Terça-feira, 31.01.06

A POSTA NA SINALIZAÇÃO VERTICAL

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Dizem muitos dos que enfrentaram ao longo da vida o fogo real de um campo de batalha que um dos principais trunfos para conseguir escapar incólume nessas circunstâncias é o medo.
Paradoxal, esta conclusão soa estapafúrdia e até colide com a opinião de alguns veteranos para quem a guerra se faz de cargas da brigada ligeira, de actos heróicos onde a coragem prevalece e distingue os melhores.

No entanto, quando alguém nos aponta uma arma ou simplesmente nos ameaça de alguma forma, só o bom senso e a prudência podem conduzir-nos ao desfecho ideal. A vitória repartida dos que souberam a tempo evitar o pior, que se pouparam a consequências evitáveis apenas porque decidiram recuar. Agressores e agredidos potenciais, unidos em torno do instinto de conservação.
Água na fervura, cabeça fria e a vida continua disponível para aprendermos com as nossas asneiras sem precisarmos de as agravar.

Eu admiro a coragem nos homens que lutam destemidos, como admiro a sabedoria dos que, lutando na mesma, conseguem obter soluções de compromisso que evitam a sua perda e a daqueles que a vida lhes coloca no caminho, na pele de opositores ou de adversários. A guerra, hedionda, a ceder à diplomacia. Menos baixas, menos sequelas, mais gente que sai vencedora.
Qualquer conflito assume as proporções que lhe impõe uma dada conjuntura, os acasos de que o tempo se faz. E a diferença é feita por quem consegue geri-los sem perder o norte à relatividade que o futuro empresta aos eventos que passaram, à luz de uma avaliação sob outros pressupostos.

É por isso que a morte gloriosa dos guerreiros de qualquer tempo em qualquer lugar tem sempre um sabor a desperdício, pois a antecipação do armistício, a razão que prevaleceu, pouparia as vidas e as dores sofridas pelos heróis, para um mesmo resultado a obter no fim.
Mas o mesmo raciocínio, dimensionado à escala das pequenas escaramuças humanas que podem nascer de uma frase infeliz, de uma má interpretação de sinais ou de um piano de cauda caído sem querer no Ferrari do vizinho, pode e deve aplicar-se na perfeição aos nossos desatinos quotidianos.

Às vezes até somos surpreendidos pelas pessoas que, por força das circunstâncias, se colocam nos lados opostos de uma barricada qualquer.
Por isso se justifica sempre o recurso ao diálogo, à busca de soluções razoáveis, antes de partir sem rumo para uma bronca leviana.

Por isso, não sendo um pacifista ou objector de consciência, prefiro-me conciliador. E acredito que as minhas reacções em sentido contrário não passam de traições aos princípios que a lógica me confirma e a prática raramente desmentiu.

Existe uma espécie de semáforo interior que nos controla a impulsividade e outras tendências potencialmente lesivas, que nos avisa de quando podemos ou não carregar no acelerador. Quando trabalha menos bem, entra no modo pisca-pisca.

E nos cruzamentos da vida devemos estar particularmente atentos às intermitências da lucidez.
publicado por shark às 18:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Segunda-feira, 30.01.06

AGORA APETECE-ME...

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Foto: sharkinho


...descansar um bocadinho.
publicado por shark às 18:47 | linque da posta | sou todo ouvidos

O SAPO FALOU

Formidável. Ainda mal escrevi a posta anterior e já houve um sapo inchado que estremeceu nos confins do seu pantanal pasmacento, todo contentinho por poder largar a sua poia no meio da bonecada que deveria ser o único conteúdo do pasquim que alimenta.

As notícias correm depressa neste mundo que se bloga…
publicado por shark às 16:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

MAS CERTAMENTE QUE FIM...

Com a neve chegou uma época glaciar ao Weblog.com.pt. Só hoje, dei por três despedidas em blogues desta plataforma portuga.
O primeiro que descobri foi o Janela para o Rio, aparentemente vítima da estatística. Um local moribundo, segundo palavras do autor (um insigne benfiquista como eu). Estava aberta (a janela) desde Junho de 2003 e agora acabou.
Pelo desabafo do colega, subentende-se o desencanto de quem se rala com a dinâmica do blogue (as visitas e/os comentários, talvez). Aceitável e assumido de forma sincera por quem acrescenta sem merdas os laços que o prendem a essa coisa sua que é um blogue.

Porque isto é mesmo coisa nossa. E considerando o investimento de tempo e de concentração (ninguém gosta de fazer má figura), acaba por se tornar quase parte de nós.
Custa assistir à agonia do nosso blogue, como custa (por exemplo) constatar essa realidade numa relação.
E parece haver uma ligação directa entre estes dois exemplos, como a despedida simultânea do meu senhorio e da Ana (na sua dimensão pública) parecem indicar.

O facto de eu estar a referir aqui o fim dos seus blogues em paralelo com o aparente fim da sua relação, talvez apenas uma conclusão precipitada do leitor que sou, evidencia este cariz coscuvilheiro da blogosfera que nos põe a discutir a nossa vida e a dos outros à vista do pagode.
Somos nós, os que blogam, que damos os flancos nesse particular. E eu tenho alguma autoridade moral na matéria, pelo que neste blogue aconteceu em matéria de exposição “mediática” da minha relação com a Mar, algo a que pusemos cobro neste espaço que agora partilhamos e esteve de alguma forma na origem do fecho do Espelho.

Parece que sentimos algures a necessidade de deixar escapar coisas nossas para essas nossas coisas que são os blogues onde nos comunicamos e nos damos a conhecer. Dito assim, parece normal que deixemos transparecer os nossos problemas, os nossos humores e os nossos amores para a praça pública. E é assim que o Sharkinho que, tal como o Jorge, mal conhece as pessoas em causa se sente legitimado para as debater por esta via, para alimentar o falatório que os nossos desabafos (muitos deles sob a autogestão da nossa ira ou de um enorme desgosto) oferecem de bandeja aos cuscos de ocasião.
A malta que nos lê, uma espécie de vizinhança paredes-meias que encosta o ouvido para ouvir a discussão. E nós, palermas, gritamos as palavras sem qualquer contenção.

Lamento o final dos blogues em causa, porque tinham efectivamente qualidade, como lamento os contornos que a sua face visível permite antever. Por todos os motivos e mais alguns, ainda que não os comentasse (apenas porque tal não se proporcionou). Sobretudo se a esse fim se associa de facto o final de uma relação (muito) amorosa que, perante este desfecho, estaria bastante ligada à componente blogueira.
E se assim é, entristece-me que uma tenha implicado o fim da outra. Entristece-me o fim de qualquer uma delas e pelo menos uma está confirmada com o fecho dos blogues.

Aos colegas blogueiros citados nesta posta envio os votos de que não tarde a renascer o impulso irresistível que nos move nestas andanças e que entretanto as vidas se adaptem na boa ao novo figurino.
publicado por shark às 12:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (38)
Domingo, 29.01.06

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ

As fotos abaixo foram tiradas por mim hoje, em Sacavém (Gronelândia de Baixo...). Sim, é neve.
Outra destas e piro-me pró Brasil...

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publicado por shark às 18:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)

ENCHIDO DOMINICAL

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Foto: sharkinho

O importante é ficar indiferente à agressão. Uma indiferença planeada, calculista, assumida em legítima defesa contra os sinais exteriores da tristeza que nos pode contagiar.
Uma vacina, inoculada na alma para preservar o coração.
O ataque pela calada, discreto, com a guarda avançada de um agente secreto equipado para tomar o território com a manha de um cavalo de Tróia. A galope pela planície, convencido pelo silêncio da guarda desprevenida (uma desatenção fingida) a avançar sem temor rumo ao desfiladeiro, sem cuidar uma emboscada passível de acontecer.

Confiante na vitória, monta um acampamento às portas do bastião e aguarda os reforços no meio dos destroços da batalha anterior. Não luta pelo amor mas apenas pela glória de quem soma outra cruz na fuselagem, a conquista de outra margem com as armas que a cobardia inventou.
Estandarte espetado na terra alheia, cruel, como uma bandarilha no dorso sensível do touro que já nem investe contra o matador. A confiança de um vencedor nos trunfos acumulados, os espaços ocupados com uma estratégia genial. Simular o bem para fazer o mal (sem querer, claro está) e sem perder a tranquilidade na consciência.

Um jogo de paciência que desarma a oposição. Faz de conta que estou do teu lado e como és desbocado vou recolher mais uns nabos da púcara. Para os espalhar depois, como uma sementeira de descrédito no terreno fértil da embirração gratuita. A vulnerabilidade exibida na arena, como uma ferida a jeito para quem a quiser remexer.
Apenas pela satisfação coscuvilheira, uma trica mesmo à maneira para alimentar conversa de circunstância ao telefone ou pelo teclado do computador. Ou à mesa de um café, conspiração, sabes a última do interior das muralhas?
A defesa está entregue a um imbecil…

As tropas invisíveis arrastam-se sem pressa pelos campos lavrados do inimigo comum. De esguelha. A linha da frente no flanco desguarnecido, como julgam, certeza no cagar pela leitura de um relatório feito em cifra pelos agentes infiltrados que apontam com o dedo o local indicado para a dentada do cão.
Deixou-se morder, está perdido. Ficou distraído com a dor que sentiu quando as mandíbulas se cerraram, outra vez no mesmo anzol.

Avance o exército invasor! Ao longe o fragor das botas cardadas que pisam o chão. Terras devastadas pela praga de gafanhotos, queimadas sem dó pelo fogo da pequena traição. Prometo que não conto nada a ninguém, os filhos da mãe são um poço sem fundo para os segredos que emprenham pelos ouvidos e libertam na defecação. Netos nascidos com uma malformação congénita, no cheiro e na cor. Desdenham a amizade e zombam do amor, são coisas peganhentas que se orgulham da família, aprendizes de mafiosos com tiques de cães raivosos que atacam nos pontos mais fracos das vítimas de ocasião.

Indiferente à agressão, a muralha sitiada alberga uma surpresa danada para os que a pressentem sem guarida. Nas ameias os panelões com o azeite fervido, para cada atrevido uma dor especial. Arqueiros escondidos à entrada do portão, ponte levadiça que se ergue com o inimigo à mercê na praça central. Sem fuga possível, a informação disponível era apenas um ardil.
Como ratazanas aflitas, como baratas tontas, colidem entre si na ânsia de escapar ao castigo que a sua conduta leviana e imprudente justificou.

O filme acabou assim. Vingança no fim, carnes frias. Carcaças vazias das baixas sofridas nas fileiras de figurantes e de figurões, espalhadas ao acaso pelo campo de batalha improvisado. Combate encenado para adornar outra história, a fixar na memória da plateia que abandona o local sem atenção ao genérico. Letrinhas pequenas a correrem no monitor, ignoradas.

E nas cadeiras vazias já estão instaladas as armadilhas, os efeitos especiais para assustar o espectador desatento que regressa em cada sessão à procura de uma nova emoção ou de um enredo diferente. Um final surpreendente para um conto de réis, mil paus nos costados, cinco euros poupados no cinema das vidas alheias acossadas pelos fantasmas da sua ingenuidade infantil.
Soa baril, mas é uma porra.

Às vezes esturra, este espeto de imagens que rodam em lume brando.
O fogo soprado reanima, alimentado pelo ar que se esgueira pelos lábios viperinos da turba. Nos seus intestinos fermentam ideias, moscas presas nas teias em delírios de soltura. Liberdade sonhada da ratoeira montada para o final feliz de outro episódio concebido para o gáudio das multidões oportunistas.

Afinal era banhada, esta história mal contada pela voz de um péssimo actor. Uma inócua narrativa, um filme de terror para incutir na audiência o estado de alerta.
A consciência desperta e não tarda a produzir resultados.
Ficam avisados e não poderão alegar a ignorância. Mesmo a esta distância, estende-se o longo braço da lei ao encontro dos vossos pecados.
Uma lei divina que é como uma puta fina que selecciona os seus alvos em função da aparência.

É uma consequência, a anedota da bolinha de pingue pongue amarela no canto superior deste ecrã. Seria vermelha a argolinha se antes enveredasse por me ir despindo, num strip tease total.
Mas é hoje é Domingo, tou ca telha e tá um frio do caraças! Esperavam o quê, afinal?
publicado por shark às 18:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Sábado, 28.01.06

SÓ O MELHOR

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aqui


Sim, era disso que se tratava. Aquilo que exigia da vida para si e de si própria para oferecer ao mundo. O melhor. Ou então, nada.

Só o melhor, condição que impunha, quase dogma. Que defendia religiosamente. Na escolha dos amores como do vinho. No prazer carnal de uma refeição confeccionada com mestria. Só o melhor das carícias, que só os melhores conseguem levar ao extremo.

Era isso. O que considerava que lhe era devido e que devia. Cobrança que fazia, por existir neste túnel chamado vida, com uma só saída lá ao fundo. Crédito que dava, a quem com ela partilhava essa passagem. Por sorte ou azar.

Nada menos do que o melhor. O genuíno e exclusivo. Assim soubera que, no fundo do mar se escondia a mais pura pérola e que o aroma perfeito se extraía de uma flor rara, nascida uma vez por ano de entre o gelo árctico. Assim experimentara o sabor dos flocos de neve e a textura da pele de uma ave recém-nascida.

Assim chegara até ele. O melhor. Impossível de passar ao lado, de não reparar. Nada de margem para dúvidas, no remoinho das palavras com que se despia.
Assim descobrira a magia. Das pontas dos seus dedos a desbravá-la, do sopro suave sobre a humidade do seu corpo.

Sim, fora disso que se tratara. A inequívoca garantia de uma peça única, colheita irrepetível, lapidação depurada, viagem em primeira classe. O que esperara e obtivera. O que continuava a exigir. O que cultivaria com afinco. Nunca menos do que isso. O melhor.

Mar
publicado por shark às 13:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sexta-feira, 27.01.06

A POSTA JÁ

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Foto: sharkinho

Retrato parado de um tempo congelado no momento em que a felicidade era outra.
Esboço grosseiro de uma natureza contraditória, ficou na memória a imagem de uma realidade que se escondia por detrás de um sorriso proibido que a máquina fixou.
Para a posteridade na consciência, lembrada a custo a emoção que se sentiu mas que o tempo arrastou aos poucos para o canto das imagens sem cor.
Sentimento de culpa, castigo que dura. Acarinhar a mentira enfiada numa moldura. Fazer de conta.

No sol que desponta há um futuro que brilha, em cada manhã que o presente nos entrega como uma oferenda. Há a beleza da luz e a certeza absoluta da oportunidade concedida, a esperança renascida no dia por gastar. Sem tempo para poupar, o que se escoa por entre os dedos impotentes de quem o queira chamar seu.
Passar a esponja da indiferença sobre as coisas relativas que hoje se vestem como dramas e amanhã enregelam despidas na galeria das pequenas partidas que a vida nos pregou.
Seguir para bingo com a vista colada à linha do horizonte, sempre defronte, que não é a nostalgia a criar a magia que queremos para nós. É paisagem esquecida, aquela que a vida deixou para trás.

Fotografia imóvel de uma farsa que o tempo desmascarou, encaracolada nas pontas, carcomida pelo abandono dos poucos olhares que a visitam, por acaso, no meio da limpeza do pó. É o registo guardado do tempo que acabou e não tem condições para regressar.
A vida a mudar, conjunturas alteradas nas malhas tecidas pelo acaso ou pela nossa influência. Sinal de decadência, o culto absurdo dos equívocos que se revelam na película e se perpetuam sem nexo no rosto perplexo de quem segura apenas um pedaço de papel sem sentido, valor tão fingido que acabou por falir.

Agora o pensamento concentra-se no investimento de amanhã e a lógica inviabiliza a gestão das acções atrasadas, as águas passadas que o tempo congelou no frio cortante que viria a soprar por entre as frinchas abertas de uma revelação qualquer. Ou apenas pelo desgaste natural, a pena capital para as ilusões criadas ao abrigo de uma fantasia.
Mas hoje nasceu um dia e enche-se a carteira de tempo à maneira para apostar à fartazana, sem contar os tostões. Os euromilhões são pedaços da existência, minutos contados para cada pessoa, dádivas divinas para quem ambiciona a riqueza de ser feliz.
Milionários à força, contra a falsa evidência de uma pobreza que só existe, afinal, na vida mendigada de quem analisa pessimista a cotação do presente, ignorando essa gente a fortuna que pode surgir amanhã. Ou, se calhar, até já chegou, no bilhete premiado que só é registado quando se investe na fé.

O milagre a acontecer, apenas para os que ainda cá estão.
E nessa condição de simples mortais, ingratos seremos se não cultivarmos as coisas reais, o calor dos abraços e as alegrias que nos dão.
A vida que não se experimenta nas memórias fotografadas.

É hoje que deve acontecer.
Em cada amanhecer, o apelo do amor que se faz.
publicado por shark às 12:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (20)
Quinta-feira, 26.01.06

BUSCA, BUSCA OS CRITÉRIOS

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Este tipo de posta não costuma suscitar grande interesse à maioria das pessoas. São coisas de blogueiro, intimidades dos nossos bastidores que partilhamos apenas para nossa leitura.
Por isso não levo a mal se não continuarem a ler este lençol.
O assunto é recorrente, mas já há algum tempo não vasculhava os critérios de busca que trazem navegadores incautos às águas do charco.
E se hoje o faço é porque este espaço precisa de aligeirar de vez em quando o conteúdo e alguns destes visitantes anónimos primam pela originalidade (podemos chamar-lhe outras coisas, nalguns exemplos) e prestam-se à galhofa.

Mas eu levo-os a sério. Até porque os termos que arrastam a malta via Google e similares podem reflectir a essência de um blogue. Senão vejamos.


Fotos de defuntos – Já esperava uma destas desde que publiquei a minha. Ainda assim, interrogo-me acerca do que está exactamente em causa para quem procura…

Coração na boca – That´s me. E coração nas mãos, nas muitas vezes que a boca me atraiçoa e fico à espera do retorno.

Para que servem os dentes do tubarão – O capuchinho vermelho respondia a esta na boa. Mas eu posso acrescentar umas especificidades de esqualo. Servem para tornar mais eficazes as dentadas, nomeadamente quando sacamos um surfista pelos calcanhares, uma foca pelos bigodes ou um comentador atrevido pelos... pelos…

Construções com Cavaco – Com Cavaco onde? A trabalhar nas obras ou a construir pesadelos?

Qual a cor do espelho? – O meu é azul, da cor do mar. E é mágico, ainda por cima…


E agora destaco as que me deixaram mais perplexo:


Faróis esperança frente desilusão – Nem sei o que dizer desta salada de critérios, excepto que tenho esperança que os faróis da frente não me dêem a desilusão de fundirem mesmo quando surge no horizonte uma operação stop e eu tenha acabado de sair do Bairro Alto num fim-de-semana…

Eu me sento que aqui, este quente, este frio, muito quente, este frio samba – Este? Comentem-no vocês que eu não faço a mínima…


E claro, as porno-eróticas, inevitáveis neste mundo virtual. Aconselho as pessoas mais sensíveis ao vernáculo de taberna a mudarem de canal. De blogue, queria eu dizer.


Meninas fodidas – Estaria certamente a referir-se ao feitio das piquenas…

Blog de sexo – Esta é a mais preocupante para mim. Há três meses representava quase um quinto das visitas via Google e afins. Agora nem chega aos 2%. Acho que está na hora de apimentar a coisa…

Fodidas no cu – Estaria certamente a referir-se à flatulência das meninas acima…

Penetrações – Pregos nas paredes? Ná… Avançados na grande área? Ná… Pode ser mais específico(a)?


Para concluir, umas quantas que me sensibilizaram:


Pássaro do sul – That’s me, outra vez. Acima de Lisboa é círculo polar ártico. E mesmo aqui, anda um griso do caneco…

Blogs de meninas – Assim, sem destacar o carácter das moças. Precisa com urgência de recorrer à pesquisa avançada. Ou mudar de óculos.


E a minha preferida. Digam lá se não é de um gajo adorar um blogue que atrai gente com uma busca assim:

Qual é a maior prova de amor que um homem já deu a uma mulher? – Não é pobre a perguntar. E a dificuldade está na escolha. Sinto-me até tentado a pedir auxílio à rapaziada que aqui comenta.
Qual será a resposta a esta ambiciosa interrogação?
Dar a vida? Ser fiel até às bodas de ouro? Deixar a tampa da sanita sempre fechada?
Construir uma versão moderna do Taj Mahal?

Confesso que fui apanhado de surpresa e sinto-me até tentado a abordar a questão numa posta.
Mas assim à primeira vista, julgo que a maior prova de amor é nunca o pôr à prova.
Se existe manifesta-se e não necessita ser questionado. Ou desafiado. Ou desperdiçado por negligência.
A maior prova de amor é oferecê-lo sem condições e recebê-lo como uma bênção divina. O resto, acho que acontece por si…
publicado por shark às 23:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

TRÊS DEDOS DE CONVERSA

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Aqui há uns anos assisti na televisão a um episódio d’A Quinta Dimensão (The Twilight Zone) no qual um cavalheiro abastado convencia um ganancioso a arriscar a perda de um dedo numa aposta. Se me recordo dos detalhes, estava em causa um isqueiro e a ideia era tentar acendê-lo um determinado número de vezes. Se alguma falhasse, com a mão do apostador presa ao tempo de uma mesa era certinho: chop!

Mas aquilo era ficção pura, apenas para retratar uma dimensão extrema (no caso, a quinta) das emoções e das fraquezas humanas. Era a brincar.

Eu também pensava que se tratava de uma brincadeira, um caso de que tive hoje conhecimento, mas não. É mesmo sério e só o segredo de justiça impede que já tenha tido mais ampla divulgação.
Um indivíduo de Viseu efectuou diversos seguros de acidentes pessoais noutras tantas companhias, com capitais pouco elevados para não chamar as atenções. Claro que nunca mencionou a cada uma dessas seguradoras que tinha subscrito contratos idênticos nas congéneres, embora tivesse sempre o cuidado de se certificar do âmbito de cobertura das apólices (que visam responder às consequências em caso de acidente de qualquer espécie, 24 horas por dia, garantindo uma indemnização fixa e de valor previamente definido ao lesado).

Bom, até aqui calculo que já vos tenha maçado com o assunto. Mas a parte sumarenta vem agora.
Algum tempo depois de efectuar esses “investimentos” o fulano deu entrada num hospital. Tinha acabado de amputar “por descuido” três dedos de uma mão. Provavelmente numa das serras eléctricas da serração de madeiras onde o “acidente” se verificou.
Só por acaso (pela falta de documentação original para todas as seguradoras a “arder”) foi descoberto o esquema.
Não sei se estão a ver a ideia. Um ser humano, um português comum, amputou-se para receber umas massas à conta das companhias de seguros.

A expressão “crise” ocorreu-me. Isto tá mau, o homenzinho viu-se aflito e num momento de desespero, zás. Mas não, o tipo premeditou a coisa. Antecipou em meses o momento de enfiar a mão vocês sabem onde para defraudar seguradoras e receber o que, posso garantir, não seria uma fortuna.
A expressão “ganância” surgiu a seguir.
É para mim um mistério este efeito pernicioso do dinheiro nas mentes das pessoas. Uma loucura, capaz de levar as pessoas a desfazerem-se a tiros de caçadeira, a traírem amigos e família, a venderem a alma ao diabo para pagarem o plasma mais as férias no Brasil.

E agora, em Portugal, já existe um caso documentado de alguém capaz de cortar partes do próprio corpo para enganar companhias de seguros e ganhar algum à conta.
Choca-me, este tipo de bizarria. Pelo que implica de desacerto das monas do pessoal, com o dinheiro (o excesso ou a falta) a constituir o mote para boa parte dos desequilíbrios que se manifestam desta forma maluca.

E por isso precisei de “conversar” um bocadinho acerca deste assunto tão macabro que chegou ao meu conhecimento ao longo do dia de trabalho.
Desculpem lá o desabafo.
publicado por shark às 19:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quarta-feira, 25.01.06

MULHER

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Gosto.

De te sentir
Amarinhar por mim, colada, dedos cravados nas nádegas, a puxares-me para ti até me perder nos labirintos do teu desejo.

De te cheirar
Enquanto te beijo como se coubesse na minha boca cada pedaço teu que me apetece arrancar, no meio da loucura que assenta arrais, a vontade de te inalar da cabeça aos pés, de aspirar o teu perfume como uma nuvem, como o pedaço de céu a que me sabe a tua presença. Gosto do teu gosto também.

De te tocar
Em busca da melhor sensação que os meus dedos já conheceram, a textura perfeita, cada vez mais forte a minha mão no toque pelos caminhos que o teu corpo desenha para o meu percorrer. Cada vez mais prazer, emoção renovada, a intimidade criada pela insistência em descobrirmos zelosos os pontos mais sensíveis de uma anatomia que se torna comum. Naqueles lapsos de tempo parado em que nos degustamos devagar…

De te agradar
No momento em que procuro pelo teu corpo adentro a essência da paixão que me dedicas nesse instante em que te quero agarrar. Procuro, afinal, o Santo Graal ou o milagre que encerras no reino das trevas onde reside o demónio que se apodera do teu olhar. Quando me tomas de assalto, possessa, e me forças a promessa de nunca parar. Até me dares autorização.

De te olhar
Quando repousas serena em cima da cama, sorriso de amante num rosto marcado pela satisfação. A minha, também. Por te saber feliz, por ter sido capaz, por me acreditar o homem de que precisas agora. Por me sentir especial na tua existência, tão bela, encantadora como uma princesa. Tão sedutora como uma deusa do amor.
São os meus olhos que te vêem assim e pouco importa que outros te vejam de outra forma, desajustada, ou mesmo inferior.

De te amar
Em cada uma das características que te distinguem de entre a multidão. A pessoa e a mulher. A amante e a amiga. O tique só teu, o som melodioso e sensual dessa voz que me mima.
E saber que existe um nós para sempre, na lembrança de cada momento passado a dois ou mesmo no futuro que pode um dia iluminar-nos à luz da lareira, rostos enrugados numa discreta carícia, num beijo atrevido, à socapa, na cumplicidade que os anos nutriram sem pressas porque o amor insistiu em ficar.
Quem sabe até quando? Até ao fim, se calhar.

Quero.

Agradecer-te a existência.
Porque és a origem e a essência de tudo quanto me faz verdadeiramente feliz.
publicado por shark às 19:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Terça-feira, 24.01.06

A POSTA NAS PASSARINHAS

E nos passarinhos também, tavam à espera de quê?
Na sequência da mais recente posta da minha sócia e porque um blogue colectivo também implica a interacção entre os seus membros (e não é segredo para ninguém que a gente até interage numa boa), esta entrada visa reforçar a ideia que ela transmitiu e seguir-lhe a tendência avícola.

Uma matéria leve, mais pró contemplativo, para descansar a vista e a mente de quem nos visita.
E eis as passarinhas (e os passarinhos) que o título da posta prometeu.

Voai, voai olhares pelas fotografias da passarada.


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publicado por shark às 19:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 23.01.06

SABER COMO SE FAZ

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De lágrimas nos olhos escrevo estas palavras que me abrem ao mundo na ânsia de transmitir a felicidade que o amor me traz. Lamechas, talvez. Mas trago em mim este frenesim de gritar o melhor que a vida me oferece e o quanto me apetece incutir em cada um de nós a vontade e a fé de encontrar o amor e alguém que o protagonize no nosso guião.
Não são lágrimas de dor, as que me ajudam a libertar a pressão que este sentimento provoca. É a música que toca em fundo, como uma banda sonora das emoções que sonho interpretar um dia na perfeição, num golpe de génio que me transforme num homem capaz de imortalizar com palavras o amor que gosto de tratar por tu.
É a música, Maria Callas a cantar, que me invoca a intensidade que ela tão bem conheceu. E é a minha alegria por me saber conhecedor, por entender o amor na sua essência.

Na minha, está sempre presente essa necessidade premente de abraçar a paixão como uma tábua de salvação para a minha forma de existir. Vivo para sentir e recuso abdicar da melhor oferta de entre as que a vida me consegue proporcionar. Viver para amar, pulverizar o coração com o combustível da mais forte aceleração que um ser humano pode conhecer. A velocidade da luz na intensidade de um olhar que nos disparam à queima-roupa, na faísca invisível que nasce nos lábios que se aproximam ao ponto de ebulição. A alta tensão numa carícia especial, empenhada, muito doce e ao mesmo tempo sensual.
Coisas difíceis de explicar, que nos entopem a fala como uma enxurrada de palavras a mais, as necessárias para o muito que há para dizer.

É isso que tento fazer, quando me sento diante de um monitor com a esperança de vos oferecer o melhor de que sou capaz nesta função. Desenhar a minha emoção nesta tela e assim partilhá-la com quem me lê, imagens reais em directo do meu interior, este espaço transformado no reality show daquilo que sou e daquilo que valho na arte da comunicação de mim. E de quem comigo partilha esta breve travessia pelo mar das interrogações, pela sucessão de acasos que nos empurra pela vida fora ao sabor de paradoxos e de coisas absurdas que raramente fazem sentido e, quantas vezes, insistimos em vão explicar.

Não sinto vontade de vos oferecer explicações. Nem disponho da sabedoria que me permitiria iludir-nos nessa premissa. As coisas que sei, o pouco que aprendi, são artes da vida que a experiência ensina e a sensibilidade permite interpretar.
A minha forma de dar, neste plano virtual, faz-se das emoções que tento escrever. As minhas e as das outras pessoas, as únicas responsáveis por tudo quanto sou capaz de sentir. A minha natureza são todos vocês, na proporção das relações que se estabelecem e do quanto somos capazes de acrescentar com as palavras que trocamos e daquilo que damos, mesmo quando nos dá para desatinar.

Por isso transpiro as emoções que me assolam e abro neste suporte as minhas portas, de par em par, para quem quiser entrar e fazer a diferença. Só assim se justifica esta insistência em comunicar o homem que sou nas palavras que vos dou, a minha ferramenta para dar largas ao trovador que seria num passado de cavalaria onde teria gostado de alternar o instinto guerreiro, nos campos de batalha, pelas causas mais nobres, com o apelo irresistível de contar o amor que gosto de viver em cada momento dos meus dias, nas camas e nos corações das mulheres que algures apaixonei.
As pessoas que amei, as pessoas que amo e as pessoas que exijo amar no futuro.

Tudo o resto são pormenores que às vezes me escapam, soam supérfluos na minha voracidade de glutão das sensações exacerbadas, das vidas agitadas pela minha intervenção e que constituem a minha razão de existir. E eu existo para amar a vida através de quem me aceita assim, tal e qual. Sou um dependente do amor que me dão e da paixão que aceitam em troca.
Sou um homem condicionado pelas existências alheias, exposto nessa fraqueza que me faz jogar à defesa por detrás das minhas ameias de papelão.
Contudo, sou um homem libertado pela fúria de um soldado que luta pelo amor descrito nas palavras de combate que vos dou.

Aquilo que sou. Apaixonado, destravado, o principal inimigo da minha lucidez.
Naquilo que dou. Emocionado, irreflectido. O amigo mais próximo da minha avidez, a alma penada que é o anjo da guarda que me guia no caminho que percorro sem ver, incapaz de abrandar no meio da luz que me cega.
A minha sofreguidão pelo amor, sob todas as formas, é a principal razão da cegueira. E esta é a minha maneira de partilhar o que sigo como uma visão, a rota do coração numa vida pautada pela firme certeza de que os ventos que me sopram são forças que me arrastam para os (a)braços (e)ternos de que a felicidade se faz.
publicado por shark às 13:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 22.01.06

QUERIA



muito que os outros imaginassem que tinha sido diferente daquilo que, na verdade, fora.
Talvez assim, aos seus próprios olhos, se pudesse engrandecer...não admitir a derrota, a frustação.
Utilizava os esquemas do costume, de alcance virtual quando o que queria mesmo era o doce calor de uma pele, a carícia no cabelo que nunca pudera provar. Talvez assim se convencesse de que só tinha sido um sonho a rejeição. Insistia na cegueira que, aos olhos de quem sabia a verdade, soava tristemente patética.
Só, uivava à lua cheia sempre que lhe parecia que o apelo podia lá chegar. Onde nunca fora.

O bom das palavras é que nos podem transformar em heróis e conquistadores. O mau é que não substituem um beijo, o quente de um colo ou o brilho do olhar.

Mar
publicado por shark às 20:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

DIREITA, VOLVER...

E pronto, parece que tá decidido.
O partido no poder ficou a saber que o seu eleitorado não é composto por cordeirinhos mansos que votam onde os mandarem, mas sim na opção melhor.
O maior partido da oposição (e o seu líder) podem encavalitar-se nas costas desta vitória para atacar as legislativas com outra ambição.
O PC voltou a não perder.
O Bloco voltou a não ganhar.
O Garcia Pereira queixa-se da arbitragem e fica legitimada “na secretaria” a sua recandidatura às próximas presidenciais, já que nunca perderia em condições normais...

Parece que fica quase tudo na mesma.
Mas fico ansioso por assistir às repercussões deste flop da esquerda toda e no partido da rosa em particular.

Fico-me com meia vitória, para contrapor o amargo sabor do que não passa afinal de uma derrota total.
publicado por shark às 20:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

SE NÃO GANHO, É BATOTA!

eh boato.JPG

Um problema das pessoas que fazem coisas é a reacção hostil das que se limitam a exercer o confortável direito à crítica. Não falo da crítica construtiva, que muitas vezes contribui para que se detectem erros e os possamos corrigir. Falo da crítica mesquinha, medíocre, vil. Da acusação infundada, baseada apenas na especulação ou na dor de corno de quem não sabe ou não quer fazer melhor.

Levantar suspeitas sobre as realizações dos outros (não estou a falar de mim) quando não passamos de figuras anónimas sem nada para mostrar é sinónimo de uma consciência pequenina, de uma raiva abafada por não aceitarmos o facto de não passarmos de zés ninguém.
Eu dou um exemplo: acusar os outros de falsearem os resultados que nos colocariam muito abaixo numa tabela qualquer, mesmo que a ela pudéssemos aceder.
É inveja pura, maledicência gratuita de criaturinhas inferiores e incapazes de aceitarem a confrontação com o seu real valor aos olhos das outras pessoas.

Essas acusações sem prova, geradoras de boatos que apenas emporcalham a obra feita por quem se presta a fazê-la enquanto os mirones sem talento nem carisma se empoleiram no vazio, são exibições de um carácter pouco recomendável e ocultam intenções descaradamente baixas.
São arremedos de hienas frustradas que apontam a dentuça a tudo quanto lhes possa ofuscar a grandeza sonhada, mesmo que essa ambição se cinja aos microclimas da sua toca obscura.

Eu admiro as pessoas capazes de fazer. As que produzem algo que se veja com o seu esforço e a sua dedicação, ainda que por motivos comerciais. Capacidade de iniciativa que se revela em dados concretos, em provas tangíveis do valor dessas pessoas com espírito empreendedor. As coisas acontecem porque este grupo minoritário as faz acontecer, no mesmo período em que os medíocres se ocupam a invectivar os que sentem como uma ameaça ao status quo que ostentam nas suas fantasias. E essas baseiam-se num passado remoto e esquecido ou num futuro auspicioso que o presente se encarrega de desmentir.

Metem-me nojo as pessoas assim, azedadas pela frustração. Inventam desculpas para o fracasso evidente e acrescentam-lhes as mais sórdidas justificações, nos males que os outros, melhores, alegadamente protagonizam.

Vale-me a certeza, que o tempo confirma, de que este tipo de gente nunca passa do nível rasteiro que a sua valia consegue justificar.

Presenças irritantes, mal fodidas, mas que passam, afinal, sempre tão despercebidas…
publicado por shark às 15:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Sábado, 21.01.06

DE LEGO A CONSTRUÇÃO (de mim)

legacoes.JPG
Foto: sharkinho

Peça a peça, construímo-nos pessoas como legos. A partir de um desenho, o esboço de um plano que os outros nos impõem seguir.
No início disciplinados, cada peça encaixada na devida posição. Casinhas de brincar, palácios ou castelos, utopias para sonhar. Alinhamos sem dúvidas até ao dia em que na nossa cabeça assoma a primeira peça que não joga certo com o figurino.

As partidas do destino que nos obrigam a repensar a solidez das construções. Intempéries interiores mais as que nos chegam de fora. Substituímos as peças por outras, nem sempre da mesma cor. Mesmo a forma é alterada e num ápice refazemos a pessoa que se construiu. Questionamos o desenho quando nos assola a rebeldia, adolescentes imberbes com sede de mudança. Exigimos recorrer à imaginação. Rasgamos aos poucos o esquema original, para o bem e para o mal, em busca da construção adequada.

Chegamos a adultos quase sem rasto das peças de origem, mergulhamos na vertigem que nos impõe diferentes materiais. Novos visuais. Reforçamos a estrutura, telha baça na cobertura e quase desaparecem as janelas para o exterior.
Verdadeiras fortalezas, instaladas sobre as ruínas do modelo que se desfez. Peças metálicas, blindamos a alma no espaço hermético que protege o nosso melhor das múltiplas agressões lá de fora, fugimos do frio.
Peças novas, coloridas, encaixadas à pressa para colmatar as lacunas. Estratégias superficiais para defender o vazio, esquecido o recheio nas plantas da fachada essencial.

Às tantas esquecemo-nos da traça original da construção que nos definia. Afastamo-nos à deriva da pessoa que sonhámos vir a ser um dia.
Talvez amanhã, esperança adiada, quando as peças disponíveis escasseiam e torna-se impossível reconstruir à nossa medida. Envelhecemos. E um dia esquecemos a vontade de brincar, a emoção de amar, a luz do dia radiosa para lá do muro sem frestas, um monte de peças inúteis que só servem para nos estorvar.

Recuso para mim essa arquitectura. Enquanto ainda dura a capacidade de sonhar. É importante amar até ao último suspiro, montes de peças para acrescentar na obra inacabada que não interessa completar. Interessa sim apressar a corrida, brincadeira despida de preconceitos ou castrações. Peça que tiro, peça que pões.
Sempre a abrir naquela estrada, a da tabuleta à entrada que dizia “se quiseres não tem fim”.
Em busca de mim e das outras pessoas, as peças trocadas para aumentar as opções. Melhores as construções partilhadas, experiências somadas num lego comum.

Que é muito mais seca jogado a um.
publicado por shark às 22:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

A POSTA NO PÓS-VENDA

sos bejeca.JPG
Foto: sharkinho

"- Tá lá? É da assistência?
Marta, é que a gente távamos aqui numa festarola a beber umas bejecas e partiu-se o saca-caricas..."
publicado por shark às 18:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

ALEGRE MA NON TROPPO...

cafecreme.jpg

Amanhã vou ter que participar nesta exibição de pujança da democracia. Vou votar, para honrar o esforço e o sacrifício dos que me abriram as portas a essa ilusão de ser dono do meu destino. Vou votar para homenagear a liberdade de o fazer.
Contudo, e tal como nos dois ou três anteriores plebiscitos, vou votar acima de tudo pelos motivos que acima citei e não pelo impulso de qualquer ideologia.

Não me revejo por inteiro em qualquer dos partidos que me oferecem como opção. E ainda menos sinto essa ligação aos candidatos que, de uma forma ou de outra, o nosso sistema político-partidário disponibiliza para mais uma escolha difícil.
Eu explico-vos melhor a razão deste discurso pouco entusiástico acerca das eleições presidenciais, mesmo não percebendo um boi de política.
Começo pelo fim, pelo fulano no qual eu jamais apostaria para o lugar. Cavaco Silva é o candidato do outro lado do meu espectro ideológico. Ainda me reconheço de esquerda, acredito nos valores que este senhor inenarrável rejeita.
E apesar de sentir que Portugal precisa de uma liderança forte e mais disciplinadora, não é ao Presidente da República que compete exercê-la. Não há milagres quando não existe o verdadeiro poder.
O Presidente é, em muitas ocasiões, a cara do país no exterior. E em termos domésticos compete-lhe apenas zelar pelo bom funcionamento de todo o cenário que a democracia criou.
O Cavaco é uma figura digna de um filme de terror, um antipático natural. E tem tiques de liderança que podem transformá-lo na pior das opções para o cargo em causa. Vai arranjar problemas só para dar nas vistas e para abrir caminho para a reviravolta nas próximas legislativas.
Não constitui para mim uma opção.

Depois tenho o outro lado desta luta de titãs jurássicos, Mário Soares. Faz-me lembrar a Amália, quando cantava já sem voz. E invoca a imagem do Eusébio num hipotético regresso à equipa principal do Benfica nestes dias.
Não está em causa a lucidez e a capacidade do político e do homem. Está em causa a noção instintiva do momento em que alguém deve parar, o momento adequado para sair pela porta grande.
Isso já tinha acontecido com Mário Soares, como o próprio chegou a admitir.
Agora, por motivos que não me soam razoáveis, regressa à arena com modos de vingador, de bastião de uma esquerda esquisita contra as forças do mal.
Bastar-me-ia a suspeita de que traiu um amigo para de imediato sair da minha equação.
Nem numa segunda volta o escolheria, pois há muito não lhe reconheço o perfil da esquerda que me atrai.

Jerónimo de Sousa é o candidato do costume, o empata do PC. Parece porreiro, é um homem do povo, um proletário, antifascista e tudo o mais. Mas é comuna, teimoso, incapaz de abdicar do tempo de antena ainda que isso possa custar uma cavacada à primeira volta. É o candidato que nunca poderia ganhar. E arrasta consigo uma máquina partidária que me arrepia pela sua mecanização.
Há quem lhe chame capacidade de mobilização, mas a militância participativa não é algo que se impõe. É algo que se estimula.
Este também não é hipótese no meu boletim.

O melga, Garcia Pereira, merece o meu respeito pela persistência. Não merecia o tratamento que a Comunicação Social lhe deu ao longo da pré-campanha. Limitar o acesso aos mais pequenos é empurrar a democracia para a bipolarização. Nunca surgirá em cena um candidato (uma candidata, que tal?) alheio aos partidos enquanto os media comandarem as eleições como um jogo de audiências.
Claro que o bom do Garcia não é de todo uma opção para mim.

E agora restam os dois que mais prendem a minha atenção.

Com todas as reservas que ainda me inspira, sinto-me próximo do Francisco Louçã. É um gajo novo, cheio de pica e bué liberal. Gostava de o ver como Ministro do Ambiente, por exemplo. É que apesar das questões ideológicas, nunca perco de vista a componente humana dos políticos que o país nos proporciona.
O Chico parece-me um gajo capaz, daqueles que fazem falta no esquema. Mas não me parece a melhor solução para o cargo. E esta é uma eleição presidencial.
Se fosse eleito, seria um Presidente cheio de capacidade de intervenção e daria água pela barba aos socráticos no poder.
Mas a “esquerda de confiança” ainda não limou muitas arestas que a impedem de a merecer. Os excessos pontuais que denunciam algum deficit de bom senso perante a realidade dos factos e aquelas birras da malta de esquerda mais radical quando se aproximam demasiado do poder. Coisas que me fazem temer uma equipa bloquista na Presidência, onde deve imperar a moderação.
E feitas as contas, o homem não tem mesmo hipótese de disputar a segunda volta e, enquanto hipotético candidato de toda a esquerda, certamente perderia.
Ninguém convenceria o Jerónimo e a sua rapaziada a engolirem um sapo assim…

Manuel Alegre é o meu candidato preferencial (o que não quer dizer exactamente o mesmo que ideal). Justifico esta posição pelo facto de ser um homem de esquerda moderada, um homem da cultura e, por força das circunstâncias, o único candidato exterior aos aparelhos partidários (um argumento de peso, pelo arrepio que essas organizações me provocam).
Por outro lado, a sua rebeldia perante o Partido Socialista (que muito o tem maltratado nos últimos meses, de forma ingrata e desleal) inspira-me a confiança necessária para o adivinhar incómodo para a maioria absoluta que me preocupa (qualquer que seja o partido, aliás) pela impunidade que esse grau de poder assegura.
Porém, vejo-o como um político capaz de entender o sentido de Estado e de subordinar a sua actuação aos interesses do país. Mesmo que isso implique engolir um ou outro veto que por impulso nunca deixaria de aplicar.
Tem coragem política, tem um olhar que inspira confiança e tem um passado que nunca o descredibilizou.
Temo apenas que uma vez eleito possa transformar-se no Lula português. E não estou a falar das parecenças físicas…

Em resumo, vou voltar a escolher o menor dos males. Não vejo nos candidatos nem nas ideologias a alternativa que mudará seja o que for de tudo aquilo que destrói o nosso país como erva daninha. Aquela doença mesquinha que torna a política num lodaçal e o Estado no nosso maior papão, qualquer que seja a cor dos que o controlam.
Não acredito que estas eleições tragam algo de novo em matéria da esperança do povo nas estruturas e nas actuações de quem luta pelo poder nos jornais e nos canais de televisão.
Política de fachada, perpetuação de uma equipa onde mudam as caras mas é sempre a mesma a estratégia do jogo cada vez mais disputado na secretaria, no balneário, nos bastidores.
O maior perigo para a democracia são as fragilidades que os medíocres exploram para se alcandorarem a postos que de outra forma nunca seriam seus. E somos nós que sustentamos, pelos impostos e pelo voto, esta anomalia que nos arrasta aos poucos para a república das bananas em que transformamos Portugal.

O problema não é de esquerda nem de direita, nem é do candidato A ou B. É uma malformação congénita que começa no facto de as opções ideológicas serem derivações do raciocínio de bacanos que fazem tijolo há séculos e termina na impotência das populações para evitarem os abusos oportunistas que a democracia e a liberdade sonsinhas facilitam com a sua propensão para a fé desmedida nas estruturas que as legitimam.
O problema é a falta de dignidade assumida a nível global como um mal necessário, uma consequência inevitável da promiscuidade entre o poder do dinheiro e os fantoches políticos que amocham por medo, por ganância ou por mera indiferença à causa pública que lhes compete proteger destes e de outros males ou ameaças.

O problema é assistirmos impávidos a estas sucessivas vendas por catálogo de figurões decorativos que acabam invariavelmente por nos desiludir, depois de abancarem à nossa conta nas suas confortáveis cadeirinhas.
publicado por shark às 13:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 20.01.06

A POSTA NO CARTAZ

piqueno estorvo.JPG
Foto: sharkinho

Small is beautiful.
publicado por shark às 16:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)

UM GAJO QUE MORREU

quinta das tabuletas.JPG

Fez de conta que não viu.
Virou a cara a tudo quanto assistiu, a tudo quanto lhe contrariava a vontade de acreditar que a vida correria pelo melhor.
Prezava a esperança e procurava a bonança para escapar ao temporal. Na fuga enfrentava os papões, costas voltadas à ameaça pendente sobre o futuro que sonhava para si. Cobarde, afinal. Resignado. Cada vez menos incomodado por aquilo que lhe perturbava o sossego em que desejava mergulhar. Factores alheios à sua vontade, eliminados sem demora. Buscava a paz para poder por fim amar, sem receios, a vida que ambicionava e as pessoas que desejava.

Porque um homem não chora, ainda que para isso seja necessário fingir. O que não queria admitir, mas sabia. Apenas fingia para se poupar à desilusão. Que tudo estava bem, com ele e com os outros também, no seu mundo privado de maravilhas, forjado a custo numa realidade que desmentia o sonho que arriscara nutrir.
Por isso sorria e tentava evitar as agruras da vida com um desvio do olhar. Para o outro lado da questão, outra cor, o rosa do amor e das coisas belas que acarinhava como peças raras de cristal.

A esperança fazia-lhe mal, mas ele preferia assim. Afastava o medo do fim com a coragem de lutar pelas causas perdidas, batalhas esquecidas numa guerra que há muito perdera contra um inimigo no seu interior. A falta de pontaria e a sorte que não desvia a bala destinada a acabar com o desertor. Fugia da dor, mas não conseguia salvar a consciência da sua penitente existência que esbanjava sem nexo no exercício da comiseração.
A pena de si próprio que no final o derrotou.
Quando a vida o desarmou de todas as defesas e o coração suportou as maiores tristezas, fragilizado pela força gasta a defender um território que nunca lhe pertenceu.

No dia em que morreu chamaram-lhe coitadinho, o dom Quixote fajuto que combatia impoluto os moinhos que vento algum soprara. Constava que desertara para evitar o transtorno de se saber corno, limpara com a alegada ignorância a sujidade da demência cujo resíduo constituiria a derradeira traição. No dia em que pela sua mão premiu o gatilho da pistola encostada na sua tola incapaz de aceitar a perda inevitável do que nunca possuiu.

Então desistiu, desesperado, do conforto encenado para consumo interno. Cansou-se das vergonhas abafadas e das sucessivas estaladas que lhe chegavam do inferno ao qual na fuga se entregou.
Um gesto contraditório, dissecado no velório a que pude assistir.
Fui aí que percebi, nas conversas e nas expressões dos amigos e familiares, os castigos subliminares que o conduziram à loucura. Hipocrisia bastarda no discurso e na postura, sinais inequívocos daquilo que o encurralou.

Não foi comigo que falou, mas afirmaram-me a pés juntos que admirava nos defuntos a invulnerabilidade às merdas terrenas que magoam uma pessoa.
Naquele filho de Lisboa que transportámos num caixão vi um homem sentenciado pelo tribunal da solidão.

Se mais vale só do que mal acompanhado, este exemplo flagrante deixa-me algo… perturbado.
publicado por shark às 16:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Quinta-feira, 19.01.06

ESPELHOS DA ALMA

side by side.JPG
Foto: sharkinho

É espantosa a diferença entre a comunicação pessoal e a que se produz por outras vias. Sobretudo no impacto que se obtém.
Nada substitui a clareza de uma expressão visual ou a verdade que um simples olhar não consegue esconder. Nada substitui o calor de uma presença ou o tom de uma voz.
Tudo o resto são simulacros de conversação, tiros no escuro à espera de uma correcta interpretação que nem sempre logramos alcançar.

Por isso a blogosfera (a comunicação por via informática, aliás) é um reino do faz de conta onde a verdade que desponta resulta apenas de um acaso feliz. Mesmo a mentira é deturpada e a omissão é empolada, nas certezas que raramente a palavra escrita consegue reproduzir.
Certa é apenas a intenção de quem escreveu, que nem sempre corresponde à de quem leu e assim pode dar azo às mais injustificadas confusões. Conflito entre duas razões opostas que afinal podem ser paralelas, quando à mesa se oferecem explicações e se definem os termos de qualquer relação sem temer as deturpações.

As que acontecem apenas com base no suporte virtual estão à mercê da veracidade da imagem que se vendeu e da que se comprou, da respectiva sintonia. Podem revelar-se ilusões, uma vez confrontadas com o plano do real.
Mas existem raras excepções, as que resultam da correspondência directa entre a mensagem (e a imagem) transmitidas e o seu emissor. As que inspiram confiança e abrem caminho para o esclarecimento dos equívocos que podem afastar sem sentido pessoas com laços que inegavelmente as aproximam. E esses são bem reais.

Ontem pude ler num par de olhos aquilo que muitas palavras até desmentiam e as minhas conclusões precipitadas pareciam desacreditar ainda mais.
Sinceridade sem reserva, confiança sem restrições e discurso na primeira pessoa. A cumplicidade de um amor-amigo, sem merdas, leal.
Uma receita ganhadora.

E por isso mesmo ontem, na minha vida cada vez mais analógica, tive um dia particularmente feliz.
publicado por shark às 18:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (27)

A POSTA AFIXADA

despublicitaria.JPG
Foto: sharkinho

A coima é elevada...
publicado por shark às 13:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quarta-feira, 18.01.06

A POSTA NA SENHORA SEM PUNHOS II

cucu.jpg

Podia ser a vizinha do terceiro, uma prima mais velha ou a professora de inglês. Quando à descoberta do corpo se associa a correria hormonal, marcha tudo quanto mexe. Na minha fantasia comi dois terços das vizinhas, quatro quintos das minhas colegas de turma e todas as fêmeas jeitosas que o destino colocava ao alcance do meu olhar. Eram os anos loucos da irmã da canhota e eu, adolescente apressado, devorava Henry Miller, a Gina e a literatura institucional que Abril permitiu. Isso mais as imagens descontextualizadas de todas as posições vagamente eróticas que alguma mulher assumia no meu raio de acção.

Foram dias castiços, clandestinos, quando buscava com ansiedade a melhor oportunidade para "esgalhar o pessegueiro". Observava, fantasiava e depois era só encontrar um poiso discreto para experimentar as delícias do amor a sós.
Valia tudo, nessa altura. O que se fazia e com quem, na carola de um puto sôfrego da sua estreia no mundo do sexo a dois, pouco interessava. Antes avaliava qual a ideia que mais depressa me despachasse a situação, para evitar o embaraço que um flagra em tais propósitos poderia provocar.
Nem aos melhores amigos confessava essa prática solitária, esse treino intensivo para a sexualidade que entretanto consolidei. As mulheres que amei, ao longo desse percurso de autodidacta...

A masturbação, assumo-o hoje sem hesitar, foi um estágio decisivo para o amante em que me tornei. Nos meus devaneios e ilusões consolidei a maior parte daquilo que hoje exibo na cama. As preferências e os limites, as competências e os apetites. Aprendi, na minha escola sem colegas, a controlar o momento de me vir, uma vantagem competitiva num mercado adolescente pautado por uma maioria de ejaculadores precoces que frustravam as miúdas. Percebi-o pela literatura e confirmaria depois. E revi-me vezes sem conta a aplicar teorias que desenvolvi no recato dos lençóis e nos palcos secretos da imaginação. Mais tarde resultaram nas diferenças que entendi destacar, as habilidades peculiares, o jeito pessoal de lidar com corpos partilhados com o meu.
Nada que não esteja ao alcance de qualquer comum mortal. Entrega altruísta com esperança justificada numa generosa retribuição. Isso mais a tesão, a meias.

Podia ficar tuberculoso, diziam-me, se insistisse em demasia nessa abordagem. Falavam-me do amigo do tio do vizinho que acabara os seus dias num sanatório, à conta do excesso de entusiasmo.
Mas eu entendi arriscar. Também fumava e assim até arriscava um cancro do pulmão.
“Aquilo” dava mais gozo e eu sentia que algum dia me iria servir para alguma coisa. E achava que nos sanatórios só proíbem o tabaco…

E porque me deu práqui?

Porque isto da blogosfera é mesmo disso que se faz. Actos solitários de prazer. Com terceiros, estranhos até, a espreitarem às escondidas pelo buraquinho da fechadura enquanto a gente grita.

Ai.
publicado por shark às 00:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (29)
Segunda-feira, 16.01.06

MORO DENTRO DE TI

heavens gate.JPG
Foto: sharkinho

No aconchego do teu abraço que me absorve até nada sobrar de mim no exterior, como um chupão avassalador. Mergulhado no calor de um momento extraordinário, no recolhimento do santuário que a natureza me ofereceu nesse corpo adorado de mulher que é o teu.
Acolhes-me em ti com tapete vermelho, a cor do desejo que me convida a entrar. Na tua ala privada, na casa assombrada pelo espírito da paixão. No meu coração e na tua cabeça, a minha tesão e a tua pertença, ilusória, apenas na memória do instante em que o tempo exija parar. Na minha emoção descontrolada e na tua satisfação estampada no sorriso meigo que me dedicas, mais esse olhar com que espevitas a minha vontade de ficar.

Um pouco mais, a saborear os teus dotes naturais de sublime anfitriã. A porta de entrada, sagrada, que a minha língua invade com pezinhos de lã. Aberta para mim, disponível. Uma jóia incrível que beijo como o mais precioso dos bens, aquilo que tens. Entre as pernas em brasa, a vertigem de uma casa no cone de um vulcão.
E eu convidado, num evento privado que é uma festa a dois. Dançamos depois, o samba ritmado de um corpo suado pela dor com prazer. Amor a valer, aberta também a porta das traseiras que dá para o jardim.

Já fora de mim, espojado nas flores, regalado pelas cores que se pintam no fim. Daquela visita guiada, à tua acolhedora entrada para um mundo onde reina a soberana perfeição. Rainha desta nação que é a minha nessa altura porque fala a mesma língua quando a tua me procura.
A força que me anima no agrado da tua expressão, acontece a erupção e somos projectados para o céu, abençoados em vida pelo paraíso que deve ser tal e qual. Ou mesmo igual, se não inventarem melhor.

Percorro-te entretanto com os dedos para afastar o temor do pior castigo.
Sentir-me um sem-abrigo, ao relento da saudade quando regressa a vontade de bater à tua porta ou de entrar na tua boca, como quem se esgueira pela janela para escapar ao frio do exterior.

Ofereço-te amor nas palavras que escutas em troca do telhado que por vezes me facultas.
Na pele de inquilino e com poderes para o acto formalizo o pedido de renovação do contrato.

Nesta carta registada onde ponho tudo a nu, a minha morada de sonho és tu.
publicado por shark às 12:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (36)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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