Terça-feira, 30.08.05

A POSTA QUE NÃO HÁ INSUBSTITUÍVEIS

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Foto: sharkinho (esta é mesmo minha...)

Fazer de conta que nada se passou seria hipócrita da minha parte. E claro que o que se passou é matéria para conversas restritas entre aquelas(es) a quem o assunto diga respeito. Mas é inegável que levei um pontapé no focinho e outro na alma também e toda a gente percebe porquê. Concedo mais essa glória a quem a possa entender como tal. Nunca me neguei colérico e não faria muito sentido negar-me emocional. Sou e senti a biqueirada, mas reuni o arcaboiço necessário para a aguentar. Só podia.
Afinal, por detrás dos blogues (coisa pouca) estão pessoas (aquilo que me importa). E onde se agrupa um conjunto de diferenças em torno de objectivos comuns existe sempre o risco de as coisas correrem mal. Por isto ou por aquilo, tanto faz. Às vezes perde-se o controlo das proporções e as coisas descambam. Custa muito, é uma pena, mas as coisas são mesmo assim e só autênticos milagres e uma quantidade generosa de diplomacia e de abnegação podem evitar conflitos de interesse ou choques de personalidade entre as pessoas. E quando estes se verificam, não vale a pena analisar o que se passou depois. Passou-se e acabou. O assunto morre aí, mesmo que a culpa morra solteira. A culpa nunca é só de um, a devassa, e o seu único compromisso é fornicar(-nos a mona).

E eu aceito o meu quinhão, na boa. Isso mais o sabor amargo de quem sai pela porta pequena depois de uma entrada triunfal. Com a dignidade possível, nas circunstâncias específicas. Tudo isto faz parte do que a realidade dos factos me deu a provar. São constatações óbvias e não vale a pena camuflá-las nas entrelinhas. Tudo isto engloba-se nessa dificuldade enorme que é acertar o passo e afinar os diapasões. É o preço a pagar pelas nossas decisões individuais e colectivas, pela repercussão das nossas maneiras de ser e formas de estar. É no fundo disso que se trata na blogosfera, em grupo ou em blogues unipessoais. Tudo tem um preço, como no resto da vida (que a vida também aqui se faz).

Podia, mais uma vez, ficar calado. Mas não forço ninguém a entender as minhas palavras ou a lê-las sequer. Aqui, neste espaço que criei, mando eu e respondo sozinho pelos meus erros e asneiras. Assumo as consequências que daí possam advir. Afinal, quem tem um blogue usa-o e ficava-me mal ficar-me, passe a redundância, sem uma reacção. Parece que temo seja o que for. E nada tenho a temer, senão a minha dificuldade em conter tudo quanto de mau ocorre a um gajo impulsivo quando se confronta com alguma forma de humilhação pública. Agora sei o quanto isso custa e admiro ainda mais as pessoas capazes de manterem sempre a serenidade e a lucidez. Mesmo quando lhes apetece reagir na proporção directa do problema que as afectou. São mais felizes do que eu, compelido a lidar com o troco das minhas intervenções. Ou talvez não e cada um sabe de si.

Seja como for, agora estou aqui e amanhã logo se verá. No resto, o futuro é sempre mais esclarecedor.
publicado por shark às 19:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (52)
Domingo, 28.08.05

MON COEUR S'OUVRE À TA VOIX*

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Foto: sharkinho

Só no esplendor de uma aurora encontro paralelo com o nascimento de um grande amor. A luz todo-poderosa que rompe o negro da noite e abafa o céu estrelado numa explosão laranja que nos ofusca, minutos após o sol despontar por detrás da linha do horizonte. Cega-nos, como a paixão. Acelera-nos o coração. Grava em todos os pedaços livres de memória a imagem de um rosto, o cheiro de um corpo ou o som de uma voz. É assim que se apodera de nós, prepotente, sem aviso. Sem trincheira ou blindado que nos proteja da invasão. Tombamos sem apelo nos braços de quem assim nos encantou.

O amor aquece como o astro-rei. E alimenta. Ignoramos a sede, a fome e o frio. Como plantas verdes, como girassóis, seguimos a luz que nos anima e carrega pela vida como um tapete mágico, pura levitação.
Dá-nos uma força tremenda, capazes de tudo para lutar pelo objectivo que os restantes oblitera. Nada mais merece a nossa atenção, nada ouse atravessar-se no caminho de uma violenta paixão. Como uma brigada de cavalaria avançamos para a conquista inadiável de um amor, coragem no limite do desespero. Porque só a vitória se aceita nessa guerra sem quartel.
Sem tréguas, empunhamos o melhor de nós e esgrimimos os argumentos que nos justificam vencedores. Até à cedência total, à perfeição. De um sim entoado com um sorriso apaixonado, do calor transmitido pelo toque suave de uma mão, de um beijo consentido, bandeira branca à nossa investida por um grande amor.

Cada dia brilha mais quando nos ilumina a atracção por alguém. Cada momento uma alegria, sol a pino, cada contacto um arrepio. A pele que nos fascina roçada pela ponta de uma mão. E depois a reacção, em cadeia, arrebatada, dançada como um tango pelos corpos em fusão. Nuclear, energia sem controlo. Mentes ligadas no momento da explosão. Solar, quente e cheia de luz. Húmida como um campo de espigas depois uma chuvada forte, de uma trovoada ao alvorecer.

O amor é mais forte do que a vida e por ele nos dispomos a abdicar do mais precioso dom. Quem não oferece o último suspiro em troca da respiração eterna de quem nos aprisionou no coração? A cobardia não contraria o impulso natural de quem ama, quando em defesa do alvo dessa devoção. Nem mesmo o instinto de conservação, ignorado sem apelo.
Não existe Deus, nem Pátria ou qualquer outra causa mais nobre que consiga imaginar para me sentenciar o fim. Nada acima do amor. Mato e morro sem hesitar, certo da justeza dos meus propósitos e da firmeza das minhas convicções.

O ocaso da vida pensa-se mais sereno na companhia de quem amamos. Sem o espectro da solidão, sem o frio seco de uma alma desprovida de paixão. Com a luz na nossa frente, sempre presente para nos guiar. Carinho, conforto, agora mais perto do momento do adeus. Um até já, pois todos acreditamos na eternidade de um amor verdadeiro. E na saudade dos que partiram antes de nós existe a esperança de uma ressureição do nosso amor, transformado em energia, a mesma que irradia um olhar transfigurado pelo poder da emoção.
A noite, a mesma que borrifa magia com um luar platinado ou com o céu rasgado por uma estrela que cai, é apenas mais uma incógnita no processo de transição para outro paraíso qualquer.
Quando o sol nascer outra vez.

*Saint-Saens, Samson et Dalile, com Maria Callas na interpretação.
publicado por shark às 20:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (28)
Sexta-feira, 26.08.05

A POSTA NA DIFERENÇA

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Foto: sharkinho

Desde que me conheço passei a vida a gerir equilíbrios instáveis e outras aflições. É uma tendência minha, algo que me persegue sob as mais variadas formas. Sou chamado com frequência a atender a situações complicadas, nem sempre directamente relacionadas com a minha intervenção. Mas também.
Está na minha natureza mergulhar de cabeça na confusão. E depois logo se vê. Claro que nem sempre corre bem, mas tenho aprendido bastante ao longo destas caldeiradas que povoam as minhas memórias e o meu quotidiano. Tenho aprendido a gerir o caos.

Família e amigos sempre recorreram aos meus préstimos quando surgiu uma situação das mais complicadas de enfrentar. O raciocínio é óbvio: "se o gajo é forte e conseguiu dar a volta a tanto caldo, consegue de certeza encontrar uma solução para este (sempre tão mais simples de resolver)". O gajo sou eu e acumulei com a minha propensão para me meter em alhadas a "mística" própria de um veterano dessas situações.
E em boa verdade se diga que uma pessoa habitua-se aos filmes com argumentos mais complicados. Ao ponto de parecer encaminhar a vida para becos sem saida ou salganhadas fora do comum. Um excêntrico, como eu me defino quando me deparo com as estranhas linhas com que me cosi. Uma vida feita de originalidades, maluqueiras e imensas decisões polémicas. Em casa, na escola, nos ofícios que exerci, nas relações sociais ou no amor. Em todas as vertentes que a minha intervenção consegue fazer-se sentir. Cedo ou tarde, uma caldeirada no colo de alguém.

Sim, porque tipos como eu acabam por arrastar os mais próximos para o centro do furacão. Nem sempre se mantém controlada a gestão de um caos como deve ser. A desordem provocada pelos comportamentos não naturais, as extravagâncias que me caracterizam, pode ter um impacto terrível na vida dos que me rodeiam. É um preço adicional exigido a quem pretenda aproximar-se de mim. O preço das minhas aberrações peculiares.
Isto não implica de forma alguma que eu não consiga manter uma aparência normal e levar uma vida similar às de qualquer um de vós. Ou seja, não desato aos berros no meio do hipermercado nem me ponho em pelota na estação do metropolitano. Tenho apenas algumas reacções, ideias e comportamentos que destoam do que se convencionou apelidar de normal. E por isso me estampo nos caminhos da vida com alguma regularidade e precisão. Por fazer tudo ao contrário do que esperavam de mim, pessoa vulgar.

Mas não acredito que sou, por muito que isso me acarrete dissabores. Tenho meia dúzia de merdas que me distinguem da maioria das outras pessoas e gosto de cultivar esses sinais particulares. Fazem parte de mim, tal como sou, e são indissociáveis da minha forma de estar. E eu estou numa boa, sempre que não me privam de uma das seguintes coisas: paciência, respeito e liberdade de expressão (ou outras). A liberdade, como refiro sem cessar, é fundamental para mim. Faz parte da essência que me traduz. O respeito é uma obrigatoriedade que não dispenso, até para que às minhas doidices não se associem consequências foleiras na relação futura com as pessoas. E a paciência é um requisito indispensável para me conseguirem aturar. Sou um dependente do perdão dos outros, da sua capacidade para tolerarem algumas bizarrias e respectivas manifestações. Mas dou sempre em troca o melhor de mim e garanto que não me falta o que dar. Até porque faço questão de compensar quem me atura, de mostrar que existem em mim características capazes de compensarem as minhas parvoeiras.

A gestão de equilíbrios constitui, portanto, um estimulante desafio para mim. Gosto de os enfrentar, os desafios, e gosto de os obter, os equilíbrios. E acima de tudo gosto do gosto que só a vitória nos dá. A vitória sobre os eternos impossíveis, as proibições incontornáveis e as metas que ninguém consegue alcançar. Utopias, se quiserem. Persigo-as com ardor e às vezes espalho-me ao comprido no seu culto e tentativa de viabilização. Mas espalho-me feliz, a tentar.
Gosto de fazer a diferença. Na minha vida e nas das outras pessoas. Gosto de violar regras, de contrariar negas e de boicotar convenções. Sempre que isso me abre as portas a um mundo melhor, mais feito à minha maneira, mais ajustado ao homem que sou. A mim e a quem amo ou prezo o bastante para impor a minha excentricidade e a imprevisível variação nos humores que só um grupo muito restrito consegue aceitar.

A irreverência é uma das minhas obsessões. Cultivo-a para me sentir alerta a todo tempo para a necessidade de contrariar o poder sob qualquer das formas negativas que o transformam num viveiro de limitações.
E para saber presente no tubarão, em cada momento, a vontade irreprimível de combater a apatia, de hostilizar a cobardia e de espremer da vida o melhor que ela tiver para me dar.
Sumo de pessoas. Torrentes de memórias. Fluídos de paixão.
publicado por shark às 11:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Quinta-feira, 25.08.05

A POSTA A FERVER

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Foto: sharkinho

É como eu gosto.
publicado por shark às 19:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

VAMOS PARAR

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Foto: sharkinho

Vamos parar, nem que seja por uma hora, de esbanjarmos água como se esta não escasseie noutros pontos do país ou do mundo e nunca possa um dia vir a fazer-nos falta também.
Vamos parar de fazer de conta que a honra, a dignidade e o brio passaram a ser palavras vãs e antiquadas, coisas que deixaram de existir, obsoletas, incapazes de prevalecerem no mundo mesquinho que estamos a construir.
Vamos parar, ou mesmo alterar o percurso que nos conduz à desconfiança, ao medo e, por fim, ao ódio que nos leva a lado algum. Vamos redescobrir a amizade e o amor.
Vamos parar, nem que seja por um dia, de virar a cara com indiferença e falsa resignação aos problemas que enfrentam os que tiveram a desdita de nascerem no tempo e no local errados. O erro somos nós quem o alimenta e a dor deverá ser, por imperativo moral, nossa também.
Vamos parar de entender a vida como eterna, distraídos a desperdiçá-la com momentos de merda, iludidos de que o tempo perdido é passível de recuperação posterior. Ou de vagas compensações.
Vamos parar de correr sem sentido nenhum para um objectivo tão difuso que nem sabemos quando nem quem o traçou, de tão alheio ao nosso natural instinto de preservação.

Vamos parar, nem que seja por um minuto, para verificarmos se ainda somos, sem margem para dúvidas, pessoas felizes e de bem.
publicado por shark às 12:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Quarta-feira, 24.08.05

A POSTA NA CAPA

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É como me sinto.
publicado por shark às 12:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Terça-feira, 23.08.05

A POSTA MUITO DEDICADA

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Dedico esta posta a todos(as) quantos(as) conseguiram enganar-me, trair-me, ludibriar-me ou de alguma forma fazem ou fizeram pouco de mim. Dedico-lhes a minha admiração pela sua capacidade e engenho para o conseguirem. E o meu respeito pela habilidade que tiveram para me humilharem, me desiludirem ou simplesmente exporem o lado mais ingénuo do meu quase extinto amor pelas utopias.
Não é fácil obter sucesso em tal empreitada, gostaria de acreditar. Mas desacredito e apenas reflicto acerca das inúmeras ocasiões em que me vi confrontado com uma queda do céu. E perdi. Perdi sempre algo de precioso na ressaca de mais uma desilusão. Para sempre, como o tempo (mais um aliado inesperado dos(as) artífices da minha vergonha) se encarrega de provar. Perdi também o amor ao perdão.

Mas resisti, naturalmente. E aprendi a desconfiar. Em demasia, até. Pura ilusão. Nas manhas dos(as) que intrujam existem trunfos que não consigo combater. Porque o desgosto tem origem nos mais próximos de mim, regra geral. Os de fora apenas assistem, regozijam, ou assumem-se cúmplices da tramóia por simples diversão. O palhaço sou eu, nessas alturas. Assumo-o sem qualquer constrangimento ou embaraço porque apenas me iludem os que gostam de mim. Porque lhes dedico a minha estima e lhes entrego o coração, exponho-me à traição. Ainda que desconfie, afinal. Somos todos assim, os que insistem em acreditar na amizade séria e na paixão duradoura. Vulneráveis à confiança que precisamos de depositar.

Baixei os braços, entretanto, e aceitei a realidade tal como ela se pinta. Uma realidade que não desenhei nem esculpi. Uma ficção, no contexto das farsas em que a vida me obriga a participar. O bobo da corte, quer queira quer não, ao alcance de qualquer mão empenhada em me atraiçoar. Peito aberto, consciente da fragilidade do meu papel de incréu. Como referia, cada vez menos agnóstico, cada vez mais ateu.
A traição pode vestir-se de muitas peles e as palavras são como os folículos que se soltam a cada instante, ferramentas essenciais para arquitectar um engano ou uma omissão. Ou apenas um sinal oposto ao que se pretendia, revelado num simples descuido ou numa mensagem muito fácil de interpretar. Das que ilustram a essência do que se vive na alma de quem a enviou apenas no intuito de sujar o receptor. O destinatário da revelação de uma ideia muito porca acerca da natureza das suas intenções. Para desviar as atenções da culpa que cada um carrega no seu fardo de medos e de realidades difíceis de enfrentar de outra forma, as genuínas.

Mas também eu já traí. E admiti. Pago por isso o preço que a vida me apresentar, a repercussão das minhas escolhas, o descrédito que as minhas confissões acarretam.
O preço de uma forma ambígua de experimentar a solidão.
publicado por shark às 11:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)
Segunda-feira, 22.08.05

NA PELE DO TUBARÃO

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No dia 14, e embora não tenha assinalado a efeméride, completei um ano de actividade blogueira "do lado de cá". E digo do lado de cá pelo facto de a minha blogueirice ter tido início um pouco antes, na qualidade de leitor/comentador. Um ano a blogar. Parece pouco e até me coloca num grupo de quase caloiros desta cena. Mas o tempo blogueiro passa de uma forma diferente do outro, o da outra realidade que vivemos. Sim, ao longo deste ano concluí que esta é uma realidade à parte, por muito que a arrastemos para o plano analógico com os nossos encontros e jantaradas. A comunidade que bloga construiu laços entre si, relações muitas vezes exclusivamente baseadas na comunicação por esta via. Sólidas, porém.

O tempo passa mais devagar na blogosfera. Uma semana aqui equivale a meses lá fora (o Eufigénio falou disso com a mestria habitual). Anos, se considerarmos que muitas vezes partilhamos com blogueiros informações que nunca confidenciámos a alguém alheio a esta plataforma de comunicação.
Conhecemo-nos (ou à imagem que divulgamos) melhor do que muitos familiares entre si. Não faço ideia do que vai na alma da maioria das minhas tias ou dos meus primos. E tenho uma ideia concreta acerca dos problemas e ansiedades que afligem pessoas que nunca vi com os meus olhos, mas com as quais mantenho um contacto quase diário no âmbito da relação blogueira.

As coisas acontecem depressa na blogosfera. As amizades, as antipatias, os ódios. E os amores também. Entramos na carola uns dos outros, acontecemos nas vidas que reflectimos por aqui. Somos mais próximos do que a maioria dos vizinhos do edifício que habitamos, dos quais muitas vezes nem o nome sabemos. Como aqui, aliás, onde o nick nos distingue dos demais e apenas alguns têm acesso à identidade que, na maioria, nos esforçamos por ocultar. Mas aqui não há hipótese de correr à pressa para o ascensor para evitar o desconforto da viagem em silêncio com as pessoas que moram acima de nós. Aqui não conseguimos esconder por muito tempo as nossas grandezas e misérias, os nossos atributos e as nossas limitações. Sempre de perna aberta para alguém nos avaliar como nós avaliamos todos os outros. Pelas palavras que nos desenham nas consciências de quem nos lê. E nas suas opiniões. Gostamos ou não. Ficamos, com maior ou menor regularidade, ou nunca mais alimentamos o contador de quem por algum motivo não nos agradou. Pelo tema ou por outra razão qualquer. Somos algo levianos na escolha das nossas companhias que blogam.

E isso repercute-se muitas vezes na realidade não virtual. Nas relações que mantemos lá fora, tempo que partilhamos à custa das pessoas que não entendem o nosso vício ou gosto comum. Tempo que nos afasta da outra dimensão que nos compete viver, mas que nos serve cada vez mais de inspiração para umas postas e menos para nos sentirmos vivos e para executarmos bem o nosso papel. No trabalho e/ou em casa, não vale a pena negar, uma generosa fatia da nossa disponibilidade é canalizada para esta vida alternativa. Interessa-nos mais saber como reagiu determinado blogueiro a um comentário que lhe fizemos do que a opinião do gajo do terceiro bê acerca das despesas de manutenção da nossa propriedade horizontal comum. Já me baldei a reuniões de condomínio porque me apetecia mais blogar nessa altura. E acho que fiz muito bem.
Mas talvez não.

Tenho plena consciência do quanto valorizo esta prática blogueira, ainda que assuma algum desencanto provocado pelas mazelas de uns quantos prejuízos e de algumas desilusões. Sei que ao fim de um ano nesta animada fonte de contactos e de partilha de informação, mesmo tendo em conta as curtas paragens motivadas pela inevitável saturação, continuo com vontade de blogar. E blogo o mais que posso, o melhor que o consigo fazer, para justificar a minha presença neste mundo que tanto me atrai.
Preciso de me sentir merecedor de me imiscuir num espaço onde encontro muita gente sem ponta por onde se pegue, mas também recolho o privilégio de me relacionar com pessoas brilhantes e que muito me dão a aprender. Acerca das pessoas e das suas principais preocupações. A verdadeira essência de cada um de nós, melhor ou pior na qualidade da camuflagem, reflectida no que afirmamos nas nossas criações. Criamos pretextos para comunicar, as postas, e cedo ou tarde lá espelhamos o que de melhor e de pior temos para oferecer. Basta ler com atenção e somar as indicações que semeamos, nas caixas de comentários ou nos emails que trocamos. Estamos lá e até desmentimos aqui e além a personagem que tentamos defender, os que enveredam por esse caminho, traídos pelo impulso que nos leva a sermos a verdade nua e crua. A sermos nós próprios, afinal.

Ao longo destes doze meses conheci pessoalmente dezenas de blogueiras e de blogueiros. Nem sei se ainda consigo citar de cor todas e todos quantos já pude, no mínimo, observar de perto e constatar a distância entre a imagem ficcionada e a aparência real. Nunca correspondemos ao perfil. Salvo raras excepções, no aspecto físico, e um pouco mais frequentes na correspondência entre o carácter da pessoa de carne e osso e a sua manifestação virtual.
Pessoas de bem, algumas. Pessoas de bem um nadinha estragadas pela vida, outras. Pessoas de má índole sob a pele de cordeiro que a blogosfera se adequa a vestir. Há de tudo como lá fora. E eu até tenho tido sorte nas proporções, conquistei muito mais amigas e amigos do que rapaziada com tendências mais ou menos hostis.

Por tudo isto continuarei a blogar. Acredito que vale a pena, depois de limadas as arestas do entusiasmo inicial, enfrentar todos os dias esta prova de fogo para o indivíduo que sou e que gosto de me acreditar. O Shark, tão próximo do gajo que vos escreve esta posta que se transformou num monólogo há três parágrafos atrás. Porreiro numas merdas, detestável noutras. Um homem recém-quarentão com amor às palavras e à sua utilidade principal. E com predilecção por pessoas, as boas e as más, o centro fulcral da minha atenção, desde que tomei consciência de mim. As mulheres, sobretudo (não posso esconder), em todo o seu fascínio e com a facilidade de expressão que a blogosfera enfatizou. Mulheres interessantes, pessoas especiais, capazes de transformarem um blogue numa fonte diária de emoções e de exercícios de talento e de capacidade intelectual.

Contudo, aprendi ao longo deste tempo algumas lições. E a mais importante foi a que me ensinou a dosear a intervenção nesta quota-parte da minha existência, a temer o excesso de exposição e as suas consequências. Mal se nota e pouco me importa se efectivamente se notar. Blogo por gosto e não me permito descobrir-me um dia farto ou sem condições para continuar. Pelas repercussões dos exageros que já cometi. E por algumas razões encaixadas no que acima escrevi.

Agradeço-vos o tempo que me dedicaram ao longo do tempo que já passou. Aqui, ali, além ou em qualquer outro lugar. Cada vez mais próximo do homem que bloga sob a pele do tubarão.
publicado por shark às 20:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (28)
Sábado, 20.08.05

A POSTA PARA VER II - O FACTOR HUMANO

E segue agora a sequência de fotos de férias, incidindo sobre o que mais aprecio: as pessoas :)

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publicado por shark às 16:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Sexta-feira, 19.08.05

A POSTA PARA VER

Dedico-vos agora mais uma sequência de imagens recolhidas nas férias do tubarão. Só para descansarem a vista, na onda do fotoblogue ou coisa que se pareça...

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publicado por shark às 17:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

A POSTA NO CINZEL

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Vejo-te deitada de bruços, na cama ou no chão. Esculpida pela vida que te fez mulher, curvilínea, tentadora como um circuito de velocidade onde o meu coração já acelera. E o corpo não espera mais por ti, abraço de lava que beija a rocha para a derreter até ao momento de completar a fusão. Assim me vejo abraçar-te, esmagada sob o peso do homem que sou, incapaz de te mexeres que não apenas o bastante para me receberes. Dentro de ti para sempre, naquelas horas de loucura em que da tua boca ouço apenas a palavra mais, ou da tua mente, telepatia, não sei. Mais de mim. Para te provocar o gemido que me atiça, o grito abafado que me sopra pelas eiras como fogo ao vento num ocaso de Verão.

Vejo-me espalhado pelo teu corpo deitado, numa esteira ou num sofá. Mergulhado no suor a dois, mordisco-te uma orelha e passeio na tua nuca os lábios molhados, cabelos colados, as mãos que soltam agora as tuas para poderem percorrer-te, escultura. Então, vejo-me escorregar para um dos teus flancos até as minhas costas assentarem e as minhas mãos te agarrarem, pelas axilas, arrasto-te sem pressas para cima de mim. Para poder observar-te a expressão e nela ler o desejo de que preciso para alimentar ainda mais a minha fome de te ter. E leio no teu olhar, em letras garrafais, a palavra mais esperada.
E também eu preciso mais. De ti que escorres agora no outro lado da tua pessoa, um amante em ebulição, gotas do teu amor. Lágrimas de prazer, chuviscos de transpiração. E depois gritas outra vez e tombas sobre mim, ancas cada vez mais serenas no movimento de vaivém.

Vejo-nos paixão.
publicado por shark às 02:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 18.08.05

A POSTA NO IPIRANGA

fly like an eagle.gif

Aos poucos, a corda foi-se enrolando em torno do seu corpo incauto. E da sua mente, que esvoaçava livre entre sonhos e fantasias até ao aperto final num nó. Deu por si manietado, atrofiado, com dificuldade de respirar. E de pensar, cansado de embater com violência contra as paredes da gaiola que o confinava à escuridão.

Parou de resistir sem rumo e sem pequenas vitórias a que se pudesse agarrar para justificar a insistência. Inspirou o mais forte que conseguiu, tentando aliviar a pressão. Depois expirou. E repetiu vezes sem conta o exercício respiratório que o acalmou e afrouxou a liana que lhe limitava qualquer movimento que pudesse executar. A mente, contudo, reagia com lentidão ao choque da mudança, demasiado brusca para facilitar uma readaptação. A mente tardava em colaborar na sua nova e surpreendente missão.

Acenou-lhe, à mente, com o espectro do fim. O que a esperava caso não sacudisse a letargia, caso não combatesse a apatia, se porventura insistisse no torpor que cedo ou tarde os sufocaria. À mente e ao corpo que o constituiam, em risco partilhado naquela inédita situação.
O aceno resultou.
Aos poucos, a mente deu início ao processo imparável de aceleração. Só o seu melhor desempenho poderia valer de algo em condições tão dramáticas. A mente concentrou-se na liberdade de que se sentia privada e depressa a revolta alastrou. O grito abafado agigantou-se junto à porta de saída que lhe tentavam amordaçar. Os olhos abriram-se de par em par e viram por entre as frestas a verdade que a venda improvisada lhes tentava ocultar. Audição mais apurada, já os sons imperceptíveis ganhavam contornos de palavras e de ideias que podiam ajudar na luta pela libertação.

Os músculos começaram a empedernir, cada vez mais tensos. O corpo tremia em convulsão, uma força irresistível mesmo à beira da tampa ilusória na cratera incandescente do vulcão. Ouvia os estalidos secos dos fios de corda que cediam, um a um, à energia poderosa que a mente lhe transmitia. Super poderes alimentados pela imaginação, tão reais como a sede de libertação. Células unidas em torno de um objectivo comum. A força multiplicou.

Enfurecido contra a corda que o oprimia e quase o estrangulou, aguardou com frieza o momento da explosão. Deixou-se estar, toque a reunir calado no interior, a mente entretida a sacudir os restos de medo, de dúvida e de hesitação. Desprevenido o carcereiro, quando da boca do prisioneiro soaram mil sirenes e dos seus pés rufaram os tambores, tropas que marchavam, regimentos de esperança em dias melhores.

A corda desfez-se como um vulgar fio de costura. Demasiado esticada, partiu. Livres de novo, corpo e mente num só, determinados em escapar do cativeiro com o menor preço a pagar. A liberdade devia ser de borla, adquirida no acto de nascer, colada à nossa pele como uma tatuagem que nos acompanha até ao fim. A liberdade noutra forma, eternidade na terra ou no céu. O inferno estava ali, na masmorra que o rodeava e na sua fúria devastadora para dela se libertar. No urro que soltou quando lhe acabou a paciência e a mente o avisou de que estava preparada, acordada para lutar. No olhar tresloucado que lançou a quem se pudesse opôr à caminhada que iniciou. Passo a passo, sempre alerta, até recolher do carcereiro a chave dos grilhões imaginários que a corda simbolizava. Para a lançar pela janela, para o fundo do rio onde ninguém algum dia pudesse reencontrá-la. Para nunca mais alguém repetir a façanha.

Foi a mente que o alertou para essa ameaça futura, escura, que sempre penderia sobre quem ignorasse a urgência de preservar a liberdade sob todas as suas formas. Até roçar a anarquia, cada um sabe de si. Demasiado atento era agora uma expressão vazia de sentido. Na demasia. No troco que a vida lhe daria, caso tardasse em pagar o preço que a liberdade lhe exigia.

Apenas um pouco mais de atenção. Praticamente de borla, concluiu.
publicado por shark às 21:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 15.08.05

AS DUAS FACES DA FANTASIA

A DAS CRIANÇAS

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Foto: sharkinho

Onde reinam o deslumbramento e a animação. Um espectáculo de cor e de luz, com tudo construído a pensar nos mais pequenos. Tudo pensado para os encantar, transportando-os para dentro do mundo que os desenhos animados lhes concebe na imaginação.
Os sorrisos rasgados de felicidade de alguns reflectem a intensidade da emoção do choro desconsolado de outros, mimo à flor da pele porque acabaram de rolar como doidos nas chávenas do país das maravilhas ou porque os pais lhes negam os cinquenta minutos de espera pela repetição da viagem nos barcos do Peter Pan.
E mais o surgimento, de surpresa, do Mickey, do Pateta, da Minnie ou de qualquer outro dos bonecos que arrastam atrás de si pequenas multidões de pequenos caçadores de autógrafos e respectivos progenitores.
Dá gosto ouvir nas ruas o som estridente da felicidade das crianças.


E A DOS ADULTOS

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Foto: sharkinho


Nem vale a pena negar que dá pica circular na pirisga a bordo do comboio dos mineiros ou viajar no espaço dentro de um simulador muito bem conseguido de uma nave do Star Wars. Os mais crescidos também curtem na Eurodisney.
Porém, existem pormenores que nós grandes não conseguimos ignorar. Como as bicas a quatrocentos paus. Ou os hamburgueres a um conto e tal. Ou toda a parafernália instalada em cada esquina para converter os putos em consumistas desenfreados que nos depenam até o cartão de crédito chorar...
E um gajo, mesmo com orelhas de Mickey enfiadas na carola, sente-as como orelhas de burro quando olha para um quarto que custa quarenta contos por noite e nem lhe oferece um mini-bar, um ar condicionado ou um simples bidé. Nem um champô, o que nos apanha de surpresa e obriga a lavar o cabelo com sabonete.
Os contos de fadas por muitos contos de réis. Em euros, para um tipo nem sentir o golpe da facada na conta bancária. Quando fazemos as contas por alto, estadia mais refeições, já arderam cento e cinquenta contos por pessoa por duas noites ou três. Mais os gelados, as águas tão más que deixam saudades da Carvalhelhos (a Vittel é de fugir), os balões, os chupas, os bonés, as guloseimas, a bonecada. Quase trinta contos (150 euros, ah pois...) por um jantar para quatro pessoas, sem sobremesa, só pelo prazer de receber o Mickey na mesa para lhe tirar uma fotografia.
É uma máquina de extorsão poderosa, esta estrutura dividida por temas. Frontierland, a punheta americana dos seus tempos do John Wayne. Discoveryland, a era espacial e a ciência no centro da diversão. Fantasyland, os príncipes e as princesas nos seus castelos de sonho. Adventureland, o reino da maluqueira versão Indiana Jones. E ainda a Main Street USA, a entrada triunfal na América do final do séc XIX.
Fora do recinto principal, ainda o Village, onde pontificam os McDonalds, os Planet Hollywoods e outras indústrias do género. Mais os estúdios da Disney e a escola de futebol do Manchester United, identificada com a fotografia do nosso Cristiano ilhéu.
Tudo montado para nos transformar em milionários por uns dias, até regressarmos e darmos conta dos estragos que a brincadeira provocou.
É o lado menos cor de rosa, onde pontificam o Capitão Gancho, a Morgana ou qualquer outra bruxa má que nos transformam em sapos quando olhamos para o extrato de conta.
Serve-nos de consolo o consolo do costume. Não há dinheiro que pague as dezenas de sorrisos que cada dia naquela balbúrdia careira estampam nos rostos da pequenada...
publicado por shark às 18:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

ASSIM DE REPENTE...

...Isto:

marpb.JPG


...parece-vos o quê?


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Não estranho terem vislumbrado o mar a espreguiçar-se no areal, com a espuma das ondas em primeiro plano:

ceucores.JPG

Assim de repente, o céu retribui nas nuvens o espelho que os oceanos lhe oferecem.
publicado por shark às 17:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

BY AIR MEAL

airmeal.JPG

Aceitam-se apostas: qual é a pior das seguintes refeições?

1 - Comida de prisão;
2 - Comida de hospital;
3 - Comida de avião.
publicado por shark às 12:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 14.08.05

O AVIÃO NÃO CAIU...

...E por isso estou de volta e trago algumas histórias para contar e uns conselhos práticos para oferecer. Para já, deixo-vos com um ar da graça que conheci nos últimos quatro dias que gozei das férias:

princesas.JPG
Foto: sharkinho
publicado por shark às 23:26 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Terça-feira, 09.08.05

PALAVRAS DE FÉRIAS

boleia.JPG
Foto: sharkinho

E como o pessoal anda sem pachorra para lençóis, inauguro hoje o meu repositório do que for registando ao longo deste período dedicado ao lazer (assim vou fazendo o gosto ao dedo blogueiro...).
E sempre vamos mantendo o contacto por esta via, não é?
publicado por shark às 19:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

NÃO ACABA A PRIMAVERA...

ninho andorinha.JPG
Foto: sharkinho


...Se cada vez que forem ao restaurante chinês pedirem sopa de ninho de andorinha em vez da de barbatanas de tubarão. Aquilo sabe quase ao mesmo e não contribuem para a extinção de uma espécie com milhões de anos, malta!
publicado por shark às 16:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

MARCA D'ÁGUA

unidade movel.JPG

Agora já podem identificar-me em qualquer ponto do planeta, através do meu equipamento de blogueiro.
É uma Pedra, o meu toque pessoal. Não achas, pá?
publicado por shark às 00:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 08.08.05

JÁ LÁ ESTOU!

prefiro pepsi.JPG

Nas benditas férias, quero eu dizer. Até já me baldei a uma reunião marcada e dei sopa a um cliente de última hora. Mesmo no espírito da coisa...
E amanhã rumo para sul. E depois rumo para Leste e só paro na cidade-luz. E depois regresso à Pátria e logo se vê.
Entretanto, o ritmo tépido da blogosfera não puxa muito por postas "pesadas" como as que deixei para trás e que vos podem entreter caso eu me balde à postura (de postas).
Fiquem, pois, com um instantâneo das minhas férias. (Não estranhem a bebida farsola. Nas férias farto-me de conduzir...)
publicado por shark às 15:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 07.08.05

A POSTA ANÚNCIO

Hoje deu a alguém práli...
publicado por shark às 00:50 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 06.08.05

A POSTA DE CONFIANÇA

mundo lafora.jpg

A confiança é talvez um dos temas mais delicados de comentar. Isto porque existem possibilidades infindas de colocação (e de definição) da fasquia, de acordo com a credulidade ou a intuição de cada um de nós. E porque temos diferentes mecanismos de provar a nossa confiança aos outros e de comprovar as suas.
Ou seja, para além de a confiança não ser mensurável (cada pessoa tem a sua escala única) e só poder avaliar-se com base nos actos e nas omissões de quem analisamos nessa perspectiva, temos ainda que contar com o grau de envolvimento e de intimidade entre quem estabelece relações com base no princípio da confiança recíproca. É lixado dizer algo de minimamente consensual acerca de um assunto assim, um pouco como discutir o sexo dos anjos ou coisa que o valha.

No entanto, todos temos uma opinião nesses temas. Até porque lidamos com eles a toda a hora nas nossas relações familiares e sociais (profissionais, também) e acabamos por desenvolver as nossas perspectivas. A minha é certamente diversa da de cada um de vós the few que irão ler esta posta até ao fim.

Eu sou da escola dos que acreditam mais nos actos (ou nas omissões) do que nas palavras. E tento até guiar a minha conduta com base nessa forma de ver as coisas, agindo no momento apropriado quando sinto que preciso de provar a minha confiança a alguém. Prefiro arriscar uma acção desajustada do que uma omissão comprometedora. É esta a minha forma de entender a confiança que quero merecer dos outros e é aí que consiste a minha avaliação das suas.
As palavras são importantes, claro. Até porque quando devidamente registadas na memória ou noutro suporte qualquer constituem um claro indicador da coerência de quem as profere. As malfadadas contradições que traem quem tenta fazer-se confiar sem bases sólidas para o merecer. E tem sido assim que detecto algures as traições a esse pressuposto da confiança que muito prezo e tanta gente próxima me quebrou. Ao pressuposto e à minha capacidade de confiar às cegas.

Porque isto da confiança é uma vara de dois bicos. Se confiamos de peito aberto arriscamo-nos a terríveis desilusões e se, pelo contrário, exibimos a nossa cautela quando expomos as incoerências que nos desnorteiam tomam-nos por desconfiados e afastam-se de nós (nem que apenas para esconderem a fragilidade da sua argumentação).
Estão a ver o problema, não é? Preso por ter cão...

Confesso que as minhas circunstâncias pessoais demoliram a estrutura inicial da minha fé nas outras pessoas. De crente passei a agnóstico e por este andar acabarei ateu.
É impossível confiar sem prudência quando se veste o coiro do gato escaldado ou se possui pouca capacidade de resistência às desilusões. E isso acarreta um fardo insuportável para quem gosta de pessoas como eu, o de se sentirem de alguma forma permanentemente postas à prova, questionadas em cada uma das suas palavras ou acções (ou, repito, a respectiva ausência no momento adequado) sempre que desmentem ou colocam em causa a confiança de que alegam serem merecedoras.
É preciso amar imenso (aplica-se na amizade também) para aturar alguém como eu, não posso colocar as coisas de outra forma. Desconfio até prova em contrário e nunca aplico os princípios gerais do estado de direito nessa matéria. Isso acarreta consequências inevitáveis na quantidade de pessoas que me rodeiam. Mas esta filtragem também me garante a qualidade, o calibre de quem consegue aceder ao melhor de mim, onde se incluem as contrapartidas que tenho para oferecer a esse leque (muito) reduzido de pessoas que considero da minha inteira confiança.

Nunca me beatificarão.

Também falho nesse capítulo e assumo sem vergonha os meus pecados na matéria. A confiança pode trair-se por um simples equívoco ou por uma causa de suma importância, acontece a qualquer um de nós. E é quase impossível recuperá-la, sobretudo quando estão em causa pessoas com atitude similar à minha.
É que pessoas como eu entendem a confiança como um critério infalível de selecção das companhias, em qualquer domínio dos que citei mais acima.

Mas também nunca poderão comer-me por parvo.
publicado por shark às 23:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

A POSTA NO CLIMA TROPICAL

tropico cancer.jpg

As questões climatéricas andam na ordem do dia. Pelas alterações catastróficas que o desleixo humano provoca, pelo calor que se faz sentir nesta altura (e que os bastardos pirómanos aproveitam para exercer o seu hediondo papel) ou pelo simples facto de o clima influenciar sobremaneira o nosso comportamento e os hábitos de vida.
Qualquer das perspectivas acima está ou esteve na ordem do dia, na blogosfera e fora dela. Por isso, a minha vontade de reflectir neste blogue as últimas tendências para que não se torne desenquadrado da realidade impele-me a abordar esse tema do momento (sob a óptica que mais me prende a atenção).

O clima assume maior preponderância no nosso desempenho, à medida que a idade nos ensina a apreciar os prazeres da vida com maior requinte e dedicação. Enquanto não atingimos essa bitola de apreço pelos pormenores, tendemos a negligenciar os aspectos que se afiguram acessórios e só empatam a progressão. Mas após umas décadas de prática e de amadurecimento como homens começamos a valorizar esses pequenos nadas a que, bem mais cedo, as fêmeas da espécie dedicam a maior atenção.

Aos quinze (aos trinta?) anos de idade parecia-me absurdo o conceito de jantar à luz das velas. Velas? Mas praquê? Dez centímetros de pele destapada bastam para brotar o entusiasmo juvenil que nos move nessa fase devoradora. E ainda hoje bastariam, mas eu optei por um culto mais refinado desses momentos especiais e das pessoas que comigo os partilham. O jantar à luz das velas revela-nos, em pequenos pontos de luz ou na troca de gestos e de palavras que apelam à sedução, o encanto da pessoa com quem nos mergulharemos mais tarde na alcatifa ou nos lençóis. É este o clima (tórrido) de que vos quero falar nesta posta de Verão.

A criação do clima ideal para um excelente momento a dois é como um aperitivo para uma intensa sessão de preliminares. No fundo, trata-se da primeira exibição do cuidado e do empenho com que pretendemos tratar alguém que nos interessa impressionar. É estupidamente fácil entender porquê, bastando reparar na satisfação que esses pequenos rituais estampam no rosto de uma amante potencial. E em nós, que antecipamos na preparação desse clima o prazer que nos dará a presença dessa pessoa no tempo que iremos gastar a dois. Tempo passado desta forma nunca é gasto, é investido na melhor qualidade de vida que esta nos pode proporcionar. Vale a pena cultivar a emoção, acarinhá-la com gestos simples dedicados ao amor e à importância da outra pessoa (que merece reconhecê-la na nossa disposição).

O clima aquece com uma troca de olhares, com uma frase lapidar, com o toque suave nas costas de uma mão. O ambiente que nos rodeia influencia o impacto destes pormenores na temperatura da ocasião. Não vale a pena negar o peso destes factores na maioria dos rituais de acasalamento que todos passamos a vida a protagonizar e ainda bem. E nada disto invalida aquelas explosões de loucura ou de saudade que nos empurram à bruta, sem merdas, para cima de uma moita ou de um capot.
Eu prefiro as temperaturas elevadas e gosto de me sentir na origem do calor. Gosto de merecer as minhas ocasiões especiais e de as tornar inesquecíveis para quem as preencha comigo a dois. Não abdico, portanto, da minha intervenção e reparo imenso no carinho que me dedicam também, no "lado de lá" da equação. Com dois em sintonia, as mais deliciosas surpresas podem brotar de forma espontânea num encontro com paixão. É uma questão de disponibilidade para o amor, julgo eu, esta consequência das subidas de temperatura que um clima adequado sempre acaba por fomentar.

Eu falo muitas vezes de amor quando me refiro ao sexo e não é por acaso que isso acontece. São realidades indissociáveis na minha concepção. E isto não porque enquadre um momento de sexo espectacular apenas no contexto de uma relação amorosa estável ou duradoura, mas porque aprendi que o romance é o afrodisíaco por excelência da maioria das mulheres (e o meu, por inerência). A única forma de o romance estar presente em qualquer circunstância que nos envolva é precisamente a que nasce do cuidado nessa questão climatérica primordial. O romance é como o anticiclone dos Açores, afasta para longe as nuvens que podem ensombrar ou arrefecer um espaço e um tempo que queremos bem quente e cheio da luz que dois corpos apaixonados irradiam em plena trovoada de uma relação sexual.
A meteorologia do sexo (do amor) é fácil de condicionar com a intervenção humana, tal como a do clima global. E eu, cheio de preocupações ecológicas, gosto de sentir o meu papel na manutenção de uma temperatura ideal.
Sinto-me mais homem assim e, francamente, nem me interessa perceber porquê.
publicado por shark às 19:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 05.08.05

A POSTA NA MARGEM OPOSTA

margem sul.JPG
Foto: sharkinho

Já que estamos em época estival ocorre-me que há muito tempo não dou uma voltinha pela outra banda.
É interessante o lado de lá do rio, cheio de peculiaridades que me estimulam. E tenho lá gente a quem não tenho dado a atenção devida nos últimos tempos, uma negligência que me incomoda.
Vou lá em breve, nem que seja só para cumprimentar a malta amiga da Cova da Piedade e da Cruz de Pau e acertar as contas (da relação interrompida por esta vida de cão que nos afasta das pessoas)...
publicado por shark às 18:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

A POSTA NO MERGULHO II

na rede.JPG
Foto: sharkinho

Repousem a vista neste pedaço de Verão. Até apetece fechar os olhinhos e imaginar o corpo estendido sobre uma coisa daquelas, não é?
publicado por shark às 12:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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