Sábado, 30.04.05

SALVAR UMA LÍNGUA

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Percebi, no dia em que pendurei pela primeira vez a toalha de banho no suporte que tinha mais à mão, o quanto nós homens temos de palermas. Fiquei todo orgulhoso, confesso, da proeza infantil que o espelho reflectia. Ganda pinta, pá, uma toalha tão grande e pesada e eu...? Espectáculo.
Quando era mais puto, estas glórias partilhavam-se. “Eu até sou capaz de aguentar mais de dez minutos com a toalha pendurada no coiso”. Extraordinário. Os outros riam-se mas por dentro ficavam em pulgas para experimentarem a ver se também eram capazes. E o mesmo raciocínio aplicava-se a qualquer proeza, real ou fictícia, que nos enfatizasse a virilidade aos olhos dos outros.

Andamos em permanente competição. Seja pela disputa da atenção de gajas (há tipos que são capazes das figurinhas mais patéticas no calor da refrega, mesmo assumindo o papel de empatas), seja pela simples necessidade de afirmação pessoal. Isso não morre na adolescência. Mais forte, mais poderoso, mais viril, mais sedutor, mais viril outra vez. E mais inteligente ou espertalhão, se nada do resto provocar o efeito pretendido ou o visado perceber que não tem hipóteses nesse domínio. A virilidade passa para a língua.

O problema da língua (e eu salvarei Uma pelo Monty) é que não dá para pendurar toalhas, ainda que bem ginasticada. Trinta e um de boca, qualquer lingrinhas sem cabide para uma peça de lingerie feminina que seja é capaz. Mas acaba por surgir o momento da verdade (ou não) e a língua por si só não o sustenta. Pensar com a pila e nomear a língua porta-voz não resolve o problema. É preciso algo mais e isso não deriva da simples confrontação das ideias ou da firmeza nas abordagens teóricas. Qualquer gajo sabe que é assim. Porém, a sede de conquista cega o guerreiro à sua debilidade e ele parte eufórico para o campo de batalha. Derrotado à partida.

Somos ainda mais palermas quando não entendemos que está na hora de desistir. Tornamo-nos maçadores, inconvenientes até. Mesmo depois de constatarmos que a língua mal pode com uma toalhinha de bidé não queremos dar parte de fracos. Acreditamos até ao fim e o fim pode espelhar-se num gigantesco trambolhão, na tangibilidade que os factos possuem quando nos esfregam nos olhos a evidência da figurinha de parvos que fazemos quando avançamos destemidos para o vazio.

Faz parte da nossa natureza machona, mas é algo que nos conduz muitas vezes para becos sem saída, para desgostos, embaraços e até para conflitos sem justificação. Dizem que é um problema hormonal e eu acredito, porque não?
Até porque preciso de uma explicação cabal para o facto de ainda hoje não resistir (só de vez em quando) ao teste da toalha para confirmar que ainda não está na hora de forrar a parede de toalheiros nem de confiar em exclusivo ao precioso músculo bocal a exibição dos meus atributos, o pilar onde assenta a minha estratégia.
Tê-los no sítio, lamentavelmente, é um mérito que nem a língua mais desembaraçada consegue substituir. E por muito que a pila se esforce, não há teoria que nos valha quando ao entusiasmo verbal temos que associar os actos que o substanciam.
publicado por shark às 11:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (30)
Quinta-feira, 28.04.05

A POSTA RECADO

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A verdade é a única resposta. O amor é a única explicação.
publicado por shark às 11:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (67)
Quarta-feira, 27.04.05

A POSTA 69

Para alguns não passa de um número. Para outros não passa de (mais) uma fantasia por concretizar. Ainda restam os que lhe acham piada, ideal para uma bem sucedida tirada brejeira e nada mais. Para mim é um símbolo do sexo como eu o vejo: na maior intimidade possível entre duas pessoas, a entrega total ao corpo do outro, a dois.

Acho que seria capaz de enunciar 69 boas razões para levarmos a sério o que ele implica na nossa simbologia sexual. Mas isso tornaria esta posta em mais um lençol dos meus e eu ando a ver se encurto a coisa para não vos obrigar a lerem na diagonal. Isto embora eu acredite que o tema em apreço justificará a vossa atenção.
Porque não é um tema fácil de conversar, embaraça-nos. Como tudo o que mexa demasiado com as vergonhas que o mundo se esforça por nos incutir. Credo, pode-se alguma vez falar de uma coisa tão intima, tão nossa? Eu acho que sim, embora admita que nesta primeira abordagem ao tema me queira cingir mais ao aspecto teórico da questão.

E a teoria começa e acaba precisamente no que representa para mim essa posição na qualidade de amante. Sou um incondicional. Quando uma relação entre duas pessoas atinge tal grau de empenho e de desinibição, não duvido que estamos perante um caso sério de paixão ou uma feliz reunião de dois amantes como eu gosto de os entender. Sem vergonhas, sem nojos, sem falsos pudores, capazes de apreciarem os corpos enquanto fontes inesgotáveis de proximidade e de prazer. Vou mais longe e, embora possa não parecer, defendo esta noção no âmbito do romance também. Quando duas pessoas trocam fluidos, algo de cada uma entra em definitivo no sangue da outra. Nessa perspectiva, tudo o que venha é bom, se vier de alguém especial. Por quão bizarro isto vos possa parecer.

Eu não consigo emporcalhar as coisas belas. E nunca escondi que integro o sexo nesse conjunto das maravilhas que a vida pode oferecer-me. O sexo tem que ser um objecto de culto, de uma forma saudável, à medida do desejo e da sensibilidade de cada um de nós. O número mágico, que evoca a reciprocidade indispensável numa relação sexual, representa para mim uma das mais intensas e agradáveis manifestações do que dois seres humanos sem merdas são capazes de se proporcionar. Representa o meu ideal de perfeição, pelo que implica em matéria de sintonia, de entrega e de partilha. Não é uma condição. É uma imagem que traduz a minha forma de ver as coisas e de as sentir.

Claro que nem duas postas bastariam para dizer tudo o que me ocorre acerca desta minha preferência, de entre algumas pelas quais nutro particular devoção. E se a vossa reacção me encorajar (confesso que não a adivinho nestes assuntos mais "melindrosos"), não terei qualquer problema em retomar o assunto sob uma forma mais incisiva, sob qualquer formato.
Mas julguei apropriado começar pela aritmética antes de passar ao estudo da função. O 69 não é de facto um número qualquer quando associado ao sexo que o imortalizou na sua iconografia e na nossa imaginação.

Estou disponível para trocar impressões convosco acerca do tema, nem que à luz da sua inegável carga emocional ou da interpretação que lhe dou (de resto tão válida e pertinente como qualquer outra).
E nem me interessa prioritariamente saber se, como eu, já praticaram. Não é de um censo que se trata, mas do bom senso que nos implica o imperativo moral de combatermos todos os tabus.
publicado por shark às 01:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (114)
Segunda-feira, 25.04.05

A POSTA NA LIBERDADE

De cada vez que me encontro com blogueiros(as) desfaço quaisquer interrogações acerca do meu envolvimento nesta comunidade, excepção feita ao problema que referi na posta anterior.
Em Beja, e no âmbito do Dia Mundial do Livro, a Biblioteca Municipal da cidade incluiu no programa das comemorações um debate acerca da blogosfera. Seria o pretexto para uma troca de impressões que me deixou esclarecido acerca do que nos une, apesar da diversidade de perspectivas. Um painel onde a homogeneidade não imperava reflectiu, ainda assim, quase em uníssono, a paixão que nos move e a pressão que nos intimida.
E se a anfitriã, que abriu a conversa com chave de ouro no seu tom informal de blogueira convicta, deu o mote para o improviso das restantes intervenções, fiquei impressionado com o espírito de grupo que quem não bloga pôde constatar entre nós. E isso ainda foi mais evidente ao longo do dia, enquanto convivíamos.

Blogar é uma actividade da qual se pode dizer que "não são só flores", como o Zé Mário frisou com exemplos com que todos nos confrontamos. Mas tem inegáveis compensações para quem busca na blogosfera mais do que uma sede de projecção absurda (e na maioria dos casos sem pernas para andar, como a Catarina referiu) ou uma mera extensão da vaidade saloia que se exibe fora dela. Claro que um exemplo paradigmático de como se pode blogar em busca de maior visibilidade, mas com argumentos concretos e inquestionáveis, foi fornecido pelo Ricardo na primeira pessoa. A blogosfera pode efectivamente constituír um trampolim para os mais capazes de entre nós, os "sobredotados" da blogosfera que já o eram fora deste contexto. Mas só para estes (ou quase). E ainda bem.

A seriedade do que fazemos passa apenas pelo facto de darmos o nosso melhor por respeito a quem se dispõe a dar-nos atenção. Se optamos pelo tom intimista, como é o caso deste blogue, pelo tom divertido de pausa para o final de tarde (como a Gotinha assumiu relativamente ao seu blogue) ou pelo exercício da criatividade que caracteriza o blogue do João Pedro da Costa (que forneceu a uma assistência onde os blogueiros não estavam em maioria um verdadeiro "blogs for dummies"), essa escolha é irrelevante em face do que interessa: blogar por gosto, sem perder de vista a consideração que quem visita os nossos espaços merece.

A blogosfera é um espaço onde a liberdade é rainha e no qual se geram ligações fortes entre as pessoas. E estas duas realidades conjugadas inevitavelmente recordam-me o 25 de Abril. De resto, estranho seria que qualquer blogueiro ignorasse esta data.
Há pouco mais de três décadas, mesmo que existisse, a blogosfera não aconteceria em Portugal. Nem o ajuntamento de pessoas que a cidade de Beja acolheu. As conquistas de Abril fazem-se sentir das mais variadas formas. E uma das que mais se gravaram na minha memória dos dias da Revolução é precisamente a alegria e a vontade de fazer coisas, de reunir as pessoas em torno de projectos que funcionam como condutas para a Cultura fluir. De fazer o que antes o fascismo condenava e proibia.
Essa foi a imagem que a iniciativa da Biblioteca Municipal de Beja, à qual exprimo a minha mais sincera gratidão pelo convite que me endereçou, me transmitiu. Mostraram-me o rosto da liberdade numa das suas mais belas expressões.
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publicado por shark às 19:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (136)
Sexta-feira, 22.04.05

A POSTA BLOGUEIRA II

E assim chegou o final da semana sem que eu conseguisse dar sequência ao compromisso que assumi perante mim próprio e perante vós. Falar da blogosfera.
O pouco tempo que os dias me deixaram investi-o mais na busca das opiniões das outras pessoas do que na maturação da minha. Que, às tantas, está reflectida no conjunto das postas e dos comentários que marcam a minha presença nestas andanças.
Mas não foi essa conclusão que me impediu de concretizar o que prometi. Foi a vida “lá fora” a chamar-me de volta, a apelar para que desviasse um pouco a minha atenção deste mundo à parte. Por instantes, a gestão do meu tempo privou-me de blogar como gostaria.

Acontece com pouca frequência, desde que entrei para a comunidade blogueira. E isso diz bem da forma como me deixei “agarrar” por esta realidade intensa. Intensa demais, como o provam as discussões acaloradas, as amizades aceleradas e as paixões assolapadas de que nos damos conta no dia a dia deste nosso ponto de encontro.
Na blogosfera tudo acontece a correr. Assim que uma nova posta entra, as anteriores entram num estado de pré-arquivo, tornam-se obsoletas. Até desaparecerem numa gaveta que pouca gente se dá ao trabalho de abrir. E isto concretiza-se no espaço de dias.

Este ritmo alucinante (pensar, escrever, editar e seleccionar a ilustração para a posta, responder aos comentários, visitar e/ou comentar nos blogues da nossa preferência, enviar e responder emails. Todos os dias, ou quase.) presta-se a quezílias derivadas de erros de interpretação. É fácil passar de bestial a besta na blogosfera. Basta uma posta ou um comentário infeliz. E as segundas oportunidades rareiam.
Este factor acresce uma pressão suplementar sobre quem bloga por gosto e não gosta de blogar às turras.

E é desse conjunto de pressões que resultam as paragens forçadas, provisórias ou definitivas, de muita gente boa que faz falta na blogosfera como a entendo. Isto não pode nem deve fazer-nos mal e não sei se essa premissa está garantida, à luz do que referi. E a vida tem que acontecer sobretudo longe do monitor. O João Pedro da Costa, uma das pessoas mais fascinantes que a blogosfera já me deu a conhecer, deixou-me num comentário à Posta Blogueira I um recado, dos que só um amigo se motiva a deixar, a propósito dessa verdade indiscutível. Alertou-me para um excesso que tendo a cometer. Eu adoro a blogosfera e não lhe renego as qualidade que já enalteci, continuarei a blogar com a mesma vontade e imensa dedicação.
Mas não quero acabar assim:

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publicado por shark às 16:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (32)
Terça-feira, 19.04.05

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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O vento, o verdadeiro e não uma qualquer brisa passageira e fugaz, segredava-lhe ao ouvido histórias de encantar. Ela ouvia e sorria, deliciada. E oferecia-lhe em troca palavras que ele espalhava pelo mundo com um sopro avassalador.
Todos os dias o vento tocava-a, sem contudo a conseguir agarrar. No seu coração em remoinho, a insegurança voava descontrolada de cada vez que a sabia próxima dos que lhe podiam deitar a mão. Algo que o destino o privava de concretizar.
E ele bufava a impaciência, agitava-se num temporal, sempre que a imaginava num futuro distante do seu. Longe dela, a revolta, para não a intimidar.

Um dia, quando o vento chegou junto dela para a saudar descobriu-a com um intruso. Era assim que ele o sentia, como uma ameaça, mas nada podia fazer. Ela sorria para o tranquilizar, dizia-lhe que nada mudaria na sua relação. Porém, nesse dia, ela não se interessou pelas histórias que o vento trazia para lhe segredar. Antes ouvia as palavras do intruso, que a seduzia com proezas conversadas e um interesse por ela que a lógica não conseguia explicar.
Posso provar-to, dizia ele, com o vento a uivar de raiva nos cumes das montanhas ao longe. O que mais queres que faça por ti? E ela pediu-lhe que lhe explicasse o mar que não conhecia, aquele de que o vento lhe falava nas suas histórias de força indomável e de vontade de vencer.

Dias depois, o intruso regressou. Com uma fotografia das ondas, mais um leitor de cassettes sofisticado que reproduzia o som da rebentação. Ela apreciou deslumbrada, convencida de que sabia agora do que o vento falava quando a encantava num murmúrio.
Foi então que o vento decidiu reagir. Com um sopro mais forte, carregou desde a praia uma casca de búzio que depositou aos seus pés. E ela apanhou-o e pôs-se a escutar o som que o vento lhe trazia, sereno e distante, diferente do mar revolto das histórias que ela lhe ouvia contar. O intruso sorria, divertido, perante a imagem patética que o vento recolhera para simbolizar o poder dos oceanos. Mas ela não lhe prestou atenção.

E o vento, que muito a queria, exibiu-lhe o mar como o sentia. E no fim ofereceu-lhe uma flor.
publicado por shark às 17:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (47)

A POSTA BLOGUEIRA I

Parte da minha vida acontece na blogosfera. E já está a acontecer a partir dela, no exterior desta comunidade virtual à qual me orgulho de pertencer.
Com as coisas postas desta forma, é natural que seja fácil e agradável para mim falar acerca deste tema. Gosto mesmo de blogar. E talvez comece por aí, por vos explicar a natureza da minha motivação. Para que percebam porque insisto em investir o meu tempo e em captar o vosso para o que acontece neste blogue.

Sinto este espaço como uma segunda casa, um local onde gosto de receber pessoas. A minha blogosfera são as pessoas que a fazem, nas postas e nos comentários. Comunicação é a palavra-chave neste contexto onde a palavra é quem mais ordena. Interacção entre pessoas, fomentada a partir de um texto que constitui o ponto de partida para o diálogo nas caixas de comentários. Blogar sem a caixinha não faria sentido na minha forma de estar na blogosfera, embora compreenda perfeitamente a opção contrária. A diversidade que evidenciamos começa precisamente pelas diferentes concepções e ambições de quem bloga. A capacidade, a personalidade e a natureza dos objectivos de cada um(a) de nós impõe abordagens bem distintas no tema e, sobretudo, no tom. Distante ou amigável, divertido ou mais para o sério, informativo ou intimista. Há de tudo e outra coisa não seria de esperar. Há realidade e fantasia, criatividade e letargia, lágrimas e sorrisos, inimizade ou amor. Em plena aceleração.

Eu blogo com maior regularidade neste Charquinho, na Casa de Alterne e no Afixe. Em cada um deles encontro apenas um elo de ligação: precisamente a importância atribuída ao papel dos comentadores. Os comentários são a alma destes blogues. No resto, basta compará-los (estritamente na óptica do "pano de fundo", pois não faria sentido outro tipo de comparação) para distinguir as diferenças. A semelhança reside apenas na apetência pela interacção entre quem faz os blogues e quem os visita. É a perspectiva que defendo, o modelo de blogue que me seduz. De resto, como muitos outros, iniciei-me como blogueiro na pele de comentador.

Acredito na blogosfera como uma excelente plataforma para usufruir da liberdade de expressão. E para aprender a gostar das pessoas a partir do que elas valem, mais do que pelo que parecem (sem descartar farsantes, que os há em todo o lado). É um antídoto contra o veneno manso da solidão que tanta gente afecta. É o embrião de um meio de Comunicação Social alternativo e não faltam exemplos para justificar o meu optimismo. E este conjunto de factores, somado ao cada vez maior número de pessoas excepcionais que tenho conhecido por esta via, é justificação quanto baste para me entusiasmar na respectiva divulgação. Tal como acontecerá no evento cujo Programa completo a Mar acaba de publicar no seu Espelho.
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publicado por shark às 01:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (92)
Segunda-feira, 18.04.05

EU SEI...

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...que me comprometi a postar hoje a primeira de uma sequência dedicada à blogueirice como o esqualo a entende.
Porém, quando completei a tentativa inicial deparei-me com uma estucha indigna de vós.
E ainda por cima troquei de carro (pela primeira vez mudei de marca e virei as costas a um compromisso de 20 anos com a Citroën) e uma pessoa muito especial insistiu comigo para irmos dar uma voltinha de estreia. Eu sei que posso contar com a vossa compreensão, caso me estique na quilometragem e a posta só possa entrar amanhã.
Porém, mesmo considerando que hoje não acordei muito inspirado e que o assunto em causa merece uma abordagem em condições, tentarei mais pela fresquinha dar início ao trabalho que vos sugeri.
Até lá, considerem-se bafejados pela energia positiva do vosso tubarão virtual.
publicado por shark às 18:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (35)
Domingo, 17.04.05

A POSTA FICCIONADA

Tinha cerca de vinte anos quando a conheci. Por mero acaso, na sequência de conversas cruzadas à mesa de um bar. O que dizia prendeu-me a atenção. Mais o fogo no seu olhar. Destoava em absoluto do grupo de betos que a rodeavam e isso tornou-se mais evidente à medida em que o nosso diálogo a dois evoluía. Quando ninguém reparava, sugeri-lhe que fossemos ao balcão buscar mais cervejas e ela anuiu.
Uma hora depois ainda lá estávamos, conversa puxa conversa. Falámos de política no âmbito estudantil, da Revolução e até de futebol. Acabámos a falar do amor.

O cabelo, muito comprido, parecia talhado para adornar aquele rosto (dos mais bonitos que algum dia conheci). E eu bebia-lhe as palavras, encantado, cheio de paciência pela oportunidade ideal. Um olhar de tristeza que ela lançou ao seu grupo, que se preparava para debandar, foi o sinal que o destino me deu.
- Tens horas para chegar a casa?
Disse-me que não, com uma expressão de curiosidade.
- Diz-lhes que na nossa conversa descobriste que joguei à bola com um primo teu e que me ofereci para te levar a casa, mais logo.
E ela, atordoada, assim fez.

Entrámos para o carro dez minutos depois. Revelei-lhe a minha vontade de prolongar a conversa por mais algum tempo, incapaz de a imaginar longe de mim, um clique por dentro que me anunciou o nascimento de uma paixão. E ela, receosa mas irreverente, sorriu. Quem cala consente. Liguei o motor.
Olhou-me nos olhos, perplexa, quando parei junto à fronteira com Espanha. Vamos? Tu és doido! Pois sou...
De vez em quando distraia-se da conversa, perguntava-me onde nos dirigíamos. E eu tranquilizava-a, afastava-lhe os medos com o mesmo carinho com que lhe afastava dos olhos o cabelo que os tapava. Ela acabaria por adormecer, algumas horas depois. E eu galguei quilómetros sem sono, inebriado pela visão do seu rosto que partilhava a custo com a autoestrada para Cadiz.

Acordou a bordo do ferry, a meio do Estreito, com Gibraltar pelas costas a desaparecer na bruma e o recorte das montanhas marroquinas a desenhar-se diante de nós. Ensonada, levou algum tempo a perceber e depois abriu a boca de pasmo. Mas tu és completamente maluco! Beijei-a pela primeira vez e percebi nesse instante que a história não acabava ali.


O sol brilhava em Tânger quando pisámos África pela primeira vez. Nos olhos dela, também. Deliciada com o que estava a acontecer. Sentíamo-nos tão próximos que mal conseguíamos afastar as nossas peles. Parávamos nos locais mais belos para matar as saudades dos beijos anteriores. Cada vez mais amantes, cada vez mais amor.
Quando a noite caiu convidei-a para partilhar comigo uma cama, num pequeno hotel à beira de um vale. E ela, rendida, aceitou.

Tremíamos ambos quando entrámos no quarto. De ansiedade e de emoção. E agora, perguntou. E agora fechas os olhos e embarcas para Plutão, foi o que lhe respondi, enquanto a puxava sem pressa para junto de mim.
Percorri-a enquanto ela deixou. Até não me aguentar mais por mais tempo fora de si. Descontrolada, como eu. Mais apaixonada a cada minuto que passava, comprimia-se contra mim como se quisesse entrar com a sua pele pela minha. E eu apertava-a em abraços que quase lhe tiravam a respiração, espalhava as mãos como um polvo pelo corpo magnífico daquela jovem mulher. Como se quisesse gravar-lhe em cada pedacinho uma marca da minha passagem, na vertigem de um permanente arrepio.
E ela depois, arrojada, a mimar-me. E os dois abraçados outra vez, como lapas, como um. Lacrados pela paixão que se gritou.

Tenho mais saudade ainda quando revivo cada uma das nossas carícias ou te recordo felina sobre mim. Mas é saudade feita da esperança que algures os teus olhos beijarão estas palavras. Saberás que não te esqueço desde então, todos os dias. A minha pele ainda é a tua.
publicado por shark às 03:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (54)
Sábado, 16.04.05

VISTO DAQUI

No próximo fim de semana vamos falar de blogues e da blogosfera. Vamos falar de pessoas. De pessoas que blogam, como eu e cada um de vós. Vai acontecer em Beja e podem obter informação mais concreta no blogue da Mar, a minha sócia na organização do encontro das mantas e cujo empenho nesta iniciativa constitui o principal factor da minha adesão à mesma. Porque já sei do que ela é capaz. E porque se o sei, devo-o precisamente ao contacto que esta comunidade virtual nos proporcionou.
As pessoas que blogam, a forma como interagem a partir de um pretexto que é a vontade de comunicar, traduzida numa posta criativa e/ou na participação activa nos diálogos que se estabelecem nas caixas de comentários, são a blogosfera que se faz. O que se vê, o que se lê, o que se debate e as relações que se estabelecem a partir daí. Somos nós, cada um com o seu papel e na medida dos recursos de que dispomos e da forma como expomos as coisas que queremos mostrar ou dizer.

É muito simples, visto desta forma. E é argumento bastante para estender o meu envolvimento no fenómeno a três blogues onde posto, mais algumas dezenas que visito e onde comento com a regularidade possível, desde há alguns meses. Gosto mesmo disto e embora comprometa, com a participação no evento que citei acima, o anonimato que me esforço por preservar sinto-me motivado para contribuir para a divulgação do que construimos todos os dias. É isto que vai acontecer na noite alentejana. Uma prova de fé das pessoas que blogam no mérito desta realidade que nos uniu. Um grupo de blogueiras e de blogueiros disponíveis para conversar o que fazemos com quem quiser ouvir, seja "da casa" ou não.
É este o mote para incentivar a vossa presença como justifica a minha.

Nesse sentido e no de antecipar o debate que certamente acontecerá nessa ocasião especial, as minhas postas de toda a semana incidirão sobre aspectos directa ou indirectamente ligados a este nosso mundo à parte. Quero, no fundo, partilhar convosco alguns tópicos acerca dos quais já acredito ter algo de concreto para dizer (embora constituam, claro está, um reflexo subjectivo do tipo de presença que entendi assumir na blogosfera).

Convido-vos, pois, para uma semana blogueira diferente neste charco. Com a atenção concentrada no exercício de blogar, visto por quem vos serve de anfitrião numa das casas virtuais que visitam. Para conhecerem melhor a minha perspectiva e colaborarem comigo no sentido de a aperfeiçoar nas suas eventuais imprecisões ou lacunas, pois é meu objectivo merecer o tempo que gastam neste espaço, um bem escasso e precioso que me confiam e que me exijo retribuir à altura.
Mãos à obra!
publicado por shark às 22:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (27)
Quinta-feira, 14.04.05

A POSTA CIUMENTA

Ninguém pode afirmar se tem origem cultural ou visceral. E pode efectivamente levar uma pessoa à loucura, como o demonstram os inúmeros crimes passionais protagonizados por amantes em fúria.
O ciúme, para uns um indicador de paixão e para outros uma manifestação grosseira do sentimento de posse, está inevitavelmente ligado ao amor na reputação e ao horror em algumas das suas piores consequências. É um sentimento extremado, capaz de suscitar reacções imprevisíveis. E as mais diversas opiniões.

Poucos conseguem alhear-se à perturbação originada pela ciumeira. Cada um experimenta-a à sua maneira, de acordo com a sua sensibilidade e com a intensidade da paixão que a alimenta. Há quem chore, quem grite e quem emudeça. Há quem se revolte, quem se sinta culpado e quem baixe os braços em dolorosa resignação. Há de tudo, mas sempre com a tónica assente no sofrimento, na raiva e/ou na desilusão.
Embora seja aceite como inevitável em qualquer tipo de relação amorosa, a carga pejorativa que lhe está associada deriva de um facto muito simples: o ciúme anda de braço dado com o espectro da traição.

Temos ciúmes quando nos confrontamos com a possibilidade (real ou fictícia) de alguém partilhar o afecto de uma pessoa nossa amada. A partir daí é possível todo o tipo de cenário ou conjectura. E as interrogações multiplicam-se, quanto mais avançamos na análise deste tema.
Porque sentimos ciúme? Pelo instinto de posse ou pelo apego à monogamia que a nossa educação incute? Pelo amor a outra pessoa ou a nós próprios? É uma derivação do egoísmo ou uma adoração descontrolada? A minha opinião não oferece respostas definitivas e por isso gostava de conhecer a vossa, ainda que seja ambicioso esperar obtê-las.

No entanto, a troca de impressões acerca de um tema tão relevante na nossa estrutura emocional nunca me pareceu supérflua. Até porque existem questões directamente ligadas ao ciúme que não se esgotam no espaço restrito de uma posta. Questões como a infidelidade, a confiança e as repercussões do ciúme no contexto de uma relação. Como o ciúme ser motivo bastante para separar em definitivo duas pessoas que, em muitos casos, nem deixam de se amar. Apenas se afastam pela violação dos princípios.

Eu entendo o ciúme como um perigo latente que pende sobre cada cabeça numa relação. Uma guilhotina potencial para a mais sólida das ligações. Não é um mal menor nem me parece um mal necessário. É uma manifestação de insegurança, uma expressão insana da nossa incapacidade de abdicar do controlo das emoções de quem sentimos como nosso. Mas que afinal nunca o é. E só opino para fornecer um ponto de partida para as vossas intervenções, caso optem por alimentar na sala abaixo um papo acerca deste assunto tão melindroso e, contudo, descaradamente apelativo para quem gosta de discutir o amor. Sob todas as perspectivas.
publicado por shark às 22:50 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (86)

PASSADA A BORRASCA...

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...Estou a usufruir de um nice day at the office. E enquanto trabalho, do meu computador saem sons de outro planeta. "Us and Them", nós e os outros, com o vozeirão do David Gilmour a encher-me a sala de pura magia.
É impressionante o efeito que estes gajos exercem sobre mim, desde puto. Não encontro paralelo, excepto em alguns rasgos de génio pontuais de outros protagonistas. Sou mesmo um doente, um viciado na sonoridade e nas palavras destes britânicos que têm moldado a minha forma de estar na vida (a par com The Doors, claro).
Acho que se trata de um amor eterno. Se morrer de velho, é bem possível que esteja a ouvi-los na altura...
Desejo-vos um dia muito agradável e, se puderem, recomendo-vos o The Dark Side Of The Moon como banda sonora. É uma receita ganhadora.
publicado por shark às 11:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (24)
Quarta-feira, 13.04.05

TALVEZ AMANHÃ

Há uns tempos que ando para falar acerca do ciúme. É um tema que me intriga e que muito gostaria de discutir convosco. Mas hoje estou num dia mau (ainda não acabou) e isso poderia influenciar a minha perspectiva sobre o tema.
publicado por shark às 23:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)

HOJE AGRADEÇO...

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...o facto de este dia estar finalmente a chegar ao fim. (Fónix...)
publicado por shark às 19:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (24)

ERRO DE PALMATÓRIA

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Tinha nove anos de idade quando fugi de casa pela primeira vez. Saturado do clima que por lá se respirava e contrariado pela imposição da catequese (absurda, desde o dia em que o padre da igreja da freguesia me expulsou liminarmente do templo sagrado – apenas porque referi em voz alta que não sabia o que estava ali a fazer), planeei com cuidado essa manifestação de rebeldia.
O meu grande amigo dessa altura alinhou e até partilhou comigo a elaboração do plano que visava afastar-nos das repercussões da suspensão de três dias, ocorrida semanas antes, e que uniu os nossos nomes no “quadro negro” do externato em que frequentávamos o ensino primário.
Em vez da catequese, metemo-nos ao caminho sem dinheiro e apenas com o resto do almoço nas marmitas para nos sustentar ao longo da aventura.

A única regra do plano era não perdermos o rasto à linha do comboio, a fim de sabermos sempre o caminho de volta caso algum de nós se arrependesse a meio da nossa jornada de luta. E assim fizemos, correndo riscos sérios que só por mero acaso não resultaram em tragédia para qualquer um de nós. Foram diversas as ocasiões em que nos safámos à justa de um desfecho menos bom.
Depois de esgotados os mantimentos, cansados pelos quilómetros percorridos a pé e já fartos de comer fruta roubada nas mercearias com que nos cruzámos, a nossa resistência acabaria por enfraquecer. Discutido o problema e medidos os prós e os contras, decidimos regressar depois de congeminada uma desculpa infantil para o nosso desaparecimento.

Foi o meu pai que nos encontrou, já perto da escola, numa noite fria em que a vizinhança percorria por turnos as ruas em busca das duas crianças que se presumiam raptadas ou pior. Os pais do meu amigo não participariam nessa iniciativa. Estavam em casa quando o meu pai lhes entregou o rapaz e recordo a falta de entusiasmo com que receberam de volta o filho cujo paradeiro desconheciam. A queixa à polícia parecia-lhes transtorno bastante com a situação.

Consegui a custo entender-me com a família, insistindo na valia das minhas razões. A catequese deixou nesse dia de constituir obrigação e ficou encerrado o mal-estar pela vergonha da invulgar (e excessiva) punição que me havia sido dada na escola.
Mas com o meu amigo as coisas não se passariam da mesma forma. Até ao final do ano lectivo não voltaria a frequentar o externato, os pais decidiram mudar de casa e não voltaria a vê-lo até que uma extraordinária coincidência nos reuniu, anos mais tarde.

Reconheci-o entre a multidão que atafulhava o autocarro da carreira 33, dias depois de festejar os dezassete anos de idade. Estava diferente, o meu amigo, sobretudo no olhar.
Manifestei a minha alegria por reencontrá-lo mas ele não correspondeu. Nem um sorriso decente consegui arrancar-lhe, tal era a tristeza que parecia agarrada ao seu semblante como uma máscara de ferro coberta das cicatrizes de um período negro que atravessou.
Resumiu-me em poucas palavras a sua versão do que vivera na sequência da situação que nos separou ao longo desses anos.
Os pais, classe média alta e formação superior, confrontados com a maçada de criar um filho mais irrequieto do que a maioria nem hesitariam em enfiá-lo sem apelo num colégio interno, algo que inspirava terror a qualquer puto dessa época, e de onde acabaria por fugir para uma existência marcada pela marginalidade.
Deixou-se agarrar pela heroína e percorria as vielas do costume na espiral da degradação, as que a vida oferece a quem se vê só e sem qualquer esperança no futuro.

Ficou-me na memória este exemplo flagrante de como uma mesma situação pode produzir efeitos tão distintos no destino de cada um de nós. E no caso concreto, a diferença resultaria afinal das escolhas dos pais quando lhes competiu tomarem decisões e não das dissonâncias significativas nas personalidades ou nos comportamentos dos filhos em questão.
Ficou-me na consciência a noção da responsabilidade tremenda que assenta nos ombros de quem opta por ser mãe ou pai. Não há margem de manobra para a estupidez.
publicado por shark às 11:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (38)
Terça-feira, 12.04.05

O TAMANHO DA TESTA

Como nasce a inveja.jpg

Conforme prometido, vou abordar um dos temas mais melindrosos para qualquer macho da espécie que tenha ouvido falar do John Holmes (1). Sim, o tamanho conta. Pelo menos conta nas preocupações de muitos dos meus companheiros de classe. E nas da outra classe também (embora sob diferente perspectiva).
Eu já me assumi mediano e tenho por isso uma posição confortável na matéria. De resto, aprendi cedo que os centímetros de pila a mais ou a menos podem constituir uma questão secundária quando compensados na dimensão da testa. No interior da nossa tola, na forma como encaramos a nossa vida sexual, residem os argumentos prioritários.
Mas isto é um gajo a falar e admito que esta minha interpretação possa ser demasiado subjectiva.

A questão do tamanho, para além de ser um viveiro de excelentes anedotas, é um foco permanente de tensão mal disfarçada. Para qualquer homem traído, o embaraço de concluir que a "sua" companheira o preteriu por causa do mastro do rival é um mal menor perante a mínima suspeita acerca do seu desempenho na cama. É que as pilas sairem grandes ou pequenas constitui um capricho aleatório da mãe natureza e quanto a isso, nada a fazer (2). Mas a falta de entusiasmo para satisfazer a parceira já não se pode descartar com a mesma paz de espírito. Por isso mesmo, tendo a concluir que uma explicação em centímetros é preferível a uma alternativa em minutos...
O nervoso miudinho assoma a mente de qualquer um de nós quando, no urinol, ficamos com a impressão de que o bacano do lado nos controla o penduricalho pela surra. Quero acreditar que essa preocupação está relacionada com o pavor aos olhares gay (embora me custe a crer que um homossexual arrisque ou considere sequer tal hipótese). Porém, existe a remota possibilidade de estar em causa o facto de assim, a fazermos chichi, desarmados da nossa desmesurada erecção, soarmos minúsculos com aquela coisa flácida entre mãos. São questões que me ultrapassam.

Aliás, cada um reage à sua maneira quando o tema aflora o seu pensamento ou (raramente) as conversas em que participa. Quando se trata de um grupo estritamente masculino, só através do humor o assunto pode vir à baila (nunca um homem coloca a outros essa dúvida existencial tabu). Em grupos mistos acaba por dar na galhofa (a única saída airosa para o desconforto que se instala nos presentes com estatuto de filho varão). Nos grupos delas não faço ideia de como e se a conversa se desenrola. Intuo que prefiro nem saber.

Naturalmente, compete às mulheres (cuja posição me tem soado algo ambígua nas conversas que mantive a propósito) definir a relevância da fita métrica nas suas opções ou preferências. Mas julgo que nós homens deveríamos confrontar-nos com os nossos medos nessa questão, expurgar receios infundados que estão na origem de tantas rugas de expressão.
Pela parte que me toca, nunca ocorreria justificar um resultado pouco satisfatório com base em tal argumento. Seria uma desculpa de mau pagador. E custa-me a acreditar, excepto nos casos dos meus colegas a quem o destino se exibiu parco em demasia, que a verdade dos factos passe por aí. Isto não implica, claro, que não seja tão normal existirem mulheres adeptas de pilas de palmo e meio como homens desvairados por mamas versão Dolly Parton ou Fáfá de Belém.

Outra verdade insofismável é de que mais vale um pequenino mas trabalhador do que um adamastor molengão. Esta é pelo menos a teoria que mais nos conforta, quando descobrimos algures na vida, com enorme desgosto, que entre a nossa e a de uns quantos há uma confrangedora diferença. Quando somos muito jovens, essa ameaça paira-nos sobre a crista como um imenso papão (3). Pode até inibir-nos, se sabemos que fulana já esteve com um indivíduo mais velho ou com o tipo de quem se diz ser parente daquele deputado castiço que fez escola. "E se ela acha o meu coiso minorca e desata-se a rir em plena função"? É assustador, naquela fase decisiva de afirmação pessoal. Depois a gente cresce e os fantasmas desaparecem.
Não é?

(1) Actor de filmes pornográficos, trata-se de um homem que se notabilizou no género sem encontrar rival à altura. Em comprimento, para ser mais exacto...

(2) Isto se não acreditarmos nas inúmeras e diversificadas propostas que o spam nos faculta. Ou numas máquinas de sucção(?) que alegadamente vão esticando o dito cujo se nos aplicarmos com dedicação. Enlarge your penis e afins.

(3) Vinte centímetros ou mais.
publicado por shark às 10:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (63)
Sábado, 09.04.05

MOINHOS DE TEMPO

Casaumida.jpg

O velho Joaquim Merceeiro encostou-se ao muro branco diante do seu estabelecimento. Tinha vista para a praça central, que fôra a única nos dias em que a jovem cidade era aldeia e ninguém lhe fazia concorrência ao negócio num raio de dezenas de quilómetros.
Agora, era um burburinho todo o dia. Gente para lá, gente para cá, gente sem outro sítio para onde ir. Reuniam-se ali aos magotes, como os pombos, e o velho Joaquim gostava de ficar ali a vê-los correrem a vida num virote enquanto a povoação crescia em redor daquela praça.
Os dias bons para o comércio, recordava, costumavam ser dias assim.

Com a aldeia em plena festa, honra a Nossa Senhora das Misericórdias Divinas, população de todo o concelho ali congregada para generosa festarola. E era o Joaquim, pois claro, quem fornecia os enchidos e quase tudo quanto se comia nessas ocasiões festivas. Um festim para a caixa registadora, de manípulos cromados e manivela a rigor, que insistia manter em destaque, troféu, como a mais lustrosa manifestação da sua vontade férrea de parar o tempo no interior da merceeria.
Até no exterior conseguiria esse milagre, manter uma velha casa térrea em pedra, entalada, teimosa e patética, entre os seis pisos de dois expoentes da mais desastrada arquitectura paisagística. E em volta da praça, todos os edifícios cresciam em altura, modernos, escondiam ao Joaquim as hortas que dantes conseguia ver e agora nem existiam, convertidas em quarteirões carregados de clientela potencial.

Assim era, no princípio, quando a vila em expansão começara a acolher as primeiras evidências do êxodo rural. Chegavam os rapazolas primeiro, a apalparem terreno. Vagueavam pela praça em busca de organização para as ideias até surgir do nada uma entidade empregadora. Marçanos, serventes e aprendizes de qualquer coisa, governavam a vida e ainda sobrava o bastante para atenuarem as privações dos que ficavam na terra.
Depois, apareciam os irmãos e irmãs, primos e amigos, quartos alugados e gastos controlados ao tostão.
Dias dourados para a Merceeria Victória, o ponto de referência da vila em géneros alimentares e outras conveniências, como dizia na tabuleta carcomida que prendera por arames num candeeiro da rua, mais de cinquenta anos atrás. Publicidade que bastava para acabar com as veleidades dos merceeiros arrivistas, amadores. Vinham ao cheiro, dois ou três, instalavam chafaricas num canto discreto. Depois, baixavam os preços e obrigavam o senhor Joaquim a acompanhar essa incompreensível tendência para sacrificar as margens de lucro. Uma estupidez, coisa de gaiatos. Mas seria a única vez que o Joaquim aceitaria publicitar a casa que, afirmava, se impunha por si, que a antiguidade é um posto. E a tabuleta ficaria referenciada como "indicador de localização" nos registos autárquicos da época, o que inviabilizaria mais tarde todas as iniciativas do Município para a retirarem do local. Nem o candeeiro Joaquim permitiria que substituíssem, o único desse modelo que restaria na praça, incólume aos progressos fantásticos da iluminação urbana que lhe tentaram impingir.

Era teimoso, o Joaquim. Agarrava-se às coisas de que gostava com a firmeza de um mexilhão, cristalizava a essência dos momentos em que se sentia mais feliz, tentava perpetuar nos objectos e na postura a vida de que gostava e não admitia a evolução como pretexto para a mais ligeira mexida no seu mundo especial.
E a merceeria era a sua cara chapada, antiquada nos moldes, imutável na decoração. Durante o dia, o merceeiro vestia a farda, uma velha bata azul desbotada. E ao domingo, quando saía, só vestia a roupa à medida que lhe fazia o seu amigo Toino, proprietário da alfaiataria. Sempre o mesmo conjunto, calça, camisa, colete e casaco. E um chapéu com dignidade, como ele sempre referia.
Sempre a mesma encomenda, na forma e na cor. Cinzentão.

Defronte da fachada, uma arrastadeira orgulhosa definhava por falta de peças e corrosão natural. O Joaquim, velhote, desistira nos anos oitenta da respectiva manutenção. Nem assim permitiu que lhe sugerissem a remoção do destroço para uma garagem municipal, gratuita, à sua disposição. Aquela relíquia, como as outras de que recusava abdicar, não era apenas um objecto, fazia parte do Joaquim. Foram deixando ficar...
E ele insistia em abrir a porta todos os dias, às oito e cinquenta e nove, para honrar a tradição. Ninguém abria mais cedo do que o senhor Joaquim, fanático cultivador da pontualidade, um dos critérios que lhe haviam transmitido como sagrados para o comerciante da escola clássica.

Também as manhas, próprias do ofício, indispensáveis para rentabilizar o negócio, eram fruto dessa transmissão de saber precioso que os mais novos insistiam em ignorar. A vizinhança não tardaria a notar as diferenças no peso de um quilo nos embrulhos da Victória, relativamente às restantes. Problema das balanças, esses modelos modernos, descalibram com o peso de um reles melão. Muito sensíveis e imprecisas, argumentava ainda, exibindo nas medidas de lata as marcas oficiais da verificação anual. Para inglês ver, que a verificação morria esquecida nas traseiras, em repasto com tudo de bom para gáudio dos fiscais.
Dava a volta a tudo, o Joaquim. Ultrapassara a perda da Donzília, sua mulher e infatigável trabalhadora, cheia de paciência para o aturar. A que faltaria aos filhos, mais tarde, quando mudaram para longe e raramente voltariam para o visitar. Também com isso ele podia.

Mas o tempo avançava e enfraquecia a resistência do velho mercador. À sua tenacidade em permanente desgaste correspondiam investidas cada vez mais poderosas do progresso que o esmagava, de mansinho, com armas desiguais.
Para a Merceeria Victória, estava decretado um fim. Do lado oposto da praça, os tapumes de uma obra imponente anunciavam aos pedestres a inauguração próxima do primeiro hipermercado da cidade.
O tempo galgava as barreiras com o vigor de uma enxurrada, impunha regras suas a quantas lhe tentavam opôr. Farto de esperar, o tempo enlouquecia e assumia uma personalidade diferente, muito arrogante, mais fria. Mas o velho Joaquim, debruçado sobre o muro branco, já conhecia nome e rosto do vilão que desdenhara acompanhar. Chamavam-lhe progresso. Não o temia.
Teimoso, desviou o olhar para a tabuleta empalecida e cogitou. Minutos mais tarde, no cimo do escadote que encostara no candeeiro de estimação, Joaquim Merceeiro lançou à cidade um sorriso de desafio. E mergulhou na lata de tinta esmaltada, referência 304, tom forte e garrido, a sua varinha de condão particular.
Ninguém o convenceria da futilidade de tal resistência, tamanha se revelava a sua fé.
A magia acontecia colorida na paleta dos sonhos daquele velho lutador. E no reflexo do sol que a tabuleta renovada voltou a espalhar pela praça, em borrifos de orgulho, todos os dias, a meio da manhã.
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publicado por shark às 13:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (22)
Sexta-feira, 08.04.05

DE NADA...

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Seria injusto não o referir. Quando, depois de postar esta manhã no Afixe, fui confirmar se tinha saído tudo nos conformes dei de caras com uma tocante homenagem da minha parceira Isabel a todos nós machos da espécie</a>.
Doce, realista, a prosa da minha irreverente colega reflecte um sentimento profundo de admiração pelo papel masculino nas vidas de cada uma. Isto sensibiliza-me. Afinal, a Isabel, como tantas outras, reparou com atenção nos múltiplos indicadores da grata presença dos homens na sua existência. E retirou da fogueira as cinzas da lingerie, depositando-as com todo o enlevo sobre o busto que moldou para nos agradar.

Eu, ao contrário da minha associada aphixadeira, não acho graça nenhuma aos homens. São desinteressantes, peludos e, na sua maioria, incapazes de prezarem a capacidade feminina de nos ornamentar a vida em tons de rosa.
Só um estúpido pode ignorar a benção que nos foi concedida a troco de uma simples costela. Elas constituem, como o reconhecimento público da Isabel o confirma, a nossa principal fonte de inspiração para enfrentarmos cada dia com um sorriso. São uma esperança renovada a cada instante, uma carícia feita gente que nos mima a toda a hora com pequenos gestos, com a graciosidade e a beleza que nenhuma alternativa nos pode fornecer.

Ficam lindas, enquanto nos arrastam ao longo de intermináveis quilómetros pelos corredores dos centros comerciais, em busca de algo que raramente acabam por comprar. Encantam-nos com o seu ar de meninas, quando nos pedem para lhes trocarmos o pneu furado ou lhes mudarmos pela décima nona vez o mais pesado roupeiro da casa para a parede oposta àquela em que ficava tão bem na semana anterior.
Seduzem-nos com o seu jeito manso de nos chamarem à atenção para as coisas importantes da vida, como baixarmos a tampa da sanita ou repararmos no novo bibelot ou na perfeita conjugação de um par de sapatos com a gola de determinada blusa.

Eu adoro as mulheres e grito essa adoração sempre que escorrego no escadote onde me empoleiro para substituir uma lâmpada. Ou me acertam nos calos aqueles objectos que deixo à mão mas acabam enfiados num armário distante, num equilíbrio periclitante. Ou lhes aturo mais uma birra.
E adoro-as ainda mais quando nos negam a consumação do desejo despertado por aquela toilette especial que escolhem ao longo de horas antes de sairmos para a rua, a tal que vestem de propósito só para nos agradar. Mas que afinal não nos era destinada, como constatamos pelo fraco pretexto de uma inesperada cefaleia. Ou outra desculpa qualquer.

Por isso me sinto, neste preciso momento, compelido a retribuir a generosidade das palavras que a Isabel também a mim dedicou. Emocionado e orgulhoso pela espontaneidade da sua devoção, exprimo aqui o meu agrado e convido-vos a partilharem no meu blogue de eleição esse fiel testemunho de um franco e mui justificado louvor com que uma fêmea tão esclarecida em boa hora nos obsequiou.
publicado por shark às 12:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (33)
Quinta-feira, 07.04.05

RESERVA MORAL

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Era bonita, inteligente e sensual. Uma combinação irresistível. Apaixonei-me e consegui conquistá-la. Foi uma surpresa para todos quantos nos conheciam.
Eu, estarola, andava numa fase destravada e a sorte sorria-me nos assuntos do amor, ninguém me agarrava. Ela, católica devota e virgem até às orelhas, reprimia as tentações da carne com uma tenacidade ímpar. Uma combinação impossível. Mas aconteceu, num serão em que lhe pedi licença para a beijar nos lábios e ela deixou. Depois de tal intimidade, nem se punha a hipótese de não lhe propor namoro. E eu, claro, propus.

Alguns meses mais tarde, era notório o desgaste da nossa relação amorosa. Ela sonhava-se virgem até ao casamento e eu não fazia tenção de casar nas décadas mais próximas. O conflito de interesses nessa matéria começou a gerar algum desconforto e eu gostava demasiado dela para a encurralar. Ou a seduzia o bastante para a fazer abdicar dos princípios que defendia, mandando às urtigas o voto de castidade, ou tinha que acabar com a relação antes que se tornasse inevitável ir em busca de alternativas pela surra. Mas era de uma amiga que se tratava, a primeira hipótese não se colocava.

Foi um momento complicado para ambos, como sempre acontece na sequência do final prematuro de qualquer história de amor.
Eu sentia-me desiludido e frustrado. Dois meses depois ainda não conseguira ultrapassar a situação e permanecia-lhe "fiel", apesar de livre como um passarinho. Acabei por voltar à carga, embrulhámo-nos durante umas horas e quando já a tinha seminua sobre uma cama a consciência traiu-me. Perguntei-lhe olhos nos olhos se tinha noção do que estava prestes a fazer e se avaliara bem as respectivas consequências, considerando que a minha paixão por ela não bastava para desistir dos meus ideais (tal como não queria destruir os dela). Disse-me que não. E eu abracei-a, acariciei-lhe o cabelo durante um bom bocado, conversámos um pouco e depois saí.

Quinze dias depois, nem mais um, encontrei a irmã dela. Perguntei-lhe como estava a mana e ela esclareceu-me, indignada.
Andava metida com um crápula, um gajo sem eira nem beira que, entre outras reviravoltas no destino, a possuiu.
Aquilo que negara meses a fio a um homem que a mimava entregaria de bandeja, em duas semanas, a um sabujo mau como as cobras...
Duraria mais um mês, essa relação com contornos bastante desagradáveis que envolveram a família da moça e lhe arruinaram a reputação ao ponto de ela ir viver para outra cidade, incapaz de lidar com a pressão.
Ainda hoje não sei o que me doeu mais em toda esta cena. Gosto de acreditar, em nome do romance, que doeu mais o dano irreversível que o nosso futuro a dois sofreu. Contudo, e vendo as coisas a frio, soa-me legítimo assumir que também fiquei com uma grande tola e ferido no meu orgulho machão.

Desde esse episódio ganhei a certeza de que nunca entenderei o complicado processo de raciocínio das mulheres. Mas apesar de escaldado neste exemplo concreto que convosco partilho, sei que se a vida me confrontar com um dilema idêntico reagirei da mesmíssima maneira. E isso não faz sentido algum, pelo que também me vejo forçado a reconhecer que posso ser um tipo porreiro mas parte dessa boa onda pode residir no facto de eu ser afinal um ganda otário, considerando o desfecho desta situação. Tranquilo na consciência, mas sem explicação plausível para esta estranha tendência para o papel mais absurdo que um homem pode vestir na qualidade de amante potencial.
Lembram-se da figura do batedor? Aqueles índios renegados que se alistavam no exército americano, farejavam as pistas, descobriam o melhor caminho, garantiam a segurança dos brancos e depois afastavam-se para um canto e ficavam a assistir às gloriosas conquistas e vitórias dos canalhas mais espertos e menos escrupulosos que acabavam por os lixar no fim?
Eu explico-vos daqui a um bocado, assim que a fogueira estiver no ponto para vos enviar os sinais de fumo...
publicado por shark às 16:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (61)
Terça-feira, 05.04.05

O HOMEM QUE SÓ VI UMA VEZ

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O meu avô, como tantos homens da sua geração, constituiu duas famílias. Uma legal, institucionalizada. A outra não.
Tinha mulher e um filho quando, a centenas de quilómetros, conheceu a que viria a tornar-se na minha avó. Apaixonou-se perdidamente. Muito se esforçou para lhe arrancar um beijo, mas depois de o conseguir as coisas complicaram-se e muito. O primeiro filho ilegítimo surgiria e outros dois se seguiriam.
Os anos passaram e o meu avô não reunia coragem para tomar uma decisão. Acabaria por tomá-la, optando por se pirar para África, de onde regressaria, depois de amealhar e de estoirar uma apreciável fortuna em extravagâncias, à primeira família que deixara vários anos antes. Para trás, na capital, deixou uma mulher solteira com três bastardos nos braços para criar.

Só conheci o meu avô na adolescência. Recusei-me a dirigir-lhe a palavra durante algum tempo, pelo desprezo que sempre lhe dedicara pela sua deserção. Mas acabámos por trocar algumas palavras, que ele forçou e eu percebi porquê quando o vi morrer pouco depois. Ele já sabia e por isso regressara. Para aplicar a única justiça que o destino lhe permitia no escasso tempo que lhe restava nessa altura, para dar o nome aos filhos que abandonou. E eles aceitaram, para se livrarem do estigma do filho de pai incógnito que os feria no orgulho como uma maldição. Reconciliaram-se. Faltava eu, o neto rebelde que lhe rejeitou sem apelo a oferta de mais um apelido. E ele deitou-se à tarefa, conversou comigo e ofereceu-me as explicações que exigi. Falou-me de amores que cegam, de deveres que condicionam. Assumiu perante mim o arrependimento possível mas fez o que pôde para me tornar explícitas as suas razões.
Depois afastou-se outra vez e não voltaria a vê-lo até ao seu fim, dois ou três meses depois.

O que me fez acreditar na sinceridade daquele ancião foi a chispa no olhar, sempre que falava da minha avó e do amor proibido que ambos viveram enquanto durou. Percebi nesse instante que era mesmo de amor que se tratava, uma paixão impossível de reprimir que o enlouqueceu. Jogava certo com a versão da minha avó, que nunca se mostrou arrependida de se entregar ao homem mais incrível que afirmava ter conhecido, mesmo tendo em conta aquilo porque passou. Nunca deixaram de se amar. Juntando a versão dos dois, serena e conciliatória, tudo mudou de figura.
E quando, por uma vez, o meu avô viu reunidos os filhos e os netos que deixava para o perpetuarem, vi no seu sorriso que, tal como eu e toda a família, também ele à sua maneira conseguiu encontrar uma forma de perdão para si próprio no saldo final daquela salganhada.

Continua difícil de entender o seu acto de aparente cobardia, à luz de diversas exibições de coragem que protagonizou ao longo da vida e me foram relatadas. Mas o tempo ensinou-me a entender-lhe a força das emoções que o guiaram por uma vida tão irregular. Movia-o a paixão arrebatada, a reacção impulsiva e pouco reflectida que, diz quem melhor o conheceu, herdei de entre muitos traços da personalidade mais a expressão do olhar daquele homem que vi apenas uma vez.
publicado por shark às 16:19 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (59)
Domingo, 03.04.05

A POSTA ESTANDARTE

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Por mais que me esforce, não consigo combater este efeito perverso da minha educação. Sempre que me confronto com a situação parece que um bug na minha personalidade leva-me a reagir em sentido inverso ao que seria normal em mim. Fico embaraçado, comporto-me como um tótó. Tento até esconder essa evidência de que sou um homem saudável e funcional. E a única excepção, a única pessoa perante quem nada temo nessas circunstâncias, é precisamente a que estiver na origem premeditada dessa reacção fisiológica que me desconforta.
Mais do que combater o fenómeno, esforço-me por encontrar uma explicação. Mas admito: acho que nunca entenderei porque não aceito com naturalidade e até me sinto envergonhado pelas minhas erecções. E essa insegurança é a explicação que encontro para vos confrontar com um assunto tão banal.

É uma estupidez, bem sei. Mas chego a colocar uma bolsa de cintura para "tapar" o traquina que as calças raramente camuflam quando lhe dá práli. E nem é uma questão de dimensões, posso garantir, estou integrado na maioria absoluta que a estatística classifica como o tamanho médio para um português (voltarei um destes dias ao tema). Todavia, logo que o sinto a espreguiçar dou início a um processo absurdo. É quase uma check list. Ver se alguém nas proximidades está ao alcance visual da minha extemporânea manifestação de regozijo, confirmar se a orientação do malandro é a mais adequada (nem só na política se manifestam as nossas inclinações - eu sou de esquerda até às orelhas) para dar nas vistas o menos possível, encontrar uma posição e/ou um "tapume" que oculte a proeminência imprevista aos olhares seja de quem for. Sinto-me um parvalhão nessas alturas. Tento até contrariar mentalmente, pensando em jogos de futebol (por exemplo) ou outros assuntos nada estimulantes nessa perspectiva, mas sempre tarde demais para impedir a progressão até ao ponto em que se torna ostensivo.

Na praia é uma angústia, mais do que em qualquer outra circunstância. Tanto pela impossibilidade de disfarçar seja o que for por detrás de uns calções de banho, como pelo terror de me julgarem uma espécie de tarado que se estende no areal para dar largas às suas fantasias. Claro que uma pessoa não consegue desviar facilmente os olhos de uma mulher bonita com um corpo bem moldado, mesmo com a necessária discrição que um cavalheiro deve acautelar. Mas isso também pode acontecer num café, com as pessoas vestidas. E não implica necessariamente qualquer tipo de reacção imediata.
Porém, na praia vejo-me forçado a recorrer com frequência ao velho truque da barriga para baixo e do buraco na areia. Ou ao mergulho imediato na água fria, para arrefecer as ideias. E nunca consigo justificar essa paranóia perante os outros ou na minha lógica pessoal.

Mas em qualquer troço de via pública uma erecção é um constrangimento penoso para mim. Não suporto a ideia de dar de caras com alguém a mirar algum chumaço abaixo da minha cintura, fora de um contexto inequívoco. Apetece-me logo bater em retirada para uma trincheira qualquer. É mesmo de vergonha que se trata. Estão-me a ver? O tubarão, esse liberal das avenidas, todo torcido ou procurando um local isolado para ajeitar o equipamento por forma a torná-lo menos... preponderante? É doentio, concordo. E é com um embaraço semelhante que partilho convosco esta minha peculiaridade.
No entanto, o meu compromisso com a verdade obriga-me a revelar as minhas grandezas como as minhas misérias. E se o facto de me constatar uma pessoa normal nos afluxos sanguíneos é motivo de gáudio, o meu comportamento perante a exposição pública dessas reacções aleatórias é o de um caloiro do seminário.

Faz parte da minha estrutura mental a aceitação do sexo como um assunto tão natural como qualquer outro o que, de resto, julgo ser visível em boa parte do que tenho postado. E é aí que reside a contradição expressa na bizarria que acabo de vos descrever. São estes pormenores inexplicáveis que me privam de responder sem hesitações pelo comportamento da minha mona. É inegável que existem na mente alguns circuitos que escapam ao nosso controlo e à nossa compreensão e, se calhar, são esses os responsáveis por algumas loucuras e excentricidades sem justificação aparente.
Ninguém pode afirmar que responde por si próprio. Somos uma mistura explosiva de pensamentos, de experiências e de diferentes educações, nem sempre compatíveis com a nossa essência. Somos imprevisíveis, uns mais do que outros, o que invalida qualquer garantia de fiabilidade dos rótulos que nos colocam ou das definições com que nos caracterizamos.
As minhas certezas enfraquecem diante da constatação que me oferecem alguns comportamentos que as desmentem ou, pelo menos, as colocam em causa. Por isso vos digo, amigas e amigos, que não há como deixarmos entreaberta uma janela para a dúvida quando está em causa a análise de qualquer pessoa. De nós mesmos.

Como certa, no que respeita à minha reacção perante as erecções involuntárias em público, tenho apenas a impossibilidade de optar por calças justas. E o desejo de que a vida adie até ao dia do meu fim o momento em que eu me veja livre, mesmo sem querer, desta minha fonte aleatória de exagerados pudores e de mal disfarçadas vergonhas.
publicado por shark às 21:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (197)
Sábado, 02.04.05

AMOR EM PALAVRAS

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E está na altura de partilhar convosco mais uma selecção de entre o top twenty das expressões mais utilizadas nos motores de busca para virem parar ao regaço do tubarão. Apraz-me registar que o nível das mesmas não dá mostras de vir algum dia a deixar-me sem “matéria prima” para este tipo de posta.
Convido-vos pois a partilharem comigo mais um périplo pelos curiosos bastidores deste blogue.

Mas antes, gostava de vos referir que as expressões “blog de sexo” e “arlinda mestre” ocupam, respectivamente, as primeira e segunda posições na lista de preferências há várias semanas. À Arlinda, os meus sinceros agradecimentos. E ao sexo também.


Amor em Palavras – E quantas mais, melhor. E sem ser em palavras, também. Esta foi a minha preferida e por isso dá o título a esta posta.

Vagina – Assim. Ponto. Tudo o que há a saber sobre o assunto, sem hesitações. Dá pano para mangas, digo-vos eu...

Crise da Adolescência – Só tenho a dizer que tenho vivido bem com a minha (que não dá mostras de acabar).

A Descoberta do Ponto G – Fico feliz por saber que há tantos estudiosos(as) deste tema tão importante. Convém, contudo, seleccionar com algum rigor o(a) orientador de tese.

Acordes Del Tema Easy de Faith No More – Me gusta la forma de las guitarras, hombre!

Arlinda Mestre Nua – Claramente um sub-tema. Despida de preconceitos, não é? Eu percebi a intenção...

Atleta de Alcova – È para os 100 metros ou para a maratona?

A Rainha do Porno – Sua Alteza encontra-se numa festa de caridade, mas dispomos de um vasto leque de Princesas em VHS ou DVD.

Antítese na Paródia – Confesso que esta deixou-me à toa quanto à interrogação em causa. Assim de repente, só me ocorre que alguém procura o trocadilho certo para uma ocasião especial.

Imagem de Sexo – Um desafio interessante, sem dúvida. Temos várias, à escolha, nas prateleiras deste estabelecimento e nas memórias do proprietário. Algumas destas últimas, só para clientes antigos e mediante encomenda...

Beber Vagina – Ok, mas juizinho: nada de conduzir depois (é bebedeira de caixão à cova...)
publicado por shark às 20:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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