Quinta-feira, 31.03.05

A POSTA FLUVIAL

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Gosto dos rios. Gosto da serenidade com que percorrem o leito nos pontos de sossego que o caminho lhes oferece, tranquilos, e da força descontrolada que os arrasta quando a chuva os engrossa ou o declive os reforça com uma ânsia indomável de galgar. Barragens e montanhas, pontes e fronteiras, nenhum obstáculo que os impeça de prosseguirem na jornada. Apenas adiam o momento, aumentam o tormento, das águas com pressa, atraídas pelo destino que a terra lhes impõe.

Gosto dos rios pela garra com que sulcam um percurso, definem um trajecto até ao ponto de encontro que é alvo da sua determinação. Aprecio-lhes a vontade de o atingir, a certeza feita força que ultrapassa qualquer razão, mais a coragem de se lançarem no vazio, em cascata, quando algures lhes falta um pedaço de chão. Nada os detém, apenas os atrasa. São como animais selvagens que perecem em cativeiro, parecem mansos nas albufeiras, mas espreitam atentos e avançam sem medos quando vislumbram uma boa oportunidade para fugir. E fogem, de facto, a bem ou a mal, dos muros de rochedo como das paredes de betão.

São irreverentes e descontrolados, insolentes e agitados. Mas beijam as margens com carinho, ao longo do caminho até ao abraço, doce com salgado, numa foz em ebulição.
publicado por shark às 19:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (31)
Quarta-feira, 30.03.05

ALGUM AMOR EM POUCAS PALAVRAS

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AMOR AMIGO
Havia de facto má vontade entre ambas as partes e o ambiente nunca era o ideal. Mas naquele dia as coisas até estavam a correr muito bem. Por isso foi com espanto que ouvimos a professora de Biologia expulsar da aula uma das mais pacatas das nossas colegas. Sem nada que o justificasse, excepto “o que lhe pareceu” e bem tentámos desmentir.
A nossa colega, normalmente muito calma, começou a mudar de cor e depois explodiu. Saiu aos berros, protestando contra a injustiça de que fora alvo.

Eu, quase tapado nas faltas daquela disciplina, mas muito chegado à pessoa em causa (apaixonado em silêncio ao longo de vários anos), consultei o mapa da minha disponibilidade na matéria. Ainda me restavam duas (em Março) e isso facilitou-me a decisão.
“Se ela vai sem ter feito mal nenhum, eu também vou.” Peguei nas coisas e saí, protestando também contra a situação, e fui juntar-me à colega expulsa que chorava de raiva, tentando animá-la o melhor que sabia.
Nem dois minutos depois, mais um colega saiu pela porta. Logo a seguir mais duas. E ainda mais uma dupla. Continuavam a sair, um após outro, com a sala a ficar vazia ao mesmo ritmo a que o choro de raiva da nossa colega se transformava numa gargalhada de felicidade e de orgulho pela sua turma que a abraçava. Vieram todos e o oitavo L fez história no liceu, com uma muito rara falta colectiva que mobilizaria as pressões suficientes para a inepta docente se ver transferida, ponderadas as situações de conflito que gerara em todas as turmas que lhe cabiam em sorte. O nosso exemplo daria origem a outras formas de luta e a medíocre perdeu.

Hoje fiquei feliz quando recebi uma chamada dessa colega que a arrogante professora de Biologia expulsou. Gostei de a saber bem e feliz, após um período menos bom que a vida lhe deu a provar. E acima de tudo fiquei deliciado por constatar que existem laços tão fortes que nem a passagem dos anos e a escassez de contactos conseguem quebrar, nascidos da amizade e da solidariedade incondicional que ela implica.
Por estas e por outras se justifica a minha crença de que a amizade séria é apenas uma das muitas formas que um grande amor pode assumir. Sem olhar a géneros.
publicado por shark às 11:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (45)
Segunda-feira, 28.03.05

A POSTA QUE NÃO HÁ HERÓIS

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Há temas particularmente sensíveis para um homem. A virilidade, por exemplo, constitui quase sempre mais motivo de preocupação ou ponto de partida para um insulto eficaz do que a inteligência. Ou a falta dela.
Neste, como noutros aspectos, é foleiro generalizar. No entanto, nunca vi um fulano virar-se do avesso por alguém lhe chamar burro. Nem vi algum tão atrapalhado por errar uma conta de dividir como por lhe falhar o equipamento na hora da verdade.
Claro que um tipo pode falar disto na paródia. Entre pessoas porreiras, um desses flopes até pode ser o ponto de partida para uma segunda tentativa bem mais divertida. Pois. Mas em certas circunstâncias, o flop assume proporções desastrosas e a vontade de rir terá origem nervosa...

Aconteceu-me por duas vezes ao longo da vida e assumo-o perante vós.
No final da adolescência, depois de anos a desejá-la com o ardor típico dessa fase das erecções descontroladas (que uma pessoa julgava então que só aconteciam até aos dezoito anos), consegui finalmente o grau de proximidade que me permitia ambicionar algo mais. E algo mais aconteceu. Num carro, a sua primeira experiência em domínios que nunca ousara até então. Correu menos bem, no final, pelo arrependimento de última hora e demasiado tardio. Mas ao embaraço da situação sucedeu-se uma cumplicidade de amantes que manteve a chama acesa.
Dias depois, o segundo round desta relação pouco auspiciosa. O que ansiava nesses dias uma hipótese de lhe mostrar o quanto a desejava. Tudo perfeito. Menos eu, o avô cantigas, em choque perante uma ausência de reacção do amigo fiel que nunca antes me traíra. Não haveria uma terceira tentativa, convencidos que ficámos da discrepância entre os nossos relógios biológicos e porque nessa altura, idiota, nem me ocorreria aplicar alguma solução de recurso que nos pudesse manter entretidos até vermos o que aquilo dava. Concentrei-me apenas na terrível vergonha, egoísta, do macho incapaz de honrar os seus pergaminhos. Foi talvez o momento mais desastrado da minha vida sexual.

Voltei a deparar-me com esse fenómeno tão imprevisível poucos anos depois. Horas a fio a abrirmos caminho para um acontecimento impossível, assim o julgávamos, pela duração da nossa amizade e suas perspectivas de futuro. Mais umas horas a certificarmo-nos com beijos e carícias que "aquilo" estava mesmo prestes a acontecer. E às três da madrugada, quando cobrimos os corpos nus com o lençol da minha cama, nicles. Valeu-me a ausência do efeito surpresa (é nisto que a experiência de vida muito interfere), o que me permitiu manter a calma, gerir a situação com elegância, empenho e descontracção e depois pedir-lhe na boa duas horinhas de sono para ver se me inspirava. E não é que resultou?
Quando o despertador tocou, duas horas depois, acordei com a surpresa contrária (do tipo duracell) e só parámos para almoçar umas horas depois (ao contrário do que se vê e ouve a torto e a direito, isto não acontece tantas vezes como a malta pinta - ou então tenho tido um azar do caneco e terei que reequacionar as minhas horas de sono). Foi, em antítese, um dos momentos "épicos" do meu historial (isto já é descaradamente conversa de homem, "fiz e aconteci", "não sei quantas horas a abrir" e tal...).

Agora vejam: este tema é terrível de abordar perante homens (mesmo que já lhes tenha acontecido, raramente o admitiriam e acabam por inconscientemente olhar com piedade para o assumido fraco da coisa) e perante mulheres (pelo nosso receio de que nos desdenhem por falta de confiança na capacidade física e anímica para cumprirmos o papel que nos cabe). Porém, trata-se a meu ver do tipo de assunto que não deve morrer no segredo. Até pela informação valiosa que podemos transmitir para referência futura e para evitar recalcamentos injustificados que a longo prazo nos põem a bater mal da cabeça.
Por outro lado, tenho insistido na tecla de que não cultivo assuntos tabu e isso ainda faz mais sentido no âmbito da minha actividade de blogueiro. Mesmo que, como na sequência de postas anteriores, isso implique mais uma dúzia de emails a apelidarem-me de trombeiro (como é que ainda não perceberam, gente bronca, que isso não constitui para mim um insulto?) e/ou desiluda de alguma forma quem possa confundir-me com uma versão informática do Zézé Camarinha.
publicado por shark às 12:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (118)
Domingo, 27.03.05

BILHETE PARA A LUA

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Ainda não sei como embutir música nisto, mas por vezes (re)encontro sons e palavras que ouço e que leio, coisas pouco divulgadas que fazem parte do que sou e que gostaria de partilhar convosco.
Uma das bandas que ouvia com regularidade era a Electric Light Orchestra (ELO), uns tipos que chamaram a minha atenção pelo facto de serem amantes de Ficção Científica e terem meia dúzia de boas malhas para dançar.
É o caso de uma canção dos ELO (que muito ouvi nos anos oitenta) e cuja letra passo a reproduzir para que saibam o que impressionava o tubarão nos anos loucos (e intensos) da adolescência, para lá das rockalhadas que enumerei algumas postas atrás. Faz parte do álbum Time.
Caso saibam como fazê-lo, recomendo-vos que tentem encontrar este som na net. E se conseguirem peço-vos que o partilhem com o Shark, cujo original em vinil já conheceu melhores dias...

TICKET TO THE MOON

Remember the good old 1980´s
When things were so uncomplicated,
I wish I could go back there again,
And everything could be the same

I´ve got a ticket to the moon,
I´ll be leaving here any day soon.
Yeah, I´ve got a ticket to the moon,
But I´d rather see the sunrise, in your eyes.

Got a ticket to the moon,
I´ll be rising high above the earth so soon,
And the tears I cry might turn into the rain,
That gently falls upon your window,
You´ll never know.

Ticket to the moon
Fly, fly through a troubled sky
Up to a new world shining bright

Flying high above,
Soaring madly through the mysteries that come,
Wondering sadly if the ways that led me here,
Could turn around and I would see you there,
standing there

Ticket to the moon
Flight leaves here today from satellite 2,
As the minutes go by what shall I do,
I paid the fate but what more can I say,
It´s just one way.

Ticket to the moon
publicado por shark às 19:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (47)

AS RÉDEAS NA MINHA MÃO

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De há uns tempos a esta parte tenho sido confrontado com as diferentes armas de arremesso que a vida utiliza para me condicionar. Compromissos que assumi à luz de determinados valores e de factores que influenciam decisões, transformados de quando em vez em instrumentos de inibição das minhas escolhas.
É a velha questão dos preços a pagar. Um passo em falso e lá estamos nós a receber a factura. Vive-se com isso sem problemas enquanto não se atinge um ponto de saturação.
E quando este surge no horizonte, devemos preparar-nos para uma revolução nas nossas vidas.

Eu vou dar início à minha. Começo por onde posso, por onde tenho meios e força para pegar. Por onde o risco corrido é dos maiores o que menos me preocupa. É um processo que já enfrentei, mais do que uma vez, e envolve ganhos e perdas semelhantes aos que já conheci. É a revolta que recuso deixar morrer porque sempre me ajudou a reagir nos momentos mais complicados do caminho. E não se trata de uma revolta no sentido pejorativo da palavra, não é de sentimentos negativos que vos estou a falar. Estou a falar daquela chama que deve apoderar-se de nós quando a mudança deixa de ser necessária para se assumir imperiosa. Falo da vontade e da determinação para darmos a volta ao texto quando os sinais se acumulam nesse sentido. Antes que morra a força da revolta no nosso interior, isolada entre o conformismo, a apatia e a ameaça de futura mas inevitável capitulação.

Eu gosto dos meus dias com prazer. A fazer o que gosto, a gostar de fazer o que preciso, a precisar de me sentir feliz e realizado e a estender essa boa onda a outras pessoas. Nada de novo, afinal. Então, o dilema nem se coloca e preciso apenas de proceder aos ajustamentos necessários para que tudo se encaminhe mais no sentido da filosofia de vida que reconheço como certa. À minha custa, e nunca de terceiros, como sempre fiz questão de acautelar.
Claro que isso implica riscos a correr, decisões difíceis a tomar, novos desafios a assumir e requer coragem e bom senso. Sem fugas mas com transições. Deveras estimulante para um homem como eu me aprecio.

E também é clara a distância que me separa dos objectivos que agora tracei e o cuidado que terei de manter para agitar as águas apenas o bastante para as filtrar do entulho, para contrariar a corrente e a ondulação que me afastam da costa, para longe do que quero ser. Já não posso influenciar a maré, pelos condicionalismos a que fiz menção e outros, mas posso remar contra ela recorrendo à mente e ao coração. Duas forças poderosas, combinadas. Alimentadas pela revolta simpática a que fiz alusão, a mesma que tento incutir nas pessoas que se cruzam no meu caminho e não escondem a sua força interior, quantas vezes abafada a custo, como uma frágil rolha de cortiça no cone de um vulcão mal adormecido. Ao fim de demasiado tempo, e o tempo não deixa de correr enquanto nos acomodamos, a rolha calcifica e o vulcão adormece de vez.

Recuso envelhecer dessa forma e partilho com as pessoas que me interessam esse “bichinho” da revolução que, cedo ou tarde, todos temos que efectuar para colocarmos de novo a nossa vida nos melhores carris. E às vezes é tão simples quanto limar algumas arestas, tirar da frente dos olhos os obstáculos a uma visão cristalina do que nos sonhámos e do que estamos a ser afinal. Outras vezes não. Mas vale sempre a pena, pela pica que nos dá sentir nas mãos as rédeas de parte do nosso destino e podermos embicar a galope pelos trilhos que a razão não bloqueia, a emoção muito anseia e a intuição sempre aconselhou.
publicado por shark às 19:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (48)
Sexta-feira, 25.03.05

ALGUM AMOR EM MUITAS PALAVRAS

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Encarcerada na masmorra que mandara construir, a princesa Alexandra não se permitia ser feliz. O príncipe, estúpido, não se ralava ou não percebia que no coração de quem o amava as muralhas cresciam sobre os alicerces do que se transformara, aos poucos, na mais profunda desilusão.
Partia para as campanhas e outras patranhas sem ligar ao olhar triste que ela deixava escapar, à socapa, por entre as grades da sua prisão interior. À tristeza da despedida, porém, sobrepunha-se o desencanto. O cadáver da saudade jazia, mais os dias com sorrisos e as outras recordações, numa pequena caixinha que Alexandra espreitava, de vez em quando, para não esquecer o amor.

Mas a caixa, cada vez mais repleta de insultos e de negligência, de desgostos e de carência, já mostrava apenas as provas irrefutáveis que a condenavam à prisão.
Um dia, a princesa deixou de espreitar.
Esquecido no fundo, coberto pelos pedaços de dor, era a força que se esvaía na memória que se esbatia daquele amor em extinção.
Um dia, a princesa deixou de saber amar.

Algum tempo passou. Alexandra, livre do seu carcereiro, cuidava do reino com firmeza. A força que a movia, imensa energia, despontavam aos poucos em pequenos pontos de luz que sorriam no seu olhar. Espreitava o mundo exterior, cada vez mais, por entre as janelas que a custo se convencera a abrir nas paredes do seu cativeiro. Mas permanecia sozinha, com medo. Recolhia-se num canto para escapar à emoção, batia em retirada para junto da caixinha que ainda abraçava, por vezes, mas já nem conseguia abrir.

Assustou-se deveras quando o viu diante de si. Não contava com uma intrusão. Gostava da companhia, mas afligia-se com a ideia de partilhar o cárcere com um simples plebeu.
Por diversas vezes o expulsou. Reforçava as entradas, dobrava as sentinelas, mas ele sempre encontrava uma forma de entrar.
E fazia-lhe companhia, conversava, ouvia e depois partia pelo seu pé. A princesa, perturbada, sentia-se encantada com as palavras e os gestos daquele desconhecido que a procurava, confiava na sua intuição mas não sabia como proceder.

Um dia, por insistência do plebeu, a princesa reuniu toda a sua coragem e despejou a caixinha sobre o tampo de uma mesa. Trémula, afastou com os dedos as tristezas e os medos e reencontrou uma réstia do amor que há muito deixara de ver. Iluminou a masmorra com o sorriso que lhe dedicou, mais o carinho estampado na doçura do seu olhar.
Por fim cedeu. Mas o beijo que lhe deu, intenso, atemorizou-a e suscitou-lhe uma interrogação.
“Quem sois vós, plebeu, e como entrais nos meus aposentos como se nenhuma porta pudesse impedir-vos de o fazer? Sois um feiticeiro?”
Era apenas um exímio serralheiro, mas por mais que o beijasse não conseguia transformá-lo no sapo que temeu. E corajosa insistia. E ele, paciente, sorria e o medo parecia escapulir-se por entre as paredes que ruiam em seu redor.

Mais tempo passou.
A caixinha, mais cheia de alegria e menos de solidão, abria-se agora ao olhar de Alexandra como uma imagem de esperança, no campo florido onde celebrava, todos os dias, o dia memorável em que um serralheiro desconhecido a libertou dos seus grilhões. E a reconquistou para o amor.
publicado por shark às 21:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (39)
Quarta-feira, 23.03.05

LUA NOVA

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Se alguém me dissesse há vinte anos atrás “vais ver que é bestial ser quarentão”, desatava a rir e retorquia com um “pois, está bem...”. E essa postura arrogante de quem se imagina fresco e jovem para toda a vida, o que mais tarde os factos desmentem, é uma das explicações possíveis para esta sede de viver que faz toda a diferença.
Essa diferença faz-se sentir em todos os domínios da minha existência. Amo mais tudo o que de bom a vida tem para me oferecer.

Ter quarenta anos implica termos chegado ao ponto de que falávamos quando eram óbvias algumas limitações, ao nível da maturidade e da experiência de vida e noutros aspectos que dependiam da condição económica e social de cada um. Com o corpo a reagir melhor aos estímulos e a mente menos condicionada por várias pressões, uma conjugação poderosa, a vida adquire um novo e fascinante significado. Até porque a noção da passagem do tempo, mais presente, obriga-nos a encarar de outra forma as oportunidades que nos surgem ao longo do caminho. Mais do que importantes são valiosas, pois o ritmo acelerado que o dia a dia impõe e as cicatrizes de algumas mazelas que limitam, ou mesmo inviabilizam, o pleno usufruto das coisas boas da vida tornam uma pessoa mais atenta e disponível quando essa hipótese rara se concretiza. Ou deviam tornar.

Este tipo de discurso, embora vindo de quem vem, não implica o elogio incondicional da dinâmica “bute lá”. Por boas oportunidades entendo as que encaixem no perfil de cada um de nós, em cada sensibilidade e vocação, e não me refiro a nenhuma área específica. Por outras palavras, não é só de sexo que estou a falar. Mas também. E o sexo é muito melhor aos quarenta. Da fase do “provar algo a alguém (ou a nós próprios)” à do “provar algo de alguém (e a recíproca é verdadeira)” vai uma distância considerável. E esta última não invalida a primeira. O corpo reage como há vinte anos atrás no entusiasmo e acrescenta os estímulos e as sensações de quem sabe o que procura e como o alcançar. Faz todo o sentido para mim e transmite-me a confiança necessária para que tudo corra pelo melhor.

Mas também o amor tem maior potencial nesta fase da vida. É possível desenvolver uma paixão adolescente, arrebatada, mas que hoje conseguimos controlar nas proporções com a ajuda das referências que coleccionámos e das condicionantes que enfrentamos. Sem perdermos o norte às nossas prioridades e contudo, entregues de corpo e alma ao enlevo por outra pessoa. De uma forma serena ou mesmo pueril, mas libertos da ansiedade natural dos dias do acne e da precipitação. Enquanto a vida deixar.

E não ficam por aqui as mais valias que descubro a cada dia no meu trajecto rumo ao estatuto de quarentão. Darão talvez origem a outras postas, pois gosto de trocar impressões convosco acerca das coisas que me preocupam ou me seduzem.
Não me espanta por isso que os meus quarentas venham a ser bastante marcados pela blogosfera e pelas pessoas que como eu a fazem.

Partilho convosco estas conclusões para rentabilizar uma das facetas que um blogue nos faculta, dar-me a conhecer a quem me lê, e para proporcionar-vos uma oportunidade de dizerem de vossa justiça e assim percebermos todos um pouco melhor de que massa somos feitos e em que medida ela se aproxima da substância das outras pessoas.
No fundo, um ponto de partida decente para as relações que entre nós se estabeleçam por esta via ou a partir dela. Sejam elas do tipo que forem, independentemente da sua duração.
A amizade e o afecto, tal como os entendo nos dias que correm, encontram-se na blogosfera com a mesma credibilidade e grau de confiança do que numa mesa de café. Apenas, como a Mar muito bem refere na sua posta de dia 17 do corrente, começam ao contrário.
Se calhar como a própria vida deveria começar.
publicado por shark às 12:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (106)
Segunda-feira, 21.03.05

A POSTA NAS MANTAS

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A ideia nasceu na caixa de comentários. Alguém mandou a sugestão para o ar, como quem não quer a coisa. E a malta agarrou-a, com um entusiasmo adolescente. A ideia, tal como a interpretei, era recriar a magia do diálogo virtual que se desenvolveu em torno da Posta Romântica (arquivo de Janeiro) na sua componente analógica. Uma espécie de tira-teimas à empatia que se gerou e não dava sinais de se esbater.

Num cenário fantástico, o Monte das Diabrórias, em pleno Alentejo (a terra santa), a Mar e eu vestimos a grata pele dos anfitriões de um acontecimento que me acompanhará na memória até ao derradeiro dos meus dias.
Nessa pele, recebemos amigas e amigos cujos olhares abafavam a natural expectativa e os medos que a todos nos submetemos nestas circunstâncias. Mas não escondiam a essência das pessoas de bem que tivemos o privilégio de ali reunir, tão empenhadas como a nossa dupla hortícola (alfacinha alentejana) em abraçar a oportunidade de viver um momento especial. E foi.

Especial na absoluta ausência de desilusões. Especial na fartura de surpresas agradáveis. Especial também na profusão de sorrisos e de gargalhadas, de diálogo permanente entre quem há meses conversa mas não deixou de ter algo de novo para dizer. Como só os amigos conseguem.

São coisas difíceis de transmitir a quem não presenciou (e muito citámos e lamentámos as vossas ausências, ò rapaziada “vocês sabem de quem estou a falar”). Sem nada a ver com o ambiente que conheci em ocasiões similares no pretexto. Vi a alegria, vi a amizade, vi a verdade e a beleza em cada um de vós, ò rapaziada “vocês têm mesmo que saber de quem eu estou a falar e se não sabem, vem mais abaixo a listagem”.
Senti emoções com as quais não contava. Disputei um duelo (e na minha perspectiva ganhei, ò chavalo), dedicaram-me uma canção (Animals, dos Pink Floyd – uma das minhas eleitas), partilharam comigo alguns segredos, com a confiança que só a expressão de um rosto ou a entoação de uma voz podem afiançar. E mais, muito mais, coisas que não cabem nesta posta-lençol.

São imensas as referências que recolhi deste encontro das mantas que abriu a caixa de pandora da nossa vontade de estarmos juntos com quem nos faz sentir tão bem. São intensas as imagens que me embalam o dia da ressaca, o dia em que os excessos me obrigam a lembrar os quarenta aí à porta, não no entusiasmo e na inocência dos afectos que experimentei mas apenas nas mazelas de um corpo menos resistente às mudanças de ritmo e de temperatura. Senti-me um puto do liceu no nosso encontro das mantas. E ainda o sinto assim, quando (a toda a hora) recordo alguns episódios mais marcantes desta experiência feliz que vivi.

Nunca conseguiria aqui exprimir o quanto mais vos estimo agora, o quanto me sinto agradecido pela entrega, pela boa disposição, pelo amor que só as amizades mais sérias sabem reflectir nas palavras e nos gestos com que me brindaram.
E pela vontade irreprimível de voltar a estar convosco em breve (agora namelixem, ò distintos sucessores), gente boa a quem de bom grado dedicaria uma bela canção se soubesse como a meter no blogue sem dar cabo desta traquitana:

Mar – Espelho Mágico

Azul – Um Pouco Mais de Azul

Vague – La Maree Haute

Hipatia – Voz em Fuga

Mi – O Ilegal

Descompensado – O Ilegal

Pedra – Pedra a Pedra

DerFred – Charquinho

PN – Fumos

JotaQuê? – Casa de Alterne

João Pedro da Costa – As Ruínas Circulares

M. (a Mar pôs assim) – Desertinha para blogar (para quando a primeira posta?)

(e apesar de mais fugaz, a vossa presença foi uma agradável surpresa, Maria Branco e Pedro)

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publicado por shark às 23:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (77)

ÀS PÁGINAS TANTAS

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As palavras rompiam caminho por entre o canavial, guiadas pelo vento e pela vontade de alguém se fazer ouvir. No interior da cabana de madeira, casinha de bonecas, um velho declamava poesia. Assim espantava a solidão e combatia a loucura que tantas vezes o perseguia, nos sonhos acordados pelo frio da madrugada e pela dor de uma saudade que o atormentava. Chorava e ria, gritava as emoções de um estranho feito amigo, de um poeta desconhecido. Gostava de ler o amor.

Quem o ouvia era o cão, a única companhia que restava, fiel. Focinho esparramado no soalho, orelhas levantadas em sinal de atenção. Nunca se distraía, o rafeiro, convertido à poesia na voz do dono, às palavras que entendia pelo tom. Era o som que o fascinava, uivava de prazer. Uma vez por outra, adormecia. Para acordar de seguida, com um berro que anunciava a chegada de um ponto final. Parágrafo.
Alguns minutos de pausa, silêncio relativo, um cigarro à janela, mais um copo de três. Tinto.
Um livro inteiro declamado até quase ao nascer do sol que o afugentava para debaixo dos lençóis, para a escuridão. Recusava o usufruto da luz. Em memória da companheira que tanta falta lhe fazia e cujo rosto o astro-rei já não podia iluminar, fugia. E recitava as leituras que ela lhe oferecera, uma vida inteira de declamação que o velho substituía, rasgando o silêncio nocturno com estrofes sem as quais não conseguia sobreviver. Gritava o que lia, mas a única voz que ouvia era a dela. Gravada como banda sonora para os livros que lhe deixara, uma herança forçada.

O rio que corria próximo, nem trinta metros adiante, beijava a margem que o acolhia e o guiava, que delimitava o espaço das águas cristalinas, o melhor caminho para a descida ininterrupta até ao reencontro na foz com a força selvagem de um oceano sem fim. Eterno romance que a natureza recriava, a cada instante, nas simbioses que fomentava e no cariz perpétuo das interligações, uniões que lhe sublimavam a beleza e evidenciavam uma busca incessante de perfeição. Como eram perfeitos esses momentos de serena contemplação da vida que acontecia, que fervilhava naquele rio, sentados na margem os dois. Como um só.

Essa manhã anunciou-se envergonhada, cobrindo a casa isolada com um manto cerrado de nevoeiro. Cigarro apagado num canto da boca, sem fôlego para o reacender, o velho não resistiu ao apelo da luz e deixou-se ficar. Ficou prostrado pelo vinho, pela fadiga e pela vontade de acabar com o insano ritual de luto profundo que nada de bom produzia.
Esforçou-se por arrumar as ideias, por encontrar uma alternativa que lhe preenchesse o buraco negro, o vazio que acabara de criar com aquela forma de pecado. Assim o sentia, quase como uma traição. E aprendera a amar a poesia, não lhe ocorreria renegar a sua tábua de salvação. Flutuava nas palavras, como um náufrago, salvo à força da sua vontade de perecer por uma fada-madrinha. Ou por um anjo, talvez...
Vislumbrou nesse instante, como uma premonição gravada em relevo na espessa tela de neblina, a imagem de um velho sentado numa cadeira a escrever. Poesia, intuiu. De pé, atrás do escriba, a figura elegante, difusa, de uma bonita mulher. A sua. Que lhe acariciava os cabelos grisalhos enquanto lia a emoção no papel.
O rosto do velho iluminou-se num sorriso. Num assomo frenético de energia, abriu todas as janelas da casa de par em par. Depois sentou-se na cadeira e começou a escrever poemas que ela lia, feliz outra vez, livre de todas as dores, dos grilhões que o oprimiam no corpo que abandonou, tombado sobre o parapeito da janela.

Poucos anos depois, alguém juraria ter ouvido palavras de amor, arrastadas pelo vento, sussurradas pelo canavial.
E o uivo distante de um cão, assustadoramente parecido com o daquele que encontraram um dia, morto de fome na cabana onde permaneceria até ao fim. Por não conseguir viver privado da voz que o ensinou a amar a poesia.

(Hoje é Dia Mundial do quê?)
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publicado por shark às 10:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (26)
Sexta-feira, 18.03.05

COMO TE BEIJO

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Entraram no apartamento como dois amigos. Riam muito, como sempre acontecia quando a sua relação de vizinhança lhes oferecia uma oportunidade para conversarem.
Mas nesse dia encheram o edifício com o eco das suas gargalhadas, depois de uma surpresa inesperada num momento crucial.
Encharcados, beijo interrompido por um banho frio e inesperado, buscavam toalhas mas também os corpos pareciam reclamar-lhes um momento de procura. Os corpos buscavam o beijo que as circunstâncias pareciam negar.
Quando pararam de rir, o silêncio instalou-se e seriam os olhos a prosseguir o diálogo.
Ele sorriu e arriscou uma proposta que lhe repicava na mente como os sinos de todas as igrejas do mundo, uma loucura.
- Vamos tomar um duche?
E ela, mais surpreendida consigo própria do que pelo arrojo daquele convite, aceitou.

A água quente que os molhava agora era o único som que se ouvia, para além das batidas aceleradas de dois corações. Lavaram os corpos mais as incertezas e as hesitações, sem palavras, apenas os toques suaves na pele e os olhares cada vez mais cúmplices que se trocavam.
Ele tirou-lhe das mãos as toalhas, pousou-as no lavatório e segurou-lhe a mão e puxou-a para junto do espaço que ela preferia. Deitou-a sem pressas, passou-lhe os dedos pelos cabelos e o beijo interrompido recomeçou. Gota a gota. Até lhe encontrar os lábios que procurava e neles afundar o instrumento do seu desejo, a boca desnecessária para falar naquele momento de paixão.

Interminável o beijo, insaciável o desejo, corpo dela agitado, um sismo desenhado na pele pela marca de mil e um arrepios. Até num grito lhe transmitir o momento certo para parar.

E ele, embora pronto para um novo capítulo daquele conto que escrevia com tipografia de ferro em brasa no flanco da imaginação, ergueu a cabeça, pousou o queixo no baixo ventre da sua amante por cima das suas mãos crispadas e deixou-se ficar, por instantes, a seguir-lhe no rosto o rasto sereno de um resto de prazer.
publicado por shark às 14:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (33)
Quinta-feira, 17.03.05

aDeus

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Senti-me só naquela sala cheia de gente. Ouvia os sons, as vozes distantes de muita conversa fiada, diálogo de ocasião, mas não entendia o que diziam ou o que não queriam dizer.
Rostos anónimos lançavam-me olhares ocasionais, inexpressivos. Como se eu não estivesse ali. E não estava, de facto.
Vagueei pelo salão como um holograma transparente, personagem de fantasia num cenário irreal. Eu não era o protagonista. Talvez nem fosse sequer figurante daquela película muda que o destino me exibia, purgatório imerecido, assim o entendia.
Buscava respostas sem conhecer as questões. Eternamente na dúvida, sem perceber o que fazia ali e porque não estaria noutro lado qualquer. A deixar por fazer coisas diferentes, para quebrar a monotonia de uma existência absurda.
Ninguém me ouvia gritar, ninguém me acudia. A minha presença naquele lugar era menos que indesejada ou pouco mais do que indiferente. Por quanto tentasse, nunca conseguiria verdadeiramente estar ali. Num mundo que não era o meu, num tempo tão difuso que a minha parca compreensão da sua passagem não conseguia abarcar. Sentia-me só e queria saber-me quem. Mas não me sabia quando, nem porquê. Tinha cara de ponto de interrogação. E alma de caixeiro-viajante, sem nada para vender. Estava bera, o negócio de ser.
Cada vez era menos coisa alguma. Parecia afastar-me da realidade a que julgava pertencer, de forma proporcional ao meu esforço de integração. Para onde, não o sabia. Contudo, o caminho que tomara rumava para longe dali e dos outros lugares sem nome onde estivera ou não. Caminhava sempre no sentido oposto do ponto em que acreditava encontrar-me, andava perdido. E não fazia sentido andar às avessas, ou perder o norte a alguém que não existia. Seria?
Precisava pensar. Alinhar as ideias, estudar o guião. Desconhecia o papel que me cabia na encenação, como poderia representar? Se ao menos distinguisse o cariz da trama, vestiria o personagem em conformidade com a ocasião. Assim, palavras tolas, orelhas moucas, falava sem sentido, como um actor de comédia descontrolado no velório da sua pessoa mais querida. Sentia-me despropositado, também.
Recordei o sentido de uma frase de um filósofo radical alemão. Não há grandes homens, apenas bons actores a desempenharem o seu próprio personagem. Uma farsa permanente, a existência, tendia a concluir. Nas coisas sem sentido descobriam-se por vezes os nexos que faltavam. E desvendavam-se mistérios supostamente ocultos por mera distracção de quem os analisava. Pareciam simples as respostas para quem sabia o que perguntar. Mas a quem dirigir as questões?
Nunca a todas aquelas figuras de papel desenhadas numa plateia da vida específica, num dado momento, numa outra dimensão. Elas não saberiam responder, não entendiam as perguntas. Assistiam simplesmente ao desenrolar das tragédias das suas próprias vidas desperdiçadas a ignorarem o que teriam de mais importante para viver. Espectadores desatentos de muitas histórias sem final feliz. Fantasmas, no fundo.

Fez-se silêncio no salão quando as luzes se apagaram. Só o palco resplandeceu, com as cortinas de cetim a afastarem-se graciosas, a abrirem caminho para o actor principal. E esse actor era eu, tal como me conhecera.
Os aplausos soaram, como se numa fracção de segundo eu tivesse interpretado fielmente a minha passagem efémera pelo seu mundo. Choraram e riram comigo, mas partilharam coisa nenhuma.
Depois, o pano caiu. Eles permaneceram na sala, mal os ouvia à distância, na mesma cadência de discursos vazios, sempre à espera da próxima actuação.
E eu desapareci numa cortina de fumo, parti em digressão para outros instantes em busca de algo. À procura de mim.
publicado por shark às 10:22 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (34)
Quarta-feira, 16.03.05

ALGUM AMOR EM POUCAS PALAVRAS

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AS VOLTAS TROCADAS

Mal nos falávamos, excepção feita aos cumprimentos da praxe, à entrada e à saída do local de trabalho comum. Cada um na sua sala, nem mesmo as nossas funções se cruzavam. Era um conhecimento “de vista” que me bastava para saber que ela era uma mulher muito bonita e pouco mais. O resto sabia-o pela boca de colegas, embora pouca credibilidade atribuísse à actividade cusca que grassava.
Diziam que era casada com um bruto que a engravidara alguns anos atrás e que “até parecia bom moço, no início”. Não era.

Um dia ela apareceu, aos vinte e poucos anos de idade, de óculos escuros em dia nublado. Todos adivinhámos o que estava em causa e ela acabaria, entre lágrimas, por exibir o estado em que o pai do seu filho lhe deixara um sobrolho. Ofereci-me, tal como outros colegas, para tomar uma atitude mas ela não aceitou qualquer tipo de ajuda. Deixei cair o assunto no ficheiro das preocupações adormecidas.

Pouco tempo depois, e pela primeira vez, o nosso ofício seria conjugado para uma missão específica com vários dias de duração. Foi num desses dias que conversámos por mais tempo pela primeira vez e ouvi da sua boca os pormenores que, na maioria, coincidiam com a versão das conversas de café pelas costas. E foi também num desses dias que ela precisou de um ombro para chorar, tristeza amplificada pelas saudades do filho, e foi no meu que verteu as lágrimas acumuladas. Depois beijámo-nos e demos início a vários dias de intimidade e de intensa paixão.

Fiz tudo o que estava ao meu alcance para que ela se sentisse amada. Ao ponto de me apaixonar perdidamente por ela. Mas o trabalho em equipa chegaria ao fim e a questão colocou-se de imediato. Ela nem hesitou. Regressaria para os braços do seu homem, o que a traía e maltratava. E eu, estupefacto, arrisquei perguntar-lhe porquê.
Com um sorriso triste, ofereceu-me uma madeixa do seu cabelo, beijou-me os lábios pela última vez e respondeu:
“Eu amo-o muito e não consigo viver sem ele”.
publicado por shark às 10:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (57)
Terça-feira, 15.03.05

NAS COSTAS DOS OUTROS

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Ontem, enquanto aguardava um amigo numa esplanada do Parque das Nações, reencontrei uma pessoa conhecida que já não via há algum tempo. Uma antiga colega de escola, com quem nesse tempo havia feito todo o sentido cultivar a amizade e embarcar em episódios pontuais de intensa paixão. Bonita e inteligente, a minha amiga (tal como a lembrava) era uma pessoa de bem e tinha-a em elevada conta, mesmo já decorridos alguns anos sobre o nosso último contacto.

Confesso que fiquei feliz por reencontrá-la e admito que me agradou recordar com ela alguns momentos magníficos que vivemos a dois. Em meia hora de conversa recuperámos a proximidade perdida, pois tudo batia certo com a imagem que ambos retínhamos um do outro. Excepto algumas alterações próprias do processo de amadurecimento, sulcos que a vida escava em algumas das nossas características sem deformar a essência da personalidade de cada um.
Pelo menos, era o que as nossas palavras faziam depreender.

No entanto, eu lembrava-me bem do aspecto que mais me marcara na jovem que ela era: a sua lealdade incondicional às pessoas que considerava suas amigas. Virava-se do avesso quando alguém se metia com “os seus” e, apesar de baixinha, quando lhe saltava a tampa era mesmo a abrir. O meu respeito por ela, a primeira das razões que nos aproximaram anos atrás, desenvolvera-se a partir de uma situação na qual um conhecido seu tentava emporcalhar a imagem de uma pessoa das relações da minha amiga.
No final do diálogo a que assisti, o fulano abandonou a cadeira com o rabinho entre as pernas e com a certeza de que dali nunca mais levava coisa alguma. Chanfrado, aplaudi a garota de pé, no meio do bar, e depois apresentei as minhas desculpas por ter partilhado a conversa que decorreu em timbre elevado o bastante para se ouvir em toda a sala.
Foi assim que a conheci.

Quando o meu amigo chegou, outra surpresa. Já se conheciam. Passámos a conversar a três, acerca das voltas que a vida dá para se cruzarem os nossos caminhos e tentámos descobrir os amigos comuns que pudessem entretanto existir. E eles descobriram um, ao qual ela se referiu como uma excelente pessoa por quem nutria imenso carinho e consideração. Pela descrição pareceu-me um gajo porreiro, mas por infeliz coincidência o meu amigo detestava o rapaz e passou a destilar o seu azedume. Ridicularizou-o, até. E ela, a anos-luz da mulher que eu recordava, sorriu e em momento algum tentou acabar com aquela situação que me soava desconfortável mesmo sem conhecer o protagonista.

Inventei uma desculpa e deixei-os na mesa, após algum tempo a assistir em silêncio aos termos deselegantes que o meu amigo, certamente teria as suas razões, empregava na descrição do amigo dela. Caiu-me mal, vê-la a sorrir da maledicência dirigida a uma pessoa que afirmara prezar e o meu filme não era aquele com toda a certeza.
Por isso os deixei, sem ficar com um contacto dela para utilização futura.

Não cultivo amizade com pessoas incapazes de entenderem que a falta de lealdade é uma forma de desrespeito pelas pessoas que em nós confiam. Nem me agarro às recordações felizes para perpetuar ilusões.
A amizade séria não se compadece das grandes como das pequenas traições. Nas costas dos outros, lá está, vejo as minhas...
publicado por shark às 12:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (31)
Segunda-feira, 14.03.05

CONTAS DE CABEÇA

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No trailer de um filme prestes a estrear, o personagem representado por Will Smith fornece tutoria a um fulano acerca da melhor abordagem a seguir quando chega a hora de conquistar o primeiro beijo a uma mulher. "Avanças noventa por cento e deixas-lhes os restantes dez por cento para percorrerem elas o resto do caminho". Não terá sido exactamente desta forma que ele o disse, mas a ideia era precisamente esta.
Sorri e dei comigo a pensar nesta questão da estratégia que todos tentamos desenvolver para lidar com tais situações. Claro que existem contextos onde as coisas não passam por qualquer tipo de esquema pré-concebido, mas é inegável que cada um de nós possui a sua própria medida para os avanços e os recuos. É nesse aspecto que concentro a atenção desta posta.

Cada pessoa tem uma noção de como deve (ou de como quer) reagir perante um(a) amante potencial. É nesse sentido que falo em estratégia. Por exemplo, existem homens que quando avançam é a cem por cento. Nem consideram a hipótese de deixar margem a hesitações. Esta forma radical de fazer as coisas só resulta, no entanto, se estiver reunida uma feliz conjugação de factores. Ou dá para o torto e de uma forma nem sempre agradável para os protagonistas.
Outros homens, pelo contrário, só avançam dez por cento e expõem-se a fracassos evitáveis. Porque do outro lado está outra pessoa, uma mulher e, regra geral, condicionada pelos seus medos e pelas suas próprias reacções a este tipo de iniciativa. Com noventa por cento do caminho por percorrer, dificilmente se contará com a colaboração entusiástica da hipotética beijada.

Isto parece simples de analisar, como tudo o que se analisa à distância. Mas no momento das grandes decisões, quando tudo em nós grita que está na hora de tomar uma atitude, o caminho a percorrer pode estar (e nas pessoas com bom senso deve estar) dependente da pessoa alvo desse avanço e do contexto global que proporcionou a ocasião. Até porque nem sempre os sinais que interpretamos jogam certo com as intenções do emissor. E quando se equacionam as coisas desta forma, as teorias dos "entendidos" perdem alguma consistência.
Se impomos às outras pessoas o nosso modelo de comportamento, a nossa percepção da distância a percorrer (em centímetros e em intimidade e confiança) ao contacto físico que pretendemos, estamos a desrespeitar as suas decisões e as suas fronteiras. Estamos de alguma forma a violentar essa pessoa, que até pode ser apanhada de surpresa e perder a capacidade de reacção pelos piores motivos. Podemos deitar tudo a perder.

Este equilíbrio não é fácil de estabelecer e até existem casos nos quais o avanço destemido é a melhor receita. Porém, esse tiro no escuro pode desviar-nos a pistola para um pé. O nosso ou a da outra pessoa, se de alguém fragilizado se tratar. É essa, no meu entender, a justificação razoável para a prudência (mesmo quando esta se possa revelar excessiva). Porque outras se intuem facilmente a partir do diálogo (embora nem sempre este denuncie determinadas imprecisões) e de outros indicadores menos fiáveis mas fundamentais na interpretação das intenções de pessoas mais tímidas ou temerosas (ou simplesmente não interessadas em nós nessa perspectiva).
Existem riscos que não se devem correr, mesmo hipotecando a oportunidade que aparentemente se configura. É embaraçoso e confrangedor para ambos os intervenientes quando algum se vê obrigado a travar as investidas do outro, sobretudo quando já existem laços de amizade a preservar. E o desconforto instantâneo pode ser a menor das consequências de tamanha trapalhada.

Tudo isto, porém, depende ainda de factores absolutamente irracionais e imprevisíveis. O amor e a paixão nunca se prestam ao estatuto de ciência exacta, precisamente porque nem sempre reagimos como a nossa razão recomenda. Neste tipo de assunto apenas ambicionamos mitigar um pouco a nossa ignorância, quando nos atrevemos a teorizar.
Por isso mesmo e na minha perspectiva, aquilo que o Will Smith advoga no trailer que citei não passa de uma chalaça inócua e como tal deve ser entendida. A medida dos nossos avanços e recuos define-se pelo nosso carácter, pelas circunstâncias concretas em que nos confrontamos com tais decisões e, acima de tudo, pelos mecanismos de protecção que as contingências da vida nos instalam. E isto vale para homens como para mulheres, pelo que o cariz absolutamente aleatório de demasiadas variáveis é sempre o dado mais adquirido da equação.

Com tantas contas de cabeça nunca cheguei a conclusão alguma. E sem ter a mínima noção se tomei a decisão mais acertada quando esta me competiu, já perdi a conta aos beijos que ao longo do caminho deixei por dar.
Às vezes, quando me vejo numa fase da vida da qual a estatística mais favorável indica que mais de metade já "ardeu" e da outra metade não poderei usufruir com o presente potencial, dá-me vontade de mandar às urtigas a cautela e de arriscar um pouco mais. Mas depois olho para a minha pila, esse dinâmico mas obtuso rolo de carne, e não consigo convencer-me a confiar-lhe as minhas escolhas. Mesmo que em casos pontuais se venha a confirmar ser ela a verdadeira e única detentora da razão, a existir uma.
publicado por shark às 10:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (71)
Sábado, 12.03.05

SÓ VIM LIMPAR O PÓ...

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"Isto da dieta blogueira dá-me cabo da mona."

...e também já estava farto de ver sempre a mesma coisa, quando aqui venho roer-me de saudades.
Entretanto aproveito para vos anunciar que estou em iminente ruptura com o MAJ-BAMG (Movimento Até Já - Blogues Alma Minha Gentil) e não tarda muito devolvo-lhes o cartão.
Recebam os votos de um excelente fim-de-semana!

(Bife de pau bávaro, Maria Árvore???)
publicado por shark às 11:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (44)
Quarta-feira, 09.03.05

A POSTA ATÉ JÁ

Às vezes fico com a ideia de que nunca sei dar os passos certos nem consigo interpretar os passos que as outras pessoas dão. Como se num dia tudo fosse claro, simples de entender, e no dia seguinte as certezas se convertessem num borrão.
Apesar de ser um tipo com a obrigação de já ser impermeável à maioria das desilusões, não sou. E intimida-me a forma como algumas pessoas reagem aos meus problemas (com indiferença), às minhas limitações (com agressividade) e às minhas iniciativas (com receio evidente ou sem uma reacção que eu possa interpretar de alguma forma).

Nunca serei uma espécie de calimero, pois também já reuni ao longo da vida muitas evidências em sentido contrário e não me cai bem a pele de coitadinho. Porém, espantam-me e deixam-me algo desnorteado a frieza, as meias tintas e a insensibilidade com que tanta gente me presenteia. Penso no assunto porque gostava de assumir as minhas culpas no cartório. Com o mal dos outros posso eu. E tento analisar o que há de errado na forma como digo ou faço as coisas para suscitar algumas atitudes tão hostis e algumas ausências tão perturbadoras da explicação que se impõe.

Não consigo ainda adivinhar o que vai na alma dos que lidam comigo. Talvez mais alguns anos de maturidade possam colmatar essa falha na minha perspicácia. Mas conheço as minhas motivações e faço o possível por transmitir de forma inequívoca tudo quanto a minha mente produz. Deveria ser o bastante para me garantir alguma imunidade, alguma tolerância e alguma compreensão. Mas não é.
Basta um passo em falso ou uma hesitação para me tratarem como um gajo que nunca merece perdão. E se falo em alhos, respondem-me com bugalhos e não consigo tirar conclusões, ficando entregue à dúvida e à especulação.

E isso tem-me acontecido acima de tudo nas relações com a malta da blogosfera, que não compreendo hoje o que afinal esperam de mim.
Por isso, preciso de fazer uma pausa como o Eufigénio, para organizar a vida e as ideias e dizer-vos até já.
publicado por shark às 10:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (45)
Terça-feira, 08.03.05

MAPA DA VAGINA II

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Onde fica? Como se chama? Parece-se com o quê? Hoje é dia de quem?

Ainda a propósito de um assunto que está sempre na ordem do dia, julguei oportuno abordá-lo numa posta precisamente porque os indicadores revelam uma grande sede de informação acerca da dita cuja.
E a dita cuja é a vagina. Basta o nome para suscitar de imediato algumas questões que até se podem interligar em teoria com outras que nem parece terem nada a ver. Vagina é a designação correcta, oficial, mas está longe de reunir o consenso generalizado. Aliás, chamam-lhe tudo e mais alguma coisa. Mas nem sempre lhe chamam coisas que goste de ouvir chamar-lhe.

O meu problema reside na obsessão pela elegância, sobretudo quando estão em causa conceitos, realidades tangíveis ou designações relacionadas com os meus interesses mais relevantes. Vagina não é um termo feliz pois soa frio e casual. Como se no dia em que resolveram dar-lhe um nome alguém perguntasse: “Ò pá, o que havemos de chamar a esta coisa?” e alguém respondesse do outro lado da caverna: “Chama-lhe uma merda qualquer. Regina, por exemplo (não seria mal pensado, pela associação a uma marca que já deu cartas e à majestade inerente ao tema fulcral desta prosa).”
E o outro percebia mal e gritava: “Malvina?”. O amigo não respondia e ele apontava o mais parecido com o que ouvira, ao lado do desenho do bisonte que caçara no dia anterior.

Não pode ser assim, quando estamos a falar de coisas de suma importância. Pelo mesmo motivo, não me cai bem ouvir chamar-lhe cona. Não pela palavra em si, mas pela conotação pejorativa que se dá aos palavrões. É um insulto e não custa nada chamar-lhe outra coisa qualquer, mais carinhoso, mais quente, acima de tudo mais digno do alvo da minha atenção nesta posta.

Pessoalmente, gosto do vocábulo passarinha. Quem não gosta de uma passarinha? Inspira-nos logo uma ternura que considero indissociável da mais bela ave da criação. É um bicho fofo e que apetece tratar bem, a passarinha. E está mais de acordo com a filosofia que julgo dever aplicar-se em qualquer acto ou raciocínio a propósito dessa maravilha tão importante que há quem julgue pertinente existir um mapa da sua localização. Ou da sua constituição. Do tipo: “aqui é o clitóris (outra designação estapafúrdia), uma pequena elevação situada no vale entre lábios, uns centímetros abaixo da zona limítrofe inferior do púbis.” E depois vinham as coordenadas, para o estudioso se certificar do acerto das suas medições. E talvez um pequeno resumo da utilidade prática das visitas regulares de exploração topográfica. Facilitava muito a vida ao pessoal e evitavam-se alguns desmazelos e manifestações de ignorância potencialmente embaraçosos e penalizadores para a maioria das pessoas.

Mas voltando à questão da nomenclatura, também não aprecio as expressões que associam a passarinha a grutas, a buracos e a outras realidades frias e escuras que em nada traduzem aquilo de que estamos a falar. É uma perspectiva reducionista e atentatória ao bom gosto, chamar buraco ou algo similar ao ponto mais confortável e acolhedor da anatomia feminina. Buracos há nos campos de golfe e nos queijos suíços em que alguns marmanjos pitosgas deixaram transformar o seu cérebro com as alarvidades corrosivas que os atafulham. Só estes podem confundir coisas tão distintas.

Outra designação com que embirro é pachacha. Não tanto pela sonoridade (que acho divertida), mas por ser das designações preferidas dos labregos que não respeitam a o cariz sagrado de algumas obras-primas da natureza que nos afina e/ou de Deus (que nos terá criado).

O tom com que se fala das coisas também é um aspecto essencial. É diferente, num momento de paixão, alguém dizer “apetece-me tanto beijar a tua pachachinha” ou, pelo contrário, uma besta bujardar um sonoro “comia-te essa pachacha toda”. Mas comia o quê, este troglodita antropófago? Provavelmente comia era um murro na boca suja, havendo um homem em condições na sua periferia. Por isso, não é só o que se chama mas como se chama. Isto é muito importante de destacar, pois uma pessoa pode sempre encontrar quem aprecie alguns excessos verbais em determinadas circunstâncias. Mas lá está: nessas circunstâncias em concreto (e só nessas) até se pode chamar-lhe gaita de beiços. Convém é ter respeitinho (que o corpo dos outros não é para tratar à bruta, mesmo nas palavras), gratidão (ah, pois! Imaginem que nunca tinha havido ou que deixava de haver ou que nenhuma vos tocava), e zelo (se estimam tanto a merda da medalha que ganharam no campeonato de berlinde do bairro, estão sempre a poli-la e a certificar-se que nada lhe falta, acho que não preciso de dizer mais nada, pois não?).

Convém ter em conta isto tudo mais a carga emocional associada. E o facto de por detrás de qualquer passarinha existir sempre um componente ainda mais fundamental da estrutura em causa: um cérebro. Com tudo o que isso implica.
publicado por shark às 18:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Segunda-feira, 07.03.05

A QUíMICA QUE NOS TRAI

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Adolescente, ria-me dessa piroseira de que as miúdas falavam umas com as outras. Com um brilho nos olhos e sorriso maroto nos lábios, elas levavam a coisa a sério e acreditavam mesmo naquilo.
Eu, bruto como quase todos os rapazes na puberdade, achava aquilo tão irrealista como qualquer das muitas manias de gaja que elas, mais desenvolvidas, partilhavam umas com as outras.
Mas um dia deixei de ser virgem. E nesse dia, entre outras importantes ilacções, concluí que afinal as raparigas tinham razão. A química existe e é responsável por inúmeras atracções inesperadas e intensas, como por fenómenos de rejeição que podem converter-se até em nojo.

Nem sei se acontece com todas as pessoas, mas muitas já me confidenciaram (re)conhecer essa reacção (química?). É de extremos. Atrai ou repele. Ou não existe de todo e nesse caso é muito provável que estejamos perante alguém que nos será indiferente.
Em casos mais intensos, nem é preciso tocar efectivamente a outra pessoa para se ter a percepção da harmonia ou da incompatibilidade das químicas. Quase por instinto, rejeitamos quem nos desagrada e esse desagrado pode ter origem num cheiro, no som da voz, na falta de luz no olhar. Mas também pode nem ter uma explicação tão óbvia.
E o contrário é ainda mais notório. Alguém que não conhecemos surge perante nós e provoca-nos sensações agradáveis a todos os sentidos. Desorienta, essa manifestação. Apanha-nos desprevenidos e sem saber como lidar, assim de repente, com a situação. A uns falha-lhes a fala, a outros sobe-lhes a pulsação. A mim? Não digo.

Esse mal explicado mecanismo (uns dizem-no hormonal, outros meramente olfactivo, outros ainda apontam para um conjunto de factores diferenciados) é responsável por muitas complicações na vida de todos nós. A química certa com a pessoa errada ou a química errada com a pessoa (que se julgava) certa são meio caminho andado para uma bronca das antigas. É que nem sempre conseguimos dominar os impulsos, os bons e os maus, os adequados e os inconvenientes, quando nos confrontamos com essa surpresa.
A química transcende o poder de alguns sentidos. Uma pessoa visualmente agradável e muito bem cheirosa pode provocar-nos uma sensação desagradável quando nos toca a pele. E a pele nunca engana, como o algodão. Se não atinamos com o toque, está tudo estragado. Mas se constatamos precisamente o oposto é uma gaita e lá estamos num momento que muitas vezes nem ousámos fantasiar. Ou pretendíamos até evitar de todo.

Embora a química da paixão tenha algo de místico na sua concepção, é inegável para muitos de nós a existência desse processo alheio a qualquer facto racional. A pessoa que esteve sentada na cadeira diante de nós pode inspirar-nos tanta atracção como um cinzeiro. E a pessoa que se senta na mesma cadeira no dia seguinte pode fazer disparar os alarmes todos, antes mesmo que um simples cumprimento seja trocado. E são estas últimas que confirmam a razão das adolescentes a quem devia ter prestado mais atenção na altura. É um pesadelo afastarmo-nos desses seres humanos que algo em nós diz serem talhados à medida da nossa composição molecular. E não é pelo que se vê, mas pelo que se intui e depois se manifesta no sentir.

É uma pena que algumas contingências da vida nos confrontem com essas criaturas enquanto outras conjunturas pareçam criadas precisamente para nos obrigar, a contragosto, a reconhecer a impossibilidade de com elas algum dia partilharmos mais do que uma relação distante, uma ilusão silenciada ou um desejo (mal) reprimido.
publicado por shark às 10:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (51)
Sexta-feira, 04.03.05

MAPA DA VAGINA

Eu nem sei se vocês acham muita piada a isto, mas custa-me não partilhar convosco estas informações que os bastidores do meu blogue fornecem. É que isto diz muito do que a malta anda à procura na net e de como os caminhos neste mundo virtual se cruzam de formas bizarras.
Vejam os exemplos que seleccionei de entre as dezenas de critérios que o pessoal usa nos motores de busca para virem parar ao charco e digam lá se isto não é divertido para quem está deste lado da coisa.

Blog de sexo – esta é sem margem para dúvidas a mais popular. Não consigo entender porquê. E vocês?

Destruidora de lares – São muitos os que procuram uma. Ainda não sei para quê...

Desenho de sexo – Mas é mesmo preciso eu fazer um desenho?

Ninfomaníaca – Quem, eu?

Blog amadoras sexo – Desculpem lá, mas este blogue é só para entendidas(os) na matéria.

Cuecas – Será que alguém perdeu algumas de estimação?

Frase de bom dia – Pode ser uma só com duas palavrinhas?

Imagens picantes – Lembrem-me de publicar uma fotografia de uma malagueta em pose erótica.

Blog de homem – Porquê, ainda há quem duvide?

Ilustração de feijoada – A malta sempre em busca de pratos leves. Tão bom que até apetece molhar pão nas fotografias, não é?

Frase de bom regresso – Tem preferência pelo dialecto?

E agora aquela que mais me intrigou, a melhor do mês:

Mapa da vagina – Nem sei como comentar esta. E confesso que nunca me ocorreu cartografar essa região específica. Talvez se eu lhe emprestar uma bússola...
publicado por shark às 12:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (40)
Quinta-feira, 03.03.05

LÍNGUAS AFIADAS

Esta é mais para despegar o meu amigo do crucifixo onde o pendurei. Até porque confesso que nem ontem ao serão (quando escrevo a maioria das minhas postas) nem hoje ao longo do dia encontrei uns minutos para escrever a posta costumeira.
Porém, a mais recente “bronca” da blogosfera mais próxima (que teve início numa posta do Barnabé, espalhou-se ao 100nada, incendiou o Afixe, alcançou o Renas e ainda faz correr tinta virtual numa data de espaços colegas), essa reacção em cadeia incentivou-me a falar um pouco acerca do assunto, aproveitando uma pausa estratégica.

Até porque eu próprio já dei início a reacções do mesmo género, em menor escala (felizmente), e percebi nessa altura que isto da blogosfera já atingiu um ponto (em expansão e em expressão) que nos obriga a levar muito a sério aquilo que postamos. E isto aplica-se a qualquer blogue, pois as broncas tanto podem ter início numa posta política como num momento menos conseguido de humor. Ou até num comentário palerma (como é mais minha tradição). Nem nos comentários podemos dar-nos ao luxo de abardinar. As pessoas lêem, as pessoas reagem e ninguém consegue ficar indiferente ao clima que se instala. E se estala...

No meu Afixe, as águas agitaram-se a tal ponto que até pareciam ter partido dali as ondas de choque que tantas palavras produziram. Mas não. É o tal efeito bola de neve que as nossas intervenções mais polémicas podem iniciar e que acabam por confirmar, pela sua intensidade e pela dimensão que atingem, o interesse que as pessoas têm por este fenómeno, a importância que lhe atribuem e o respeito que isso nos exige quando lhes damos algo a ler. É essa a principal conclusão que extraio de mais um momento de azedume blogueiro.
A sensibilidade dos outros não pode ser descartada do que afirmamos. Não pode e não deve. A inteligência também não. Os outros, que sou eu e que são vocês, porque gastamos parte do nosso tempo a dar atenção ao que a blogosfera produz, merecem toda a consideração. No meu entender, é esse o ponto de partida para tudo o mais. E justifica até que nos reprimamos de vez em quando, que nos tentemos impor alternativas menos agrestes para exprimirmos as nossas posições. Não é diferente do que tentamos fazer numa mesa de café. Não pode ser diferente. Sob pena de qualquer dia nos fartarmos de más ondas e irmos surfar para outras paróquias.

Eu adoro isto. E postas bem esgalhadas como a que hoje nos ofereceu o Oldman abrem-me os olhos, todos os dias e em muitos blogues, para a falta que esta maravilha me fará se um dia definhar por causa da falta de contenção verbal generalizada. Até me passava...
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publicado por shark às 16:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Quarta-feira, 02.03.05

A CRUZ DO JOÃO

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No dia em que o João descobriu, todos perceberam que aquela seria uma cruz para carregar ao longo de toda a sua vida. Anos antes tinha vivido uma tórrida aventura com uma mulher estrangeira, um engate de férias que acabou com a partida do João para o país da sua paixão assolapada daquela altura. Um dia o João, que pouco conseguia falar ou perceber da língua desse país onde agora vivia, percebeu que a família da rapariga lhe estava a marcar o casamento à revelia. Possesso e nada entusiasmado com a ideia zarparia de regresso no dia que se seguiu.

Agora, cerca de cinco anos mais tarde, uma amiga que conhecia o engate de férias do João contava-lhe que a moça dera à luz um menino, cerca de sete meses depois do regresso do rapaz. Recuando no tempo, não foi difícil ao João somar dois mais dois.
“Mas ela disse-me que estava sempre a ir ao ginecologista por causa de um tampão de que se esqueceu.” Pois, mas o João, que ia com ela para quase todo o lado, nunca assistira a qualquer das consultas. E descobriu à bruta porque lhe andavam a combinar o matrimónio.

Durante semanas, o João consumiu-se em torno do assunto. As últimas cartas que recebera da rapariga, onde lhe rogava as pragas do Egipto e o informava da fogueira que fizera com os pertences deixados para trás na fuga, não lhe deixavam dúvidas quanto à reacção que poderia esperar. Por outro lado, ela pertencia a uma família abastada e poderosa, era alguns anos mais velha do que o João e concluíra uma licenciatura no ano em que ele havia partido, estando já a ocupar um cargo importante e bem remunerado. Ele ainda nem frequentava o ensino superior quando a vida lhe revelou aquela armadilha. E mais, ela providenciara sem demora um pai para a criança, com quem casara e ainda vivia.

O João chegaria a ir ao país em causa para poder ver ao longe o filho de que as circunstâncias o haviam privado. Mas nunca tentaria aproximar-se daquela família na qual só poderia interferir de forma negativa. Engoliu em seco a partida do destino e encaixou no peito a dor que aquela revelação lhe passaria a provocar, todos os dias, anos a fio e já lá vão quase vinte.

Sempre que me confronto com o João fico com a sensação de reconhecer essa mágoa mal disfarçada no seu olhar.
publicado por shark às 10:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (38)
Terça-feira, 01.03.05

UM COTA BACANO

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Aqui há tempos, o Cap chamou-lhe a banda sonora da sua vida. E tem toda a razão, pois The Great Gig In The Sky, um tema imortal dos meus adorados Pink Floyd que ontem ocupou parte da musicalidade do meu serão, é das mais belas produções da década de setenta que tanto de bom nos ofereceu em matéria musical.

Eu sou um incondicional dos sons criados no intervalo entre 1967 e 1987. No espaço dessas duas décadas encontram-se todos os meus álbuns favoritos e a maioria da música que ouço por estes dias. Os Supertramp, com a obra prima Crime Of The Century e com o Breakfast in America que tantou me impressionou e que adquiri no dia do lançamento em Portugal. Os Genesis com o seu Seconds Out, ao vivo, e que pude ver também no cinema, sob o título Genesis e White Rock (com música do teclista Rick Wakeman, um tratado e imagens de desportos de inverno). Os Marillion, com o soberbo Misplaced Childhood. Os U2. A malta da new wave, Ian Dury, Fischer Z, The Police, The Clash e tantos outros. E os Pink Floyd, com tudo o que produziram após a fase psicadélica e até à saída de Roger Waters que tanto os amputou.

E os Foreigner de Four, os Boston de Dont Look Back, The Doors, Janis Joplin, o saudoso Bob Marley, The Queen. Uma galeria de gandas malhas e de pessoas invulgares, capazes de traduzirem em música e em palavras a essência das suas ideias e das suas emoções. Boa parte da minha vida a ouvir as suas expressões, deliciado, convertido às suas causas, influenciado para sempre em muito daquilo que sou.
E agradecido pela Revolução que me permitiu conhecer a maior parte destes sons clandestinos, proibidos pela seita de Salazar e seguidores.

Uma das mais marcantes recordações do final da minha infância foi ouvir o Animals, dos Pink Floyd, no sopé da Serra da Estrela, imponente, sob um manto de estrelas e com o fumo intenso dos charros dos meus primos e amigos mais velhos a apresentar-me outra dimensão da vida que não tardaria a partilhar. E outra, anos mais tarde, num ocaso na Ilha do Pessegueiro, com mais três grandes amigos e muito e bom material prá carola, ao som do Wish You We Here, também dos Pink Floyd, inesquecível.
E mais uma data de sensações intensas gravadas na mona e na pele que se arrepia só de ouvir os primeiros acordes de um som que se associa de imediato a um ou mais lapsos de tempo em que uma pessoa se sentiu incondicionalmente feliz.

Tento dar uma oportunidade às novas bandas e aos novos sons, mas fica-me Nirvana, Evanescence (vejam só!), Pearl Jam, Faith No More e pouco mais, um ou outro tema da Alanis, do Lenny Kravitz, Red Hot Chili Peppers (nem por isso tão novos assim). Nada que me influencie ou me impressione ao ponto de entrar na minha galeria dos imprescindíveis, das coisas que não dispenso ouvir, todos os dias, para me sentir bem. Claro que tenho em conta o facto de isso poder estar ligado ao envelhecimento a que nenhum de nós escapa, de uma forma ou de outra. Mas aprendo a lidar com isso sem nóias, pois orgulho-me das minhas referências como espero que os meus descendentes se orgulhem das suas e não me sinto obrigado a vivê-las com a mesma intensidade das que absorvi, apenas para provar que sou um puto novo e cheio de vontade de viver.
Essa prova, apresento-a a mim mesmo nas decisões que tomo e no estilo de vida que escolhi, na irreverência que sempre cultivei em tudo que faço, em tudo o que fiz e em tudo o que farei. Mas serei eu próprio, produto das influências a que aderi e nunca uma versão freak de um gajo que camufla a passagem do tempo com adereços teatrais e com falsos interesses que não me representem tal e qual sou. Mesmo que isso implique uma maior atenção da malta ao meus grisalhos.
Eu não me importo de ser cota, desde que me sinta sempre um cota feliz e bacano
publicado por shark às 10:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (39)

RUINOSA REABERTURA

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No fundo, no fundo, sempre acreditei nesta hora feliz. O nosso menino, o João Pedro da Costa, cumpriu a sua travessia no deserto e regressou a casa, pródigo, e as Ruínas Circulares estão online outra vez! YEESS!
É difícil encontrar palavras para exprimir a minha satisfação. A blogosfera nacional merecia uma notícia tão boa como esta.
Sou um blogueiro feliz.
publicado por shark às 09:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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