Sexta-feira, 17.03.06

ISTO DE TER UM BLOGUE

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aqui


Mesmo depois de mais de dois anos neste meio (ou talvez por isso mesmo), esta coisa de ter um blogue ainda não deixou de me fazer reflectir.
E quanto mais longe me encontro dos tempos da descoberta, em que tudo o que os outros escreviam me parecia absolutamente extraordinário, mais estranheza me causa esta nossa necessidade, quase compulsão até, de aqui desenvolver uma vida paralela.
Não se pense que venho armar-me em socióloga de pacotilha, analisar científicamente o que são e para que servem blogues ou produzir uma dissertação sobre este fenómeno em expansão. Tudo isso já foi feito em encontros sobre blogues, tertúlias sobre blogues, postas sobre blogues. Não tenho qualificações ou sequer pretensões a dizer aqui seja o que fôr com essa classificação.
E estou-me nas tintas para a hipótese de quem tiver a pachorra de ler o que escrevo poder achar irrelevante o tema, precisamente pelo facto de estar mais que batido. A mim continua a intrigar-me esta nossa motivação para aqui chegar e despejar os nossos pensamentos mais íntimos, perante uma plateia de olhos desconhecidos. Uma espécie de monólogo sob o holofote, um gajo a desenvolver um guião, ao longo de meses e anos, uma voz solitária a ecoar sobre o escuro da sala. A sala em suspenso, apenas se percebe um subtil rumor de respirações, algumas vezes quase presas, para não interferir na linha de raciocínio de quem actua.
Depois as palmas. Apenas em alguns casos, aqueles que permitem a interacção e abrem a hipótese de comentar. Nem sempre as palmas, a bem dizer. Mas uma reacção do público, seja ela qual fôr. E novamente o guião.

O que nos leva, pessoas das mais diferentes naturezas e campos profissionais, médicos, juristas, jornalistas, políticos, professores, donas-de-casa, a chegar aqui, depois de mais uma operação cirúrgica, um caso ganho na barra do tribunal, uma reportagem exclusiva, um discurso aclamado, uma aula muito participada pelos alunos ou a louça lavada e camas feitas, a vir aqui despir essas peles para entrar na massa indiferenciada de gente que pinta o seu template das cores que mais gosta, configura títulos e sidebars, escolhe fotografias e imagens a condizer com os textos e planta palavras como quem o faz com uma árvore que quer ver crescer?
Que mecanismos mentais estão por detrás desta existência que aqui levamos, dissociada das vidas que temos lá fora? Tantas vezes completamente antagónica. E doutras quase como que um espelho de quem somos na verdade.

Transpomos a porta que se abre para outra dimensão e passamos a tratar por tu o médico que escreveu sobre o novo PR, a doméstica que produziu um texto sobre a fome no mundo, o professor universitário que esgalhou um poema sobre qualquer coisa, desatamos a criar laços (imaginários, quantas vezes) com pessoas que estão na outra ponta do país ou do mundo e que nunca vimos e difícilmente chegaremos a ver, na generalidade dos casos.
E assim substituimos as antigas idas domingueiras à praça, as conversas de fim de dia no largo, as ansiosas correrias para ver os tecidos que nos traziam outras gentes, de outras paragens. E assim começamos a substituir idas ao cinema e ao teatro, conversas de café, encontros com amigos e conhecidos de conhecidos e amigos. Há dias (mais ou menos, muitos ou poucos, conforme os casos) em que fugimos de tudo isso para construir tudo isso de novo, por aqui, do lado de cá de um monitor.
Ouvi, numa conferência, alguém credenciado afirmar que, ter um blogue ou ser frequentador da internet em geral, é uma estranha tentativa de evitar a solidão, feita por pessoas que querem evitar a intimidade. Um contrasenso, afinal.
Ou então é apenas, de acordo com Sherry Turkle, a forma que encontramos de poder aqui "brincar" aos heróis imaginários, em que somos nós o que carrega a capa nas costas...Uns criam aqui as máscaras do personagem que gostariam de ser aos olhos dos outros e, sobretudo, aos seus próprios. (tão convincentes se tornam que, às vezes, até eles próprios passam a acreditar nessa identidade e a esquecer quem na verdade são). Outros aproveitam para chegar aqui ao fim do dia e deixar cair as que usam lá fora. Raros, são aqueles em que o personagem é um decalque da pessoa de carne e osso que o compõe.

Dois anos neste processo leva a alguma evolução na forma como se vê este mundo.
Antes, entretinha-me a imaginar que tipo de pessoa estaria por detrás de textos muito bem escritos. Agora, dou por mim a olhar para as pessoas reais e a imaginar que nick esconderão por detrás das aparências normais com que se cruzam comigo na rua.

Mar
publicado por shark às 14:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)

A POSTA NO NARCISO

Mesmo os(as) blogueiros(as) que renegam a importância das estatísticas acabam por referir (como quem não quer a coisa) os números que os envaidecem na performance dos seus blogues. E parece-me natural que assim seja, pois quem trabalha de borla para uma audiência exigente e sem meias-tintas nas suas críticas tem que buscar alguma forma de compensação.

Eu nunca rejeitei a análise dos indicadores da receptividade do Charquinho junto de quem o visita e o lê. Dei conta do comentário dez mil (assinado pela "manteira" Vague) e teria dado conta da visita 200.000 se pudesse confiar no contador que a apontou duas semanas atrás.
E hoje refiro com natural satisfação o primeiro dia (ontem) em que o contador do Weblog.pt registou um simpático número com quatro dígitos. Mais de mil visitas registadas num só dia constitui um marco "histórico" para um blogue da treta feito por um gajo que ninguém conhece de lado algum e por uma gaja tão anónima como o parceiro. E quem disser o contrário é porque tem inveja, que um gajo investe tempo e energia nesta cena e ninguém gosta de trabalhar de borla e pró boneco...

Daí, partilho convosco esta pequena satisfação e, porque esta é uma posta "da casa", aproveito o ensejo para vos recordar que a Casa de Alterne serve agora de "fotoblogue" e de referenciador dos linques para os espaços que visito com maior regularidade ou que me merecem particular consideração por serem muito bons na minha perspectiva ou por serem concebidos por pessoas que estimo.

Mesmo aos incautos que cá vêm parar via Google de todos os continentes do planeta não posso deixar de agradecer o obséquio de uma visita, pois no mínimo entretêm-se com os "bonecos" que, de resto, são em mais de 90% deste blogue fotos da minha autoria. Mas a toda a gente que investe parte do seu tempo a apreciar este resultado do nosso esforço é devida uma palavra de agradecimento.

Damos duas: MUITO OBRIGADO!
publicado por shark às 09:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Quinta-feira, 16.03.06

A POSTA MALUQUINHA

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Foto: sharkinho

uma estranha forma de tristeza que se apodera aos poucos do quotidiano das pessoas como nós. Na maioria dos casos, embora não diagnosticada, essa tristeza traduz uma depressão clínica induzida pelas agressões sistemáticas de uma forma de vida essencialmente hostil. E manifesta-se de muitas formas, com especial incidência no individualismo exacerbado, na fuga aos “outros” que acaba por ser uma fuga de nós próprios, o caminho mais curto para a inevitável solidão.

O mundo que vivemos, repleto de maravilhas e de doces tentações, aprisiona a nossa consciência numa jaula infestada de papões. Como animais feridos, reagimos com medo, com agressividade ou com resignação a essa sensação incómoda de não darmos valor ao que interessa na vida, em qualquer vida, e de nos mergulharmos num tormento bizarro, num torpor que nos afasta de tudo quanto não seja simples e superficial. A apatia que nos converte em criaturas eternamente insatisfeitas com tudo o que nos é oferecido de bandeja e a maioria só pode sonhar.

Um contra senso, afinal, que se reflecte nesta realidade virtual onde cada um lida como pode com os seus fantasmas e com as consequências da exposição pública dos seus anseios e das suas limitações. Comunicamos a nossa perturbação sob as mais variadas capas, protectoras de uma fragilidade que quantas vezes pintamos com tons de arrogância e de uma superioridade moral que não acreditamos por não a sentir.
Denunciamos nas entrelinhas a dor que nos provoca a desadaptação ao ritmo alucinado que esta sociedade de merda nos impõe, nos intervalos da correria atrás das cenouras imaginárias que nos impingem como objectivo e que não passam de lenitivos materiais que não nos compensam do desgaste sofrido a porfiar pelo enriquecimento de alguém. Do nosso também, essa miragem da “vida melhor” que nos empurra em diante para o precipício da instabilidade emocional, da frustração de abdicar da felicidade genuína em prol de uma sucessão de dias iguais. Até a velhice chegar e com ela se constatar, em boa parte dos desfechos, que não valeu a pena.

A amizade pura e desinteressada, altruísta, não passa de uma ilusão na esmagadora maioria das relações. O sexo reduz-se ao essencial, converte-se aos poucos numa obrigação e existem os que o procuram com afinco como única alternativa para receber o carinho que nos falta como existem os que dele abdicam por falta de estímulo ou pela realidade crua da disfunção sexual. Outro preço a pagar pela trampa que nos enfiam pelo canal da sopa com uma alimentação envenenada e pela mona com um massacre de mensagens subliminares que nos obriga a sermos modelos fotográficos, ícones de perfeição, em detrimento dos cidadãos normais e sem merdas que nos ambicionamos mas os tais “outros” não estão preparados para tolerar.
E o amor também definha nesta enxurrada de distracções e de equívocos que nos afasta do essencial.

Fachada e nada mais. Casas luxuosas e carros a condizer, custeadas pela penosa constatação de não vermos os filhos a crescer. Ligações frágeis que se desfazem ao primeiro abanão. E depois a depressão, a falta de tesão, enfrentada a comprimidos mais ou menos azuis. Ou ignorada, pontapé prá frente e fé em deus, até à completa descaracterização dos valores e das fés que nos constituem de raiz. Até à amargura crónica que nos abraça num conflito interior que extravasa as fronteiras quando os “outros” se convertem em ameaças potenciais que urge combater, na nossa mente em guerra com um inimigo invisível que parece capaz de vencer todas as batalhas, o responsável anónimo pela nossa condição destabilizada e infeliz.

Isto não passa de uma generalização e não somos todos iguais na percepção do que nos rodeia, tal como são escassos os que se conseguem entender a si mesmos no meio da balbúrdia desta forma de vida estapafúrdia que nos desorienta as emoções.
O desequilíbrio é notório e faz-se sentir nas ruas como no interior de cada casa, de cada uma das carolas que se contabilizam em qualquer multidão.
Na minha, assumo-o sem receio de me expor ao escárnio dos que se acreditam diferentes para melhor ou têm a sorte de o poderem comprovar.

Vivemos endividados pelas prestações suaves das nossas opções condicionadas.
Pagamos com lágrimas por verter as consequências nefastas que nos fazem enlouquecer em existências madrastas. Palmadinhas nas costas, sucedâneos de amizade, de felicidade e de amor como compensação. Ou apenas as suas representações fugazes em momentos de euforia que se extinguem como fósforos à mercê do vendaval de agressões reais e imaginadas.

Perdemos a razão. E enquanto não o admitirmos será impossível recuperá-la.
publicado por shark às 11:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Quarta-feira, 15.03.06

A POSTA NO MERCHANDISING

Não há melhor do que uma boa ferramenta de marketing para ultrapassar qualquer crise...

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publicado por shark às 11:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)
Terça-feira, 14.03.06

A POSTA PRIMAVERIL

qualquer coisa de novo no ar...

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Será a Primavera a chegar?

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 09:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (20)
Segunda-feira, 13.03.06

SEM TÍTULO

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Foto: sharkinho
publicado por shark às 17:53 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 12.03.06

A POSTA NO ANIMAL POLÍTICO

O cérebro masculino é um poderoso processador de informação. Abrangente, no raciocínio permanente acerca de uma variedade incomensurável de temas. Nunca pára de trabalhar, a massa cinzenta de um macho dessa espécie vertical no andamento e horizontal no pensamento que se distingue pela capacidade de concentração numa diversidade de preocupações.

Homem que é homem pensa a toda a hora nos assuntos verdadeiramente essenciais para o bom funcionamento da nação. A melhor estratégia política para sustentar uma boa governação, a gestão dos recursos naturais (Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional) e humanos (Trabalho), a dinamização do tecido empresarial com investimentos em novas tecnologias, nomeadamente na indústria hoteleira (Economia e Inovação).
Mais a constante preocupação com a actividade física (Saúde), de forma segura (Administração Interna), desburocratizada e gerida em função da disponibilidade de cada um (Finanças e Administração Pública).

Mas o homem que é homem também se preocupa com as relações entre os povos (Negócios Estrangeiros) e isso é particularmente notado no extremo sul do país durante a época estival. O que não invalida um enfoque nas áreas mais sensíveis (Solidariedade Social), objecto de estudos exaustivos e empenhados (Educação) destinados a fomentar a abertura de novas vias de comunicação (Obras Públicas, Transportes e Comunicações).

O amor à Pátria, presente em qualquer homem que é homem, faz-se notar na forma aguerrida como protege a integridade territorial (Defesa Nacional), no que para alguns assume foros de verdadeira obsessão.
Para o cérebro masculino, o estatuto do bovino é uma prioridade constante que associa de modo invariável ao esgotamento dos recursos piscícolas (Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas).

A perspectiva global, que no homem que é homem assenta na visão periférica dos seus alvos de cogitação, alarga os horizontes deste portento nascido para o culto do belo e do profundo. Observamos, ponderamos e depois tomamos as medidas adequadas, com todo o rigor científico (Ciência, Tecnologia e Ensino Superior), no sentido de tornar exequíveis as melhores práticas governativas.

A transparência preside a todos os estímulos e decisões, pois nenhum homem que é homem consegue esconder o seu entusiasmo perante os grandes desafios à sua capacidade e desempenho.
A constante busca da excelência nos aspectos fulcrais do quotidiano da população, mormente na transmissão do conhecimento em matéria da arte e de outras formas de expressão do seu sentir (Cultura), é o argumento decisivo para justificar a supremacia intelectual destes colossos viris cujo sucesso nas suas demandas é, de forma inequívoca, uma questão elementar de (Justiça).

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Cérebro masculino em plena acção governativa (perspectiva cavaleira)
publicado por shark às 13:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Sábado, 11.03.06

ACORDES DE LUZ

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aqui



Rolam acordes por entre raios de luz. Fecho os olhos e banho-me de sons suaves como se fossem a memória de ti.
Notas soltas tacteantes dos sentidos. Entardecer de mil caravelas com enfunadas velas. Rumo ao porto.

Mar
publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sexta-feira, 10.03.06

FILTROS DA RAZÃO

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Foto: sharkinho

Quem não sabe limita-se a especular.
publicado por shark às 16:22 | linque da posta | sou todo ouvidos

VIRO O DISCO...

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Foto: sharkinho

E (não) toca a mesma...
publicado por shark às 15:57 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho

Vejo-te colada a mim, miragem, no oásis que formamos juntos, no deserto que irrigamos com o suor dos nossos corpos e a humidade do nosso amor. E depois brota uma flor.

Que te ofereço agora, saudade nas pétalas e desejo na raiz que a bebeu.
publicado por shark às 12:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)
Quinta-feira, 09.03.06

NO CESTO DA GÁVEA

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O vigia quase adormecia na noite de lua cheia em que o mar se fez espelho e reflectiu as estrelas na calma da sua maré.
Sozinho no alto, sonhava voar como as gaivotas que lhe faziam companhia nas horas de vigília e nos sonhos interrompidos em sobressaltos sem justificação. Falsos alarmes que lhe interrompiam o doce ressonar primaveril.
Depois embarcava outra vez no mundo das fantasias e das ilusões.

Nessa noite de sentinela o vigia não dormiu. Ou era essa a sua impressão, quando no meio do oceano vislumbrou o que lhe parecia um manto de sereias no ouro das areias de uma ilha que o mapa não referiu.
Uma surpresa que o emudecia, incapaz de gritar a terra à vista no olhar que o traiu.
Deixou avançar a embarcação, encantado, ébrio pela beleza que o grupo de sereias lhe cantou.

Descurou a vigilância e o destino não perdoou. Na popa desguarnecida do barco desgovernado o perigo espreitava e o homem de guarda não alertou a tripulação.
Sem um tiro de canhão, o galeão dos piratas deu início à abordagem e o final da viagem depressa se adivinhou.

Só então o vigia acordou.
No topo do mastro as lágrimas escorriam pelo rosto abaixo no homem que a noite embalara num sono letal.
Em desespero lançou-se ao vazio num mergulho temerário e aterrou no corsário que comandava o galeão.

Reza a lenda que os piratas desertaram e no seu barco zarparam para longe dali.
E ao vigia, que entretanto desapareceu borda fora no meio da confusão, honraram a memória com uma estranha canção.
Falava de uma ilha perdida que alguém sugeriu na versão inventada do herói que sumiu.

E na ilha deserta que ninguém mais veria, sereias mimavam por turnos o vigia que ali abancou.

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publicado por shark às 21:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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O velho TOM, um marujo britânico reformado, era o maior cromo da Costa da Caparica. Completamente senil, inventava histórias nas quais acreditava após dezenas de repetições.
A malta não o levava a mal, achava-lhe piada. Mesmo sabendo que as suas aventuras de embarcadiço, contadas com entusiasmo nas esplanadas junto à praia, não passavam de um embuste. Era sabido que, apesar de ter sido um membro orgulhoso da Royal Navy (facto de que muito de gabava), nunca tinha saído da doca seca apesar das fantasias marítimas que acalentara anos a fio.

Sempre com um gorro nojento na cabeça, para lhe poupar a copa desfolhada aos rigores do frio, o velho TOM deambulava pela avenida principal enquanto falava com os seus botões. Parecia que treinava as histórias para contar depois.
Era um homem cheio de imaginação. Nas suas palavras um verdadeiro machão. E culto, imenso, sempre artilhado com citações para impressionar os papalvos que lhe desconheciam o percurso de zé-ninguém.

E tudo corria bem ao ancião, até ao dia em que decidira embirrar com outro lobo-do-mar sem pachorra para a sua arrogância. Foi longe demais e o outro, bem informado, descobriu-lhe a careca perante uma plateia atenta às revelações coscuvilheiras.
Atrevido, o velho TOM expôs-se desnecessariamente a um vexame.
Nem as amigas do peito que o tentavam promover em vão, mesmo sem nada por onde pegar, conseguiram evitar o escândalo e as respectivas repercussões (ocorridas na sequência de um excesso do velhote que dera azo a um falatório que depressa chegou a ouvidos que ele preferiria evitar).

Arrependeu-se tarde demais por ter insistido na brincadeira. Exagerou. Ninguém o incomodara até ao dia em que apontara o dedo descarado a outra pessoa, em vez de manter uma prudente reserva quanto à identidade dos alvos da sua paródia infantil.
Estalou o verniz. E o seu enorme nariz, orgulhoso, passou a dar menos à costa.
Durante anos, o velho TOM desapareceu da circulação. Envergonhado pela revelação das mazelas que sempre existem na vida de qualquer pessoa, provocada apenas pela sua falta de sensatez.

O lamentável episódio acabaria por ser esquecido, mas nunca mais a credibilidade do marujo (que se pintava como personagem de um livro) voltaria ao normal. Ficou agarrado à imagem de velho maluco, fanfarrão e caduco. Hipotecou o respeito que não soubera acarinhar.

Vagueava junto ao mar onde nunca mergulhara, quando uma apoplexia o estendeu ao comprido no areal e o enfiaram num asilo onde acabaria os dias a debitar para si próprio um rosário de queixumes. Incontinente palrador, era o pesadelo da instituição.
Perdera a razão e ninguém o levava a sério.

Ainda hoje se ouvem do lado de fora do muro do jardim as suas lamentações berradas e as ameaças veladas de uma vingança que nunca poderá concretizar.

Tão distante do oceano como da lua, o velho insano já nem sai à rua. Atrofia aos poucos no isolamento, remetido ao esquecimento por quem, afinal, nunca dele se lembrou.
publicado por shark às 10:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 08.03.06

A POSTA NA PARÓDIA VIRTUAL

e podes ter uma surpresa.gif

Uma das estratégias mais comuns na blogosfera é o recurso ao escárnio encapotado. Num texto dissimulado com uma estória banal, o blogueiro encaixa as suas atoardas por forma a ninguém poder acusá-lo de se dirigir a esta ou àquele alvo preferencial.
Regra geral, só os destinatários e meia dúzia de confidentes entendem o recado nas entrelinhas. É um bocado maçador, convenhamos, para quem está fora do “conflito” que se trava desta forma palerma.

Todavia, faz parte desta cena e um gajo tem que dominar as técnicas para poder vestir a pele de “profissional” e dar um ar espertalhão. Aprende-se depressa, esta arte da maledicência camuflada. Basta descobrirmo-nos visados numa posta menos conseguida por parte de um burgesso qualquer, um asno incapaz de fazer as coisas com elegância, cérebro betonado pelos desequilíbrios de uma vida sem sabor.
Quando os nabos dão nas vistas, demasiado insistentes nas referências que identificam os seus ódios de estimação, é porque o corpo lhes está a pedir chuva. É quase um requerimento para uma guerra comprada, uma paródia disputada com palavras que é divertida quando nos degladiamos com os melhores.

Mas são raros, esses mestres a sério do pontapé na boca virtual. Antes proliferam os patos-bravos, os chicos-espertos que se escangalham a rir com as suas invectivas sem eira nem beira, lançadas ao éter como fagulhas em seara de Verão.
A melhor opção é ignorá-los. Mas é de todo conveniente que alinhemos na brincadeira de quando em vez. Para arreganhar a dentuça e exercitar a musculatura cerebral.
Para não deixarmos a malta a brincar a sós e para fazermos ouvir a nossa voz no outro lado da linha, na outra margem do nosso monitor.

A minha próxima posta constitui um desses exercícios mentais. Inócua, sem nexo, construída com o único propósito de alinhar na brincadeira de um colega qualquer. E esta será apenas a versão softcore, pois é sabido que estas disputas juvenis assumem um crescendo que justifica o poupar de munições verbais para retorquir a algum excesso de linguagem. Que quase aconteceu, por via da falta de cuidado (respeito?) do atrevido em questão.
Nada que vos interesse ler, a posta que se segue, pois foi escrita com todo o carinho para os olhos de determinada pessoa.

Fica o aviso, apenas para vos poupar a uma estucha.
É que sai baratucha uma carta enviada por este meio.

E é mais rápida do que o correio azul.
publicado por shark às 18:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

ELAS CARREGAM FILHOS E SONHOS

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gravura de Álvaro Cunhal in Desenhos da Prisão



Escrevi o meu primeiro texto sobre as questões da igualdade de género quando não passava de uma miúda. Teria uns 16 anos e, por altura de um outro 8 de Março, produzi uma prosa inflamada sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez e a discriminação da Mulher, para um jornaleco da Associação de Estudantes, que se chamava, muito criativamente, "Pedra no Charco"... Ainda hoje guardo, algures, um exemplar amarelecido por entre os objectos que conservo como recordações de infância.
E ainda hoje, vinte e muitos anos depois, aqui continuamos, a escrever artigos de opinião sobre questões que deveriam ser, simplesmente, letra de lei. Que até o são, em termos constitucionais e de direitos humanos, embora o desminta a dura realidade quotidiana de muitas e muitas mulheres. Por aqui continuaremos. Enquanto a desigualdade for a lei que se pratica.
Não se trata apenas de, em Portugal, elas constituírem a maioria dos diplomados do ensino superior. Ou tão pouco, de apresentarem uma das mais elevadas taxas de actividade a tempo inteiro, da União Europeia. Nem sequer de estarem, até, fortemente representadas na administração pública.
Em matéria de tomada de decisões e de ocupação dos cargos mais elevados da hierarquia política continuam, de facto, minoritárias. A maior qualificação escolar e a forte presença das mulheres na população activa não tem como decorrência directa a igualdade de oportunidades entre os dois sexos.
Mas não se trata, aqui, de recordar que, de todos os pobres do mundo inteiro, 70% são mulheres, e que, dos analfabetos e desempregados, dois terços ainda são mulheres ou ainda que, hoje, no século XXI, quando o avanço da ciência e da tecnologia nos permitem equacionar a hipótese de viver em Marte, morrem por dia milhares de mulheres, por deficientes condições de assistência sexual e reprodutiva.
Não, não é apenas isto que está em causa. É o facto de elas terem, efectivamente, as mesmas capacidades que eles. E aí estão, nos dias de hoje, mulheres em todos os ramos de actividade profissional, até mesmo aqueles outrora "interditos" ao sexo "frágil", a prová-lo.
São estas mulheres-exemplo que demonstram a ausência de razões para a discriminação, a falta de oportunidades, o tratamento diferenciado, a condescendência, com que ainda se encara a participação da mulher na vida política, social e profissional da generalidade dos países. Mesmo os ditos desenvolvidos.
Do que se trata, aqui, é de reclamar justiça. (...)

(...)Até lá, continuaremos por aqui.
A escrever crónicas e entoar cânticos, a empunhar bandeiras e a gritar denúncias, a provar verdades, à espera do dia em que mulheres e homens, ombro a ombro, construam em conjunto a sociedade em que nós, as mulheres de hoje, já gostaríamos de viver.


publicado originalmente no Diário do Alentejo - rubrica "em foco", em 3/3/2006


Mar
Dos tempos da II Mundial para cá, a evolução foi, sem dúvida, notória, mas mantém-se a divisão tradicional de papéis entre homens e mulheres, no seio da família, a qual é transposta para o resto.
Na esmagadora maioria dos casos é, ainda, sobre a mulher que continua a recair a responsabilidade de cuidar dos filhos e da família. Deste modo, o papel que é uma benção, o da maternidade, cedo se transforma numa condicionante do acesso ao emprego ou a uma carreira, já que uma mulher em idade reprodutiva é facilmente preterida a favor de um homem com idênticas qualificações.
Uma verdadeira política social de promoção da igualdade, deveria, assim, contemplar a criação de equipamentos de apoio à infância e à terceira idade, para uma fácil conciliação de uma vida profissional com a familiar. Enquanto não se produzir a mudança, fará sentido que prossiga a luta das mulheres - e dos homens, seus companheiros - pela igualdade efectiva.
A triste realidade é que, a nível mundial e em termos globais (ainda que com algumas excepções) os valores predominantes ainda colocam as mulheres num estatuto de subordinação. E isto acontece, genericamente, porque as diferenças biológicas, são transformadas em desigualdades sociais. Erradamente. Pelo facto de estarem associadas à mulher características físicas e psíquicas como a meiguice, a fragilidade, sensibilidade, passividade e intuição e ao homem a coragem, a racionalidade, força ou competitividade, ainda hoje, qualquer demonstração de maior assertividade por parte de uma delas no exercício das suas funções profissionais, é associada a histerismo pré-menstrual, ao passo que, quando se verifica num homem, é sinónimo de competência.
São representações sociais machistas e sexistas que assim o determinam. Pois se não o fossem, machistas, associariam a meiguice e a sensibilidade a uma capacidade acrescida para gerir recursos humanos em situações de conflito ou a intuição à efectiva percepção dos problemas quase sempre antes que os homens os vislumbrem, sequer, no horizonte.
Quanto à fragilidade, é quase sempre aparente. Os seus corpos carregam filhos e sonhos, elas baixam febres e amparam quedas, dão pareceres, produzem relatórios, limpam narizes e corrigem trabalhos de casa, desenham edifícios, projectam pontes, fazem contas e compras e escutam confissões, elas analisam amostras em laboratórios e curam doentes, aninham os lutos delas e dos outros, batem recordes, educam, lavam pratos e almas e passam e cozinham e acarinham ao fim do dia. Elas descobrem forças onde insistem em apontar-lhes fraquezas.
As identidades e papéis masculino e feminino não são um facto biológico, decorrente da natureza, mas sim algo que foi construído histórica e sociologicamente. E assim, isso significa que podem ser modificados.
Existem tribos em África que reconhecem à mulher, o papel preponderante na hierarquia social dessa comunidade. São elas que asseguram as decisões e a subsistência do grupo, enquanto a eles, por exemplo, cabe tomar conta dos filhos, até ao primeiro ano de vida destes.
Trata-se, então, de uma questão predominantemente cultural, a que perpetua as diferenças de género, nas sociedades modernas.
O que nos leva a concluir que, a educação terá um papel fundamental na transformação de mentalidades e de práticas e na construção de uma sociedade futura mais justa e igualitária. Promover uma prática educativa não discriminatória desde a primeira infância, com incidência no desempenho de papéis idênticos por parte das crianças de ambos os sexos, contribuirá, decerto, para uma sociedade do futuro em que a efectiva igualdade de oportunidades seja uma realidade inquestionável e que as situações de discriminação e violência sobre as mulheres sejam apenas um facto histórico passado. Assim haja vontade política e medidas reais de suporte.
Até lá, continuaremos por aqui.
A escrever crónicas e entoar cânticos, a empunhar bandeiras e a gritar denúncias, a provar verdades, à espera do dia em que mulheres e homens, ombro a ombro, construam em conjunto a sociedade em que nós, as mulheres de hoje, já gostaríamos de viver.
publicado por shark às 11:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

A POSTA FEMININA

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Foto: sharkinho


Toda a minha existência foi marcada pela presença do feminino no topo das prioridades que, instintivamente, defini. As mulheres, criaturas que personificam o melhor (e o pior) que a vida me ofereceu, constituem a condição obrigatória no conjunto de elementos que compõem a felicidade tal como a concebo.
São o meu tema preferido dentro de todos os temas que me fascinam e, admito, sempre condicionaram a minha forma de ser e de estar. Parte importante do que sou é fruto da minha vontade de corresponder às expectativas criadas pelas mulheres que o (feliz) acaso atravessou no meu caminho para me permitir experimentar as delícias da amizade e, acima de tudo, do amor.
É aquilo que sou e não me envergonho desta dependência assumida, a única que me permiti ao longo de quatro décadas de vida.

Sonho um mundo no qual as mulheres disputem as batalhas da vida em absoluta igualdade de circunstâncias connosco, os machos de uma espécie mal educada em matéria de equilíbrio entre géneros. É um facto inegável e reflecte-se com maior preponderância nos meios onde a inteligência não impera ou onde a decência não corresponde à minha perspectiva.
Mas sente-se em todo o mundo, em qualquer dimensão da sociedade, essa diferença que se sobrepõe a todas as diferenças que nos distinguem. Existe um défice de igualdade que o texto acima denuncia e que por isso me abstenho de enumerar nesta circunstância.

Assim, opto por aproveitar o ensejo para render homenagem, para prestar vassalagem a esse grupo heterogéneo que me estimula e que representa o centro do mundo como o sinto. Um mundo que desejo mudar para melhor integrar essa falange de ganhadoras que as regras absurdas e mesquinhas limitam na progressão.
O mundo melhor para a minha filha, a razão bastante para me empenhar nessa alteração necessária que está a acontecer mas precisa de ser acelerada.

A bem do futuro que anseio, marcado pela transição para a efectiva partilha dos direitos como dos deveres. Sem distinção dos cromossomas, tão patética como a baseada no tom da pele de uma pessoa ou em qualquer outra característica que não sirva para hierarquizar por inerência, para subalternizar com displicência, sem olhar ao mérito ou à capacidade de cada um(a).

Um futuro a meias. Com tudo o que isso implica.
publicado por shark às 11:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Terça-feira, 07.03.06

A NICE PIECE OF HASSE

imaginarium.jpg
Foto: sharkinho

O gajo bloga há mais tempo do que eu e se calhar até já tínhamos partilhado alguma caixa de comentários algures. Como já partilhámos uma cama e outros recursos ao nosso alcance para desbundarmos as delícias da boémia ao longo de um percurso académico que primou pelo andamento rasgativo.
Nessa altura formávamos os vértices de um triângulo amoroso (sim, existem momentos na amizade entre homens que assumem contornos de um verdadeiro amor) que também incluía outra surpresa que encontrei neste mundo dos blogues. José de Ícaro, a nossa identidade literária, (re)produziu em palavras uma parte da loucura e da inspiração que de nós se apoderava quando atacávamos a noite como um trio de predadores do prazer.

Como ele me referiu ontem, num jantar que nos reuniu, apanhámos correntes distintas do grande rio da vida e os nossos caminhos afastaram-se durante anos em que, admito, senti e muito a falta daqueles dois pedaços de mim, daqueles dois homens extraordinários e absolutamente singulares que amei como é possível amar dois gajos sem assumir uma reprimida costela gay.

Comecei o dia exactamente como muitos dos que nasceram após grandes noitadas de farra com ele, a chamar pelo gregório como um adolescente. Fiquei em casa, naturalmente, a ressacar os excessos que sempre pautaram a minha relação com este Paixão intenso que reconheço intacto nas características que o tornaram numa referência minha em matéria de amizade sem travões.

Esta posta é como um guronsan que me trata dos sintomas deixados pela bebedeira e pela moca de amizade que ontem apanhei com um fulano chamado Paulo Hasse Paixão. O nosso outro irmão, incansável perseguidor de utopias, não esteve presente com o seu corpo flagelado pela vida sem fronteiras e com a sua mente alucinada pela busca de um nirvana feito de luz e de amor. Esteve connosco na partilha de memórias onde a sua presença é incontornável.

A ambos dedico estas palavras que reconhecem o seu papel determinante numa das fases mais intensas da minha existência, onde a liberdade e a irreverência imperaram a par com o desejo permanente de uma proximidade que ontem senti outra vez.

Preciso de vocês. E agora que tive a oportunidade de o constatar na presença física isolada de cada um percebi a falta que me fazem e o quanto me trazem de bom.

Tenho saudades de nós.
publicado por shark às 14:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Segunda-feira, 06.03.06

A POSTA NA VIDA EM FLOR

sentido de oportunidade.jpg
Foto (excerto): Pedro Saraiva

A sombra na calçada é a de uma flor obstinada, oportunista, no único espaço que a urbe lhe consentiu.
As pétalas orgulhosas são as exibições vaidosas, coloridas, da supremacia da vida sobre a lápide de betão que a oprimiu.
publicado por shark às 11:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)

UMA EXCELENTE SEMANA

dias assim.jpg
Foto: sharkinho

Dias assim, azuis e luminosos, só podem ser dias bons. Eu sei, é segunda-feira...
Mas essa carga não pode ofuscar-nos para um facto indesmentível:

Tá um dia bonito comó!
publicado por shark às 09:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Domingo, 05.03.06

A POSTA QUE FIZESTE MAL

o desaparecido.jpg

Perdi o meu telemóvel. Foi a primeira vez que tal me aconteceu. E pensei, passarinho, que se alguém o encontrasse aguardaria que o proprietário tentasse ligar para combinar a devolução do equipamento. Contudo, nem dez minutos após o desaparecimento do meu Nokia da bolsa de cinto que o deixou escapar por um erro de concepção (uma ranhura absurda, maior do que o telefone), já o(a) feliz contemplado(a) havia retirado o cartão para proceder à apropriação do achado que roubado não foi.

Lá se foi a agenda (que não conservo em lado algum), lá se foram mensagens que guardava há meses por as entender especiais, lá se foi o meu principal instrumento de contacto com o exterior. Não porque perdi a merda de um telemóvel usado e cheio de macacoas, mas porque quem o encontrou preferiu a baixeza de carácter à opção melhor.
Não há limites para a degradação que a ganância provoca nas pessoas mal formadas, de mau fundo, inferiores.
Cegam a quaisquer valores que não os de um extracto de conta, de um registo de propriedade ou de uma caderneta predial. Ou a merda de um telemóvel perdido por alguém, uma fortuna…

Nem me tenho por moralista e a minha vida desregrada fala por mim nesse particular. No entanto, não consigo pactuar com as manifestações mesquinhas da mediocridade global. Parece que é normal agir de forma errada, ignorar os escassos princípios que nos distinguem dos restantes animais, os tais que condenamos à extinção por se colocarem no caminho da economia mundial.

Confesso que não considero normal, nem correcto, exercer a vingança. Porém, abdiquei há muito da perfeição como objectivo. E sei que na vizinhança ninguém possui um telemóvel com as marcas do meu, que já enviei contra uma parede num acesso de fúria.
Essas cicatrizes particulares, e ficarei atento a todos os equipamentos similares, acabarão por denunciar quem se apropriou de algo que não é seu.

Podem ter como certo que no dia a seguir, essa vergonha com duas pernas já se arrependeu.
publicado por shark às 17:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)
Sábado, 04.03.06

A POSTA BOVINA

telefone_005.gif

Anos atrás tentei impedir um amigo de cometer aquilo que entendia, na altura, como uma asneira. Meti o bedelho onde não era chamado, admito, mas estava em causa uma opção sua que me parecia poder lesá-lo no futuro. E insisti na minha opinião, fiz pressão para que não trocasse uma situação clara e com sólidas hipóteses de readaptação por uma incógnita.
O instinto dizia-me que o rapaz ia dar um tiro no pé, caso optasse pela alternativa que, de resto, já dera provas de não ser boa rês.

O futuro, quando menos o esperava, deu-me razão.
publicado por shark às 22:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 03.03.06

NÃO

resplendor.jpg
aqui





sei como, consigo tocar o intangível.
Ou talvez eu é que o seja. Como aqueles fantasmas que não sabem que o são.
Arrepio caminho, por entre os que parecem existir, no meio do ruído das conversas banais e ocupo o meu lugar.
Mas é o que não se vê que me interessa.
Registo fotogramas mentais dessa espécie de luz difusa que os envolve. Rosada aqui, negra mais ali, baça acolá.

Em todos os casos, a ausência do resplendor que só a verdade confere.


Mar

publicado por shark às 19:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

A POSTA NO TACHO

alien_001.gif

Tenho um jeito especial para atrair a hostilidade das outras pessoas. Ou para as afastar de mim.
Não haverá uma forma de ganhar a vida a fazer isto?
publicado por shark às 19:07 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NO CORNO MANSO

corno bravo.jpg
Foto: sharkinho

Dizia-me aqui há dias um ancião meu cliente que, ao contrário do que consta – as velhas histórias do baton no colarinho, do chupão no pescoço ou do arranhão nas costas -, as mulheres adúlteras são ainda mais bandeirosas do que os homens quando se prestam a uma facadinha.
Conseguiu prender a minha atenção, pois sou um ávido consumidor das experiências alheias (sobretudo as que só a idade consegue proporcionar) e o tema pareceu-me propício a aprender algo de útil numa conversa banal.
E ele lá começou a debitar o rol de indicadores preciosos (alguns dos quais serão tema para postas do charco num futuro próximo) que, no entender daquele veterano, permitem aos mais desatentos a revelação das eventuais traições de que sejam alvo por parte das suas respectivas.

Hoje vou apenas dar-vos a conhecer aquele que o meu cliente considera o mais óbvio sinal de que anda mouro na costa. Então, palavra por palavra, ele colocou-me a coisa nos seguintes termos:

- Olhe, meu amigo, há um que nunca falha. Elas são muito vaidosas dos seus homens e têm sempre uma concorrente a quem querem enxovalhar, todas atraçalhadas aos caramelos. Por isso, quando elas em vez de nos quererem mostrar a meio mundo começam a evitar certos locais que eram poiso habitual do par, pode ter como certo que há gato.

Fiquei intrigado com esta afirmação e perguntei-lhe porque entendia as coisas dessa forma. E ele prosseguiu.

- É fácil, meu amigo. Elas são mais cobardes e traiçoeiras do que nós, não conseguem enfrentar essas vergonhas e não arriscam as coincidências infelizes. Tá a ver, não é? Imagine que foram vistas na companhia de algum marmanjo em certo sítio ou que o marmanjo até mora perto de um ponto habitual qualquer. Tá a ver? Levar os seus gajos para essas paragens? Tá quieto…
E são todas iguais nisso, tirando uma ou outra mais atrevidotas, daquelas que até lhes dá gozo assistirem a um confronto entre dois tipos com quem andam metidas.
Normalmente começam por arrefecer o entusiasmo. Depois, quando percebem que estão a dar nas vistas, fazem uma pirueta e parece que lhes fazemos falta para respirar.
Mas é certinho como o cagar: quando torcem o nariz a locais do costume e arranjam mil e uma desculpas para não estarem juntas connosco nesse local, tenha como certo que à segunda recusa é nessa zona que o gato escondido tem o rabo de fora.
E se lá vão depois de uma nega ou duas, pode ter como garantido que serão elas a determinar o dia e a hora da ida. Nesse caso, é porque sabem que o marmanjo não vai estar por perto e porque andam a fazer a coisa pela surra e só as preocupa que ele saiba do outro. Quer dizer, aí andam a enganar os dois…


Eu tenho-me em conta de desconfiado, paranóico até. Mas nunca pensei que a malta dedicava tanto tempo a estas maluqueiras, ao ponto de tipificarem os comportamentos femininos. Fiquei estarrecido com as certezas do fulano, embora nem me passasse pela cabeça perguntar-lhe se tinha conhecimento de causa para apoiar as suas conclusões determinadas.
É impressionante como a rapaziada, neste país de tourada, olha um par de cornos como a maior das ameaças à sua masculinidade intocável.
Aliás, quando o questionei acerca do peso das hastes na testa, ou seja, o que ele achava desse problema, a sua resposta foi do mais esclarecedor possível.

- Ó meu amigo, eu sou muito homem, mas juro-lhe pelo que tenho de mais sagrado: se me perguntar se eu aceitava a fama de corno manso, digo-lhe já que preferia que dissessem que eu ando a levar no cu!
publicado por shark às 11:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Quinta-feira, 02.03.06

ARRITMIA

liverdade.JPG
Foto: sharkinho

Galopava esbaforido no interior do estábulo improvisado que lhe sufocava a alma selvagem de puro-sangue. Ninguém conseguia acalmar aquela correria desenfreada, aquela ânsia descontrolada que o movia, pancadas secas de cascos nas paredes que o cercavam e assim marcavam o ritmo da sua vontade de escapar para a liberdade que a planície lhe prometia, lá fora, onde vivia uma parte de si.

O sol forçava a entrada em todas as aberturas, por quão minúsculas, daquele espaço tornado sombrio pela angústia do cativeiro. O sol espicaçava-o e acelerava-lhe a pulsação, roubava-lhe a razão porque o ensandecia com pequenas cócegas de luz. Amostras do céu que o esperava no exterior. E o vento colaborava na agitação, transportava o som da ondulação na costa costeira, perto dali.
Reuniu as forças que lhe restavam. E depois rebentou o portão e saiu.

Parecia que sorria quando se percebeu livre de novo para correr sem destino, para buscar no horizonte um objectivo, um caminho alternativo, a escolha que lhe competia assumir e não delegava. A liberdade que abraçava e os riscos que não temia, sozinho pela pradaria, entregue a si próprio sem freio nem sela. Corria eufórico e respirava alegria em cada inspiração. Transpirava emoção.

Vagueou pela paisagem enquanto durou o êxtase da loucura que dele tomou conta nesses dias da libertação anunciada. A longa cavalgada que o tornava senhor do sentimento, o seu, e o instinto que o guiava pelo caminho como uma fonte de luz que o atraía de forma irresistível para a vertigem do desconhecido. Para uma nova dimensão, justiça feita pela reposição de um estado de alma que quase esquecera confinado numa espécie de prisão voluntária. Precisava de conhecer o mundo sem barreiras, o fundo adormecido da sua natureza libertária que ditava as regras do jogo nessa altura.

Contudo, sabia que não lhe pertencia por inteiro o controlo da situação naquela corrida. O ponto de partida que o reclamava, rédeas imaginárias que o alertavam para o compromisso impossível de desvincular, e o ponto de chegada que lhe rejeitava o excesso de euforia, na distância que aumentava à medida que progredia, desastrado, na aproximação. Um contra senso necessário para lhe domar o imaginário e apelar à razão. Para abrandar a corrida e entender a essência do seu papel na vida que o acaso lhe moldou.

E foi assim que regressou, a trote, ao espaço que o acolhia, no interior de si mesmo, à origem do desassossego, paradoxal, que afinal constituía a única solução ao dispor. O amor que o movia, plural, devidamente enquadrado na lista das prioridades a respeitar e das verdades que não podia desmentir, limitações escusadas pois não seriam limitadas as suas opções, apenas debatidas nas discussões que lhe gritavam vai mas volta.
Puxava uma carroça que albergava o legado fundamental, a eternidade garantida, a felicidade prometida na réplica de si numa cria de alazão. Porque queria.
Postura de garanhão insaciável na aventura que entendera perseguir. Uma forma de agir que o perderia, caso ignorasse o caminho de regresso, inevitável, ao doce remanso que o reclamava na casa sua. O juízo que lhe faltou, oferecido de bandeja por quem não negava o amor nos dois extremos da sua equação.

Sereno, observa agora as estrelas e escuta sem problemas o som distante da rebentação num estábulo com muitas janelas, com paredes transparentes e isento de portão.

Livre dos grilhões que a sua cabeça lhe impunha no cárcere que nunca existiu e apenas o reprimiu de ignorar os condicionalismos naturais às suas paixões destravadas.

Para ser feliz, à solta, pelos espaços sem grades das suas convicções amotinadas.
publicado por shark às 12:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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