Quinta-feira, 27.01.05

EXTREMA FUNÇÃO

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A jovem médica, acabada de chegar ao acampamento, estacou na soleira da porta. Insectos voadores, enxames, batiam-lhe na pele sem cessar. Indiferente, Ana tentava ajustar o cérebro à multiplicidade de sensações que recolhia. O som da agonia, o cheiro da morte e a visão do inferno, combinados no interior de uma tenda de campanha para se apoderarem dos sentidos e enlouquecerem qualquer pessoa. Ana quase desmaiou.

Engoliu em seco e cruzou a fronteira do horror que a aguardava na sua primeira missão como voluntária. Dois médicos holandeses chocavam entre si, cada um embrenhado em diversas vidas para salvar. Três enfermeiras acudiam-lhes no que podiam. Encolhiam os ombros nas muitas vezes em que davam por falta dos meios indispensáveis para assistir os pacientes que definhavam, resignadas após quase seis meses a lidarem com a situação. Mas não paravam, antes desviavam a atenção para todos quantos lhes parecessem em condições mínimas para sobreviver.
Precisavam de vitórias, de pequenos milagres que lhes aliviassem o fardo permanente da impotência que prevalecia. Seleccionavam com o olhar os moribundos, afastavam-nos para um canto da tenda e concentravam-se nos que aparentavam algumas hipóteses de salvação. Estatística da mais crua, imposta pela necessidade, sobreposta ao coração.

Ana ainda não sabia que em circunstâncias extremas os critérios pré concebidos atingiam o apogeu da flexibilização. Estava chocada, tentava descortinar um ponto de partida para recuperar a lucidez e agarrou-se à ética profissional. Interrompeu o passo apressado de uma das enfermeiras, rosto duro e cansado, indicando-lhe os três pacientes no canto da tenda aos quais nenhum dos clínicos prestava qualquer tipo de atenção. A enfermeira olhou-a com estranheza, deu-lhe para as mãos um velho crucifixo esculpido em madeira local e prosseguiu a caminhada, tabuleiro de metal carregado de quase nada, cheio de esperança porém para outros seres humanos em aflição. A esses podiam dar uma forma alternativa para pararem de sofrer. Aos do canto da tenda, não.

A voluntária atordoada desistiu de reunir forças para protestar contra o que lhe parecia indigno. Observou por alguns instantes o trabalho incansável dos colegas, hesitou. Não se sentia capaz de acompanhar o ritmo insano da equipa, temia atrapalhar. Virou-se de novo para os três infelizes deitados nas macas improvisadas e decidiu avançar nessa direcção.
O primeiro que olhou mais de perto era um homem idoso, cadavérico, olhar baço revirado que anunciava estar muito próximo do fim. Seguiu para o do lado, um jovem soldado atingido no estômago por uma bala perdida. Tentou encontrar-lhe a pulsação e não conseguiu. Cobriu-lhe o rosto marcado pela dor com um lençol e abraçou-lhe as mãos ao crucifixo.

Restava um. Ana decidiu empenhar toda a sua dedicação no cuidado ao infeliz que se apagava como uma vela deixada ao vento de fim de tarde na savana que não voltaria a pisar. Aproximou-se devagar, com o sorriso mais agradável que conseguia produzir. O jovem moribundo, em delírio, fixou nela o seu olhar magoado por todas as dores do mundo, reunidas numa só pessoa.
Ana sentou-se ao lado do rapaz e observou-o, em busca de um diagnóstico alternativo, de um sinal que permitisse uma ténue esperança de salvação. Não o encontrou, antes percebeu que a medicina seria naquele caso uma simples ilusão que perturbaria o paciente na lenta caminhada para o fim.
Passou com todo o carinho um dos braços por detrás da nuca do adolescente, enquanto o acariciava no rosto com a outra mão. Trauteava baixinho algumas canções de embalar cujas palavras ele não percebia mas que pareciam enfeitiçar-lhe a expressão. Olhos negros muito abertos, ele murmurava uma frase que repetia sem cessar e esboçava a custo um sorriso para a loira vestida de branco que o tratava como uma mãe.
Minutos depois, o corpo do rapaz sacudiu um pouco e ele parou de murmurar. Atrás de Ana, a enfermeira pousou-lhe uma mão sobre o ombro e deu-lhe a entender que trataria do assunto a partir dali.
- Já está, agora vá até lá fora e aprecie os cheiros e os sons que o vento da savana lhe traz. Estou certa de que ainda não assistiu com atenção ao ocaso de fogo que a nossa terra tem para oferecer. - Segurou o braço de Ana e puxou-a devagar na direcção da saída.
Fora da tenda, a médica sentiu-se aturdida, incapaz de raciocinar. Apenas lhe ocorria à mente a frase repetida pelo rapaz, permanente, um mistério que pressentia importante de resolver.
- Você ouviu o que o...
- Okosha.
-...o que o Okosha me dizia? Conseguiu perceber?
A enfermeira passeou-lhe a palma da mão pelo rosto e sorriu.
- Ele dizia que este foi o dia em que Okosha, filho de Ngoma, conheceu o anjo que o acompanhará numa maravilhosa viagem para o Céu.
Abraçada a si própria, Ana contemplou o horizonte avermelhado até ao fim. Depois, limpou as lágrimas proibidas e reentrou no hospital de campanha, determinada

Vinte anos passados, Ana permanecia nos quadros da missão. Por cima da entrada da tenda, a figura amarelecida de um anjo, colocada por um familiar de Okosha, assinalava o melhor porto de abrigo para os mais aflitos, como uma estrela, com a luminosidade de um farol cravado no peito da escuridão.
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publicado por shark às 18:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (124)

É O MEU LIMITE

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Hoje não me sinto comunicador. Faz de conta que isto é um fotoblogue. Eu gosto muito desta fotografia que tirei num dia perfeito.
E há dias em que mais vale manter o bico fechado.
E do alto do meu castelo eu vos contempélo...
publicado por shark às 10:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (95)
Quarta-feira, 26.01.05

A DAY AT THE OFFICE

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Um professor universitário cinquentão. Quando o conheci, há meia dúzia de anos, era um homem orgulhoso, bem falante, com porte de cavalheiro. Sempre que o meu ofício nos juntava, rendia o tempo para trocarmos umas impressões.
Vestia as palavras com a mesma elegância com que cobria o corpo que parecia alvo de alguma dedicação. Parecia um homem realizado, endinheirado, a transbordar de confiança.
Ainda antes da hora do almoço entrou no meu escritório com uma bebedeira descomunal. Cabelo sujo, oleoso e despenteado, barba de quatro ou cinco dias, roupa em desalinho. Olhar vítreo e dificuldade de articulação nas poucas palavras que balbuciou, as bastantes para me confrontar com um novo problema.
Mal conseguiu assinar o documento que preparei para lidar com o assunto. Seria incapaz de escrever por mão própria duas linhas de texto que lhe ditei. E eu, perturbado com a rapidez com que um homem altivo se transforma num destroço em tão curto espaço de tempo, vi-me grego para organizar as ideias e encontrar uma alternativa para descomplicar a situação. Acabei por conseguir. E ele, para meu alívio, cambaleou com sucesso até à porta de saída.

Um gerente da indústria hoteleira, trintão. Casado e com filhos. Vida estável, sem aflições financeiras. Robusto, aplicou desde pequeno a força inesgotável dos que acreditam na subida a pulso. O problema dele, o verdadeiro, era um diagnóstico de cancro. Os outros, os que me competia resolver, afiguravam-se menores e foi nessa perspectiva que os eliminei em tempo recorde da sua lista infindável de preocupações. O efeito bola de neve, as repercussões na vida e na estrutura daquele homem eram devastadoras e eu, sem meios para lhe valer na angústia maior, falei-lhe na esperança, compilei animadoras estatísticas para o mal que nele se instalou. E ele, para meu alívio, conseguiu brindar-me com um sorriso fugaz à saída.

Do meu dia de trabalho seleccionei apenas dois exemplos. Os que mais me impressionaram e cuja descrição caberia numa posta de dimensão razoável.
Às vezes é difícil lidar com o meu dia de trabalho. A única panaceia para o desconforto que estas histórias me provocam, e mesmo essa tem um cunho algo perturbador, é o efeito comparação. Dá-me para pensar que à beira de imensas pessoas, tenho mesmo reunidas todas as condições para me sentir estupidamente feliz.
E sou. Mas às vezes parece que me esqueço e a vida envia-me estes sinais, aqui e além, para me despertar da ingratidão momentânea. É um raciocínio bizarro, não é?
publicado por shark às 17:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (20)
Terça-feira, 25.01.05

SABER DE EXPERIÊNCIA FEITO

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Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, diversas iniciativas inéditas e impensáveis na vigência do regime fascista foram postas em prática pelo Governo e pela população. Uma das que mais me marcaram foi a criação de um grupo vocacionado para ensinar aos putos como eu em que consistia o planeamento familiar.
Malta nova, os professores, reuniam duas dezenas de raparigas e de rapazes e para a maioria foi ali que se aprendeu a verdade nua e crua de como se fazem os bebés afinal.

Sem vergonhas nem falsos pudores, uma professora e um professor aproveitavam as instalações de uma escola primária do bairro para todas as semanas nos ensinarem algo de novo. Mas o manancial de aprendizagem, para lá das técnicas que permitiam evitar uma gravidez indesejada e algumas doenças venéreas pouco agradáveis, consistia no debate que nos era permitido e onde podíamos colocar sem medos as nos maiores interrogações acerca do sexo. E assim, entre outras importantes lições, aprendi a valorizar a importância da primeira vez para qualquer pessoa.

Sonhei com uma primeira vez muito romanceada (na onda Lagoa Azul), considerando a minha condição de macho (que não é suposto atribuírem grande relevância à coisa). Vetada sem apelo a hipótese de me iniciar com prostitutas (ou de algum dia as procurar), como viria a acontecer a muitos dos meus amigos, fiquei entregue à minha capacidade de convencer uma garota a ceder aos meus arremedos desesperados de adolescente em ebulição. Não é tarefa fácil e Deus sabe o quanto me apliquei nessa missão. Entretanto o tempo passava, o resto da malta desenrascava-se e eu ia ficando para trás nas conversas e nas situações fantasiadas que os viris ‘experimentados’ tinham conhecimento de causa para alardear.

Ingénuo, eu buscava apenas as virgens pois era essas as protagonistas ideais para o conceito da coisa tal como a minha mente saturada de devaneios masturbatórios o definiu. Esse seria precisamente o maior obstáculo à minha progressão na aprendizagem que a liberdade me proporcionou. Embora possuísse uma bagagem teórica que me permitia brilhar perante os que sabiam ainda menos do que eu e tivesse desenvolvido alguns ‘couros’ magníficos para utilização no futuro, depressa a teoria se viu ultrapassada pelos acontecimentos e comigo, na prática, nada acontecia digno de contar ao pessoal.
É impossível participar numa conversa acerca de sexo sem trair, em algum ponto do diálogo, a nossa condição de outsiders, a virgindade que para um rapaz de certa idade podia converter-se num rótulo de homossexual. E eu, ansioso mas incapaz de renunciar à ilusão que alimentava, rejeitava oportunidades de ouro com as vizinhas mais afoitas e arrependia-me. Sempre tarde demais para inverter a situação.

E foi assim que a vida me empurrou à bruta para cima de uma fulana bastante avançada no programa e quase cinco anos mais velha do que eu. Uma conquista embriagada no final de uma noite de farra no pino do verão. Teria ultrapassado esse pormenor e encontraria uma forma de embelezar o importante acontecimento com algumas referências pontuais. Contudo, a enorme bebedeira da rapariga e a minha natural inépcia para a função, testemunhadas na cama ao lado pela amiga dela e por um amigo meu que transavam a sua cena a menos de dois metros de nós, resultariam numa pressão que, hoje confesso-o perante vós, me cilindrou.

A minha primeira vez demorou cerca de três minutos.
Três minutos para mim, pois entretanto descobri que ela, algures ao longo desse período, adormeceu como um anjinho. E eu acendi um cigarro, tentei ignorar a festa do lado, e ali fiquei, algo baralhado, em serena contemplação da minha parceira de estreia, gravando na memória um nome, um rosto de bela adormecida e um turbilhão emocional que jamais esquecerei.
publicado por shark às 10:24 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (121)
Segunda-feira, 24.01.05

UM POST ELÉCTRICO

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Lá em casa, quando éramos adolescentes, as festas tinham sempre luzes psicadélicas. A aparelhagem não prestava. Mas tínhamos psicadélicas. Sabem quantos choques apanhei a montar a porcaria das luzes? Acho que foi por isso que fiquei assim, indolente.

Postado por : derFred
publicado por shark às 14:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (67)
Sábado, 22.01.05

derParty - A REPORTAGEM

Decorreu ontem neste charco a festa de inauguração das postas derFre(u)dianas, num evento que deixa bem claro o carinho que os habitués dedicam ao novo habitante deste oceanário virtual.
Porque é fim-de-semana e nós dois temos muito para arrumar, deixamo-vos com uma pequena síntese, em jeito de reportagem, de alguns pontos altos da cerimónia. Por manifesta falta de espaço não podemos destacar a totalidade das presenças, facto para o qual apelamos à vossa compreensão.
A todas e a todos quantos nos concederam o privilégio da sua presença e animaram este momento importante para o charco, a dupla aquática agradece encarecidamente. É bom poder contar convosco nestas ocasiões especiais.

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A organização não se poupou a esforços para acolher bem os convidados...

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Vague, Mar e Sharkinho conversam com Leonel Vicente

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O cão do Sharkinho preferia os Boney M, mas o DJ não anuiu.

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João Pedro da Costa, disfarçado de coelhinho suicida

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Azul e Cap dançam na pista sob um olhar atento

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derFred na bicicleta do Eufigénio a caminho do supermercado para comprar cerveja.
publicado por shark às 19:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (55)
Sexta-feira, 21.01.05

A POSTA PREGUIÇOSA

É um puto da minha criação, da abençoada paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. Tem-me amparado muito na caixas de comentários por toda a blogosfera e, para além de ser um gajo muita giro, evidencia os traços comum que unem os filhos benfiquistas da nossa geração (a inteligência, o dom da palavra, a lisura no trato, a elegância no trajar, a formação superior e todas as outras características que já lograram certamente descortinar).

Estava há pouco tempo no Ruínas e de repente viu-se desamparado na fase mais crítica da sua carreira de blogueiro. Esteve bem uns vinte minutos sem soluções à vista. Avistou-o o tubarão e foi logo abocanhado. E agora está aqui, ainda em regime precário (com a bagagem espalhada por todo o lado, com as mudanças a meio gás...), adoentado, cheio de trabalho. Porém, numa manifestação de estoicidade notável, encontrou as energias necessárias para nos presentear com o resultado de intermináveis horas de labor.

Estimadas pessoas amigas: num estilo inconfundível, eis a primeira posta do novo nadador destas águas. O vosso aplauso, o vosso generoso comentário, a vossa delicada palmadinha nas costas para esta estreia abnegada do ex-ruinoso. Convosco, derFred!


QUEREM FESTA?
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postado por: derLazy
publicado por shark às 12:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (132)
Quinta-feira, 20.01.05

JOBS FOR THE BOYS!

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O cadáver do Ruínas ainda nem arrefeceu, eu sei. E estamos todos muito contrariados, ok. Mas agora que o João Pedro da Costa interrompeu oficialmente o luto para se fazer anunciar como o oitavo aphixador, eu vejo-me forçado a partilhar convosco que também aqui o charco ficou com um pedacinho (um pequeno calhau) das ruínas.

Amanhã, o novo guest star do Charquinho fará a devida comunicação pois hoje tem estado absorvido a reagir à Comunicação Social.
O derFred, ah pois que eu já o tinha debaixo de olho, vai passar a nadar nas águas quentes do vosso amigo tubarão. Agora digam lá se eu não tive olhinhos e se isto não é uma bela notícia para alegrar o nosso dia blogueiro?
publicado por shark às 15:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (75)
Quarta-feira, 19.01.05

ESTAMOS ARRUINADOS

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Qualquer cemitério está cheio de insubstituíveis. Aos blogues também é capaz de se aplicar essa premissa. Mas no meu modesto entender, o fim d’As Ruínas Circulares é um golpe duro na piada desta cena.
E não se trata apenas do espaço que me preencheu horas da existência. O cabrão do puto, o João Pedro da Costa, caiu-me no goto e tornou-se numa das minhas referências da blogosfera. Um blogtrotter, como lhe chamei tempos atrás.

Sem dramatismos, diz ele. Claro, que remédio...
O coelhinho suicidou-se mesmo nas nossas barbas e ficámos todos sem perceber o desenho, apanhados na curva pela decisão do Ruinoso-Mor.
Estou inconsolável e estes últimos dias já não andavam a correr muito bem.
Vale-me a promessa de contar com ele no dia 19 de Março, no encontro alentejano, a minha oportunidade de o fazer pagar caro por esta deserção.

A minha blogosfera ficou muito mais pobre. A vossa também.
publicado por shark às 18:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (45)
Terça-feira, 18.01.05

A MÚSICA PRÓS BEIJINHOS NA BOCA

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Evito abordar certos assuntos por temer a associação dos mesmos a alguma exibição patética de nostalgia. O tema que move esta posta enquadra-se descaradamente nessa gelatinosa categoria. Porém, quando me acorre à ideia por algum motivo essa recordação de tempos agradáveis em que me senti feliz, não me sinto deprimido, preocupado ou mesmo melancólico. Ora, se falo de assuntos que me fazem sentir feliz agora porque hei de fugir dos que me agradaram no passado? Nunca por parecer mal, concluo.

O meu tema para este início de conversa são os slows. É verdade, aquelas músicas para dançar agarradinhos que ninguém dispensava nas festas e nas discotecas do final da década de setenta e até meados da que se seguiu.
Confesso-me um incondicional dessa onda que a malta com menos vinte anos do que eu não chegaria a conhecer, salvo raras excepções. Mas não me interpretem mal, quando era puto também não dispensava a malhas mais rasgativas da altura e até de décadas atrás. As matinés do Porão da Nau, do Rock Rendez Vouz ou mesmo do Dois (2001, no Autódromo) faziam-se de sons a abrir, sem desdenhar uma fixe dos Doors, o Cocaine versão Eric Clapton ou as bandas clássicas do rock sinfónico e do mais puro FM norte-americano, a par com The Police ou os Ramones. Sempre a abrir para abanar a carola até o som entrar pelos olhos, pelos ouvidos e pela pele.

A parte dos olhos é que nos recordava a indispensável hora em que o gajo dos discos (por norma um ganda baril) entrava com a sequência demolidora de música para os beijinhos na boca. Era o momento de todas as decisões. Uma aposta mal feita conduzia a um final de tarde a ver navios, envergonhado perante os amigos mais certeiros na opção. E era também a prova de fogo para os diversos papagaios que faziam peito até se escapulirem, mal a pista abrandava no ritmo e na luz. Zarpavam para o balcão como uns tiros e safavam-se os que ficavam, com muitas miúdas disponíveis para embalar ao ritmo do Bob Seger, do John Waite ou mesmo dos Bee Gees.

Era um momento especial para todos nós, putos dos treze aos dezassete, ansiosos por novas emoções e livres da manta tenebrosa, moralista, que cobrira o sexo na vida dos pais e, por causa da sida, ensombra as perspectivas dos mais novos também. A minha geração escapou na adolescência a uma série de papões e assumiu com naturalidade o ritual de apreciação de cheiros, de texturas de pele e de jeito para a palheta (quase tão determinante como uma cara bonita ou uma indumentária em condições). Essa prova de compatibilidade entre químicas, esse roça-roça discreto que nos moldava o desejo e ensinava a lidar com os limites ou as manias do nosso par, só os slows podiam proporcionar com tanta descontracção. Sem medos de irmãos e de pais que pudessem aparecer de surpresa ou de namorados mais estúpidos, os que preferiam soltá-las sozinhas às feras do que vencerem a falta de jeito ou de vontade para curtir e dançar.

Sinto-me um felizardo pela conjuntura que me favoreceu. E gostei muito desses dias, como adoro os que estou a viver à medida da minha vontade, dos condicionalismos normais de qualquer existência e das preferências que encaixam na minha casca pré-quarentona e perfeitamente operacional. Prestes a atingir os quarenta, livrei-me da guerra colonial, safei-me da tropa por uma contingência estatística (reserva de incorporação) e as batalhas que enfrento pela sobrevivência são mais brandas e menos dramáticas do que as disputadas pelos meus pais e, acima de tudo, pelo meus avós.
Concluo por isso que pertenço a um grupo de sortudos, na maioria, e sinto-me compelido a partilhar alguns momentos especiais que possam (ou não, estou-me nas tintas) interessar a quem os viveu e aprecie evocar.
Da mesma forma que retive na memória os episódios marcantes que, de alguma forma, contribuíram para chegar ao homem que sou, sem merdas, e os divulgo para vos ajudar a compreenderem-me melhor, assumo que as idas à discoteca nestes tempos não me entusiasmam tanto como quando, por entre a berraria que nos saltitava a conversação, surgia a oportunidade de ouro para sentir os braços suaves e gentis em volta do pescoço ou os contornos das ancas e das costas de uma pessoa tão ávida de emoções fortes como eu. Ou apenas para conversar um bocado e descobrir o romance num discurso inflamado ou na atracção que sempre se denuncia pelo espelho do olhar, ao som do Stairway to Heaven ou de outro clássico qualquer...
publicado por shark às 10:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (66)
Segunda-feira, 17.01.05

ANIMAIS NOSSOS AMIGOS

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O meu primeiro cão e o meu terceiro gato nasceram quase na mesma altura. O rafeiro, arraçado de cão de água, era minorca e cobardolas. O gato, um siamês endiabrado, era um felino orgulhoso e independente a que cão nenhum conseguiu dar a volta.
Cresceram os dois no apartamento onde eu morava e dormiam enroscados um no outro, apesar de exibirem hostilidade pelos membros de cada uma das espécies por si representadas. O cão perseguia os outros gatos que nem um doido. O gato virava-se aos outros cães, sem olhar a raças, tamanhos ou número de exemplares de dada matilha.
No entanto eram inseparáveis e assim permaneceram até morrerem aos dezasseis anos, um quase a seguir ao outro.

Esse meu cão, apesar de pequeno e medroso, cultivava um ódio de estimação. Um enorme pastor alemão albino ladrava furiosamente da janela de cima e o meu cão estupidamente retorquia. Passavam os dias naquilo.
Um dia, o vizinho e a besta saíram à rua e a besta decidiu soltar o cão quando se deparou a alguns metros do meu, distraído na calçada com uma guloseima que alguém lhe oferecera. A luta seria desigual. Eu e o meu pai, dezenas de metros adiante, ouvíamos os ganidos de aflição do nosso canídeo palerma, bola de pelo oculta pelo corpulento atiçado que o cobria.
Nem tivemos tempo de reagir. O siamês passou por nós, por entre as minhas pernas, com a rapidez de uma chita e a determinação do rei da selva. Sem hesitar, tomou balanço pelo caminho e quando chegou próximo dos dois protagonistas da zaragata lançou-se aos flancos do agressor. Com o gato pendurado de ladecos, mancha cinzenta de unhas e dentes cravados, o pastor alemão desapareceu da nossa vista e da do dono e só deve ter parado de correr no Samouco, pois o gato só apareceria quase vinte minutos depois, sozinho e sem marca alguma da escaramuça.

Ganhei nesse dia um profundo respeito pelo meu gato e aprendi uma lição de vida que nunca esquecerei. Quando a amizade é profunda, a sua intensidade equivale à de um grande amor e dispomo-nos a correr riscos, se necessário, para acudir às aflições de um(a) amigo(a). E pouco importa se esse(a) amigo(a) evidencia o género, a raça, a língua ou qualquer outra diferença que a amizade séria e o amor incondicional não distinguem, não lhes permitindo que constituam barreiras à solidez de uma relação.
Na coragem, na lealdade e na dedicação do meu gato revejo o perfil do amigo que exijo ser e o dos amigos que ambiciono ter a meu lado até ao final dos meus dias.
Cabem à larga os seus nomes e contactos numa única página, todos na letra A, da minha concorrida agenda telefónica para o ano de 2005.
publicado por shark às 10:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (39)
Sexta-feira, 14.01.05

JOGOS SEM FRONTEIRAS

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A maioria das pessoas que conheço não tem pachorra para jogar xadrez. Bocejam por reflexo, mal se sugere uma partidinha. Nã, isso é muito lento, leva horas. Pois é. Reconheço no xadrez ao mais alto nível (que não é o meu) a sonolência de quem tenha coragem para assistir ao efeito estátua que deriva do excesso de concentração. Porém, a minha paixão por esse jogo é imensa e passa pela sua analogia intemporal com a realidade, o que tentarei resumir para leigos e entendedores.
Destaco, no entanto, a principal característica deste jogo de estratégia que prendeu a minha atenção desde os oito anos: no xadrez a batota é impossível. E em nada depende dos caprichos da sorte ou do azar.
Quando dois opositores se sentam diante de um tabuleiro aos quadradinhos, ou são adeptos do Boavista prontos para assistirem a mais um jogo pela televisão (em vez de peças, o tabuleiro pode ter umas cervejolas fresquinhas), ou trata-se de um par de praticantes dessa modalidade onde se começa em perfeita igualdade de condições (o Valentim Loureiro não aprecia, felizmente, os desportos de mesa).
Começo por chamar a vossa atenção para o facto de o objectivo do jogo ser encurralar o Rei. Não exactamente comê-lo, mas apenas confinar as suas madurezas a um regime de prisão domiciliária que lhe esvazia as tentações do poder.

De facto, começa aqui uma das contradições deliciosas deste jogo. Sua Majestade, o alvo da cobiça das peças contrárias, não passa de um cepo inútil cuja escassa mobilidade (de apenas um quadrado em todas as direcções) obriga o jogador a zelar a todo o instante pela segurança do monarca. No Reino Unido, à preocupação com a segurança (rodoviária também, no caso concreto) acresce a fiscalização antecipada dos trajes escolhidos pelos delfins para curtirem nas suas festarolas imbecis.

As Torres, uma a cada ponta na fila mais recuada, só se movimentam em linha recta e são fundamentais para a protecção da realeza. Quando a coisa dá pró torto, a família real pira-se para o interior das muralhas e ordena ao arauto a marcação de uma conferência de imprensa, onde se destacam as obras mais meritórias do reino e se desviam as atenções da retirada.

Os Bispos, um de cada lado do poder, só se movem na diagonal. O segredo da sua força está na visão periférica: o adversário julga-os concentrados nos que se passa à sua frente e eles a mirarem, por cima dos seus ombros, olhar de camaleão, a casa à direita ou à esquerda que ocuparão de acordo com as diferentes conjunturas que o jogo proporcionar.

Os Cavalos, também aos pares (lembram-se do fabuloso Citroen 2 CV?), possuem a vantagem de serem os únicos capazes de fazerem uma curva a meio da corrida. Movem-se em éle. Literalmente. Discretos, podem fazer toda a diferença nas mais inesperadas circunstâncias. Mas tal como acontece com as restantes peças do tabuleiro, também se abatem e não existe União Zoófila que os proteja.

Falta a arraia miúda, a carne para canhão, o zé povinho do tabuleiro que faz sempre de mexilhão nos jogos a sério. Para o Peão (são oito de cada lado, antes de iniciada a carnificina) em frente é que é o caminho. Só se movem na diagonal (como os bispos) quando é para comerem outra peça. Avançam um quadrado de cada vez, excepto na sua primeira jogada na qual lhes é permitido avançarem o dobro do caminho (depois amocham, são metidos no seu devido lugar).
São-lhes permitidas duas fantasias, mas raramente as concretizam: atingirem a última fila do lado oposto do tabuleiro e assim obterem o reconhecimento que se dá aos heróis, uma imediata promoção na hierarquia, ou comerem a Rainha (o que confere alguma notoriedade entre os paparazzi, mas por regra muito efémera). Excepção feita, por exemplo, ao Reino Unido que acima citei e no qual a probabilidade de comer a Rainha é ainda mais remota e assume, para a maioria dos Peões, o contorno de um martírio. Nem pela Pátria lá iriam...

E a propósito da Rainha, não será inocente o facto de ela a peça (realmente) mais importante de qualquer tabuleiro de xadrez. Move-se em qualquer sentido ou direcção, sem limite para a distância a percorrer. O marido (el-Cepo), não passa de um papagaio a quem se atribui demasiada importância e é ela quem faz tudo acontecer à sua volta. Ataca, defende, trabalha, faz as compras, cuida dos Infantes e ainda tem de sobrar tempo para dar um jeitinho ao palácio e gerir as contas da casa...
publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (42)
Quinta-feira, 13.01.05

CUECAS DE IR AO MÉDICO

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Como já devem ter percebido, eu evito meter-me em assuntos acerca dos quais considero não ter voto na matéria. Fico caladinho a aprender e se, apenas se, considero ter uma noção fiável do tema em apreço debito então um palpite acerca da coisa.
O sexo, esse tema fascinante que tanta gente tem arrastado para o Charquinho, é um dos tais assuntos onde eu só falo depois de devidamente apalpado o terreno em que me proponho caminhar. O sexo e, por inerência, as mulheres que de imediato me ocorrem à ideia quando incido o pensamento sobre essa intrigante actividade humana. Em ambos os casos, as minhas dúvidas superam largamente as tremidas certezas que logrei consolidar.
E de política, todos sabem, não percebo coisa nenhuma.

Aqui há dias escutei por acaso uma conversa entre duas senhoras, sexagenárias, a propósito da compra de umas peças de lingerie. Mea culpa, bem sei que deveria ter orientado as antenas noutra direcção. Não fui capaz. Fiz de conta que procurava na prateleira de cima um sugestivo wonderbra e tentei apanhar com nitidez o papo das duas marias.
Uma delas já havia escolhido a mercadoria que se propunha comprar. A outra, atenta ao monte de caixas que a amiga escolheu, deu pela falta de uma componente essencial.
- Então mas tu não me disseste que tens consulta marcada para amanhã?
- Pois tenho, às nove da manhã...
- E só compraste cuecas baratas? Pró dia-a-dia ainda vá, mas para ir ao médico não sei...

E a amiga comprou umas cuecas melhores e mais caras. Fiquei a saber que para as mulheres de uma certa idade as cuecas ‘de ir ao médico’ são uma compra que nunca podem descuidar.
De resto, esta reverência à classe médica, tal como a temática da roupa interior, voltaram ao meu contacto noutra conversa que me caiu por acaso no monitor. No 100nada, a Catarina e sus muchachas debatiam animadamente as cuecas de um pediatra muito popular e tive oportunidade de conhecer a perspectiva das piquenas de outra geração.
Neste caso, o problema que se levantava era o método mais adequado para tirar as cuecas ao doutor ( o George Clooney, na série ER – Serviço de Urgência). Com os dentes, alguém avançou para minha surpresa. E depois era à bruta ou devagar, consoante as preferências e fantasias de cada uma.
Nas urgências das mulheres destes dias, as prioridades são as mesmas mas varia bastante a estratégia a seguir. Se nas mulheres às compras cuja conversa escutei a questão residia nas cuecas a mostrar, nas senhoras dos comentários o problema era como as haviam de retirar ao protagonista da consulta.

Fiquei a saber mais um pouquinho sobre estes dois insondáveis mistérios, mas continuo a preferir um silêncio observador. Constato, porém, com agrado que as mulheres da minha geração têm uma perspectiva que se coaduna mais com a minha no que concerne à medicina e respectiva relação com a roupa interior. E essa foi a única conclusão que me atrevo a garantir. Sob reserva moral, não vá ter sido confusão minha...
publicado por shark às 11:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (58)
Quarta-feira, 12.01.05

CRISE DA ADOLESCÊNCIA

abril1.jpg

Um dos blogues que sigo com algum interesse é o Enresinados. São gajos porreiros e esforçam-se por manterem um espaço divertido e onde reina a animação. Seduz-me pelo estado de espírito, por assim dizer.
Outro que nunca me canso de referir é o Ruínas, uma paixão minha que não cessa de aumentar.
O paralelo entre os dois faço-o pelas duas últimas postas que li em cada um.
No caso do Ruínas, o João Pedro da Costa disseca uma posta do José Luís Peixoto como uma rã. Pior, como uma rã mais mutante do que uma tartaruga ninja, peçonhenta e desprezível. Nada habitual no Ruínas e no meu puto de estimação.
Já o Cachucho, desaustinado pelo recente desaire do nosso Glorioso ou levado aos arames por alguma posta que lhe caiu mal, desancou sem dó nem piedade toda a vizinhança.

A blogosfera está a perder a identidade, acusa ele. Estão a formar-se clãs (ai, a Posta Romântica, esse clã de pinga-amores que me obriga a enfiar a carapuça), afirma ele. E existem penetras, geniais, bestas. E há os que criticam mais os que não aceitam críticas. Não esquecendo os cagões, os que ofendem e os mentirosos. Ah, e os lambe-botas...
O Cachucho vai mais longe, porém. Diz que parece que estamos metidos numa guerra, onde numa barricada estão os lambe-botas (lambe-cus também se adequa) e na outra estão, cito, ‘os-que-são-acusados-de-que-tudo-o-que-escrevem-ser-um-perfeito-disparate’. Fim de citação.

De repente, a blogosfera do Cachucho transformou-se numa abóbora e o nosso simpático colega caiu ‘na real’ e zurziu às cegas com a vergasta da sinceridade espontânea e demolidora. De repente também, a blogosfera do João Pedro transformou-se num coio de moralistas e o gajo mandou-se ao Peixoto com ganas de pugilista. E eu, apanhado de surpresa pelos dois, aproveitei para acrescentar mais uns pós à confusão com a minha posta anterior.

Realmente, a blogosfera está a perder a identidade mas é a que assumia em criança. Quanto mais as pessoas se abrem e partilham, mais se reflectem nesta comunidade as coisinhas de merda que todos, de alguma forma, trazemos agarradas à sola da nossa personalidade real e de vez em quando tornam pestilenta a nossa conversa e sobretudo esborratam os contornos de algumas relações. Faz parte do processo de crescimento da blogosfera e espelha a separação das águas que começa a acontecer.
Como ouvi dizer o Pedro Mexia num programa da RTPn, a blogosfera actual é um conjunto de circunferências e algumas nem se chegam a tocar. Pois é. A malta começa a (re)conhecer melhor as boas e as más companhias e, lá está, refugia-se nos seus clãs.
Por outro lado, a porta que deixamos aberta a quem quiser entrar é um flanco desguarnecido à mercê das tropas que nos querem fazer a folha, desmoralizar.

Mas eu digo: ânimo, Cachucho! Se é fácil reconhecer-te a razão no desabafo que deitaste ao mundo blogueiro, com pequenas divergências aqui e além, também é igualmente verdade que existem espaços onde se encontra gente que vale a pena acompanhar e eu incluo-te nas minhas referências nessa matéria.
E a ti, ruinosa cascavel, informo-te que a merda da tua acidez deu-me uma azia que ainda não parei de arrotar. Faltava a posta de pescada. E o cházinho de tília, para não engolirmos em seco estas invectivas revoltadas que afinal são a prova derradeira de que a blogosfera cresceu e está a entrar na adolescência. Impossível de aturar, mas fascinante na sua amadurecida transparência.
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publicado por shark às 12:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (57)
Terça-feira, 11.01.05

NA PRÓXIMA ESTAÇÃO

misc_tx_0074.gif

Ontem estava no amanhã que agora sonho para mim. Nem reparei.
Vivi esse tempo sem ter a noção do que tinha. Mas perdi.
Evito lembrar. A melancolia é vizinha da depressão. E correm depressa as notícias nesse prédio devoluto, sito nos bastidores da consciência de cada um de nós.
As recordações de perdas sofridas evocam a saudade. São más companhias.
Mais vale só. Ainda que valha pouco uma pessoa doente, infectada pelo vírus da solidão. Pode contagiar qualquer um. E não existe uma vacina, lacuna na medicina, para o desgosto de amor.
Ou outro que seja. Não existe lugar no mundo para os deserdados do coração.
Talvez já tenha existido, mas eu não percebi. Andava distraído, perdido nas vielas do supérfluo quando possuía morada na artéria principal. O meu mal era a falta de orientação.
Encontrei o caminho, entretanto. Tinha partido o comboio quando cheguei à estação. Sentei-me sozinho num banco, à espera da seguinte locomotiva, a que estava para chegar.
Ainda não chegou.
E eu continuo sentado, talvez venha no dia a seguir.
Poderei então reviver, apenas um dia depois, o sonho do que terei no futuro.
Quando der pela falta outra vez.
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publicado por shark às 16:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (97)
Segunda-feira, 10.01.05

A POSTA JANTADA

E porque uma das vantagens de manter um blogue é precisamente a de poder comunicar quase em directo com as pessoas, a presente posta serve acima de tudo para avançar mais elementos acerca do evento gastronómico a realizar.

É ponto assente que decorrerá no Alentejo (terra da minha associada na coisa), ao longo do mês de Março e, considerando que já há quem fale na escova de dentes e na almofada, tem todo ar de ir acontecer numa unidade hoteleira de turismo rural ou afins.
Nesta fase, eu e a Mar precisamos de acautelar duas coisas: mais ou menos para quantas pessoas temos que apontar e quantas dessas pessoas admitem pernoitar no local.
Daí, é fundamental que todos(as) quantos(as) nem coloquem a hipótese de faltarem façam a pré-inscrição através da caixa de comentários ou do jgolfinho@yahoo.com.br. De preferência ontem...

Para resumir o essencial a quem não passou pela Posta Romântica, o convívio partiu de uma animada converseta ocorrida a propósito da posta que referi. Ficou no ar, até pelo espírito do próprio texto que deu origem a isto, um ideal de ambiente sereno, com mantas, com lareira e com disponibilidade para a palheta. Dar ao dente, dar à língua e mais tudo o que decorra em função da matéria humana disponível e da dinâmica que a coisa gerar.
A ideia é dar os intervenientes da Posta Romântica, bem como aos visitantes habituais dos dois blogues organizadores, uma possibilidade de dar o passo seguinte a que sempre incitam estas relações da blogosfera. Falar cara a cara com quem já nos tratamos por tu é algo de salutar e torna-se inevitável quando se reúne num espaço tanta blogueiragem com a emoção à flor da pele.

Agora, a coisa só faz sentido e só resulta se levarmos a sério cada uma das fases do processo que estamos a iniciar. Em breve comunicamos a data (em confirmação), mas libertem os fins-de-semana que conseguirem no terceiro mês de 2005. Prometemos não tardar a definir uma data concreta. E vejam lá se começam a deixar notícias, ou eu e a Mar acabaremos a jantar sozinhos. Não é exactamente o que temos na ideia...
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publicado por shark às 16:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (48)
Domingo, 09.01.05

O PONTO DA SITUAÇÃO

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De modos que agora a minha vida de blogueiro é assim. Pareço aquele macaco da anedota, aquele cuja relação amorosa com a girafa fracassou porque ela, no calor da paixão, lhe repetia vezes sem conta: ‘beija-me a boca, apalpa-me o cu’. Isto sem querer ser malcriado, mas foi assim que ma contaram e eu não acho que fique tão bem quando chamamos ânus ao cu do macaco que até se diz por aí ter calo no respectivo.
Isto a propósito da minha entrada no Afixe, a acumular com esta casa que vos abro 24 horas por dia e com a outra, mais vocacionada para os périplos nocturnos em regime de alternância democrática.

Mas isto tem que se lhe diga e um gajo vê-se de aflitos para arrumar umas palavritas para um, quanto mais para três. Sendo que no Afixe, onde partilho a coisa com seis colossos da blogosfera, não me concedo margem de manobra para postar sem reler o ficheiro word até lhe gastar as sapatilhas antes de o pegar pelo pescoço(*) das calças e enviá-lo à sua sorte através da magnífica plataforma que nos oferece o Weblog.PT. Magnífica e barata, não sei se já referi.

A Posta Romântica deu-lhe prás mantas e não tarda nada vamos ter oportunidade de recriar esse ambiente fantástico num cenário alentejano. As andorinhas da blogosfera poderão antecipar o regresso da Primavera, rumando sem medos para a nossa confraternização no sul. E por nossa entenda-se deste Charquinho que vos adora, mais o seu elemento natural. Na Mar é que eu estou bem e o Espelho Mágico esclarecerá as vossas dúvidas acerca do facto de não existir um tubarão mais belo do que eu. O derAldra pode confirmar essa garantia, acertados os contornos financeiros da questão.

Daí, chamo a vossa atenção para o que se irá dizendo aqui, aqui e ali a propósito do Jantar Romântico que eu e a Mar vamos, em perfeita sintonia, organizar para nosso e vosso prazer. Podem ir preparando as marmitas e o sorriso nas caritas que a coisa não demora a acontecer.


(*) Sendo que pescoço diz-se cu em franciu.
publicado por shark às 20:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Quinta-feira, 06.01.05

DE BARBATANAS ABERTAS

tubarao4.jpg
Se repararem bem na foto, até tenho uma lágrima no canto do olho...

Vivo nestes dias um período mágico da minha presença na blogosfera. Ando feliz, pois gosto mesmo disto e estão a acontecer coisas que só podem encher um tipo de satisfação.
A primeira surpresa foi a nomeação de blogger do mês no Weblog.PT. Fiquei estupefacto, pois embora saiba o quanto dou de mim a esta 'economia paralela' na gestão do tempo que nunca sobra, nunca se tem a percepção do que vai na cabeça de quem acompanha a nossa evolução. E são as vossas reacções que transmitem a confiança e a determinação para dar o meu melhor, como blogueiro ou na qualidade de comentador.
Ainda assim, e mesmo tendo em conta que este tipo de distinção vale na medida do valor que as pessoas lhe atribuam, não me incluiria numa lista de candidatos potenciais a uma referência desta dimensão. Naturalmente, sinto que se trata de um sinal de que pertenço por direito próprio a esta comunidade fascinante e de que o caminho que escolhi tem margem de manobra para um trabalho que eu e as outras pessoas possamos reconhecer como válido, no âmbito desta realidade virtual.

Contudo, a posta anterior constitui um momento inesquecível para qualquer blogueiro mais inclinado para a emoção. E a posta em si, mesmo abordando um tema que me é tão grato como o amor, nem é o centro da minha atenção. As reacções, nomeadamente na caixa de comentários, tanto em quantidade (estou assombrado) como no calibre da maioria das intervenções (estou deslumbrado e voltarei ao assunto um destes dias), o diálogo que se estabeleceu com um ritmo digno de um chat é um daqueles momentos que dão corpo ao que a blogosfera representa para mim.

Mas ainda tive outra surpresa, outra alegria das muitas com que este vício danado me agarrou. Contrato assinado, deixarei em breve o estatuto de predador solitário e o Sharkinho passará a uma nova dimensão da sua presença entre vós. Pelo carinho especial que me merece essa alteração e pelo cuidado com que quero concretizá-la, vou adiar por alguns dias essa revelação que, estou certo, será bem recebida pela maioria de todos(as) quantos(as) me acompanham por estas e por outras águas.
Sinto para convosco uma enorme dívida de gratidão. Não está fácil encontrar no quotidiano tantas razões para sorrir e para estar feliz como as que me têm oferecido de bandeja, sem me conhecerem de lado algum que não desta cada vez mais significativa porção do que sou. Ponham-se no meu lugar por um instante. Tenho ou não razões de sobra para vos dedicar uma das facetas do amor de que falámos nestes dias, a amizade emotiva de um tubarão lamechas como eu?
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publicado por shark às 10:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (101)
Segunda-feira, 03.01.05

A POSTA ROMÂNTICA

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Sou um dos raros privilegiados que, pelo menos uma vez na vida, conheceram o amor na sua vertente mais avassaladora. Os mais cépticos, coitados, desdenham da existência desta emoção única que pode nascer de um simples olhar. O amor à primeira vista não é um delírio romântico de telenovela. È possível, é real e constitui uma das impressões mais marcantes da existência de qualquer pessoa.
Eu concretizo melhor: receber no peito o impacto desse instante poderoso obriga-nos a reconhecer, entre outras maravilhas, a emergência do romance na vida das pessoas. E utilizo a expressão emergência no seu sentido mais comum: é urgente despertar para a falta que o amor faz.

No preciso momento em que, entre centenas de rostos, o meu olhar se concentrou apenas num, descobri a essência desse impulso irresistível que nos empurra para os braços de outra pessoa. O meu arquivo blogueiro fala por mim no que concerne às muitas fés e ideologias a que nunca me converti. Sou um agnóstico, por regra pessimista e pouco dado a mares de rosas com perfume de utopia. Nesse sentido, nunca acreditei e nunca acreditaria num conceito como o do amor à primeira vista se não tivesse sido abençoado com a sua aparição. De rompante, um rosto de mulher tomou de assalto a minha descrença que outros rostos de mulheres por quem me apaixonei, ou algo parecido, nunca contrariaram. Sem apelo, rendi-me ao halo de luz e nada em meu redor continuou a fazer parte da realidade tal como eu a experimentei na altura.
Era ela e mais nada ou alguém. E eu com o coração a galope, desorientado mas com a plena consciência do que me estava a acontecer.

Nada poderia atravessar-se no meu caminho quando furei a custo o mar de gente para me aproximar do ser humano que, até este dia, maior abalo me causou nas fundações. Ninguém poderia disputar a sua atenção nesses minutos de que eu dispunha para entrar na sua vida como ela já se instalara de armas e bagagens na minha. Numa tirada infeliz um amigo colocou-me a seguinte questão: e se eu descobrir um dia que ela é o amor da minha vida e quiser disputá-la? E eu respondi de imediato, falou o coração. Desistes ou morres. E não lhe restava mesmo outra alternativa, enquanto ela me quisesse como eu a queria e viria a acontecer.
O amor à primeira vista é como um relâmpago que nos atinge, alta voltagem de uma corrente de paixão. É talvez, tal como faço questão de a recordar até ao fim dos meus dias, o vislumbre mais aproximado que terei de Deus se Ele existir sob esta forma - como gosto de acreditar à revelia da minha apregoada falta de fé.
É esse o fundamento da minha perspectiva romântica das relações amorosas entre as pessoas. É por isso que afirmo sem hesitar que a cada esquina da vida, sem qualquer esforço de procura, pode encontrar-se o amor de uma vida. E quando isso acontece, podem ter como certa uma coisa: a gente percebe na hora do que se trata.
publicado por shark às 10:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (462)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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