Terça-feira, 28.02.06

NOITADA

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Foto: sharkinho

Fugi, como um vampiro, da dor lancinante.
Escapei à tangente dos primeiros raios de sol.
publicado por shark às 19:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)

SOB AS ESTRELAS

Vejo-te a toda a hora, em qualquer lugar. Em cada momento um sinal para me lembrar da falta que me fazes aqui. Em cada instante a saudade, a ternura que me inspira cada imagem recordada dos dias felizes a dois.

Sou feliz por te possuir, também, nas minhas recordações. Lembro-me do sorriso que me ofereces de manhã, ao acordar, e dos beijos que me vestes na pele impregnada com o teu cheiro que não consigo (nem quero) deixar de sentir.

Lembro-me ainda das conversas serenas sob as estrelas, no balcão da sala de espectáculos que o mundo nos ofereceu.

Nunca esquecerei cada um dos dias em que me fizeste sentir o mais amado dos homens.
publicado por shark às 18:35 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 27.02.06

(MÁS)CARAS

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aqui


Interrogo-me aonde quererá chegar toda esta gente.
Quantos silêncios existem atrás de cada rosto?
Do lado de fora sorriem, movem os lábios. Andam como um grande rebanho abandonado no cimo da colina, que já náo sabe o que fazer (...)
Todos são peças dentro desse conjunto a que chamam "massa": a família, a povoação, a colectividade.

É preciso assumir demasiadas máscaras para se integrar no conjunto e, quando alguma coisa falha, dá-se o caos.

Karla Suarez, in Os Rostos do Silêncio



Lembraste-me, com as tuas últimas postas, este excerto, que fixei particularmente, de um livro cru e objectivo, a partir da visão de uma mulher analítica. Desassombrada, sem paninhos quentes no que toca a retirar conclusões sobre a vida.
Por vezes, na grande maioria das vezes, é assim que sinto as pessoas e o mundo.
Praticamos variações de nós próprios, consoante o rebanho ou matilha em que nos integramos para prosseguir determinado objectivo.
O rosto profissional umas vezes, noutras o rosto de vizinho, de amigo, de pai ou mãe, de passageiro do banco ao lado, ou então o rosto de líder, de subordinado, de amante, de amado.
É o preço da sociedade, que nos torna actores.
Os melhores vivem várias vidas numa só e, às vezes, até se safam.
Os outros, que gostariam de não ter que afivelar, tantas vezes com cola de fraco poder, tanta máscara distinta e que optam por não o fazer, são olhados de lado, peças fora da engrenagem, alvos de suspeição e temor. São originais de ser humano, esses. Reversos do verso aceitável. Côncavos do convexo impresso no molde. Felizes, simplesmente.

Mar
publicado por shark às 15:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)

A POSTA CARNAVALÓGICA

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Foto: sharkinho

A tolerância e a compreensão constituem requisitos fundamentais para consolidar qualquer tipo de relação. Não é novidade para ninguém. Contudo, multiplicam-se os exemplos de ligações que terminam por via da incapacidade da maioria das pessoas de flexibilizarem os seus critérios em função das circunstâncias, do contexto em que as reacções dos outros se manifestam.

Fazemos tábua rasa dos problemas alheios, quando temos que avaliar as atitudes menos correctas com que nos confrontam. Ignoramos os estados de fraqueza, a vulnerabilidade que possa estar associada ao gesto que nos cai mal, reagimos sem contemplações.
E tal ímpeto pode constituir uma tremenda injustiça para com pessoas cuja conjuntura pode justificar a conduta que nos desagradou, pelo desprezo que evidenciamos relativamente aos factores de que, quantas vezes, até temos conhecimento.

É nesses momentos que deveriam falar mais alto a amizade e/ou o amor. Porque é fácil estar na boa com alguém que nunca desatina, que mantém uma compostura a todo o tempo exemplar. O que vale uma relação, qualquer relação, mede-se precisamente nos instantes em que testamos a paciência dos outros ou estes nos colocam à prova nessa matéria. É aí que temos a oportunidade de nos distinguirmos da multidão, quer pela forma como nos tratam quer pelo modo como nós mesmos enfrentamos um problema que possa surgir.
Nenhuma relação vale um chavo se nos momentos difíceis não faz qualquer diferença se o “outro” está a enfrentar as sequelas de uma revelação foleira, de uma preocupação justificada ou apenas de um momento mau da sua vida pessoal ou profissional ou ambas.

É na capacidade de termos em conta esses factores, de reprimirmos a “punição” pelos desmandos de quem constitui o nosso núcleo duro de relacionamentos que nos provamos merecedores da estima de alguém. Por fazermos prova da nossa por essa pessoa.
Isto é óbvio e nem deveria ser necessário repetir.
Porém, todos os dias se concretiza mais um divórcio, mais uma ruptura, mais uma separação algures no nosso universo particular. Às vezes toca-nos essa fatia amarga do bolo social, onde na maioria dos casos só existem migalhas de consideração para cada um debicar como pode.
Só mantemos ligações duradouras se nos mostrarmos dispostos a pactuar com todo o tipo de enxovalhos. E desses enxovalhos faz parte a tomada de consciência da nossa real valia para quem nos é próximo.

Relações de merda, afinal, construídas por detrás de fachadas que podem ruir à primeira contrariedade, que sucumbem pela falta de sustentação. Os alicerces frágeis, assentes em terreno desequilibrado, afundam-se na areia movediça do faz de conta. Faz de conta que gostamos imenso, se tudo correr pelo melhor.
Mas quebra-se o encanto, mal alguém ousa violar o pressuposto da relação sem ondas, fácil, boçal. Mesmo que lhe assista alguma razão para fundamentar uma reacção estapafúrdia.

É assim que se vive nos nossos dias. Paredes presas por arames, sustentadas pela camada de verniz que, por qualquer merdinha, estala e faz desabar o desgosto sobre as carolas de quem investe demasiada esperança na boa vontade alheia.
Somos uma maçada uns para os outros, incapazes de ocultarmos as fragilidades que nos inferiorizam e nos remetem para o lote dos dispensáveis ou supérfluos na agenda do cidadão comum.

Nesse contexto, o Carnaval é uma época perfeita para a sociedade que construímos.
Podemos acrescentar outras máscaras às muitas que o convívio com os outros nos obriga a carregar.

Podemos parodiar a nossa verdadeira condição de aprendizes de camaleão que o quotidiano modela à bruta.
publicado por shark às 09:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 26.02.06

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho

Finalmente aceitei.
publicado por shark às 20:51 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NO TEJO

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 18:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

SEGUNDA ESCOLHA

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Aquele indivíduo metia dó. Via-se encurralado no caminho emocional das outras pessoas e sempre se descobria como uma segunda escolha, uma alternativa aos ideais românticos de quem o abraçava. Uma panaceia.
Aos poucos definhava nessa certeza que a vida lhe dava, de surpresa, nas mais variadas formas. E eu assistia à sua morte em vida, impotente, percebia a dimensão do seu desgosto e a progressiva perda da sua fé, mais em si do que nas outras pessoas.

Ele era um homem que passava a vida a perdoar, deixava-se enganar de propósito para merecer a caridade do amor de alguém. Alimentava ilusões que depois se desfaziam como flores secas e murchas na palma da sua mão. E ainda arranjava maneira de ficar mal visto com essa constatação. Nem lhe perdoavam as conclusões óbvias perante factos impossíveis de desmentir. Preferiam ferir a sua sensibilidade, insultando-lhe a inteligência.

E ele tinha consciência do seu papel de actor secundário na vida das protagonistas de cada filme em que contracenava como palhaço pobre, pobre coitado que apenas colmatava as lacunas como uma simples peça de substituição. Perdia a razão, ou tiravam-lha, sempre que se deixava convencer pelas evidências. Não lhe perdoavam um beliscão na realidade alternativa de cinema mudo que lhe cabia interpretar. Apenas lhe restava sonhar, enquanto aguardava que outros lhe assumissem a função. Metia dó.

Tentei deitar-lhe a mão, enchi-o de esperança. Mas de nada valeu. No seu horizonte adensava o breu e acumulavam-se os episódios que o humilhavam, as conclusões que lhe rejeitavam com base em desculpas sem nexo, esfarrapadas. Eram tantas as evidências que ele nem podia alimentar um sonho em condições, mesmo uma pequena ilusão, de se ver titular na equipa ganhadora em vez de mero suplente num jogo para empatar a solidão.
Nem conseguiam enganá-lo, ocultar-lhe os sinais.

Um dia ele desapareceu. Da minha vida como das de outras pessoas, nem sei se morreu. Por dentro, aposto que assim foi. Ouvi-lhe a amargura em tom de despedida, quando me confessou, cabisbaixo, a sua desistência dos caminhos do amor. O fim de uma carreira menor, por sua iniciativa, antes que ficassem preenchidos os lugares que ocupava de forma indevida. Sabia-se incapaz de competir com o estatuto e o comportamento ideal que outros, os eleitos, assumiam com a naturalidade dos verdadeiros ganhadores.

Ele acabou a perder, vexado.
E carregou para outro lado as mágoas que a vida lhe deu a provar.
publicado por shark às 12:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

TENHO UMA PENA PARA TE REVELAR

Ontem estive a observar a outra face de alguém. Um alter ego, escondido numa gaveta aberta, camuflado com uma identidade alternativa em modo reverse para afastar os olhos indiscretos das verdades que não podia contar.
Mas precisava. E por isso arriscou deixar aberta a gaveta, na convicção de que ninguém poderia algum dia somar dois mais dois a partir das improváveis coincidências ali expostas.

Nessa outra face, menos politicamente correcta, essa pessoa desabafava o que lhe ia na alma e fornecia explicações para fenómenos que me deixavam surpreso, sem respostas. Como numa imagem invertida de si, um recomeço logo a seguir a um fim. Essa pessoa afastou-se de mim, devo esclarecer, e eu não entendia porquê. Entendi-o agora, nas palavras que me escondeu por detrás de uma porta entreaberta à minha mercê, ao alcance do olhar indiscreto que agora me envergonha.

Exigi demasiado dessa pessoa, reconheço agora. A vida lá fora é um poço de tentações que gera desequilíbrios entre o que queremos e o que conseguimos ser. A vida é uma permanente armadilha para o nosso coração. E a cabeça é que paga, atormentada pelas dualidades que nos minam a consciência.

Arrependo-me de ter, com o exagero da minha pressão, afastado de mim essa pessoa.
E de destruir, pela natureza das revelações que me confrontaram e pela curiosidade mórbida que me amarrou às palavras ocultas, a confiança que nos poderia reaproximar.

É uma pena que a sinceridade seja proibida na amizade.
E até no amor.
publicado por shark às 12:41 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 25.02.06

LIGAÇÕES PERIGOSAS

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Foto: sharkinho

Às vezes as palavras não me parecem as amigas que eu preciso acreditar. Tenho medo da sua má influência, não em mim mas nas outras pessoas. A mim as palavras não fazem mal algum, já aprendemos a conviver com esta relação de dependência, já aceitámos a nossa incapacidade de existir nas respectivas ausências.
As palavras, as minhas, não existem de facto sem alguém que as dê à luz. Sou pai como sou mãe destas reproduções grosseiras daquilo que me faz. Mas também sou o amante que lhes ensina a arte da paixão, que com elas partilha as emoções mais profundas, as fraquezas mais secretas e tudo o que possuo de bom e de mau para exibir.

As palavras crescem em mim e depois apresentam-se a quem as encontra pelo caminho e nem sempre exprimem a minha essência e outras vezes vão longe demais na exposição do que sou. Atraiçoam-me, como górgonas, petrificando a minha imagem ao sabor das diferentes interpretações que induzem.
E por isso receio por vezes as palavras e fujo-lhes a sete pés, viro-lhes as costas, tapo os ouvidos ao seu canto de sereia com que me arrastam para o falatório e me denunciam enquanto homem vulgar.

O meu amor pelas palavras, contudo, também me obriga a acarinhá-las. Rendo-lhes homenagem em cada tentativa de as utilizar de forma adequada, de conseguir conferir-lhes um sentido e uma missão. De as embelezar pela combinação entre si. O amor requer coragem, requer sacrifício, exige entrega e abnegação. Exige a predisposição para arriscar as perdas e as derrotas, os actos falhados e as desilusões, o perigo das revelações que nos humilham.
Mas o amor, mesmo o das palavras, também dá em troca. Nos momentos de felicidade, nas ocasiões especiais em que tudo se conjuga para se aproximar da perfeição. Os textos bem conseguidos, os beijos sentidos, a sensação de euforia que nos invade quando vivemos a ilusão feliz.

Aquilo que se diz e aquilo que se faz, nem sempre em sintonia. Sentimentos confusos e palavras sem nexo que os expõem. Perturbações comuns que se guardam nos jardins secretos do silêncio das palavras que não queremos à solta, por se virarem contra nós nas cabeças de quem as decifra. Ameaças verbais para a nossa intimidade, para a nossa reputação que desejamos imaculada e se vê arruinada pelo efeito que as palavras são exímias a produzir.

Eu amo as palavras.
Mas temo o desequilíbrio imanente na nossa relação (cada vez mais) conflituosa.
publicado por shark às 19:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 24.02.06

IMAGENS DE LIBERDADE

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 10:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Quinta-feira, 23.02.06

NESTA ESQUINA UM AMIGO - ZECA

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E nesta casa viverá sempre, pois é dele também o mérito do combate que permitiu construí-la.
25 de Abril SEMPRE, Zeca!

José Afonso (nascido em 02/08/1929, falecido em 23/02/1987)
Trovador imortal.
publicado por shark às 00:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Quarta-feira, 22.02.06

THIS SIDE UP

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Foto: sharkinho

Se não passas de uma ilusão, a imagem da perfeição foi replicada e encontra-se espelhada no reflexo de ti ao alcance do meu olhar. Nesse engano que assumirei, de amar uma miragem, agarro a vantagem que me é concedida. A consciência adormecida, a ignorância bendita que me embala num sonho de que não quero despertar. Na desdita dos iluminados está o descuido no pormenor que faz toda a diferença, a escassa maleabilidade necessária para distinguir um mero golpe de vista de uma observação atenta.

Defeitos invertidos, virtudes aos olhos de quem usa o coração para filtrar as impurezas. Porque todas as certezas são produto da imaginação. Não passam de opiniões, de visões subjectivas a partir de um ângulo enviesado pela nossa percepção.
É difícil de perceber, assim à primeira vista. Pois é.
Mas também as palavras podem estar inquinadas com a mesma deturpação. Como imagens distorcidas pelo efeito da ondulação num lago sereno. Invertidas também, para salvaguardar a fantasia da vingança feroz da realidade como a vemos nesta vida apressada. Gente condenada a passar ao lado daquilo que interessa.

E a única pressa com justificação é a de abraçar essa ilusão que tu sejas e que tudo aquilo que desejas seja eu, mesmo de pernas para o ar. Como uma tartaruga, indefeso perante a tua perspectiva, vulnerável à tua decepção. Prisioneiro dos mesmos anseios, marinheiro de água doce no meio de uma borrasca de interrogações, preocupações sem sentido algum. Porque a vida faz-se mesmo assim, arriscada. É uma viagem sem rumo, ponto de partida aleatório e final da corrida sem hora marcada.

Navegamos à bolina e podemos abdicar do sentido de orientação.
Descobrir em cada porto de abrigo um oásis, em cada amor sentido uma marca tangível no mapa das nossas emoções passadas, presentes e futuras, sem medo de nos perdermos pelo caminho que nem sabemos para onde nos levará.

Por isso te absorvo com sofreguidão, realidade ou ilusão, feita no céu, perfeita como gosto de te ver.

E eu vejo-te assim.
Estás cartografada em mim.

Upside down.
publicado por shark às 20:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 21.02.06

PUZZLE

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aqui


um post em que peças soltas, encaixadas aleatoriamente, compõem uma imagem final.


Desato-me. Abro pontas e desfaço nós e desenho laços. Levanto-me. Ergo os braços e agradeço a luz. Passo o rosto por água, prendo o cabelo, pinto risos no olhar. Desejo-te. Visto saudades e estico as mãos à procura da ponta dos teus dedos. Abraço-me, no regaço que te guarda. Toco cordas de alegria. Alimento vozes de magia, palavras de encanto. Gosto-te. Escrevo rascunhos em pedaços de papel que deito fora. Leio-te. Corro as cortinas, estico os lençóis. Adormeço devagar. Sobreponho, peça a peça, os momentos que fizémos a dois. Subo a escada. Bato-te à porta. Desato-te. Desfaço o enguiço. Abro, um a um, os botões da penumbra que te cobre. Solto o cabelo. Sorrio. E beijo-te.

Mar
publicado por shark às 19:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Segunda-feira, 20.02.06

MAPA DE MIM

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Percorro um caminho feito de estranhas coincidências e de surpreendentes revelações. Como se esse caminho fosse sendo construído por antecipação, não necessariamente por entidades divinas ou superiores (mas também, se calhar), para definir o traçado que me compete seguir.
E eu limito-me a agir, marioneta, ao sabor do terreno que me dão a pisar. Retalhos de informação, o asfalto, que o cilindro de intenções alheias calca para conduzir os meus passos e definir os meus traços, a minha conduta e a minha disposição.

Mando pouco, afinal, no rumo que defini. Ou julgava. Porque afinal apenas andava como um cego perdido no meio de um deserto qualquer. E continuo sem ver. Tacteio com os pés o caminho que alguém se predispõe a construir, só para mim. Sorriso palerma, como uma foca agradece a recompensa pelos seus malabarismos circenses, finjo que sei pensar e nunca atinjo o verdadeiro alcance das pistas que me dão. Ou que descubro sem querer.
Tropeço nas pedras soltas deixadas ao abandono nas margens do leito seco de um rio que passou, negligências, espalho-me ao comprido e levanto-me outra vez.

O acaso mal explicado e o mistério adensado que não consigo vislumbrar na escuridão da cegueira.

O que me cega é a luz do amor.
publicado por shark às 18:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)

UM DIA COM O ZECA - 23/02/2006

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O Troll Urbano está na origem de mais uma manifestação desta esquerdalha que não consegue deixar cair os seus figurões. Por mais que a malta os tente achantrar, insistem nestas tretas.
E um gajo, por simpatia e delicadeza, acaba por alinhar. Nem se pode dizer que a gente aqui no charco acredite nessas coisas...

Agora a sério: no dia 23, vamos seguir este belo exemplo e homenagear o ZECA e tudo aquilo que ele representa.
O Charquinho adere e até se trata de uma estreia (nunca demos música propriamente dita).
Vamos nessa?
publicado por shark às 12:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Domingo, 19.02.06

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho
publicado por shark às 12:53 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 18.02.06

ASPIRINA X

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Como referi duas postas atrás, estou engripado. E os sintomas estão assanhados o bastante para um médico me receitar um antibiótico.
Questionar o critério de um médico é algo que só concebo quando é evidente o engano (sempre possível) nas suas opções terapêuticas. Nem deve ser o caso, mas parece-me que prefiro confiar na capacidade das minhas defesas naturais para combater o bicho que me entope as guelras. E explico porquê.

Tenho o péssimo hábito de ler aqueles papéis com letrinhas muito pequenas que os laboratórios farmacêuticos fazem, por gentileza, acompanhar os seus produtos. Chama-se posologia, ao que sei, e contém a informação que se julga necessária para todos sabermos que raio de mistela estamos a enfiar pela goela. E sempre que leio este manancial de informação desencadeio em mim uma reacção alérgica. Tomem nota, por favor, do que o laboratório que fabrica o antibiótico que me foi receitado inclui num parágrafo a que dá o título “possíveis efeitos indesejáveis”.
A itálico destaquei as “panaceias” para dourar a pílula e a onda “ok, este faz mal. Mas os outros não são melhores”.

(…) Foram observadas, embora com uma escassa incidência, manifestações digestivas, perda de apetite (anorexia), náuseas, vómitos/diarreia (chegando a causar de forma excepcional desidratação), fezes soltas, incómodos abdominais (dores/cólicas), obstipação, flatulência, colite pseudomembranosa e, raramente, descoloração da língua.
Em alguns doentes, com doses elevadas e durante períodos de tempo muito prolongados, observaram-se alterações da audição que na sua maioria desapareceram quando se interrompeu o tratamento.
Em alguns doentes observou-se, de forma excepcional, alteração no paladar.
Em alguns doentes observaram-se casos de alterações das funções hepática (raramente graves) e renal.
Observaram-se casos de tontura/vertigem e convulsões (tal como sucede com outros antibióticos deste grupo), assim como dor de cabeça, sonolência, formigueiro, hiperactividade, reacções de agressividade, nervosismo, agitação e ansiedade.
Em ensaios clínicos foram observados, por vezes, episódios de neutropenia ligeira transitória (diminuição do número de glóbulos brancos), embora não se tenha estabelecido a sua relação causal com a Azitromicina, e de trombocitopenia (diminuição do número de plaquetas).
À semelhança de outros antibióticos, foram comunicadas reacções do tipo alérgico, em raras ocasiões de carácter grave, em doentes tratados com Azitromicina.
Foram comunicados casos de alterações cardíacas (tal como sucede com outros macrólidos), embora não se tenha estabelecido uma relação de causalidade com a Azitromicina.
Excepcionalmente apresentaram-se reacções cutâneas graves.
Foram comunicados casos de astenia (cansaço) mas não se estabeleceu a sua relação causal com a Azitromicina, assim como de infecções por fungos, dores nas articulações e vaginites.

Eu estou constipado, porra! E este mal já conheço de ginjeira.

Sinceramente, doutor: Prefiro morrer da doença.
publicado por shark às 23:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sexta-feira, 17.02.06

A POSTA VERDE

Como vês, rapariga, cumpro sempre as minhas promessas. Aqui fica a minha imagem da esperança no seu tom mais clássico.

naco de paraiso.JPG


verde floral.JPG


beethoven.JPG


gripe das arvores.JPG


verde terra santa.JPG


Fotos: sharkinho
publicado por shark às 21:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

SINAIS DO CÉU

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Foto: sharkinho

Aqueles de entre vós que já sentiram na pele ou observaram alguém a lidar com uma cólica renal não precisam de mais palavras para perceberem como tem sido este meu dia desde as cinco da matina.
De resto, já ontem à tarde me vi obrigado a "meter baixa" por causa da primeira (e assanhada) gripalhada de 2006.
As forças combinadas destas maleitas, pelo cruzamento dos efeitos, deixam um gajo completamente feito num harmónio.
A puta da vida está a dar-me conta do astral. E um gajo precisa de desabafar estas coisas, pois o desabafo liberta e eu não tenho tendência para me deixar aprisionar pelas circunstâncias.

Por outro lado, em cada momento aziago abre-se uma porta para a beleza, para a força, para o privilégio dos dias melhores. Como a foto acima, que hoje tirei no meu terraço depois de regressar das urgências do CUF Descobertas, bem o demonstra.
Um sinal do (no) céu, como se o sol quisesse mostrar-me como se faz para contrariar as nuvens que insistem em nos toldar a perspectiva, em nos taparem a vista para as maravilhas que a realidade pode oferecer.

A dor não me cegou. E esta posta é o testemunho que vos dou, a minha mensagem de esperança e de força para lutarem contra as condições adversas que, cedo ou tarde, acabam por desaparecer do horizonte.

A natureza percebe muito destas coisas... :)

Bom fim-de-semana para todos vós!
publicado por shark às 15:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Quarta-feira, 15.02.06

ANOTAÇÕES

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Conservo, de forma mais ou menos organizada, quase todas as agendas e cadernos de notas que fui usando ao longo destes últimos anos, no exercício de funções profissionais.
É claro que isto - no meio da desorganização geral como forma normal de funcionamento - significa encontrar de vez em quando e por acaso, nos sítios mais inesperados, os referidos objectos de assentamento de notas e compromissos e assuntos muito, pouco ou nada urgentes e também aqueles classificados na categoria de "o tempo há-de resolver". Ou ainda os ininteligíveis, do tipo "55, hoje, ouvir** ////". Assim mesmo.
Aconteceu há poucos dias, no decurso de uma limpeza mais metódica a algumas divisões da casa, reaver um conjunto de volumes de capa encadernada a exalar ainda um suave aroma a couro, outros de cartão semi-roído nas pontas e com folhas desirmanadas a desprender-se das argolas e ainda alguns quase intactos, com apenas uma ou duas anotações nas primeiras folhas, brancos e inocentes, à espera de registar um rol de obrigações inadiáveis que nunca chegaram a acontecer.

Gosto de ter estes registos dos meus dias passados.
Gosto de saber que, no dia 4 de março de 2001, por exemplo, tive que ir a uma consulta - dentista - violeta, com a menina dos meus olhos. Gosto de imaginar - porque não me lembro dos detalhes, porque normalmente não relembramos estes minutos e horas de vida de actividade "normal" - que a apanhei à saída do jardim de infância, cabelos a voar e dentes de leite, e partilhámos juntas a experiência registada. E depois fomos comer um gelado.
Ou que, outro exemplo, no dia 25 de Setembro de 1999, participei em mesa - abertura - sessão, de uma das milhentas comemorações de todo o tipo de efemérides nas quais tive que estar presente, por via das responsabilidades profissionais.
Gosto de relembrar ocasiões, tantos anos depois, dias felizes, outros nem tanto, através destas notas registadas por mim em folhas e folhas de diferentes cores, tamanhos e texturas, de perceber, à distância, a verdadeira dimensão do que, naquele momento, parecia ser o assunto mais importante ou inultrapassável do mundo. Dívidas e obrigações e urgências e lazeres, preservados em gradientes diversos de tintas azul ou preta ou verde ou lilás.

Guardar estes cadernos, faz-nos perceber o quão relativas são as nossas maiores preocupações do momento. As horas que gastámos e desgastámos a tentar encontrar soluções para um problema que, visto à luz de 4 ou 5 anos que já lhe passaram por cima, se afigura até, vagamente ridículo. Como a impreterível data marcada para tratar do IRS, a obrigatória presença na importante reunião de negociação de um protocolo, a inadiável deslocação a um fogo devoluto a precisar de obras e que, entretanto, ostenta hoje um telhado novo e reluzente. Faz-nos questionar as prioridades que vamos definindo, muitas vezes empurrados por uma conjuntura que não nos deixa outra saída.
Conservar estas memórias escritas, ajuda-nos a reencontrar r a pessoa que fomos e a avaliar o que mudámos entretanto. São como que fotografias de rotinas que tivémos, como os círculos marcados no interior do tronco de uma árvore, que representam eras distintas de uma vida. São pedaços de quotidiano que reavemos quando abrimos ao acaso uma agenda ou bloco de notas antigo.

São momentos de nós. Pedacinhos de um caminho.

E o que é giro é perceber que, depois, há aquelas memórias, registadas no disco rígido das emoções, que não necessitam de qualquer apontamento escrito.
Estão sempre ali. Simplesmente.

Mar
publicado por shark às 20:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)

JANELA FECHADA

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Foto: sharkinho


Para quê a ânsia de rasgar janelas na muralha, de abrir uma brecha à luz dos raios de sol e ao arrepio da brisa nos cabelos, para depois as manter fechadas?
É como desenhar estradas na planície, vias de comunicação para inglês ver, interditas ao tráfego de tudo quanto se possa mover. Apenas pelo valor simbólico da abertura ao exterior, pela fachada.
Fica mais bem decorada, a parede opaca, com um buraco por onde espreitar, de vez em quando, por detrás das cortinas que jogam bem com um detalhe qualquer do interior. Às escondidas do lado de fora, o agressor. À revelia do amor e de todas as emoções genuínas, o medo da luz, mais forte do que a ameaça dos fantasmas ocultos na escuridão.

A fuga apressada à primeira gota pingada, filha única da chuva que nunca chega a acontecer na realidade seca de quem veste uma gabardina por causa da incontinência de uma nuvem isolada que entretanto por ali passou. Por cima da fortaleza, o castelo (des)encantado cuja ponte levadiça emperrou. A janela que se fechou sobre si própria e assim contrariou o nobre propósito que a justificava.

Madeira carcomida, pintada de branco para simular a alegria que um simples sorriso poderia transmitir. Ou uma conversa com a vizinha do lado, braços pousados no estendal. Conversa banal, porque não? Melhor do que a solidão que dispensa janelas para lhe iluminarem as mazelas da falta de um abraço. Melhor do que o olhar baço por detrás da cortina de ferro sem fantasia onde esbarram os sonhos inviabilizados pela apatia.

Talvez pela cobardia. O perigo real de uma inesquecível constipação. Menos provável no Verão, sem descartar à partida o excelente pretexto do excesso de calor. E no Inverno o bolor, da humidade excessiva que lá fora se experimentou.

Janela fechada. Rasgada sem nexo na muralha individual.
Sempre à espera, sempre à espreita da ocasião especial.

Emperrada pela vontade adiada e pela pressa de fugir, até ao dia em que a vontade esmoreça.
E já ninguém a queira abrir.
publicado por shark às 01:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Segunda-feira, 13.02.06

A POSTA AZUL

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Fotos: sharkinho

Tenham uma semana desta cor.
publicado por shark às 11:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 12.02.06

A POSTA INÓCUA (Mais uma)

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Foto: sharkinho

O melhor pretexto de qualquer progenitor para justificar um comportamento irregular ou embaraçoso por parte de um filho são as “más companhias”.
Estes oportunos bodes expiatórios permitem encontrar uma explicação “de fora” para a questão interna, satisfazendo em simultâneo o impulso de preservação da imagem dos “nossos” e a nossa paz de espírito perante a eventual quota de responsabilidade que nos possa competir, na educação ou na hereditariedade.

A culpa dos outros, no acto em si ou no simples desencaminhar da pessoa certinha que, de repente, se assumiu destrambelhada. Um dos mais gastos caminhos de fuga para uma realidade que não conseguimos aceitar. E sempre actual.

Mas esta mania de atribuir a terceiros as razões ocultas para as nossas culpas não se fica pelo natural, embora condenável, instinto de mãe ou de pai. As meninas e os meninos aliviados da carga pejorativa dos seus pecados, atirada para cima de outra pessoa, aprendem a lição. Depois de crescidos, continuamos a sentir a tentação de escapar pela porta mais à mão.
Falo por mim também, claro, que não raro dou comigo a interiorizar essa facilidade ao dispor. Porto-me de forma contrária aos meus princípios e aos meus valores mas a culpa é de fulana ou de sicrano que me desviam do caminho e me obrigam a agir de forma errada. A forma errada é enveredar por um pretexto que nos transforma, pela lógica implícita, em imbecis sem vontade própria.

Os outros não servem, nunca servirão de atenuante para as nossas más escolhas. São apenas figurantes no teatro de marionetas onde nos compete manipular os fios. Donos do nosso destino, senhores da nossa capacidade de decisão. Tudo o resto não passam de baldes de areia onde enfiamos a mona como avestruzes quando a coisa se descompõe.
Claro que todos padecemos de alguma vulnerabilidade às influências que nos chegam do exterior, mais vulneráveis quanto mais ligados a essas pessoas que nos influenciam.
Contudo, a última palavra, a última atitude fica sempre a cargo de cada um de nós, da nossa consciência que distingue certo e errado, bom e mau, melhor ou pior.

Se agimos contra a nossa natureza, levados pela corrente por outros criada, não adianta descartar a responsabilidade para cúmplices de circunstância. Bastaria dizer não. E rumar na direcção oposta, se era a que nos parecia a mais acertada, arcando com quaisquer consequências, as nossas consequências, pelo desacerto de qualquer opção infeliz.

Não há santas imaculadas nem pecadores sem remissão. Somos criaturas em busca de um rumo decente para uma existência em condições, desorientadas pela ignorância que se revela em cada descoberta que se produz. Somos uns parvos que, na esmagadora maioria, desaproveitamos a vida na ingrata missão de infernizar as vidas alheias como diabolizam a nossa. Purgamos o mal em exorcismos de merda, quantas vezes à custa de outras pessoas, as tais que nos servem de justificação para as atitudes indignas e os pensamentos impuros. E renegamos o bem a cada esquina de uma vida cheia de ameaças e de ambições, de falsas promessas e de tentações demoníacas que são as inerentes à nossa frágil condição de aberrações num mundo harmonioso que estamos a arrasar.

Não há desculpa, excepto o arrependimento que se prova nas acções. Ou mesmo nas palavras, quando sinceras, daquelas que nos assumem as culpas no cartório e que constituem o motor natural para um procedimento melhor, logo a seguir.
Porque o somatório dessas intervenções, mais algo de brilhante que poucos de nós somos capazes de produzir ao longo da passagem, é o que fica da nossa presença fugaz e, regra geral, obliterada no prazo de uma geração ou duas.

Claro que isto é uma conversa inócua, considerando o lugar que todos os que nos preocupamos com estas coisas ocuparemos dentro de algumas décadas (no melhor dos cenários).

Mas um gajo tem que entreter-se com alguma coisa enquanto o tempo não esgota, não é?
publicado por shark às 16:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Sábado, 11.02.06

PARQUE DAS NAÇÕES - As Pessoas

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 23:32 | linque da posta | sou todo ouvidos

PARQUE DAS NAÇÕES - As coisas

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 23:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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