Sábado, 31.12.05

A POSTA ROMÂNTICA (reposta)

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Sou um dos raros privilegiados que, pelo menos uma vez na vida, conheceram o amor na sua vertente mais avassaladora. Os mais cépticos, coitados, desdenham da existência desta emoção única que pode nascer de um simples olhar. O amor à primeira vista não é um delírio romântico de telenovela. È possível, é real e constitui uma das impressões mais marcantes da existência de qualquer pessoa.
Eu concretizo melhor: receber no peito o impacto desse instante poderoso obriga-nos a reconhecer, entre outras maravilhas, a emergência do romance na vida das pessoas. E utilizo a expressão emergência no seu sentido mais comum: é urgente despertar para a falta que o amor faz.

No preciso momento em que, entre centenas de rostos, o meu olhar se concentrou apenas num, descobri a essência desse impulso irresistível que nos empurra para os braços de outra pessoa. O meu arquivo blogueiro fala por mim no que concerne às muitas fés e ideologias a que nunca me converti. Sou um agnóstico, por regra pessimista e pouco dado a mares de rosas com perfume de utopia. Nesse sentido, nunca acreditei e nunca acreditaria num conceito como o do amor à primeira vista se não tivesse sido abençoado com a sua aparição. De rompante, um rosto de mulher tomou de assalto a minha descrença que outros rostos de mulheres por quem me apaixonei, ou algo parecido, nunca contrariaram. Sem apelo, rendi-me ao halo de luz e nada em meu redor continuou a fazer parte da realidade tal como eu a experimentei na altura.
Era ela e mais nada ou alguém. E eu com o coração a galope, desorientado mas com a plena consciência do que me estava a acontecer.

Nada poderia atravessar-se no meu caminho quando furei a custo o mar de gente para me aproximar do ser humano que, até este dia, maior abalo me causou nas fundações. Ninguém poderia disputar a sua atenção nesses minutos de que eu dispunha para entrar na sua vida como ela já se instalara de armas e bagagens na minha. Numa tirada infeliz um amigo colocou-me a seguinte questão: e se eu descobrir um dia que ela é o amor da minha vida e quiser disputá-la? E eu respondi de imediato, falou o coração. Desistes ou morres. E não lhe restava mesmo outra alternativa, enquanto ela me quisesse como eu a queria e viria a acontecer.
O amor à primeira vista é como um relâmpago que nos atinge, alta voltagem de uma corrente de paixão. É talvez, tal como faço questão de a recordar até ao fim dos meus dias, o vislumbre mais aproximado que terei de Deus se Ele existir sob esta forma - como gosto de acreditar à revelia da minha apregoada falta de fé.
É esse o fundamento da minha perspectiva romântica das relações amorosas entre as pessoas. É por isso que afirmo sem hesitar que a cada esquina da vida, sem qualquer esforço de procura, pode encontrar-se o amor de uma vida. E quando isso acontece, podem ter como certa uma coisa: a gente percebe na hora do que se trata.

(BOM ANO!!!) :-)
publicado por shark às 14:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)

ANO (DE) NOVO




Não faço balanços nem invento bem-intencionadas resoluções de Ano Novo.
Sou quem sou, aquela que sempre fui e que continuará a ser depois de passada mais uma página do calendário. De 31 para 1 do ano da graça de 2005 para o de 2006. Igual a tantos 31 para 1 de tantos meses, dos 41 anos que vivi até hoje.
Não abro champanhe nem sopro cornetas de papel ou danço sob uma chuva de papelinhos brilhantes. Sou capaz de ver o fogo-de-artifício.
Não tenho ilusões de me tornar melhor do que sou, de sorrir mais vezes que aquelas que estarei de neura, de amar mais ou de maneira diferente do que tenho amado.
Será o que tiver que ser, aquilo que eu souber e quiser fazer, 365 dias que hão-de passar tal como passaram os anteriores e os outros antes desses. Pode ser que me apeteça viajar até à lua, saltitar pelas poças de chuva ou colher flores raras para oferecer a alguém. Ou não.

Serei igual a mim própria, poço de virtudes e defeitos, caminhando pela vida com um único objectivo: o de fazer felizes os que dependem de mim. E, se o conseguir, isso chega-me.

A vocês, desejo-vos tudo o que mais ambicionem.

Mar
publicado por shark às 14:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sexta-feira, 30.12.05

PAGO A PRONTO (reposta)

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Queria que a verdade prevalecesse. Integra, total. Não gosto de meias verdades e encaro como repugnantes as mentiras por omissão ou as mentiras piedosas que se utilizam para escamotear as realidades que queremos ver escondidas no fundo do baú. Como em qualquer mentira, afinal.
Não entendo porque fugimos como coelhos assustados para uma toca qualquer, sempre que não conseguimos enfrentar as consequências do que fomos na interpretação do que somos e do que afirmamos ser. Não entendo porque hipotecamos a confiança dos outros por medo das nossas revelações. E nem quero entender.

Queria apenas que a verdade servisse em todas as ocasiões e não apenas nas que nos servem qualquer propósito, legítimo. Queria que as mentiras e as omissões não minassem a confiança total que gosto de depositar nas pessoas, não me obrigassem a todo o instante a analisar incongruências e a pedir para elas uma justificação. Que chega trapalhona, envergonhada, camuflada num lapso de memória que alivia o desconforto de quem prefere fugir.

Queria que a coragem andasse de mãos dadas com todo o tipo de emoções. A verdade surgiria como uma consequência natural, pois a mentira e a sua amiga omissão servem apenas como tábuas de salvação efémeras para o que a vida se encarrega de descobrir, depois. Por acaso, ou talvez não...

Queria que os outros não receassem arriscar, que apostassem na minha lealdade, na minha capacidade para ser o fiel depositário de todos os seus medos, de todas as verdades temidas que só não corroem quando expurgadas, quando contadas a quem as mereça e saiba ouvir. As mentiras, como as omissões, posicionam-se num espaço negro da nossa consciência e envenenam-nos as reacções. Ficam demasiado próximas da traição.

Queria que as coisas acontecessem com espontaneidade, coerentes, frontais. Que as peças do puzzle não fossem apenas pedaços mal encaixados pelo esforço inútil do meu raciocínio ou da minha imaginação. Queria a confiança dos outros para lhes poder provar a minha, sólida e incondicional.

Tenho para mim como certa uma vida feita de utopias, de ilusões, de histórias mal contadas que me induzem à desconfiança e ao temor.
Nunca saberei perdoar a quem algum dia me enganou, nos pequenos detalhes como nas coisas relevantes. Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.
Não sei entregar-me às prestações.
publicado por shark às 10:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 29.12.05

DO EGO E OUTROS BRÓCULOS

botox.gif



Uma massagem ao ego é como uma injecção de Botox: distende as rugas da auto-estima, preenche os interstícios dos tecidos que murcharam sob um qualquer efeito temporal ou outro, produz uma aparência lisa e lustrosa, uma ilusão de ar saudável com uma duração a prazo.
Há quem domine esta técnica à custa de muitas horinhas de queimar pestanas a ler publicações começadas por "Como conseguir o seu..." e terminadas em "...em 3 meses." e assim obtenha, a espaços, a efémera sensação de ter conseguido o objectivo a que se propôs. Nada mais errado...
Pois o chato nisto é que requer uma persistência que garanta a continuidade do efeito. E nem sempre é possível praticar a coisa.
E é triste constatar o alheamento de quem ocupa os seus dias a afinar as técnicas, escolher as agulhas e preparar o material entre uma massagem e outra. É que entretanto, o alvo do tratamento tem uma vida que decorre, alegrias e tristezas, passeios ao pôr do sol e banhos de espuma, jantares à luz de velas e noites de sexo, trabalho e lazer e amigos e amantes e inimigos e outros mais.
Que dele disfrutam. Enquanto o pobre "ténico" massajador apenas sonha com a próxima vez em que o há-de apanhar sobre a sua asséptica marquesa...

Mar
publicado por shark às 16:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 28.12.05

PEÇAS



Somos como peças de uma engrenagem, rodas dentadas encaixando umas nas outras com precisão milimétrica. Cada uma tem um papel a cumprir para garantir o funcionamento da máquina, sem quebras de ritmo ou deficiências de resultado final.

O que nos distingue dos outros materiais, do metal, da madeira, é a capacidade que temos de adaptar o nosso desempenho, de cada vez que detectamos uma falha no processo de sobrevivência. Moldamos a parte que destoa, a aresta que arranha, o rombo no contorno. E, assim, como se de plasticina fossemos compostos, adequamos de novo a forma ao efeito pretendido.

Tenho vezes em que gostava que fôssemos eremitas no topo da montanha. Vivendo em comunidade com o vento e a folhagem, as formigas e a água da nascente.
Apenas nós e os deuses.

Mar
publicado por shark às 12:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Terça-feira, 27.12.05

OLIVEIRINHA DA SERRA (reposta)

cemitprazeres.jpg

O meu primeiro contacto com a pornografia, através de uma revista da especialidade obtida por um colega, aos treze anos, foi um momento de grande alegria, quase uma revelação.
Pela primeira vez eu pude constatar a viabilidade de algumas das minhas mais arrojadas fantasias, até essa altura tão líricas como a hipótese de vir a ser capitão da selecção nacional de futebol. Uma coisa é a gente ouvir dizer da boca de putos como nós, ouvirmos falar das piruetas possíveis a três ou da feliz parceria de números tão insuspeitos como o seis ou o nove. Outra coisa era ver como São Tomé e acreditar tanto que a vontade intensa de experimentar as acrobacias até nos fazia doer a alma.

A pornografia representava para mim um manancial de novas técnicas, associado à reprodução mais ou menos realista de alguns conceitos ‘missionários’ tradicionais. Nada me entusiasmavam alguns dos seus tiques clássicos de abertura ou dos rituais excessivos e insistentes no encerramento das actuações. O meu objectivo consistia em reter, do muito e diversificado material hardcore que passei a coleccionar, as práticas realistas que pudessem alargar os meus horizontes no futuro e afastar, da minha vida sexual ainda em fase de estreia, o papão horrendo da monotonia.

De entre as mais escabrosas ou surpreendentes produções que o mundo XXX me facultou retive sempre um manual que lamento ter-se perdido no decorrer de alguma rusga maternal. Datado do início da década de setenta, o livro combinava textos com ilustrações mas só estas últimas podiam considerar-se pornográficas. Era mesmo um manual de competência técnica, um verdadeiro sex for dummies.
Algum Zézé Camarinha cámone com jeito para a escrita e vocação para consultor, do qual nem o título da obra me ficou, deixou-me para sempre na ideia e na lembrança um exercício que, na minha lógica adolescente da época, fazia todo o sentido levar a sério.
De resto, o autor afirmava-se feliz por poder partilhar o seu método com o mundo e fazia-o com tal convicção que, apesar de não me converter a algumas contorções manhosas, convenceu-me a adoptar o treino das azeitonas.

O treino consistia em girar diariamente uma azeitona entre os dentes, com a língua, por cerca de meia hora, sem a descascar ao longo do exercício. Também dava para fazer com uvas, mas só numa fase mais adiantada do programa (devido à maior fragilidade da respectiva casca). E o experimentado (e, nas suas palavras, bem sucedido) atleta de alcova explicava, por a mais b, os proveitos que resultavam dessa pachorra shaolin, a subida em flecha da cotação de um amante rotinado na arte de bem rodar uma azeitona sem lhe danificar a pele.

Hoje já me resta pouca paciência para a pornografia, até porque as melhores e mais adequadas práticas aprendem-se no mundo real. Mesmo as inovações encontram na pornografia alguma resistência, pois os empresários do ramo parecem determinados em manter a receita (ainda hoje) ganhadora. Apesar de não ser um entusiasta do género nesta fase da minha progressão na aprendizagem, gostava que os putos de agora tivessem acesso a qualquer coisa que equivalesse ao meu manual de treino com azeitonas. Porque nem todos conseguem compreender que a pornografia não deve ser levada demasiado a sério e isso, manifestamente, gera desvios comportamentais pouco saudáveis e que o meu mestre ‘azeitoneiro’ jamais recomendaria.
publicado por shark às 17:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Segunda-feira, 26.12.05

CONTO DE NATAL II

A criança tinha cambaleado sem tino pela savana ressequida. As pernas como dois finos ramos de árvore, quase sem forças para aguentar com o peso da lustrosa e proeminente barriga. Não sabia o que procurava, apenas caminhava, só a força do instinto de sobrevivência prendia ainda aquele corpo mirrado, a uma réstea de vida. Teria uns seis anos, embora não aparentasse mais do que três: a subnutrição não deixara que os ossos se desenvolvessem até ao tamanho normal para a idade.
Tinha pais e irmãos e tios e primos, pessoas que a amaram enquanto ainda conseguiram sentir algo mais do que o estômago colado nas costelas, antes de a malária as ter confinado a uma cama no pequeno hospital de campanha ou a SIDA as ter levado para um lado melhor do que aquela aldeola perdida nos confins de África.
Teria sido um menino normal, com um sorriso alvo e pequenos caracóis, teria gostado de fazer as coisas que fazem todos os meninos, jogar ao pião e ao berlinde, construir carrinhos de madeira e brincar às escondidas, poderia ter sido um engenheiro ou arquitecto famoso ou o médico que iria descobrir a cura para muitas doenças. Se tivesse nascido no Hemisfério certo...

Mas não. Fora apenas uma de entre os milhões de crianças que nascem e morrem no continente africano, como estrelas breves que povoam os céus para logo desaparecerem.
E agora era já uma sombra de ser humano, tombada no pó da planície, indiferente ao calor e à sede e ao magnífico pôr-de-sol que o fotógrafo capturara, minutos antes de a encontrar. Mais ao grande pássaro, à espera.


* a partir de uma idéia original do Sharkinho.


Para que nunca nos esqueçamos que lá também é Natal.

Mar
publicado por shark às 19:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

E AGORA

que a data já passou,




o trabalho nos espera,





mais as caras dos mesmos colegas de sempre,





e ainda os chatos do costume...







...será que JÁ PODEMOS VOLTAR AO NORMAL???


*(A porra do C em cima dos bonecos, a estragar tudo, tem a ver com os direitos de imagem, e as ditas cujas encontram-se aqui)

Mar
publicado por shark às 16:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sábado, 24.12.05




para que não se pense que aqui mora uma insensível, desnaturada, rezingona, mal-humorada e que odeia o Natal.
Nada disso. Ser do contra é uma coisa, ser aquelas coisas todas é outra.
( a casa cheira a azevias e arroz doce, soam sinos e refrões de Natal e as latas de leite condensado estão a cozer. É o que isto tem de bom!)

JINGÓBEL para todos!

Mar
publicado por shark às 16:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Sexta-feira, 23.12.05

CONTO DE NATAL I




Ou de como sou do contra. Ou ainda porque não me apetece fazer de conta que no Natal deixa de existir o lado negro do mundo só por causa das luzes e das renas e do outro vestido de vermelho, mais dos mérriscristmas e votos de paz na terra aos homens de boa vontade (e os outros??). Ou então porque sou uma ateia que há-de arder nas chamas do inferno e eu ralada com isso.
Ou só porque me apetece, e pronto.



Ainda tinha tentado reconhecer-se, numa encarquilhada fotografia do casamento. O ramo de rosas amarelo-pálido, levemente descaído sobre a seda selvagem do vestido. O reflexo do flash nos olhos, brilhantes, do choro nervoso que a consumira horas antes do momento mais importante da sua vida. Brilhantes agora de novo, do amor que a inundava enquanto sorria para o retrato, da paixão por aquele homem que lhe segurava ternamente no braço. Incendiados, os olhos, do calor que já a possuía e se espalhava por todo o seu corpo como lava vagarosa, só de antecipar a sua primeira noite enquanto marido e mulher, ele a invadi-la, as mãos nas ancas a agarrá-la com firmeza e os cabelos espalhados no seu peito.

Ainda tinha pensado que amanhã era outro dia, já sem a raiva silenciosa pelo cheiro de perfume barato nas suas camisas, que às noites sem dormir e o corpo seco, consumido de ausência e desilusão, se seguiriam noites de corpos encaixados um no outro como metades de um mesmo fruto e dias de cheiros mornos de peles saídas do banho, café e sexo acabado de fazer.

E então, recordou o dia em que lhe dissera, desfigurada de lágrimas e dor: "Olha para mim! Pinto-me para que o meu verdadeiro rosto não fique pendurado na tua memória como uma tela esquecida". Ele tinha olhado para ela em silêncio, como se visse através dela e, com gestos precisos e de uma lentidão cruelmente propositada, sem despegar os seus olhos dos dela, pegara nas malas e saíra porta fora, para dentro da noite, para fora da sua vida.

Sorriu. Antes um esgar dolorido, que lhe percorreu as feições finas e cansadas. Ergueu o copo semi-cheio e, num brinde mudo, engoliu a cápsula de cianeto com o champanhe francês que lhe restava.

Mar
publicado por shark às 23:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 22.12.05

A POSTA COM SENTIDO


foto daqui


Sorrio.
Dedilho sílabas com sentidos ocultos por entre as vogais.
Laboriosamente dissimulados, à espera de qual será o par de olhos que os decifra.
Esforço inglório de camuflagem, os sentidos como néons para a vista treinada pelas batalhas da sobrevivência.
Com uma rede, delicadamente, capturo as palavras que são borboletas a tentar alcançar o sol.
Antes que queimem as asas.

Mar
publicado por shark às 23:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)
Quarta-feira, 21.12.05

A POSTA NA ESPERANÇA



"Hopyful flying birds"

As if the first ray would be
the sign to fly,
seagulls began to fly together.

Some goes fast to lead the others
and some goes not to be lost.

Anyway, all of them seems
to be flying hopefully
with expecting a wonderful day.



Acordo um e mais outro e ainda mais um dedo. Depois, os outros dois.
Esticam-se em alongamentos de preguiça que se enxota mas que demora a ir embora.
Abro-os e fecho de novo, aguardo que despertem por completo no rescaldo de um sono profundo, hibernação forçada pelas agruras do clima.
Sinto-os perros, a necessitar de exercício, de um fortalecer de músculos esquecidos por tanto tempo que passou sem serem usados. Sinto-os estremunhados e sem vontade de sair do quente suave, daquele limbo que envolve como líquido amniótico, quando nos recolhemos no interior de nós. Sinto que esperam algo. E eu também.

Espero a brisa da manhã com o cheiro a maresia, a luz rosada a rasgar a bruma, o canto dos pássaros a acordar o mundo.
Espero o novo dia que traga promessas de uma nova pessoa, de magia em cada gesto, de contos de fadas e encantamento.

E, enquanto espero, enlaço os dedos uns nos outros, pouso-os no regaço e embalo-os no doce calor da expectativa e da esperança.

Mar
publicado por shark às 10:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Terça-feira, 20.12.05

A POSTA SURPRESA

martelada.JPG
Foto: sharkinho

Se há coisa que raramente me acontece é ficar sem palavras. (e menos ainda acordar às 4 da matina e sentar-me na cama como que em piloto automático - leia-se zombie - para registar o que me pareceu então ser o único início possível para um post, depois de ter estado um serão inteiro, em vão, a espremer os miolos sobre o assunto...)
Ficar sem palavras é estranho. Uma pessoa engole em seco, três, quatro vezes, respira fundo a ver se as tipas sobem com a pressão do ar acumulado no estômago (virão as palavras do estômago, a propósito?), abre e fecha a boca como se fosse um peixe em apneia e nada. Nada. Nem um decibelzito de som para amostra. É perturbador. Principalmente, para alguém que fala pelos cotovelos, antebraços e até pelos dedos todos que tem nas mãos.

Deixar alguém sem palavras requer um conjunto de características que não está ao alcance de qualquer comum mortal. Uma capacidade argumentativa superior, inteligência acima da média, fluência no discurso e um raciocínio estratégico capaz de imprimir um tom suficientemente displicente na conversa para, coisa que também se deve saber à partida, conseguir despertar o demoniozinho "do contra" que habita dentro de certos seres. (o meu é verde com umas manchas amarelinhas, antenas esticadas para captar tudo, o sacana, e usa uma capa à herói - mania que se desenrasca de todos os desafios). Enfim, continuando a tergiversar porque não sei como hei-de abordar a questão principal, certo é que o gajo, o demónio do contra, arrebitou as orelhas (não disse ali mas o meu também tem, pontiagudas), pensou deixa cá ver se o tom displicente é mesmo porque ele não faz assim muita questão da coisa e aí eu digo logo que sim, se é porque ele até faz mas está a tentar embarrilar-me ou é porque ele acredita mesmo no que está a dizer e então fico toda baralhada (ah, o género é feminino, óbvio, portanto tenho que reformular e dizer que tenho então uma "demónia" do contra dentro de mim). (já me perdi, caraças)

Fiquei baralhada, resumindo. Um blogue é assim uma coisa muito "pessoal e intransmissível", algo que equivale à nossa gaveta das cuecas e passá-la a outra pessoa - mesmo que seja o nosso mais que tudo - para que lá guarde os seus peúgos, requer um grau de confiança difícil de obter, mesmo nas relações mais próximas.
Fiquei encantada, em simultâneo, por ele considerar que sou capaz - apesar de eu não achar o mesmo - de honrar os pergaminhos do Charco durante a sua ausência, por não temer nem por um bocadinho, que eu lhe destrua a reputação de blogue de qualidade, afugente todos os seus comentadores e visitantes, enfim, que lhe acabe com isto de vez, à conta das parvoíces e do mau feitio que me caracterizam e que não me privarei de vir aqui debitar, se para tal me der na mona...
Fiquei rendida, pronto. De novo.
E não podia deixar passar esta oportunidade de aceitar as chaves dum "flat" desta categoria, situado num condomínio fechado de luxo, com uma vizinhança do melhor que há, relvados a perder de vista, poças de água para chapinhar e um terraço virado para o mar, banhado pela luz do sol ou das estrelas, conforme o caso, e à mercê do Vento Suão de vez em quando.

Disse logo foi que não faço faxina, não cozinho, não faço fretes, não escrevo por obrigação, não aturo gente mal educada, não escrevo o que os outros gostariam de ler, abro e fecho a caixa de comentários quando quiser e, se me der na bolha, fico só ali estendida na chaise longue no terraço, a bronzear-me, sem fazer a ponta de um corno, pelo tempo que me apetecer.
Estamos entendidos, ó senhorio??

E podem considerar isto, olhem sei lá, uma Declaração de Princípios, ou assim.

Mar
publicado por shark às 11:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (28)
Domingo, 18.12.05

UM ANO DE MIM

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Chegou ao fim.
Abaixo, as despedidas.
publicado por shark às 18:30 | linque da posta | sou todo ouvidos

CONTAGEM DESCRESCENTE - 1

outras ilusoes.JPG
Foto: sharkinho

Se eu deixasse aqui escrito tudo o que tenho para dizer não teria mais nada a acrescentar depois desta posta.
O que sentirem que deixaram por dizer, por esta via, é aqui que devem deixá-lo se sentirem que vale a pena o esforço ou que as vossas palavras são necessárias. As outras vias, quem as tenha, ficam abertas a partir desta altura para tudo aquilo para que eu vos sirva de alguma forma. Fora daqui.

Deixo-vos os votos de um excelente Natal, melhores Entradas e um bom ano a blogar.
Acho que valeu a pena. E ninguém sabe o dia de amanhã...
Sejam felizes e façam o que mais vos apeteça, pois a vida não é imutável nem eterna.
Energia positiva para todos vós.

Detesto despedidas.
publicado por shark às 17:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (45)

CONTAGEM DECRESCENTE - 2

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Está na hora.
publicado por shark às 15:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sexta-feira, 16.12.05

A POSTA QUE DEU PORRADA DA GROSSA

I_mnotgay.jpg

O tipo, um asno fanfarrão arraçado de papagaio, nem hesitou quando lhe perguntei se conhecia a Patrícia.

- A Patrícia? Ò meu, aquilo é uma esfrega tal, uma aceleração, um calor, que no fim da cena um tipo até consegue estrelar um ovo nos tomates.

Boquiaberto pela imagem estrelada e pelo teor da resposta fiquei meio à toa, confesso. Mas recompus-me e tentei encaminhar a conversa para aquilo que me interessava.

- Deixa-te disso pá. A sério, conhece-la?

E ele, com um sorriso estampado no focinho lambão, devolveu-me um ar de quem percebe mesmo daquilo e vai a todas.

- Ando a comer a gaja, meu. Atão não havia de conhecer esse material? Umas mamas e um cu...

Tenho que fazer uma pausa na história, tal como o fiz na minha conversa com o pintas. Algures no meu processo de formação pessoal um veterano explicou-me que era de bom tom guardar segredo acerca de certas merdas. Como os melhores recantos para dar uma queca de rua sem receio dos mirones, as melhores barraquinhas de couratos no Estádio da Luz e, de um modo geral, todas as preciosidades que não queremos cobiçadas por demasiadas pessoas.
Nesse manancial da informação de manter secreta incluía-se, claro está, a identidade das mulheres com quem dormíamos. Até porque, como esse "velha guarda" salientou, cai bem às miúdas e torna-nos mais apelativos para as que precisam de fazer a coisa pela surra (sobretudo as casadas, dizia-me ele).

Pela lógica do ponto de vista e, convenhamos, também por me parecer mais digna essa forma de estar, passei a seguir as suas recomendações como uma cartilha.
Mas o Baptista não. Punha a boca no trombone e para ele eram todas uma vacas a partir do momento em que cedessem ao seu encanto natural. Ou o rejeitassem. E chamava-as pelo nome, para que todos tomassem nota de quais as que estavam "marcadas" com o ferro da sua ganadaria de que tanto se orgulhava que não hesitava publicitar.
Porém, essa sua característica acabava de me entalar na conversa. Ainda ponderei a opção de sacudir o assunto com um "por nada, por nada...", ou assim. Mas com o problema posto daquela forma, não me restava uma escapatória. Tinha que dar sequência ao assunto, não fosse o Baptista julgar que eu lhe cobiçava a "mercadoria".
E ele disparou a pergunta inevitável que qualquer um colocaria naquela ocasião.

- Mas porquê?

Tentei ler-lhe nos olhos alguma emoção, para perceber se a Patrícia (por acaso uma tipa inteligente, excelente conversadora e boa onda) tinha algum estatuto especial junto do meu interlocutor. Mas claro que ele, durão e burroso, botou aquele ar de "para mim tanto faz se é patrícia ou joana, marchou e tá a andar". E isso irritou-me um nadinha, até porque todos tínhamos a noção de um Baptista a tender para o gabarola. Daqueles gajos que as comeram todas e mais houvesse. Mas apesar disso ficava-se sempre na dúvida, perante as sumarentas descrições que ele fornecia acerca dos atributos das carradas de amantes na sua boca.
Por isso decidi avançar com a informação à bruta, até porque no dia seguinte já toda a gente saberia no liceu o que se passava e, por ironia, tocara-me contar a cena ao Baptista em frente dos cinco ou seis colegas de turma que me acompanhavam na altura e dos outros tantos da turma dele.
E a verdade doeu, no sorriso que me escapou enquanto a revelava.

- A Patrícia está grávida do teu irmão.
publicado por shark às 12:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (33)

FIGURANTE VIRTUAL

luzes da ribalta.JPG
Foto: sharkinho

Aos poucos apagaram-se as luzes no palco e na plateia o vazio assentou. Por detrás das cortinas, o protagonista aclamado espreitava e os aplausos recordava do dia em que o espectáculo começou.
Momentos de glória com o público de pé nos balcões da memória de um tempo de fé.
E nos bastidores contavam-se os amores, ecoavam gargalhadas, escorriam lágrimas pelas histórias acabadas numa dramática encenação.

Pura ilusão, nascida dos laços fictícios de personagens irreais. Próximos demais. As luzes da ribalta ofuscavam os olhares e invertiam-se os papéis. O amor ficcionado nos mais altos decibéis para uma assistência sedenta de emoção. Traídos pelo coração, embrenhavam-se na novela e aquilo que faziam dela era uma cópia quase perfeita de um romance original. Engano fatal.

Não tardavam a perceber que o enredo se aproximava do fim, prenunciavam a última descida do pano sobre a farsa e o engano terminava assim. Com o público de pé nas cadeiras vazias, no silêncio dos dias em que uma peça diferente era inscrita no manuscrito do dramaturgo. A história de um burgo onde era uma vez um casal alemão, outro conto de ficção para encantar a audiência depois da falência da falsa esperança anterior. A verdade do amor que a realidade fantasiou.
Mas a história acabou, arquivada no relicário das emoções teatrais. Fotografias.

As actrizes principais debandavam e decerto já sonhavam os adereços para um novo papel. Mas nunca o admitiam, influenciadas pela trama onde o pano caiu sobre a euforia e a excitação da última representação na peça que saiu.
De cena, com as luzes apagadas e as cadeiras abandonadas ao pó. E o protagonista ficava só, à espreita do que o passado lhe deixou. As lembranças que conservou de um cenário que não lhe servia no imaginário que desenvolvia as histórias sem fim. Fazia de conta que era assim, no final de cada actuação.

E sorria patético, por detrás das cortinas, incapaz de processar a imagem das retinas numa mente que perseguia uma bela utopia que não constava do argumento real.
Na cena final o amor já não acontecia, era pura fantasia. Se calhar um pesadelo, que a realidade é um camartelo a postos para a demolição. Das histórias baseadas na ficção, irrealistas.

No passado a pista que o personagem espreitou sob a pele do artista que um dia acordou.
E foi nesse dia que a nova peça estreou.
publicado por shark às 11:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

A POSTA SEM PALAVRAS II

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Fotos: sharkinho
publicado por shark às 09:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 15.12.05

A POSTA NA SURPRESA AGRADÁVEL

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As pessoas, nós todos, são capazes das coisas mais surpreendentes (aliás, a vida é cheia de surpresas). Não há dados adquiridos no que respeita ao comportamento humano, no melhor como no pior, sendo cada vez menos pertinente a expressão contrasenso.
De maus exemplos está o mundo cheio e basta reparar nos telejornais para deles tomar consciência, caso não sejamos nós os protagonistas - considerando as bizarrias que despontam nas parangonas, envolvendo cidadãos aparentemente "normais".
A normalidade, digo eu, é a loucura reflectida no dia-a-dia de cada um de nós, a exteriorização dessa estranha "felicidade" que meio planeta nos inveja (e com alguma razão, embora seja evidente o desperdício ocidental nessa matéria).

Mas também surpreendemos pela positiva. E hoje, inspirado na troca de comentários entre mim e o Zé Quintas duas postas abaixo, decidi falar de duas surpresas de que dei conta e que me baralham no pessimismo que algures adoptei como regra em vez de prudente excepção.
Começo pelo comentário do meu antigo sócio na Casa de Alterne.

O fim da parceria entre mim e o homem que recrutei da caixa de comentários do Chez Maria para o "lançar às feras" na pele de blogueiro-autor aconteceu para mim de uma forma súbita, fortuita e inesperada. Um acidente, portanto. E nunca cheguei a entender o cerne da questão, embora desconfie que me caibam as culpas no cartório.
Certo é que esse processo de ruptura nos afastou de alguma forma.
Contudo, e como poderão constatar se tiverem paciência para ler o comentário mais longo que já escrevi, recebi do Quintas (o homem que fala montes de absolutamente de sexo, de crime e de outras barbaridades) uma intervenção com a qual não contava. Pelo tom, pela forma, pela surpresa de ver uma das pessoas a quem, tudo indica, desiludi (e vice-versa) esmerar-se por me contrariar a deserção anunciada.

É tão fácil deixar cair as pessoas neste meio... Basta o silêncio prolongado, a ausência de um contacto que constitui (como lá fora) a essência de qualquer ligação digna desse nome. E foi essa ligação que o José Quintas reactivou à bruta, provando-me errado numa data de conclusões a seu (a meu) respeito e, acima de tudo, revelando um conhecimento de causa que me partiu todo pois prova que o silêncio do Zé não implica o seu afastamento deste blogue (e da minha pessoa, por inerência).
Por tudo isso e porque sim, reabro as caixas de comentários (exceptuando a de alguma posta mais privada) até ao último suspiro do charco.
Tens toda a razão, rapaz.

O outro exemplo chega-me de um país distante chamado Butão. Nesta minúscula nação dos Himalaias, onde o progresso ainda não conseguiu impor-se com a mesma determinação com que nos inferniza, reina desde o início do século passado a família de Jigme Singye Wangchuck. E desde há 31 anos é ele quem ostenta o ceptro, a coroa e o poder efectivo no país.
Dificilmente um cinquentão com um nome tão esquisito e com residência no cu do mundo seria digno de menção neste blogue, mesmo sendo o líder de um povo qualquer.
Então, porque reúno o Zé Quintas e Sua Majestade El-Rei da Conchichina nesta posta?

Pelo efeito surpresa. Dom Jigme (na minha ignorância plebeia, julgo que qualquer rei tem o Dom), contemporâneo dos Saddam Husseins desta nova (des)ordem mundial que são corridos do poder a pontapé e à morteirada, anda pelo reino a fazer campanha... pela sua destituição do cargo!
É verdade. Sua Alteza, e não estou a ironizar, defende o fim da monarquia na terra onde reina sem contestação. Mais ainda, a população nem quer ouvir falar de tal coisa...
E a coisa explica-se pelo discurso do Rei a propósito do seu intento: "Nos tempos vindouros, se a população tiver sorte, o herdeiro do trono pode vir a revelar-se uma pessoa dedicada e capaz. Por outro lado, esse herdeiro pode ser um medíocre ou mesmo um incapaz". Assim, sem merdas.

Não pude reprimir a imagem do nosso Dom Duarte de Bragança, na minha reacção instintiva de republicano filisteu. A argumentação do monarca que defende a democracia parlamentar é, a meu ver, a mais simples explicação para o fim natural desse regime arcaico e sem qualquer viabilidade teórica ou prática. E não me venham com os exemplos de sucesso, como o Reino Unido ou a nossa vizinha Espanha, pois não é desse tipo de regência paparazzi que estou a falar.
Estou a falar do poder absoluto, concentrado nas mãos de uma pessoa, qualquer pessoa, só porque nasceu com o pedigree adequado, com o cu virado para o melhor lado ou porque numa terra de cegos quem tem um olho ou é um general influente ou apenas tem veia ditatorial é "rei".
E é desse tipo de poder que um homem digno da maior admiração se propõe abdicar, contra a vontade do seu povo. Apenas porque acredita ser o melhor para o futuro da nação.

Eu votava num homem assim para líder do meu país. Em havendo essa opção, ou uma (pelo menos) vagamente parecida.
E no Jota também, se ele não fosse um anarca tão despudorado...
publicado por shark às 12:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quarta-feira, 14.12.05

NA TERRA PROMETIDA

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Quando a morte me procurar e eu fingir que não a vejo, é para ti que vou olhar implorando um último beijo.
E se comigo não estiveres quando esse momento chegar, saberás que partirei com a certeza de te encontrar.
Na Terra Prometida de um paraíso sem saudade, existe um espaço reservado para a nossa eternidade.
E se tudo isto não passar de uma efémera ilusão a dois, devemos desbundar-nos hoje como se não existisse um depois.

Gostaria de ser um poeta e dedicar-te belos sonetos mas sou um mero prosador de discutíveis talentos.
Arrisco retribuir-te a forma como me estimas nesta prosa apimbalhada pela pobreza das minhas rimas.
O desejo que me consome será fruto do instinto, mas não renego nas minhas palavras tudo aquilo que sinto.
Uma alma incendiada move montanhas até. E cada paixão idolatrada é um grito de alegria e de fé.

Deixo aqui estas palavras na esperança de que estejas à escuta deste sussurro beijado no calor da tua nuca.
O amor é imortal e as suas marcas são poderosas, gravo a fogo na memória as tuas dádivas generosas.
Por isso acredito na força que nos uniu e a tudo e a todos resisto. A verdade que defendo é aquela na qual insisto:
Na Terra Prometida de um paraíso sem saudade, existe um espaço reservado só para a nossa eternidade!
publicado por shark às 12:32 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 13.12.05

A POSTA QUE TÁS MESMO A PEDI-LAS

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Ao longo da minha presença na blogosfera tentei entendê-la. Não consegui, como os factos comprovam, mas aprendi a lidar com alguns dos seus fenómenos mais comuns.
Como o do tradicional insulto, mais ou menos polido, que sempre alguém gosta de deixar na caixa de comentários de algum(a) blogueiro(a) com quem embirrou.

Deve ser tentadora, esta bebedeira de liberdade que nos permite insultar sem castigo, vilipendiar sem sentido ou simplesmente dizer nas trombas de um bacano que não se gosta do gajo e tá a andar.
É óbvio que não podemos fazer jogo duplo nestas coisas. Se abrimos a caixa, temos legitimidade para apagar o que não corresponda aos nossos anseios mas aí traímos o espírito da coisa.
Esta questão ética, numa altura em que me apresto a encerrar o meu ciclo blogueiro, tem mexido com a minha consciência.

Eu tenho um blogue. Sou o dono, ponho e disponho porque pago para o ter. Posso por isso apagar os comentários que quiser, clique e já está, bloquear IPs aos mais insistentes e por aí fora.
Mas isso é uma forma de cercear a liberdade de expressão e assim fomentar a hipocrisia nas relações virtuais. Uma coisa que colide contra os meus princípios nesta hora dos fins.
Por isso sou livre de abrir uma excepção e permitir que toda a gente que por aqui passa e não gosta do blogue, do autor, da cor das suas cuecas, seja o que for, possa exprimir livremente a sua opinião, sem receio de cortes ou de censura. Uma espécie de catarse colectiva, onde podemos livremente exprimir o nosso desagrado e até obtermos uma reacção.

Claro que preferia que evitassem os palavrões, por exemplo, isto para evitar o avacalhamento da iniciativa e para lhe conferir a credibilidade de que necessita para ser um exercício satisfatório para todas as partes envolvidas. Até porque dói muito mais uma crítica fundamentada do que uma boca sem justificação e já reconheci que não sou nenhum doutor e dou o "corpo" ao manifesto nas minhas limitações identificadas.
Não estou a brincar. Se tiverem algo para dizer de desagradável, aquilo que sempre quiseram deixar no charco para memória futura, esta é uma oportunidade única para o fazerem de uma forma definitiva e com a devida projecção.
A melhor tirada será transformada numa posta, com crédito ao autor pelo peso que representam as críticas no conjunto dos comentários e no funcionamento global da blogosfera.

Naturalmente, não deixarei de oferecer uma oportunidade a quem pretenda fazer o contrário. Democracia é assim e o meu ego tem as mesmas carências dos das outras pessoas que blogam. Mas estou certo de que num caso como no outro poderei contar com a generosidade habitual de quem me ajudou a construir o charco e/ou a dar-me cabo da paciência e das condições para o manter.

Vamos lá, não se acanhem. Caixa aberta e despejem lá o saco de uma forma original e que vos satisfaça a sede de cascar no coirato do tubarão. Prometo responder de forma isenta e frontal a todos os comentários (até porque não tenho nada a perder, nesta pele de defunto anunciado) e assim merecer o vosso empenho.
Podem ser anónimos ou não, tanto faz. Pontos nos is é agora ou nunca. E escusamos de ficar com cenas atravessadas e ainda damos um excelente exemplo de sinceridade e de poder de encaixe que poderá fazer escola, na base da terapia de grupo mensal ou coisa que o valha.

Caixa aberta, desafio lançado.
Estou à vossa inteira disposição.
publicado por shark às 20:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (42)

A POSTA NA BRINCADEIRA

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Adoro bonecas com um bom sentido de humor.
publicado por shark às 20:00 | linque da posta | sou todo ouvidos

O POSTAL ILUSTRADO II

Ainda o espírito do Natal, sempre bonito, na óptica politicamente correcta da segurança rodoviária.

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publicado por shark às 19:48 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NO CALOTE

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Para quem só agora sintonizou esta frequência da blogosfera, devo avisar que o(s) tema(s) de hoje é(são) uma seca.
O tema principal é o futebol, excelente para cativar as audiências como o provam os telejornais e a liderança indisputável da TVI.
Mas o tema não é a Comunicação Social e as suas escolhas inenarráveis em matéria noticiosa. O tema é futebol, mas para lhe conferir alguma credibilidade juntar-lhe-ei uns pós de política e de economia. Aliás, não é novidade a ligação entre os temas que já citei. E assim sendo, nada de novo acrescentarei com a minha reflexão que dá substrato a esta posta.

Se a reflexão é minha, isso deveria bastar para que a maioria de vós mudasse de posto de imediato e procurasse blogues em condições para tratar estes assuntos sérios que os blogueiros de segunda categoria utilizam para se armarem ao pingarelho.
Já em bicos de pés, pigarreio para a assistência, alinho algumas folhas em branco para dar o ar perante as câmaras (os vossos olhares) e passo à reflexão.

Eu, que me afirmo de esquerda e canhoto ao ponto de até a minha pila reflectir essa tendência, essa inclinação para a esquerdalha, tenho tentado explicar a mim próprio onde está a revelar-se essa mesma tendência na governação actual do país. É que a coisa foi entregue à balda (com maioria absoluta) a um partido de esquerda e eu só ouço falar em comboios e em aviões, em mega obras públicas de construção civil que, perdoem-me a xenofobia de pacotilha, é como o dr. João Salgueiro afirmava há dias na SIC Notícias: só diminui o desemprego entre a comunidade ucraniana, moldava e similares.
E isto faz-me lembrar o tempo dos governos de centro-direita que (diz-se) enterravam os milhões em alcatrão para estimularem a economia.

A vitória de ontem do Setúbal sobre o Belenenses começou por me trazer à ideia o facto de ser tão estranho uma equipa com salários em atraso (o Setúbal) obter tão bons resultados como é espantoso um clube sem cheta (o meu Glorioso) eliminar um colosso europeu como o Manchester. É uma receita ganhadora, como o comprovam a classificação da equipa sadina na presente época e a surpreendente presença do Benfica nos oitavos de final da Liga dos Campeões à custa dos milionários britânicos.
E é aqui que entra a política de braços dados com a economia que a sustenta.

O governo socialista, recorrendo a uma estratégia que o Estado tem vindo a aplicar sob o domínio de qualquer corrente ideológica, está a dinamizar a economia com o sistema adoptado pela direcção do Vitória de Setúbal. O segredo está no adiamento dos pagamentos aos fornecedores ou mesmo no calote puro e simples. O tecido empresarial que se envolve com o Estado possui de antemão uma filtragem que o torna mais sólido do que a concorrência: só sobrevivem os mais fortes.
Por outro lado, o estrangulamento do sector privado disfarça os deslizes financeiros de algumas empresas públicas e até as pode tornar mais competitivas. É o caso da Caixa Geral de Depósitos, onde muitos dos empresários entalados pelo buraco orçamental depositam as suas esperanças e levantam mais tarde o penhor da gratidão estatal. Sim, são penhoradas e ganha a Nação (o principal credor). Ou então começam a cortar nos salários e a malta aumenta logo a produtividade (como no exemplo do Vitória de Setúbal).

É genial, a visão estratégica do Estado Português. Aliás, o distrito de Setúbal conhece bem o resultado da simbiose entre os sucessivos governos e a iniciativa privada, com a Auto Europa a prosperar à conta de pequenos apertões nos testículos da economia nacional que lhe rendem milhões em benefícios fiscais e domesticam a contestação laboral com papões de encerramento e consequente desemprego de milhares de pessoas. Um must da gestão de influências, manda quem pode e o resto amocha.

Mas já estou a afastar-me do tema principal.
O comportamento inexcedível dos futebolistas sadinos só pode ser atribuído ao facto de os rapazes jogarem à bola por prazer. Não pelos salários milionários (que veêm por um canudo), mas pelo gozo simples do futebol de rua. Não é à toa que as(os) vitórias surgem na Primeira Liga. E se nalguns casos a malta especula com os apitos dourados e outras suspeitas infundadas, no caso do Setúbal é evidente que o sucesso não passa pelas luvas. Ou então, também a arbitragem funciona melhor quando está em causa apenas a verdade desportiva e temos reunidas as condições para uma evolução sem precedentes do futebol lusitano.
Em poucos anos, nem o Real Madrid fará frente a este Vitória. Bem podem ir reservando os bilhetes de volta no TGV (se já houver na altura), caso lhes calhe defrontarem os nossos rapazes de um dos distritos mais pobres de Portugal.

Sem pilim, os portugas funcionam melhor (como era evidente no regime salazarista). Ninguém paga a ninguém e a coisa funciona com base na motivação pessoal, no traquejo que se adquire a esticar o pouco que vai pingando. E é esse afinal o segredo que vamos ensinar à Europa do futebol.
E não só.

Digo eu... (que de política não percebo mesmo nada).
publicado por shark às 10:40 | linque da posta | sou todo ouvidos

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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