Sexta-feira, 30.09.05

AVE MIGRATÓRIA

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Foto: sharkinho

A distância eliminada na corrida pela estrada que a vida me construiu é tempo conquistado ao destino adiado que um dia nos uniu.
publicado por shark às 01:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Quinta-feira, 29.09.05

A POSTA MENSTRUAL

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Foto: sharkinho

A conversa estava animada. Eramos quatro homens a falar acerca de gajas (tinham-se esgotado entretanto os assuntos futebol e automóveis) e nesse tema tão importante todos (julgamos que) temos algo de significativo para dizer.
Claro que cada um contou as suas histórias, verdadeiros épicos da sexologia, até ao momento em que um de nós decidiu assumir um "flop" (coisa rara). Os restantes, eu incluído, silenciaram em absoluto para ouvir o desabafo sincero de um macho que se preparava para explicar um fracasso na cama.
Ainda por cima estava em causa uma daquelas mulheres que fomentavam o consenso: boa comó milho, linda e com uma postura irrepreensível que lhe garantia o respeito de cada um nós. Uma mulher invulgar. E o nosso amigo Carlos M. tivera a sua oportunidade de ouro, nascida do convívio fortuito num curso de computadores. Encostámo-nos às cadeiras para nos concentrarmos nos detalhes de tamanha tragédia.

O Carlos lá deu início à parte da história que rapidamente se transformou numa seca. Debitou ao longo de alguns vinte intermináveis minutos o seu irrepreensível trabalho de sedução. Conquistador, um verdadeiro Pizarro do engate (considerando o que adiante resumirei). A música tocou até à parte em que entraram no quarto os dois. Aí, a agulha deslizou sobre o vinil como o giz arranha o quadro da escola. Um arrepio.
Tudo feito e afinal nada aconteceu. Boquiabertos e de sobrolho franzido, solidariedade de classe hipócrita, inclinámo-nos os três sobre a mesa da cervejaria para o ouvir melhor.

- Eu entro com a gaja, - afirmou o Carlos, todo gingão - conversamos um bocado e não tardou nada estava a tirar-lhe o soutien.

Um bruá interior no trio de espectadores. E o tipo prosseguiu.

- Começo no remelganço, mexe aqui beija ali e às tantas começamos a despir-nos, eu todo maluco e tal, a gaja tira as cuecas e eu topo lá um penso higiénico. - uma pausa estratégica para morder as nossas expressões - A gaja, pá, tava com o período e não me disse nada!

Ainda bem que estava sentado ou cairia de costas com toda a certeza. O meu amigo Carlos, garanhão, conforme adicionaria à sua explicação, rejeitou uma rapariga sensacional como se ela tivesse revelado uma doença sexualmente transmissível. Por estar com o período. E não ter avisado o rapazola dessas terríveis circunstâncias...
Os outros concordaram com ele, não sei se por simpatia. Eu não. Deitei as mãos à cabeça e pensei nas nozes em bocas desdentadas. E estraguei o ambiente da mesa com a espontaneidade da minha reacção. Quase nos envolvemos à porrada, o Carlos e eu, pelo rumo que a conversa tomou. Nunca mais voltámos a ter uma relação em condições.

Foi num livro do Henry Miller que encontrei pela primeira vez uma referência ao sexo que envolvia uma amante "periódica". No meio da deliciosa e detalhada descrição que o tipo fornecia acerca de qualquer mulher, o facto de a cena envolver o fluxo menstrual da amante em questão em nada diminuía a intensidade do que se passava entre os dois. Nem podia, concluí na altura. E confirmaria quando me confrontei pela primeira vez com a situação.
Implicava um simples problema de logística e nada mais. Uma toalha de rosto para evitar as manchas nos lençóis, uns lenços de papel e um duche abundante no fim. E pronto.

Faz-me confusão este nojo bizarro que se agarra à mona das pessoas. Um contrasenso sem explicação. E sei que se trata de um assunto desconfortável para a maioria das pessoas (de ambos os sexos), mas isso só poderá algum dia ser ultrapassado se alguém se pronunciar a propósito. Para podermos falar e pensar estas coisas que interferem directamente nas vidas que levamos.
A forma como me têm colocado a questão do período nas mulheres como óbice a um acto sexual é equivalente, no tom, à que me transmitem quando se fala nas mulheres que praticam sexo oral mas recusam que um homem se venha nas suas bocas.
É essa sensação de nojo uns dos outros que me perturba.
Por isso reagi, sem pensar, na minha primeira intervenção perante o discurso do Carlos M. e azedei a conversa: "Tu estás é a dar em paneleiro...".

No fundo, acabei por fazer tábua rasa da sensibilidade de outra pessoa. Fi-lo sentir-se mal com a sua reacção, condicionada pela educação que lhe foi incutida e por imensos factores que me transcendem. Armei-me ao pingarelho, apenas por ter uma opinião diferente da sua. E não é isso o que pretendo fazer aqui.
Quero apenas levantar a questão, sem me abster de vos transmitir a posição que assumo.
É que no teor da mesma está embutida a minha escala de valores nestas coisas e nenhum desses valores me compatibiliza com o outro lado do problema.
Nunca entenderei o embaraço de muitos homens perante aquilo que me faz ocorrer à ideia apenas a beleza do que num corpo de mulher a conota com a possibilidade teórica (ou prática) de ser mãe.
E ainda menos compreendo a desorientação (que testemunhei anos atrás) de uma mulher adulta pelo simples facto de me deixar à vista o tampão que utilizou.

São coisas que me impressionam e que ilustram algo de errado na forma como lidamos com um facto tão natural e isento de merdas. Só por isso me decidi a abordar a questão, aparentemente melindrosa.

O Charquinho não é o blogue indicado para quem prefira cultivar tabus.
publicado por shark às 12:31 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (107)
Quarta-feira, 28.09.05

RUÍNAS FUMEGANTES DE TUBARÃO

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Claro que o gajo tinha que dar ca língua nos dentes. Tou a falar do João Pedro da Costa, esse tripeiro blogueiro por quem um dia me apaixonei. Pela obra, claro, embora a pessoa tenha potencial para me apanhar distraído numa noite de nevoeiro...
O gajo anunciou na caixa de comentários do Ruínas que ele, o grande PN do Fumos e, não percebo como nem porquê, este vosso esqualo de estimação, seremos parceiros num blogue colectivo. Uma coisa simples, claro, que nós somos um trio de simplórios.

E claro que nesta orgia blogueira de homens com quem estive na cama ou por quem quase saí dela (dela cama, é uma private joke goesa) acabarão por surgir gajas. Inevitável, para compor o ramalhete desta versão bloguista do trio odemira que ou muito me engano ou vai dar merda.
Nos bastidores, aliás, o ambiente já aqueceu. É que este nosso amor, nascido meses atrás e consolidado no decorrer de uma ocasião especial (I love Mantas), não é um amor vulgar. É feito de emoções contraditórias, intensas, num modelo de paixão que pode levar uma pessoa à loucura. E vamos blogá-la não tarda nada, se entretanto não partirmos a loiça na retaguarda da nossa geraldina.

Aliás, a minha posta de há dias acerca de sexo anal acabou por funcionar como uma premonição. Misturar-me com um tripeiro chanfrado e um alfacinha bem fumado só pode resultar num bacanal palavreiro onde o potencial sodomizado é o vosso amigo Tuby Silva, aqui o je. Lá o darei ao manifesto, se entrementes o ciúme e o instinto de posse não nos afastar do conceito original.
Sei que vou dar cabo de mim nesta empreitada, mas não consigo dizer-lhes não. A nada. É assim que o amor consegue manietar-nos a razão, empurrar-nos para os braços fortes e peludos de dois manganões que sabemos descontrolados nos movimentos peristálticos das suas depauperadas cabecinhas.

E agora a sério, que eu sou pago para trabalhar e neste novo blogue acumularei funções. Cabe-me avisar o nosso vasto núcleo de indefectíveis que não tarda nada daremos início aos trabalhos de montagem (o Ruinoso é um excelente montador) e de embelezamento (o PN é um chavalo muita giro) e de avacalhamento (nada a referir) do novo espaço de criações inúteis e sem qualquer objectivo a alcançar.
Para não nos afastarmos em demasia da linha a que habituámos os nossos prezados leitores.

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publicado por shark às 11:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (86)
Terça-feira, 27.09.05

A POSTA INÚTIL

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Às vezes ponho-me a pensar no que distingue o homem que sou aos quarenta do que fui na casa dos vinte. Claro que me ocorre de imediato a comparação em termos de desempenho sexual, que nós homens só pensamos nessa cena.
Existe um abismo entre essas duas versões de mim. Entre o gajo que dava com ele de cu para o ar na berma de uma estrada nacional, interrompendo uma caminhada de quilómetros com uma loira imparável, e o que hoje desdenha o interior de um automóvel em detrimento de uma autocaravana com duche quente e cama de casal.

Considerando o lado excêntrico da minha personalidade, que os grisalhos não conseguiram exterminar, até me vejo capaz de jogos eróticos no adro de uma igreja de província ou coisa assim. Ou seja, dou largas à loucura quando esta se apodera de mim.
Todavia, tornei-me mais selectivo. Nos ambientes e nas companhias. Não é uma questão de menos... entusiasmo, acredite quem quiser, mas apenas a vontade de ir sempre mais além do que a simples rapidinha ao som das buzinas e à luz dos faróis das viaturas que passam. E essa parece constituir a principal diferença, a exigência da privacidade que me disponibiliza para algo mais.

Ouvia esse discurso dos cotas, na altura, e pensava com os meus botões: "Pois, pois... Tens é falta de força na verga e agora contas-me histórias de encantar". Eles afirmavam que com a idade um tipo fica mais refinado na arte do amor, mais empenhado na qualidade do que na quantidade (sem, contudo, renegar esta última - o que é bom nunca é demais).
Hoje admito que tinham razão. Por muita piada que encontre nas trapalhadas que protagonizei, caçado a toda a hora pela polícia, pelos vizinhos, pelos pais ou pela guarda florestal em pleno desfrutar de uma maluqueira a dois. Ou mais.

Prefiro o sossego de um quarto de hotel, uma noite inteira para explorar (incluindo um sono retemperador, com os pelos do peito agitados pela respiração tranquila de uma amante especial). Um cenário mais intimista, mais privado. Mas que não afasta de todo o ritmo acelerado de uma sessão a roçar o pornográfico nas poses e nos sons. Algo que me seduz mais do que o sexo abafado numa tenda, campista de ocasião que sempre fui, ou despachado numa praia, cheio de medo de hipotéticas intrusões. Quase para cumprir, quando o gozo que hoje encontro reside no prolongamento concentrado de um delicioso ritual. O clima, que tanta importância adquiriu nesta nova fase da minha vida sexual, cultivado na atenção às questões de pormenor. As da outra pessoa também, submetida às suas próprias pressões, e que me esforço por descontrair. Basta fugir às circunstâncias que podem amplificar receios e preocupações, insistir num conjunto de factores que espantam os constrangimentos de ocasião. O tal recolhimento ponderado que evita as surpresas e os embaraços que podem deitar tudo a perder.

Hoje sinto que é essa a forma de estar que mais se adequa ao perfil que me moldei. E claro que isto nada vos diz ou interessa, mas faz parte da minha natureza e eu tenho que preencher as minhas postas com algo de meu para vos dar. Mesmo informação inútil como esta vos deve soar, coisas íntimas que é costume a malta guardar para si.
Mas eu sou assim e foi assim que vos habituei. Sou apenas mais um (o gajo regressou!), mas gosto de escrever as coisas que me definem, que possam nalguns aspectos distinguir-me da multidão.
E este é o suporte ideal para debitar o resultado inócuo das minhas introspecções.
publicado por shark às 11:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (56)
Segunda-feira, 26.09.05

SINAIS EXTERIORES

Como nunca mais chega o fim do mês, vou mesmo ter que recorrer aos grandes argumentos...

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O meu visa gold vai andar num badanau...
publicado por shark às 12:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)

A POSTA OPTIMISTA

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Ora aqui está uma nova semana, acabadinha de ter início.
Maravilha, vou poder acreditar outra vez que é nesta semana que vou concluir as tarefas que deixei por fazer na semana que passou...
publicado por shark às 09:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Domingo, 25.09.05

ESTADOS DE ESPÍRITO

Um repositório das (minhas) emoções. (fotos: sharkinho, claro.)

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publicado por shark às 12:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sábado, 24.09.05

A POSTA NO ALEGRE

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Como referi na posta anterior, sinto necessidade de falar um pouco de política. Sob a minha perspectiva, menos doutrinária e mais virada para o mérito das pessoas que a executam por mim (militante do sofá). Ou seja, não tenho paciência para debater as ideologias quando sei que essas pouco diferenciam a prática dos que as corporizam nas estruturas que a democracia disponibiliza.
Sou de esquerda e na maioria das coisas encaixo-me no que se convencionou apelidar de liberal. Por outro lado, sou nacionalista e coloco a Pátria acima de qualquer questão partidária ou ideológica. Interessa-me mesmo o melhor para o país. E o melhor para mim são as pessoas.

Existem gajos que me causam urticária só de os ver. Como o do bolo-rei à boca cheia, arrogante e autoritário. Ou o intelectual armado aos cucos só porque engatou uma gaja boa mas que é capaz de virar as costas à mão que um adversário lhe estendeu. Ou a figura mítica que se desdiz e trai um amigo por motivos que, estou certo, nada têm a ver com a defesa dos interesses da Nação.
Representam, à direita e à esquerda, um tipo de gente a quem nunca confiaria com o meu voto qualquer lugar proeminente na gestão do rumo do meu país. Gente falsa, sem palavra, gente mesquinha que apenas se serve da projecção mediática para subir nas sondagens que denunciam o muito que há por fazer nas mentalidades do eleitorado de papalvos que decide estas coisas. Papalvos sim, e basta citar os exemplos que nos chegam de Gondomar ou de Felgueiras, de Amarante ou de Oeiras.

Vamos falar sério: o dr. Mário Soares destes dias representa tanto os ideais de esquerda, socialistas, como o dr. Cavaco Silva representa os do PSD que há pouco tempo traiu (ou já ninguém se lembra da polémica do cartaz?) ou a direita representada pelo PP. São duas candidaturas tão sérias como o Benfica convocar o Eusébio para a equipa principal, o Sporting repescar o Yazalde ou o Porto contratar o Fernando Gomes (esse não, carago, o outro, o que também sabe jogar de cabeça mas não mete as mãos pelos pés).
Não estão em causa os mui dignos estatutos de avôs destas criaturas, mas sim o anacronismo destes males menores.
Eu sou de esquerda e apoio sem reservas uma candidatura do poeta Manuel Alegre. É nele que revejo a esquerda que gosto de apreciar. A força, a seriedade, o empenho, a ingenuidade de defender uma causa sem entregar a alma às sanguessugas. Não é um santo, o Manuel. Mas leio-lhe nos olhos e na voz uma forma genuína de viver estas coisas, uma sinceridade à flor da pele que lhe terá custado o ostracismo do aparelho partidário. Contudo, eu vou ajudar a eleger uma pessoa e não uma ideologia, vou votar no homem que me parece mais capaz de enfrentar com dignidade o desafio de manter na ordem uma maioria absoluta.
Sem hostilidade, apenas pela honra. Pelo lugar na história que o Manuel Alegre já mereceu e quer consolidar.

A candidatura de Mário Soares tresanda a bafio de bastidores, "apoiamos este, pois o outro não tem hipóteses de ganhar e o marocas até alinha sempre com a malta", tanto quanto a de Cavaco Silva é fruto do desespero de um centro-direita sem alternativas. Tão mau que até o advogado do Bibi sentiu a pressão da sociedade civil para avançar com a sua fantasia. O circo instalou-se de armas e bagagens na cena política nacional. Mas os palhaços somos nós, os que deixamos andar a cena sem ao menos motivarmos as pessoas de bem para recuperarem as rédeas desta carroça desgovernada.
É nesse contexto que apoio o Manuel Alegre, como não hesitaria em apoiar, contra Mário Soares e a desconfiança que me inspira, um candidato decente que a direita pudesse apresentar. É como nas autarquias: voto no partido que melhores provas deu, mesmo que tenha como certo o contrário numas legislativas. São realidades diferentes que as pessoas (e os políticos) confundem.

Sou benfiquista mas não me revejo nas cenas de taberna (apoios eleitorais descarados, trambolhões etilizados ou desacatos nas assembleias) que o clube da minha simpatia atraiu nos últimos tempos. Sou um benfiquista do tempo do Fernando Martins.
Tal como na esquerda não papo este grupo socrático que as circunstâncias favoreceram. Sou do tempo dos homens que lutaram pela Liberdade por convicção e que abraçaram a causa pública, que ainda não desistiram das suas utopias.

O Manuel Alegre é, por isso mesmo, o meu candidato presidencial. E pela parte que me toca, a única opção realista para embaraçar os que avançam pelo umbigo e não pela coerência.
publicado por shark às 18:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)

A FOICE EM SEARA ALHEIA

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Raramente escrevo algo acerca de política no charco. Percebo pouco do assunto e sinto-nos a todos pouco motivados para o discutir.
Também não é meu costume meter a foice em seara alheia quando acontecem as tradicionais rixas entre blogues (entre as pessoas que os fazem), não só porque o assunto não me diz respeito mas porque existem sempre dados que escapam a quem está fora do convento.
Contudo, hoje vou abrir uma excepção nos dois casos. Falarei de política na óptica das pessoas mais do que das ideias (porque me interessam mais as primeiras, que as originam) e falarei mais de blogosfera e do impacto negativo destas guerrinhas absurdas na credibilidade do que fazemos do que nos aspectos que dão origem a (mais uma) troca dispensável de mimos blogueiros.

E começo por esta questão. Existe uma polémica pública entre o Rogério da Costa Pereira (o Monty) e o Daniel Arruda (o Daniel Arruda). Dessa questão por resolver têm nascido dezenas de palavras e de atitudes nas páginas e nas caixas dos dois blogues representados pelos nossos colegas que citei. E dessas atitudes tem resultado uma série de prejuízos para as imagens dos intervenientes (nada anónimos) e dos respectivos (e muito visíveis) blogues. Concentro-me nestes últimos.

Blogar a sério equivale a desviar horas de atenção diária para a criação e a manutenção de um trabalho público e ao alcance de qualquer pessoa. Acredito que não está ao alcance de muitos aguentar esta pedalada de jornal diário sem vergar na qualidade do que publica. E na estrutura emocional da pessoa que é, por detrás do monitor.
Este clima de peixeirada não me ajuda, enquanto blogueiro. Dou o meu melhor, como os outros, e isso justifica-se porque acredito neste suporte de comunicação. Até pelo calibre do que me é dado a ver. Não gosto de ver dois dos mais destacados blogues da praça protagonizarem uma discussão pública de questões menores que em nada contribuem para conferir seriedade ao seu esforço. E ao meu.

Misturar questões pessoais com reacções intempestivas ou mesquinhas a propósito da actividade blogueira é um disparate. O que sei dos intervenientes neste caso concreto até me permite concluir que possuem capacidade (provada neste meio inflexível em matéria de retorno) e inteligência (desmentida pelo teor autofágico das suas intervenções) para evitarem estas merdas.
Uma coisa são blogues e outra coisa são pessoas. Os primeiros são uma dimensão da realidade que os segundos lhe conferem. Uma visão parcial das pessoas que os constroem, por muito que se abram ao mundo nas suas postas.
O blogue reflecte-nos, no bom e no mau, mas nunca será uma reprodução fiel do que nos vai na alma ou dos contornos do nosso carácter. É que a pressão conduz-nos a erros de palmatória, a medos da exposição, a reacções estapafúrdias que nunca teríamos na nossa vida normal. Torna-nos diferentes, a blogosfera. Nalguns casos para pior.

Eu não sou isento de culpas em qualquer matéria, tenho os telhados de vidro mesmo à mão de semear. Mas não estou a pedir uma chuva de pedras. Quero apenas que a malta recorde a existência dos emails ou mesmo dos telefones para lidar com as dúvidas e os malentendidos que este suporte multiplica. Para não nos expormos ao ridículo a que o excesso de zelo pode acarretar e ao inevitável crescendo das proporções que estas coisas atingem. E nem sou dos que defendem a ideia de que "isto são só blogues". O meu blogue é um retrato muito aproximado do homem que sou, do que valho aos olhos de quem me pode avaliar por esta via e confirmar pelas que se seguirem, como já aconteceu com dezenas de colegas. Levo a sério o que de mim vos dou e preocupo-me com a imagem que transmito do Sharkinho, a alcunha que não me separa do nome que me baptizou.

A blogosfera merece melhor e os que a fazem, também. Como amigo de pessoas por detrás dos dois blogues que me motivaram esta posta, estes minutos da minha e da vossa atenção, só posso meter o bedelho e (nem que seja na pele de alguém que aprecia e respeita as vossas criações) contribuir com o meu quinhão para acabarem de vez com a exposição pública das vossas divergências. Mais vale darem-se ao desprezo, sempre que alguém tome uma iniciativa palerma. Ignorarem a questão.

Ou lidarem com a mesma longe dos olhares de quem nos procura com as motivações mais adequadas. E de quem apenas busca matéria para a cusquice que não nos enobrece ou beneficia de alguma forma.
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publicado por shark às 16:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (43)

PRECISO

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De dias melhores.
publicado por shark às 01:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 23.09.05

CAÍ DO PEDESTAL

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publicado por shark às 23:40 | linque da posta | sou todo ouvidos

NESSUN DORMA

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Foto: sharkinho

No meu sonho eu não sou o príncipe encantado, apenas defendo os seus ideais. Cavalgo pela praia em busca dos inimigos do reino, olhos postos no mar que me ladeia. De vez em quando enfrento um dragão, dos que ameaçam uma donzela refém. Para treinar a coragem, temerário, aos olhos do adversário. E pelo amor também.
O castelo no cimo da falésia, imponente, revela nas suas ameias as testemunhas das façanhas que não preciso provar. À vista desarmada reluz a minha espada quando a empunho para lutar. Pela causa. E pelas vitórias acumuladas nas batalhas disputadas em nome de um rei que casou e procriou e assim se fez feliz. Por um triz, quando a vida lhe salvei.

No meu sonho sou o cavaleiro mais forte de quantos a rainha abençoou, ilustre guerreiro que tudo conquistou. Sem medo de morrer, leal até ao fim. O primeiro a cravar esporas quando soam as trompetas que mandam avançar o exército de um homem só. Eu, em cima de um alazão, escudo num braço e lança na mão. A galope, rosto salpicado pelas gotas com sal depositadas no areal pelas ondas que ali desmaiam a força que as criou.
Brilham ao sol as armaduras dos que tombam à minha passagem pela margem da baía. Gritos de guerra abafados, silêncios rasgados pelos gemidos de dor. Até ao ruído final. E depois sepulcral, a ausência de som.

Do meu sonho vencedor só acordo no fim.
Mas no teu pesadelo nunca adormeci.
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publicado por shark às 18:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)

A POSTA SEM PALAVRAS

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Foto: sharkinho (tá bem, tem estas palavritas...)
publicado por shark às 16:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quinta-feira, 22.09.05

CULPA MINHA

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Foto: sharkinho

Acontece-me imenso. No meio da fúria que por vezes me controla digo e faço coisas de que me arrependo depois. Fujo de mim nessas alturas, incapaz de me entender e de encontrar uma plataforma lúcida para o diálogo interior. Para evitar o pior.
Não consigo. Deixo-me dominar pelo lado menos bom de uma personalidade talhada para a confusão. Expludo impropérios e impludo em terríveis conclusões. Uma amálgama de raiva desnorteada com uma tendência vincada para a loucura temporária.
Entretanto já passou. E eis-me de novo confrontado com o remorso costumeiro, a minha penitência de estimação.

Dou o braço a torcer, sempre que me reconheço fora da linha perante seja quem for. E forço muitas vezes as tentativas de reconciliação, apesar das inúmeras desilusões que esta mania me traz. Prefiro dar-me bem com as pessoas, mas não lhes tolero provocações. Perco a razão à partida, desproporcionado nas reacções. Vou longe demais. E isso não é bom, pois gajos como eu passam a vida apanhados em contrapé.
Ajo, no fundo, em conformidade com o impulso que me trai. É este o retrato dos meus momentos piores, hoje como num passado que sinto distante mas nunca passível de olvidar. Faz parte do homem que sou. E aqui estou.

À míngua da vossa simpatia.
À mercê do vosso desdém.
publicado por shark às 18:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (36)
Quarta-feira, 21.09.05

A POSTA NAS TRASEIRAS

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Alguém sugeriu o título desta posta na caixa de comentários da casa do tubarão. Pelo título percebe-se do que se trata e é um assunto que não me lembro de ter abordado de forma directa neste blogue. Confesso que não tinha encontrado até à data uma abordagem à altura e continuo sem a certeza de que o conseguirei. Mas ando desertinho para retomar o tema sexo no charco e achei que seria interessante enfrentar este desafio. Sem rede.
Ou seja, acabei por desistir de planos e de conjecturas e estou a escrever "em directo" aquilo que me ocorre acerca de um dos maiores tabus do sexo heterossexual: o sexo anal. Distingo a heterossexualidade em específico apenas porque nunca tive acesso a outras perspectivas que não desdenharia abordar. E não gosto de falar acerca de matérias que não domino, sobretudo quando está subjacente uma opinião acerca do que falo. Favorável, no caso em apreço.
Vamos lá então...

É inegável que o assunto causa desconforto, mesmo entre casais com anos acumulados de intimidade na cama. Por isso o apelidei de tabu mais acima, pela visível renitência da maioria das pessoas em enfrentarem as suas vontades e/ou fantasias, enfim, mais arrojadas. O sexo anal parece-me entrar neste grupo das "vergonhas" que muitos(as) ambicionam mas ninguém quer debater. Se estou errado é porque me tenho dado com gente tímida aos magotes e não há nada a fazer.
Não é fácil encontrar uma forma de colocar um desses apetites clássicos (o homem que nunca fantasiou com um cu que avance com a primeira palavra) à pessoa que temos connosco na cama, sobretudo se as condições não são as ideais em termos de intimidade, de à-vontade ou da privacidade indispensável para uma "extravagância" carregada de mitos e de cargas pejorativas.

O mito da dor é o primeiro. Pinta-se a coisa como se um pénis se transformasse de repente num gargalo de garrafa e um ânus não passasse de uma argola rígida de metal. Um absurdo, claro está, até porque se as dores de uma penetração inaugural fossem assim tão insuportáveis o número de virgens não parava de crescer. E nem consta que sejam experiências directamente comparáveis. Mas é um pretexto como outro qualquer para nos perturbar a mona e nos afastar do prazer e da realização pessoal. Não faltam dessas merdas que nos castram.
Até num hipermercado é fácil de obter um gel lubrificante para eliminar o efeito da fricção. E a elasticidade do ânus, posta à prova a partir do interior em determinadas superproduções intestinais, tem milénios, quilómetros de experiências bem sucedidas. E aquela história do Reinaldo e da Laura Diogo não passou de uma lenda urbana para papalvos atesoados e doentios...

Mas existem outros aspectos que condicionam as pessoas nessa delicada opção que um corpo nos dá. O nojo (sempre presente de alguma forma quando o sexo protagoniza) é outra das barreiras psicológicas de alguns, bem como o tradicional medo das consequências (há adultos que temem que o ânus não regresse ao tamanho original depois de alargado dessa forma). E mais uma carrada de falsos argumentos que diabolizam o que deveria ser uma alternativa a considerar sem reservas. Claro que falo sob a confortável perspectiva de quem vê o assunto do lado mais simples e menos assustador da coisa, mas é esse que me compete e do outro lado da história que fale quem puder e souber.

O sexo anal é uma maravilha, afirmo-o como homem que não abdica do instinto natural para possuír, para dominar a fêmea que me deseja, que me quer dentro de si. Na minha ideia, representa um passo fundamental na evolução de uma cumplicidade a dois. Porque requer muita confiança. Um bruto pode provocar enorme sofrimento dessa forma e é natural que se escolham homens capazes de mudanças de ritmo em função da pessoa e da circunstância. Neste contexto, se uma mulher me aceita como parceiro no sexo anal eu entendo o gesto como uma evidência do seu empenho e da sua sensualidade explosiva, aliados a uma confirmação clara dos sentimentos de confiança e de proximidade que lhe inspiro. É a minha forma de o sentir e não pretendo fazer escola, insisto.

A simples concretização desse passo elimina a hipótese de a vontade degenerar em desejo obsessivo, como parece acontecer a alguns. Constou-me até a negação de tal privilégio como explicação para o fim de matrimónios, embora eu admita que possa ser um exagero. Mas nem são necessários pretextos, na minha óptica. Sexo propriamente dito implica a exploração dos corpos no máximo do seu potencial para o prazer, sem fronteiras. É assim que explico a minha versão acerca deste falso melindre, desta tolice fantasma que nos inibe até de conversar sobre "essas coisas".
E claro que fica salvaguardada a divergência de sensibilidades e de opiniões. Não tenho o monopólio do conhecimento nesta área específica, como reconheço acima, e posso falar apenas da minha experiência pessoal (como sempre fiz).
É essa que me concede o direito de fazer a apologia de tudo quanto na vida me impressionou.
E em algumas questões sou um gajo muito impressionável...
publicado por shark às 00:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (116)
Segunda-feira, 19.09.05

A POSTA IMORAL

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Foto: sharkinho

Nunca consegui assimilar na catequese aquele conceito bizarro de "dar a outra face". Era um puto, mas lembro-me de me rir à brava quando percebi o fulcro da questão. Levar uma lambada e oferecer o outro lado da cara para encaixar a segunda...
Foram estes aspectos secundários que me levaram a questionar a moral cristã. Daí à crise de fé, incendiada pela reacção hostil que as minhas interrogações suscitavam, foi um tiro. Iniciado este processo, não tardaram as repercussões.
Acabei expulso do templo, diante da multidão de crentes-vizinhos, no que constituiu o primeiro rude golpe na imagem pública do filho dos meus pais, porque perguntei em voz alta o que estava a fazer ali e porque me obrigavam. Foi o advento da ovelha ranhosa de uma família a que em tempos pertenci.

Mas regresso à cena da estalada.
Antes mesmo da entrada (fatal comó destino) para o rebanho da paróquia local, já o meu pai me ensinava os rudimentos de defesa para qualquer puto de um bairro cheio de durões. E não tardei a perceber que a melhor defesa, na maioria das circunstâncias, era o ataque surpresa. Oferecia a outra face mas era para distrair o opositor, enquanto a mão alçada ou uma valente joelhada resolviam a situação. Violência gratuita e tal. Pois é. Mas deu-me um jeitão, quando a rua me provou que o cota tinha razão. O respeito conquistava-se dessa maneira, à viril das avenidas, e não havia lugar para a misericórdia.

É que os gajos normais até caíam em si, se um tipo lhes oferecesse a outra bochecha. Mas os mesmo maus reagiam como os cães selvagens perante uma pessoa com medo. Mordiam a doer. E um tipo aprendia a lição, à custa dos católicos que se deixavam espancar em nome de um conceito de duvidosa aplicação. Na prática, enfardavam que nem coirões e não havia santinho que lhes deitasse a mão nessas difíceis provações. Um nobre sacrifício, mas em vão. Os filisteus não se convertiam e nós agnósticos também não...

Isto para explicar que mesmo nesta fase menos agitada da minha vida ainda não encaixei a coisa, embora lhe reconheça enorme potencial em determinados contextos. Até já pratiquei, só por piada, e confirmei o pressuposto mais acima: mordem que nem cães e não apreciam a beleza de uma atitude tão louvável. E depois um gajo tem que retribuir, ou nunca mais lhe largam as pernas. A ele e a quem se prestar a esses rituais de beatificação que o mundo real, que não reza por aí além, só entenderá quando o Cristo regressar para pôr ordem na barraca em que se tornou esta complicada criação do seu Pai.
Ignorar quem me ameaça ou agride, ainda vá. De vez em quando. À primeira.
Mas quando insistem em repetir a graça, molhando a sopa no aparente bonzão, a coisa muda de figura.
Não me fico.
É que o respeitinho é muito bonito...
publicado por shark às 20:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (24)

A POSTA NA TEIMOSIA

Quem vê caras não vê corações, não é? Mas por mais que se escondam os factos para ocultar a realidade, a verdade acaba por se impor e a justiça prevalece.
Insistes em mandar sinais da tua baixeza.
Mas não há como contornar o problema, méne: aquilo foi mesmo uma

sangria.JPG

E a camuflagem não resultou...
publicado por shark às 18:45 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA NO SEGREDO

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É como revistarem-nos as algibeiras, quando nos atiram à cara algo que descobrem no nosso blogue e disso se servem como arma de arremesso. No fundo, limitam a nossa liberdade ao fazerem sentir a sua presença na qualidade de "investigadores".
Já me aconteceu, por mais de uma vez.
Por isso mesmo, o anonimato nestas coisas é mesmo fundamental. Sobretudo perante as pessoas com quem temos de lidar cara-a-cara.

Um blogue é como um diário íntimo e o cadeado é a nossa identidade secreta.
publicado por shark às 16:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Domingo, 18.09.05

VOCAÇÃO MARÍTIMA

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Foto: sharkinho

Os dias especiais colam-se à memória como tatuagens de vários tons.
Ontem o meu foi da cor da pele.
publicado por shark às 11:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Sábado, 17.09.05

A POSTA NAS ONDAS

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Hoje não vou precisar do meu telemóvel especial...
publicado por shark às 01:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Sexta-feira, 16.09.05

A POSTA ANTI CLÍMAX

cinzentao.JPG
Foto: sharkinho

Estava um dia lindo e cheio de sol, promessa de um fim-de-semana bestial.
E de repente, a vida é tramada, a coisa ficou assim.
É um tema banal, bem sei, este do tempo que faz. Do que o tempo faz na nossa disposição e nos hábitos que cultivamos. O tempo e outros factores, aliás.
Mas o médico proibiu-me de entrar em temas mais profundos.
Por causa das úlceras...
publicado por shark às 19:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

A POSTA NO ARAME

liberdade condicional.JPG
Foto: sharkinho

Tenho palavras encarceradas em mim. E não as posso libertar assim.
São reféns das minhas limitações. Condenadas ao silêncio das palavras marginais que podem incomodar.
Sinto-me prisioneiro e afinal sou o carcereiro das utopias e ilusões que pretendo conquistar.

Ambiciono palavras soltas, mas faço orelhas moucas à verdade que se perdeu.
Amordaçado pelas condições, sonho novas revoluções nas arestas da que Abril me deu.
No calor da madrugada, busco a escrita transpirada e a vontade de gritar não!
Mas sinto-me gelado pelo ar condicionado da minha liberdade de expressão.
publicado por shark às 04:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Quarta-feira, 14.09.05

A POSTA NA NOVELA

blogatorio.jpg

A posta anterior é um exemplo de um estilo corriqueiro nestes blogues intimistas ou pessoais, como o charco. É um recado enviado a alguém que bloga (como blogueiro/a, comentador/a ou apenas visita regular), camuflado entre uma ilustração ambígua, um texto sem nexo e um título que diz apenas metade do que se pretende dizer. É uma espécie de posta com mascarilha.
A ideia é apenas o/a destinatário/a e mais meia dúzia de "mais próximos" entenderem a cena. E isso até pode acontecer, quando o/a visado/a frequenta todos os dias o blogue emissor. Mas na blogosfera existe um problema com que podemos defrontar-nos: os estilhaços da coisa, a água que transborda na sequência do mergulho de chapão.

Quer isto dizer que às vezes a cena é mal interpretada e qualquer transeunte da blogosfera com um umbigo sobredimensionado enfia a carapuça com base no seu imaculado poder de especulação. "É pá, o gajo tá-se a meter comigo. Ganda cabrão...". E muitas vezes não. Era mesmo para o url do lado e o carteiro electrónico despistou-se um bocado e a mensagem foi cair nas piores mãos. Uma bronca, logo a seguir. A resposta ao recado não demora a sair. E tem início outra escaramuça virtual que pode arrastar blogues aliados, com estratégias como nas guerras a sério e tudo.

Outras vezes não. A "bomba" rebenta no alvo e o impacto é menor, confina-se aos adversários em disputa. Regra geral há um que faz de aldrabão, o contador de histórias. O outro, por norma bem informado, atira-se como gato ao bofe e tenta desmascarar o primeiro sem contudo se exceder na mira quando aponta o dedo. O "mau" é anónimo e não tem piada que possa identificar-se na boa como o alvo a abater. Faz parte das regras deste jogo blogueiro sempre cheio de animação.
O que chateia é que a cena, rebuscada e macabúzia, nem sempre resulta no trocadilho. E se ninguém a percebe, fica o que a envia no papel do maluquinho. Outras vezes é na outra ponta do fio que se instala a confusão, confunde-se bagaço com cagaço e até polícia a coisa pode meter...

Dantes a malta reinava bué com estas cenas fixes, um ganda exercício mental e de coordenação motora (quando um gajo tem o telemóvel entalado entre o ombro e a orelha, uma caneta numa mão e a outra a pressionar as teclazinhas como quem cata milho no chão). E dava pica, ver a malta a esgalhar uma ganda prosa com insultos cheios de rendinhas, depois os amigos da casa a comentarem (mesmo sem fazerem a mínima ideia do que está em causa). E depois a resposta, ainda mais entaramelada no discurso, e os comentadores desse espaço a fazerem bruá. Pingue. E a seguir pongue. Paciência de chinês...
Dou-vos um exemplo concreto, sem merdas. O simples facto de eu falar neste assunto vai merecer uma associação de ideias. E tento explicar o conceito:

"Ah, já tou a ver... O gajo teve um desatino com o tal, até deu merda com fulano por causa do que disse à sicrana. Se ele fala de caridade vê-se logo que é uma metáfora, tás a ver? Ele quer dizer tenra idade, porque o outro é mais novo. Ou coisa que o valha." Ou qualquer outro raciocínio abstrôncio que conduza à ligação mais sumarenta possível e alimente a cusquice que nós blogueiros já provámos apreciar. Generalizei. Não devia, bem sei. Mas é uma das características que me incomodam na blogosfera, esta tendência para a adivinhação no plano das intenções. Assim como andarmos às apalpadelas em busca da lâmpada fundida, cegos pela luz do conhecimento que se apagou no meio de tanta trica e discussão. E a criatividade também se viu afectada, sem tempo nem clima para se espairecer pelo céu destas nossas criações, encoberto pelo manto da interactividade de uma novela mexicana. Que espanta os fregueses "de fora".

A blogosfera amornou. E eu acho que a culpa é do mordomo. Mas claro que isto não passa de sentido figurado.
O recado lá chegou...
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publicado por shark às 01:16 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (28)
Terça-feira, 13.09.05

OBRA DE CARIDADE

rica ideia.JPG

Ele caiu em si.
Mas ainda não bateu no fundo...
publicado por shark às 21:39 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 11.09.05

ALMOÇO EM FAMÍLIA

outro lencol.JPG
Olha, o Sharquinho ou Charkinho ou lá o que é já estendeu mais um lençol...

Tenho vindo a ensaiar uma atitude menos emotiva perante quem se esforça por me encolerizar. Não é fácil, acreditem, passar do oitenta ao oito de um dia para o outro. Explode-nos o peito com a pressão. Engolimos em seco, pigarreamos, disfarçamos a ira imediata com uma simples passagem da mão pelos cabelos mais uma contagem mental até dez.
É um exercício excelente na óptica do autoflagelo, ensina-nos a sermos pessoas melhores através da técnica da chaleira entupida. A gente ferve mas o apito não soa, ecoa dentro de nós como uma locomotiva a vapor. É um processo que quase nos leva à loucura, mas só na altura, ficamos felizes à brava depois da coisa passar. Ou esforçamo-nos por acreditar...

...Que vale a pena o sacrifício de não responder em consonância com a estupidez que nos atordoa quando nos inibimos de reagir. É que a cena funciona e evita muitos males maiores, os que nos afloram a mente a um ritmo constante quando nas trombas recebemos uma dose de hipocrisia, uma pessoa com a mania, um discurso infeliz por parte de um parvo qualquer. Às vezes sou eu que visto a pele deste último e safo-me apenas pela paciência de quem me atura, a estoicidade da amizade ou do amor. Tenho mesmo que retorquir na mesma moeda, aprender como se faz, e treino com batráquios que engulo. Sem os mastigar.

Os resultados são do melhor. Não fazemos má figura e enquanto nos mentalizamos para não disparar um "vai à merda" (ou pior) já nem escutamos o que nos tentam dizer. E não nos fixamos no lado mais negro da coisa, transportamos para Marte o que conseguimos salvar da nossa consciência amolgada e de repente já nem estamos ali. Diante do agressor. Retirada estratégica para evitar o pior, um impulso daqueles que nos fazem perder num berro a razão que nos assistiria noutro tom. É disso que tento escapar, das consequências da minha natureza de refilão. Até um certo ponto, onde corto o mal pela raiz, deixo crescer a erva daninha até me roçar com a mostarda no nariz. Aí sou eu outra vez, um exaltado tubarão, e disparo um "bolinha baixa que o guarda-redes é anão" (ou uma mais curta).
O caldo entornado sem necessidade nenhuma.

E na maioria das vezes nem vale a pena, não se justifica uma reacção ao que nos agride ou perturba. Basta o desprezo para ilustrar o que a alma reprimiu. A chaleira sem assobio e um gajo com a tola na morte da bezerra, longe do episódio, concentrado num ponto de luz imaginário ao fundo do túnel em que enfiamos a nossa fúria para que se distraia. E balbuciamos uma trivialidade qualquer, "pois é, o Benfica jogou mesmo mal". Perdeu com o rival e estragou ainda mais a disposição de qualquer verdadeiro lampião, mudar de assunto depressa. Entretanto o pomo da discórdia arrefeceu e na marinha que seguiu embarcou a nossa vontade de partir a loiça. Uma vitória do bom senso e da ponderação. Um orgulho...

Nem sei por quanto tempo aguentarei. E já releio o Dalai Lama.
Para que sempre que faço a minha cama consiga pensar, pelo menos duas vezes, antes de estupidamente nela me deitar.
publicado por shark às 22:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (35)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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