defenda que a blogosfera é uma espécie de parente pobre na Internet. E mesmo quem não é apologista dessa teoria acaba por relegar para segundo plano o papel desta comunidade, com a Imprensa (sempre tão ávida de divulgar os sites, esses parentes próximos) à cabeça do silenciador colectivo que olha para os blogues como algo de irrelevante no contexto da net.

No entanto, esta é uma das 50 mil postas publicadas na última hora pelo produtivo grupo que integramos. São números colossais, impossíveis de ignorar sob qualquer perspectiva.
A blogosfera está a tomar conta da Internet e não é uma moda passageira como muitos aventaram.
Ninguém se iluda com o fim de alguns blogues de referência e o de uma infinidade de outros que apenas se viram encerrados pelo processo de selecção natural ou por mero cansaço de quem os fazia acontecer. Isso faz parte do processo de amadurecimento daquele que, no meu modesto entender, constituirá um dos mais poderosos meios de comunicação desta década.

O que fazemos, postar/comentar, é um acto puro de liberdade de expressão. É, se quisermos extremar posições, um baluarte dos valores que a democracia representa. A reacção hostil dos vários poderes é sintomática.
Se nos países onde a repressão faz escola o controlo da blogosfera surge como uma opção inadiável, isso representa o reconhecimento da ameaça que representamos. E ameaçamos contrabalançar a manipulação informativa por parte de quem possui interesses obscuros a defender. A saber: o poder financeiro (que não conseguiu até à data impor-se aqui como noutros suportes virtuais); o poder político (que vê expostas as mazelas sem poder evitar a respectiva divulgação e arrisca ver brotar movimentos pontuais de cidadãos anónimos em torno de causas potencialmente embaraçosas); o poder dos media (dominado pelos dois anteriormente referidos e que tenta atabalhoadamente manter uma relação de amor-ódio com este novo factor na permanente guerra de audiências que anima e conduz a Comunicação Social).

É a reacção da Imprensa que mais me preocupa. Seria natural o nascimento de sinergias entre estas duas formas de comunicar, traduzida até na crescente proliferação de Jornalistas no nosso meio (e de blogueiros/as no deles). Porém, a Imprensa foge da divulgação da blogosfera como o diabo da cruz. Nas televisões insistem em apelidar de “site” os poucos blogues que se vêem obrigados a citar por força do impacto da sua intervenção. Nos jornais, raramente a blogosfera ocupa mais do que um espaço exíguo numa página secundária qualquer.
Esta opção contraria (tenta contrariar) o inevitável: a blogosfera representa, mais do que muitos jornais e apesar de alguns embustes que se produzem no nosso seio (como no deles), um veículo mais credível (e acessível) de informação em muitas áreas do que a Imprensa escrita.

Esta mini teoria da conspiração que se subentende pelas minhas palavras é gerada pelos factos que citei e alimentada por outros sobejamente conhecidos entre nós, episódios pontuais de reproduções jornalísticas sem citação da fonte. E um blogue é (ou pode ser) uma fonte tão legítima como qualquer outra, devendo ser citada nessa condição. Se assim não acontece, à sombra do anonimato que alegadamente nos descredibiliza nesse particular, é porque dá jeito manter discreto este fenómeno que construímos de borla, com a teimosia e a persistência de carolas empenhadas (regra geral) em produzir um trabalho em condições e que justifique o tempo e a atenção que nos são dedicados.

O Charquinho não se engloba sequer nos blogues directamente afectados pelos factos a que fiz referência. É rara a nossa incursão por temas que possam perturbar o dolce dire niente que reina neste país em visível degradação social e económica (o nosso inenarrável parlamento e a aflição bem patente no desnorte da acção governativa são um espelho da gravidade da situação). E somos inexpressivos para a estatística.
Mas a questão de princípio, a Liberdade que esta actividade simboliza, pode a curto prazo ver-se ameaçada pelo esforço conjugado de quem a entende como um mal a combater. Porque esperneamos sem que alguém possa impedir que tal aconteça, porque podemos denunciar o que está mal e opinar acerca de rigorosamente qualquer matéria sem nos expormos aos “castigos” que a sinceridade acarreta noutros meios mais à mão dos poderes.

Não é uma questão menor, vista nestes termos. É uma soma de pequenos indicadores que justificam alguma atenção e suscitam crescente reflexão (organizada) por parte de quem pretenda entender a blogosfera como um pouco mais do que um passatempo inconsequente.
O futuro que nos está reservado em matéria de liberdade de expressão passa seguramente pela protecção dos direitos e pela imposição dos deveres de quem bloga. Se a anarquia e a impunidade não servem os propósitos seja de quem for, os mecanismos de controlo aplicados sem uma discussão séria com a intervenção directa dos visados acabarão por nos condicionar sob um jugo de regras e de punições que desencorajem os mais bem informados e, acima de tudo, os mais afoitos a divulgar o que possa prejudicar os interesses de quem mais ordena.

E num país em vias de bana(na)lização dos maus hábitos, com Abril a definhar aos poucos na sua expressão democrática (mediática?), não é ao povo que me estou a referir.


(Se calhar este texto torna-me elegível como alvo potencial de uma implacável atoarda do nosso Grande-Guru num blogue e/ou num jornal de grande expansão. Do alto destes vinte meses de blogosfera o meu quarto de hora de fama vos contempla)
publicado por shark às 11:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (22)
Quinta-feira, 20.04.06

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Pode ser um olhar perdido, pousado num ponto difuso qualquer. Ou a forma graciosa como enrolam o cabelo com as pontas dos dedos, o tique emblemático do feminino que as marca diferentes, o toque nas coisas como se tudo fosse feito de seda ou de algodão.
As coisas que nos dão. Beleza, certeza, confiança, lembrança de uma vida recheada de belos momentos que a sua presença adjectivou.

Também pode ser a melodia de um tom de voz, espalhado por uma sala onde as paredes parecem florir à passagem de cada som. E as flores cheiram tão bem…
Perfume de mulher, hipnotizador, ergue-nos pelo olfacto num tapete mágico que desliza pelo céu em silêncio, levitação. E o poder do amor que suscitam, pelas coisas em que acreditam e pelo sentido que a sua vida nos dá. Filhas ou mães, amantes, criadoras. A força das senhoras que nos vergam numa vénia espontânea ao fascínio que a sua passagem provoca.
Um horizonte de estarrecer, quando um corpo de mulher se apropria do espaço e tudo se transforma num fundo em seu redor. Para compor a fotografia do instante de magia a brotar daquela visão arrebatadora. Adereço, o mundo inteiro que a enquadra como uma moldura quando a contemplamos em plena adoração.

E as coisas que nos proporcionam, mais bonitas à partida pelo milagre da transformação, a jarra sobre a mesa, o culto do pormenor, a vela já acesa pela sensibilidade menina no interior de cada mulher que connosco partilha uma refeição. Momentos especiais, preparados com carinho, todos e cada um. Sentimentos sublimados pelos portentos romanceados a partir da mais pequena emoção. Condimento, especiaria, o suplemento de poesia na arte de bem refinar. Aquele tudo-nada que toda a diferença faz.

Assumo-me fanático, dependente, dessa figura presente em cada um dos meus arquétipos do prazer. E anseio entender, tarefa inglória, as mulheres que me fazem a história da existência que deixarei para contar.
Para poder louvá-las com maior rigor. E amá-las de uma forma melhor.

Sinto-me grato à vida por me ser permitida a respiração do mesmo ar. E o privilégio de as pensar, no que dizem, no que fazem, no que representam e no que são.

À altura da sua espantosa semelhança com todas as imagens que me ocorrem quando busco no universo (o que alcanço) um ícone da perfeição.
publicado por shark às 11:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Quarta-feira, 19.04.06

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Existem limites que não estou disposto a ultrapassar (ou a permitir que tal aconteça) e desequilíbrios que nunca aceitarei.
Isto não é o da Joana.

Um dos mais complicados temas para gerir numa relação pessoal é o das cedências que todos, qualquer que seja a natureza do vínculo, temos que fazer para acertarmos agulhas com as pessoas com quem partilhemos o nosso tempo e a nossa atenção.
Isto aplica-se indiscriminadamente às relações com amigos/as, família ou companheiros/as.

As cedências são um pequeno preço a pagar para podermos conviver com os defeitos ou peculiaridades das pessoas que o destino nos coloca no caminho e elas consigam pactuar com os nossos. Se existe afecto, a cedência surge com naturalidade e acaba por denunciar a nossa vontade de nos compatibilizarmos com alguém.
Contudo, existem regras para a utilização deste trunfo na manga que nos protege de desatinos que podem conduzir ao afastamento das pessoas.

A reciprocidade é a primeira. Ou seja, não basta que ceda uma das partes. Tem que existir um equilíbrio nesse abdicar de alguns pressupostos e/ou comportamentos em prol do salutar convívio com outrem. De outra forma, gera-se um desequilíbrio que acaba por minar as hipóteses de um relacionamento saudável.
A proporcionalidade é a segunda. O nível de cedência deve corresponder ao grau de proximidade das pessoas. Quero com isto dizer que só temos que ceder na correcta medida da importância relativa que para nós assume a(s) pessoa(s) em questão e do grau de envolvimento emocional efectivo.

E ainda existe uma terceira: o respeito mútuo pelos limites do/a outro/a. Se mantemos um laço com alguém é porque algo nos aproxima, sendo natural que tenhamos uma noção das características dessa pessoa. Nomeadamente dos seus melindres e dos tais limites cujo respeito pode englobar-se no tal conceito da cedência justificada.

Não é fácil afinar este tipo de coisa pelo mesmo diapasão. Mas é indispensável para assegurar a manutenção de uma amizade ou mesmo de um amor que se pautem pelas mais elementares regras do bom senso e da paridade na entrega e no índice de tolerância.

Digo eu...
publicado por shark às 09:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)
Terça-feira, 18.04.06

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Foto: sharkinho

A mudança só assusta quando a esperança não escuta as promessas da renovação. O desenlace de qualquer revolução. Para melhor, ou não aconteceria.
Na memória deste dia finco as garras da fezada nas costas de uma imagem envelhecida do futuro que há muito antecipei. Realista, afinal, o pessimista que descortinei no vidente de pacotilha.

Realistas os outros também, descarados na assumpção das suas próprias conclusões a propósito dos raciocínios comuns. Assumidos nas certezas partilhadas em surdina nos bastidores individuais da sua convicção. E nas exibições mal disfarçadas de um interesse moribundo que se agita no fundo de um poço de contradições.
Afogam-se as mágoas num tempo de tréguas pela verdade à espreita em múltiplas revelações. Como um edifício rachado do chão ao telhado pelo sismo que lhe semeou metástases de derrocada na solidez das fundações.

Tempo de reconstrução da pirâmide invertida pelo sentido da vida que redefine as prioridades ao sabor das correntes e das marés. Meter as mãos pelos pés e estranhar a morte por afogamento das palavras que o tempo não tarda a cobrir com uma vaga de pontos de interrogação. A sede de afirmação, exclamada sobre os alicerces de uma pertença reclamada a quem há muito abdicou do espaço devoluto da sua emoção inquilina. Acção de despejo traçada, por simples preguiça adiada para algum tempo depois.

Tanta casa ao dispor. E nas janelas em redor os olhos atentos de quem tira as medidas à vizinhança potencial. À espreita da ocasião ideal para meter conversa, diálogo de circunstância para cimentar as melhores relações. A mudança para melhor, observada por detrás do estore, saboreada por antecipação.

O velho cliché das recordações arrumadas no fundo da gaveta ou naquela passagem secreta onde se escondem os fantasmas do passado que se enterrou. Uma guia de remessa, segue a despacho, carimbada à pressa com o selo branco, lacrada a vermelho proibido para salvaguardar as recaídas nas espreitadelas distraídas que se deitam apenas aos ângulos melhores, os cor-de-rosa.

E finda esta prosa já houve algo que mudou. Na questão da perspectiva.
publicado por shark às 18:14 | linque da posta | sou todo ouvidos

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Foto: sharkinho


Seja mais fácil acreditar que nada mudou.
publicado por shark às 09:16 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 17.04.06

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Foi o aparecimento do Omo que levou as donas de casa a trocarem a velha barra de sabão pelo detergente em pó. Não sou eu quem o afirma, podem confirmar aqui.
Já por diversas vezes demonstrei que não sou fundamentalista, sobretudo em questões acerca das quais não possuo conhecimentos que permitam armar-me ao pingarelho.
Contudo, numa fase da minha vida experimentei o contacto com o mundo alvo dos produtos de limpeza e tive, como todos, que fazer as minhas opções.

Azul e branco era a combinação de cores ideal quando se falava de limpeza na década de 50, quando o Omo começou a surgir nas prateleiras das mercearias. Servia para tudo (até para lavar o cabelo), o sabão universal que só no Clarim (de tom amarelo torrado) encontrava um concorrente menor.
As donas de casa (na altura era só o que havia, pois só na década seguinte no mundo inteiro e quase duas décadas depois em Portugal começaram a surgir os cavalheiros de avental – não é um trocadilho maçon) só conheciam o sabão do costume e era nesse que depositavam as suas esperanças para o fim das nódoas difíceis de baton alheio no colarinho das camisas do seu amo e senhor.

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Foto: sharkinho

Eram mulheres de hábitos, tradicionalistas, e vergavam-se sobre o tanque de cimento com determinação, firmemente agarradas ao sabão para satisfazerem as suas necessidades primárias na lavagem da roupa suja.
Mas um dia o progresso chegou ao país mais retrógrado do hemisfério ocidental (tirando os parceiros latinos do lado de cá e os eslavos do lado de lá da cortina de ferro – que o Omo nunca conseguiu transpor).
Prometia lavar mais branco e cheirava a modernidade no quotidiano bafiento das domésticas-modelo que os fifties cultivavam na terra do tio sam como na do pai António de oliveira.
Além disso, os novos pós de perlimpimpim respeitavam os tecidos delicados (algo que o neaderthal tradicional em barra não distinguia) e assim o sabor da novidade, como a margarina Vaqueiro a que o Último Tango em Paris deu razão, tornava tudo mais apetitoso.

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Foto: sharkinho


Aos poucos, os machos portugueses (que pouca atenção prestavam aos objectos decorativos do lar, bem como às funções por estes executadas) deixaram-se ultrapassar pelos acontecimentos. Nem iam às compras nesses dias, pelo que não viam o padeiro nem o merceeiro que lhes aviavam as patroas com os sinais dos novos hábitos de consumo lusitano em pacotes. O Omo, como o Toyota, vinha para ficar e os estendais de Portugal nunca mais voltariam a ser os mesmos.

De resto, o Omo serviu como batedor das diversas marcas que do outro lado do Atlântico aguardavam um enfarte do miocárdio ou um trambolhão da cadeira para penetrarem sem dó o mercado nacional. Americanices começaram a apoderar-se do dia-a-dia das mulheres portuguesas e a concorrência não tardou a fazer-se sentir e até deu origem a uma novela radiofónica.

- I go with the Tide! – afirmavam algumas consumidoras atentas ao branco que mais branco não havia e deixavam-se planar nas fantasias que lhes sugeriam as vozes graves e quentes dos actores que davam som aos enredos da telefonia. Depois surgiu o Simplesmente Maria, mas aí já o sabão definhava na memória colectiva das lavadeiras de Portugal.

Mas o que transformou em definitivo os hábitos de consumo das donas de casa pela limpeza moderna (saturadas de esfregar sem sucesso a roupa velha e debotada), marcando o fim do reinado do sabão, acabou por ser o Presto que, alguns anos mais tarde, deixou toda a gente com vontade de experimentar uma lavagem à altura.
E de conhecer um verdadeiro glutão…

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publicado por shark às 12:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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