Quinta-feira, 30.12.04

BLOG DE SEXO

abusados.jpg
Com o derFred recrutado pelo Ruínas, tenho que recorrer às segundas escolhas...

É impossível resistir. Devem estar recordados da minha recente análise às expressões utilizadas nos motores de busca que trazem visitantes desprevenidos a este blogue.
Pois a coisa não pára de me surpreender. O título desta posta representa 15% do total das visitas do Charquinho que cá vieram parar via Google e afins. Curioso, não?

O sexo, essa magnífica aplicação que a maioria das criações do Altíssimo dão a alguns dos seus equipamentos de série (muitos até já incorporam acessórios na paródia – assim como os tectos de abrir dos automóveis -, sem desprimor para ninguém porque o meu carro até dispõe desse extra, de origem), essa exibição espantosa de criatividade e de sentido prático das criaturas engraçadas que somos atrai perto de metade dos buscadores do tubarão.
Senão, vejamos:

Ninfomaníaca – Aqui está a segunda prioridade da nossa estimada clientela. Tudo à fartazana. Verdadeiros corredores de fundo em busca de provas de alta competição, de desafios à altura do seu desempenho atlético. Categoria: Desportos Radicais. Secção: Modalidades Amadoras.

Sexo implícito – Esta é para as visitas que mesmo gostando da fruta desgostam vê-la exposta à bruta. Apreciam apenas uma espreitadela, de soslaio. Categoria: Seguros. Secção: Cláusulas das Condições Gerais da Apólice.

Boneco sexo – Posto desta forma, julgo que estamos a falar dos tais acessórios que referi acima. Nesse caso, Categoria: Instrumentos de sopro, Secção: Toys’Ur’Us

Como fazer sexo família – Acerca de como fazer sexo podemos partilhar a nossa perspectiva. Mas as questões familiares são tratadas noutro departamento. Categoria: Manuais de Instruções. Secção: Bizarrias.

Blogs picantes – A gastronomia condimentada popularizou-se bastante na ressaca do processo de descolonização. Sobretudo de Moçambique, os regressados das ex-colónias ultramarinas trouxeram consigo o apetite pelos sabores intensos e por algumas interessantes ervas aromáticas. Podem encontrar aqui, aqui e aqui algumas das minhas mais sólidas referências na matéria. Categoria: Culinária. Secção: Pantagruel kamasutra.

Mas os blogueiros anónimos buscam a resposta a outro tipo de questões, algumas mais directamente relacionadas com a alimentação. Outras, nem por isso...

Casulo sapateira – Sou um leigo na matéria. E prefiro não ver a minha sapateira transformada numa crisálida. Sobretudo depois de ter acabado de confeccionar o meu molho especial. Categoria: Engenharia Genética. Secção: Mariposas subaquáticas.

Bebida slow gin – ‘Where’s the fuckin bar, John?’ (Pink Floyd). ‘Show Me The Way To The Next Whisky Bar’ (The Doors). E por aí fora. Mas também servimos bebidas shake. Categoria: Barman. Secção: Cocktails que batam devagar.

Desenho de cartola – A arte mora aqui. Mas o desenho não é uma das especialidades do artista. Podemos, no entanto, encaminhar V Exas para um espaço apropriado para obter informação mais concreta sobre o tema. Categoria: Artes Gráficas. Secção: Tio Patinhas.
Coelhinhos fofos – Outra pequena confusão. Ó João Pedro da Costa, vê lá se consegues conceber um mapa para distribuição gratuita prá malta não se perder no caminho, fáchavôr. Categoria: Perdidos & Achados. Secção: Tendências suicidas.

Comando para televisão no telemóvel – Podemos sugerir um sofisticado sistema de controlo remoto do sofá, incorporado na lata de cerveja? Categoria: Tecnologias de Ponta. Secção: Cidadãos Auto-Imobilizados.

E, como habitualmente, distingo a escolha acertada. Ou seja, a expressão que mais me parece não trazer as visitas ao engano.

Blogger de mulher – Esta sensibilizou-me particularmente e até serve de justificação para a foto acima. Não sou de, mas tento ser para. Contudo, no Charquinho não fomentamos a discriminação sexual e tentamos ir ao encontro de todo o tipo de preferências. Blogger de homem também serviria, espero eu. Até porque de vez em quando falo de futebol. E de gajas...
publicado por shark às 11:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (47)
Quarta-feira, 29.12.04

ESTATUAGEM

O tradutor ficou confuso. Os terráqueos, primitivos e estúpidos, só diziam coisas sem sentido. Mas aquela deixou-o estupefacto. Conseguira a custo explicar-lhes que no seu planeta natal era tradição conceder um desejo aos habitantes dos planetas visitados, para gravar marcas dessa passagem. E eles parecia terem percebido a ideia. Porém, o pedido formulado pelo chefe local soava ridículo.
Acabou por fornecer a sua versão da bizarria ao comandante da nave. As gargalhadas de toda a tripulação ecoaram pela praia, enquanto o nativo insistia em levantar os braços à altura da cabeça e apontava para os rochedos, tentando explicar que pretendia capacetes iguais ao do comandante para toda a comitiva que ali levara. Sólidos, firmes e muito grandes para impressionar os seus inimigos. O tradutor só entendeu uma pequena parte. Mas atenderam o pedido na mesma.
Minutos depois, a nave partiu da ilha da Páscoa rumo a outra galáxia distante.

pascoa3.jpg
Tags:
publicado por shark às 19:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

GHOSTBUSTERS III - A REGURGITAÇÃO

Car__Ghost_Cartoon.jpg

O casal dormia descansado no seu apartamento numa localidade dos subúrbios.
Às tantas da matina, uma das vizinhas desatou a espancar-lhes a porta de casa. Assustados, precipitaram-se para fora da cama como duas baratas tontas. A vizinha não abrandava o ritmo da batucada e acrescentava mais uns pós à desorientação dos jovens.
Conseguiram por fim abrir a porta e ela entrou desarvorada, direita à cozinha. Foi lá que lhes confessou o motivo da sua aflição. Fugia dos fantasmas que acreditava perseguirem-na no sentido de se apoderarem do seu corpo. Para evitar que tal acontecesse, a senhora tentava agora induzir o vómito para expurgar alguns resquícios de alma penada que pudessem ter invadido o seu sistema digestivo.
O casal evitou a custo o sucesso da tentativa. Depois gastaram parte do que restava da noite de sono a acalmarem a vizinha, horas a procurarem uma forma de a convencerem a regressar a sua casa, no piso superior.
Lograram transmitir-lhe a calma e a confiança necessárias para a serenar e ela lá subiu os degraus. Ao todo, dormiriam cerca de duas horas e no dia seguinte ambos foram trabalhar. Nenhuma entidade, médica ou policial, seria incomodada com este assunto de rotina.
Meia zonza, seria a moça a contar-me a história com todos os pormenores nessa manhã penosa e sustentada a cafés.

Causa-me estranheza. Porque será que cada vez nos surpreendem menos, estas manifestações públicas de evidente insanidade mental por parte das outras pessoas?
publicado por shark às 09:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Terça-feira, 28.12.04

A POSTA INSECTÍVORA

Aconteceu-me por três vezes nos últimos dias, em grandes superfícies comerciais. Cruzei-me com pessoas que conheço e me conhecem também. Mal me puseram a vista em cima, apontaram os focinhos pró chão e fizeram de conta que não me viram. Só para evitarem um simples cumprimento, mesmo que à distância e sem alguém abrandar a passada consumista própria dos retardatários (os melhores velocistas de qualquer chopingue nos dois dias anteriores à véspera de Natal).

Quase me convenci de que vestira um casaco verde alface, ou que cheirava mal dos sovacos ou dos pés. Sentia-me um repelente de insectos com pernas, embora fosse eu o enojado pelo desplante daquelas pessoas que, cedo ou tarde, acabarão inevitavelmente por me cumprimentar algures.

Faz-me impressão, esta alergia aos outros que nos apressa para dentro do ascensor apenas para evitar a viagem de segundos na companhia do vizinho que meteu a chave à porta para entrar no edifício, mesmo atrás de nós.
Causa-me desconforto, esta esquizofrenia que a cidade incute nas nossas condutas e que nos afasta dos outros como se cada pessoa fosse uma espécie de mosquito nocivo, capaz de com uma simples picada de palavras infectar-nos com alguma doença terminal.

bimbi_B-N.jpg
-Olá, beleza! Posso dar-te uma picadinha de amizade?
publicado por shark às 11:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (29)
Segunda-feira, 27.12.04

derFRED NOS BLOGTROTTERS

aviao1.jpg
A aeronave da British Airways a bordo da qual derFrosque se pôs na alheta

Está consumada a aquisição de um importante reforço de Inverno por parte do Ruínas Circulares (As). De acordo com o fidedigno Casa de Alterne, o Real Madrid da blogosfera lusa adquiriu o passe do famoso craque derFred por uma quantia astronómica (ainda no segredo dos deuses), no sentido de reforçar o seu magnífico plantel na disputa dos lugares cimeiros da Liga dos Campeões.

Fontes bem colocadas afirmaram ao nosso repórter que o avançado de origem germânica zarpou para o Reino Unido logo após a conclusão do negócio milionário, temendo eventuais represálias por parte de outros clubes com quem entabulava negociações.

A estreia da nova vedeta virtual aconteceu no passado dia 24 do corrente, depois de realizados os testes médicos e uma prova de queijos. A apresentação oficial do novo ruinoso aos adeptos do clube terá lugar durante um jantar a decorrer em Lisboa em data a anunciar oportunamente.
publicado por shark às 15:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)

A NATÁLIA DO TUBARÃO

SharkSerreta_lq.jpg
Não há como uma posta do rabo para alegrar a Consoada...

De maneira que é assim.
Pedaços de papel de embrulho e laços amarrotados um pouco por toda a casa.
Um bolo-rei, que parecia um ó, esculpido às fatias até mal se descortinar um cê.
Os fritos do costume.
As garrafas vazias de Anta da Serra (tinto) e do João Pires bem frio que a malta nunca dispensa.
A árvore de Natal e o presépio ainda presentes. Mas com a relevância menor das coisas passadas.
A lembrança de sorrisos rasgados, de afectos trocados, da magia retratada na fotografia tirada, para mais tarde emoldurar. A prenda prá tia no natal do ano que vem.

De maneira que foi assim.
Agora, só pró ano.

Outra vez.

caodorme1.jpg
...zzz...lombinhos de rena na grelha...zzz...
publicado por shark às 10:49 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 24.12.04

O PAI, O MENINO E A ETERNA IGNORADA

Em Outubro já havia quem o desejasse feliz. E abastado, também.
Nesta altura, ninguém vê outra coisa diante dos olhos. Anda o povo na rua, olhar alucinado, lista de compras de última hora na mão, falta a do Manel, a da Francisca tá pobrezinha. E não damos nada à vizinha do segundo andar?
Na blogosfera multiplicam-se os votos de um Natal feliz. Encontra-se de tudo, mas uma coisa ainda não encontrei: uma palavrinha que seja acerca da desgraçada dos bastidores que lhe lava e engoma a fatiota, embrulha as prendas todas, trata da manutenção do trenó e ainda cuida das renas enquanto ele recebe os créditos todos, abancado no sofá.
Já não faltava o facto de o menino Jesus não ser uma menina, ainda temos um Natal que é Pai. Só mesmo as renas representam o feminino e toca-lhes andar com a tralha atrelada, mais o velhote que não tem pinta de quem desdenha umas boas feijoadas à transmontana.
De resto, é só iconografia machista. Já tem barbas, esta postura, e nem a coca-cola teve coragem para a barbear.

Contudo, no Charquinho não se admitem discriminações. Façam o que entenderem. Mas eu sei que se ela lhe falha, bem podem olhar para a chaminé e para o sapatinho que nada acontecerá. (Des)Esperem sentados.
Por esse facto, a minha posta de Natal (A posta e não O poste, note-se) é inteiramente dedicada a essa grande figura que é a verdadeira responsável por toda esta alegria que hoje podemos viver.

Assim, resta-me desejar-vos uma FELIZ NATÁLIA para respeitar a coerência a que este blogue vos habituou.

papainoel.jpg
A NATÁLIA, FELIZ... (conceito gentilmente cedido pelo Monty, do Afixe)
publicado por shark às 16:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)

A POSTA IDOLATRADA

tshirtjp.jpg
Tags:
publicado por shark às 13:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quinta-feira, 23.12.04

A POSTA DO ANO!

Sharkoelho.jpg

De repente dei comigo no escritório, em horário de expediente, caneta em riste para desenhar coelhinhos suicidas numa folha de papel. Senti-me outra vez como no liceu, quando os profs debitavam a sabedoria para os outros e eu fixava o olhar na colega mais gira da turma e rabiscava desenhos sonhadores no caderno, alheio. Parecia um puto outra vez. E acabei por desenhar não um mas três coelhinhos suicidas que enviei para o Ruínas com um entusiasmo infantil.
Este foi o primeiro motivo pelo qual a posta do ano me provocou um sorriso.

Depois aguardei com expectativa a galeria que o João Pedro da Costa (fixem este nome e daqui a uns tempos falamos outra vez), dizia eu, a galeria que o autor da posta do ano prometeu a todos quantos respondessem ao seu desafio. Enquanto esperava fui consultando as caixas de comentários, um mimo. Boa disposição, ambiente agradável, pessoas de todas as idades feitas putos como eu.
Este foi o segundo motivo pelo qual a posta do ano me provocou um sorriso.

E hoje pude finalmente observar o resultado final do que o João Pedro da Costa (tomem nota, não se esqueçam) concebeu com base na participação dos seus fiéis e dedicados leitores. Fiquei encantado e digo isto desta forma apenas para não exagerar na expressão. Quero mesmo é que os mais distraídos não deixem de ir AQUI sem falta para perceberem do que tenho estado a falar.

Na minha modesta opinião, uma posta que é interactiva, que põe adultos a desenharem coelhinhos suicidas, a conversarem sobre o assunto na caixa de comentários, com um texto bem escrito e imaginativo que dói (de rir), uma posta assim, deixem-se de merdas, é a melhor deste ano e não oferece discussão. Estou rendido ao meu blogueiro de eleição: João Pedro da Costa ESTIVESTE MESMO BEM, CARAGO!!!

Ainda não parei de sorrir.
Tags:
publicado por shark às 13:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Quarta-feira, 22.12.04

A POSTA ÍNTIMA (À CAP)

tuqfumas.jpg

A ideia não é original. Foi ao CAP do (RE)PRIMADESBLOG que a pedi emprestada. Ele decidiu dar a conhecer ao mundo uma parcela do armário do seu wc. Eu optei por uma fracção do tampo da minha mesa na esplanada.
Parece que estas fotos não dizem nada acerca de nós, mas isso só ocorre a observadores mais desatentos. O manancial de informação é tanto que quase se compromete o anonimato de uma pessoa. Senão, vejamos a gravura anexa.

De chofre: o gajo fuma e não é abstémio. O gajo sou eu e os pressupostos são verdadeiros. Mas há mais. O gajo fuma tabaco de enrolar. Huummm... E usa isqueiro da Bic, o que denuncia a sua exposição à publicidade dos anos setenta (bic laranja para escrita fina, bic cristal para escrita normal) e a sua preferência por isqueiros que se aguentem à bronca em operações de queima mais prolongadas. Huummm...

E bebe cerveja, o gajo. Super Bock, claro (mas preta bebo Sagres). Se bebo, não deverei ser muçulmano. Não sou. Sou agnóstico e isso confere-me algum espaço de manobra sempre que está em causa um pecado terreno. E sim, adoro esplanadas. Donde se conclui que aprecio a vida ao ar livre, pelo que chamo a atenção do pai natal para a urgência de um computador portátil que me permita blogar fora de recintos fechados. Sou um nadinha claustrofóbico também. Quando era pequeno fiquei muitas vezes encravado em ascensores. Isso denuncia-me como um gajo da cidade, classe média, vulnerável a traumas de infância e, por consequência, fragilizado na estrutura emocional. Não tarda nada ficarei desnudo perante vós...

Olhemos de novo para a gravura anexa. Que é aquela coisa encarnada lá atrás? Um sinal inequívoco do meu benfiquismo? Também. Mas sobretudo, uma prova de que recorro a bolsas de cintura para substituir os inúmeros bolsos de que necessitaria para guardar chaves, carteira e outras bugigangas de natureza pessoal. Um gajo prevenido vale por dois. Sou alto mas nem tanto. Ainda assim, calço sapatos com o número 44. Uma autêntica barbatana, o que joga certo com a morfologia de um tubarão. O que implica que existe um inegável fundo de verdade no que afirmei.
Agora, olhem com mais atenção para a foto com que o cap mostrou a ponta do icebergue. Pistas all over (olha, o gajo - que sou eu - fala inglês). E depois olhem outra vez para o meu striptease parcial. Digam lá se não é fácil tirar um porradão de conclusões. Digam, vá!

cap.bmp
publicado por shark às 09:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (31)
Terça-feira, 21.12.04

ACONTECEU NO OESTE

Billythekitty.jpg

Um deles estava encostado ao umbral da porta da sala. O outro, visivelmente mal disposto, deu-lhe um valente encontrão quando entrou. Ninguém na sala se apercebeu, excepto eu e as minhas duas parceiras de mesa, pois estávamos voltados para a porta enquanto a plateia estava de costas para a situação.
Porém, depressa as palavras associadas aos ‘chega para lᒠse sobrepuseram no tom e no calibre às dos restantes convivas. Chamaste filho da puta a quem? E toma lá um encontrão. A ti, meu boi! E toma o troco, punhos engatilhados para o que viria a seguir.
Na mesa, a minha parceira da esquerda encerrou-se num mutismo que denunciou a sua capacidade de iniciativa na questão. Já a da direita amaldiçoava o dia em que se associara de alguma forma a tal bando de rufiões. Deitei as mãos à cabeça e levantei-me, resignado ao cariz inevitável da minha intervenção.
Quando cruzei a sala, todas as cabeças me seguiram com o olhar. Senti-me uma espécie de xerife de um western spaguetti, com a população assustada da cidade a louvar a minha coragem e o cangalheiro a tirar-me as medidas a olho. Do lado de fora da porta, as coisas já tinham assumido outras proporções. Os familiares e amigos haviam aderido à manifestação espontânea de insanidade, somando mais três ou quatro pessoas de ambos os sexos envolvidas no sururu.
Fiei-me no cabedal e entrei a matar no meio da confusão, discurso diplomático aos berros para serenar os ânimos e recurso a força física quanto baste para separar aquele molho de brócolos que me aterrou nos braços num dia que até parecia normal quando começou.
Consegui afastar os intervenientes associados, mas a dupla protagonista já tinha ultrapassado a fase da simples escaramuça. Eram dois adultos corpulentos em plena cena de porrada e eu no meio, em representação da mesa.
Finalmente, com a colaboração de alguns auxiliares de última hora, lográmos separar os dois. Mesmo à justa, antes da chegada dos dois agentes da autoridade que com cara de gozo me deram a conhecer a sua estranheza de serem chamados a um sítio daqueles para porem cobro a uma zaragata.
E eu, com a ‘asa’ direita amolgada para um mês, um hematoma feio num perna e a marca de um sapato abaixo da clavícula, pedia desculpa aos polícias, agradecia a sua rápida intervenção e mandava-os em paz. Foi só um mal entendido, shôr guarda, uma coisa pequena...

Depois voltei a percorrer a sala, agora substancialmente mais vazia, mas ninguém aplaudiu o meu esforço nem avaliou o que me doía tudo aquilo.
Sentei-me e tentei dar sequência à ordem de trabalhos, marcada por algumas importantes decisões para tomar. Dorido mas voluntarioso, até porque seria a minha despedida do cargo que justificava a aziaga presença naquela mesa, empenhei-me em obter o consenso do pessoal e tentei extrair algo de positivo daquela barracada.
Consegui e exultei por dentro, vaidoso da minha capacidade negocial. O sorriso interno morreu na minha mente quando uma das parceiras constatou a falta de quorum para validar qualquer decisão. Foi mais uma cacetada na carcaça desta pessoa.
Dez minutos depois, dei por encerrada a última assembleia a que presidi na qualidade de administrador do condomínio. A minha exibição de bravura não ficou registada na acta porque, como alguém fez questão de salientar, parecia mal. Não constava da ordem de trabalhos...
publicado por shark às 14:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Segunda-feira, 20.12.04

LIVRE ARBÍTRIO

b2.jpg

Os seus alegados cúmplices conseguiriam a custo voar para o jipe da GNR que zarparia pouco depois de se instalar a confusão. Mas o principal acusado pela populaça embicou na direcção oposta, azar o dele, e corria agora diante de uma multidão armada de forquilhas, de paus e de todo o tipo de objecto contundente que lhes ocorria empunhar.

Dirigiu-se para o centro da aldeia e atravessou o largo do pelourinho em passada larga, ainda equipado, com as calças apertadas numa mão. As calças, e a carteira dentro delas, haviam determinado a sua fuga em sentido contrário ao dos seus auxiliares. Suava em bica sob o calor tórrido da tarde de Verão, mas nem lhe passava pela ideia abrandar a corrida.

Já se ouviam os gritos exaltados da turba que invadia a aldeia em perseguição do réu quando o fugitivo chegou ao adro da igreja. À porta, o padre fez-lhe sinal para entrar no templo. Bastara-lhe olhar para o equipamento do desgraçado para lhe adivinhar a aflição. E ele entrou, em pânico, enquanto o prior fechava as portas atrás de si.
Siga para aquela porta à direita, homem de Deus!, disse o padre. Dentro da pequena sala, o fugitivo percebeu que não existia escapatória. Nem uma pequena janela.
Vista isto depressa!
A vítima potencial de linchamento hesitou durante dois segundos e depois enfiou a farpela. As pancadas na porta soariam pouco depois. O homem estremeceu.
Enfie-se no confessionário!
E o infeliz, ainda com as calças numa mão, correu para o interior do pequeno espaço em madeira. Susteve a respiração, quando ouviu as vozes exaltadas que interrogavam o padre acerca do paradeiro do gatuno. O pároco, firme, correu com o pequeno destacamento da igreja e ainda os ameaçou de excomunhão caso não aparecessem no dia seguinte para pedir a absolvição do Senhor.

Muitas horas mais tarde, com a aldeia envolta num manto de breu que a madrugada trouxera, o árbitro disfarçado de viúva idosa atravessou em bicos de pés a aldeia que desonrara por não assinalar o penaltie que evitaria a despromoção da equipa à segunda divisão distrital de futebol.
publicado por shark às 10:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Sábado, 18.12.04

A POSTA A DOIS

Evening howl.jpg

Nunca se está tão sozinho como quando somos dois com a pessoa errada.

Margareta Ekstrom
publicado por shark às 19:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Sexta-feira, 17.12.04

OS NETOS DO HORROR

242d984.jpg
Feliz Natal!

Pura coincidência. Quando o filme estreou eu estava em Colónia com um amigo. Com algumas horas para ocupar nesse serão, decidiramos rumar ao kino mais próximo e com muita sorte deitámos mãos a dois dos últimos ingressos para a estreia.
Uma plateia jovem, aparentemente todos alemães, mais nós, dois portugas infiltrados, eu com uma barba cerrada e cabelo comprido que me garantia a cidadania turca naquelas paragens e me valeu alguns problemas ao longo da estadia, testemunhas do horror inenarrável protagonizado pela geração dos avós daquelas pessoas.
Uma após outra, as cenas sucediam-se e definiam os contornos de um passado hediondo que aquela nação, décadas antes, marcara na história com a vida e o sangue de milhões.
A carga emocional, tremenda, aterrou na sala quando o filme chegou ao fim. Nem um som, nem um movimento, luzes acesas sobre os rostos fechados de quem se debatia entre a incredulidade e a vergonha que é impossível disfarçar perante tamanha chacina.
Nem uma pessoa fez menção de abandonar a sua cadeira, já a música parara de tocar e nenhuma imagem coloria o écran. Em absoluto silêncio, os jovens germânicos fixavam o olhar no chão ou na tela vazia e meditavam acerca da crueldade insana que a película apenas recriou.
Deu-me para chorar como uma madalena arrependida, a tensão insuportável que esmagava cada um dos presentes na sala, a carga terrível que tal registo depositava nos ombros daqueles herdeiros involuntários de uma cicatriz feia e sem remissão.
Alguns não resistiram e choraram também. Outros abandonaram finalmente o seu lugar, sem pressa, silenciosos como no interior de uma igreja, sobrolhos franzidos, esgares de contrição interior.
Fomos os últimos a sair, quase meia hora depois da última imagem projectada.
Pelas circunstâncias que descrevi, a Lista de Schindler tornou-se num dos filmes que jamais esquecerei.
publicado por shark às 10:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (32)
Quinta-feira, 16.12.04

SHIT HITS THE FAN (A POSTA TERRORISTA)

aviaodenatal.gif
Feliz Natal!

Existem as meias-verdades, as histórias mal contadas e as mentiras piedosas. Este poderoso arsenal está ao alcance de qualquer pessoa e o cidadão comum utiliza-a sem problema, como um telemóvel, como um comando de televisão. Ou como qualquer outro utensílio indispensável no quotidiano de cada um.
Contudo, o cidadão comum não está preparado para manusear os equipamentos em causa. Estoiram-lhes a vida em pedaços quando implicam um retorno, um desenlace imprevisto que lhes esmaga as pretensões.

As meias-verdades são o expediente mais banal. Conta-se a história numa versão reduzida, parcial. Conta-se o mar de rosas e o final feliz e omitem-se os detalhes melindrosos ou mais susceptíveis de se virarem contra o contador. Quem conta uma meia-verdade conserva sempre a parte mais suculenta da informação, a pedra de arremesso futura, o pormenor sórdido que em vez de descer pelo cano flutua. Vem à tona porque a metade da verdade contada não camufla as incongruências e estas, como se sabe, cheiram mal em qualquer história.

As histórias mal contadas são a versão pimba das verdades meias. Mais desajeitadas, equilibradas a custo num mísero galho de veracidade, visam apenas desviar as atenções ou inventar alibis. Não requerem um esforço intelectual intenso, divertem os interlocutores mas, em contrapartida, é frequente uma história mal contada descambar num cenário confrangedor. Um pouco como um tipo tapar a cabeça e destapar os pés.

As mentiras piedosas são a artilharia pesada do hipócrita padrão. A piedade beatifica-as. São um mal necessário, um mecanismo de protecção ‘legítimo’ contra a capacidade de reacção da pessoa que se visou. Não se conta a história e inventa-se uma outra em sua substituição, para o alegado bem de um inevitável coitadinho incapaz de encaixar uma verdade nua e crua. Faz-se de parvo o alvo desta estranha misericórdia. Porque a mentira apenas oculta por algum tempo uma verdade à solta, ansiosa por se fazer descobrir.

A verdade é como uma espécie de factor aleatório, uma mina, uma bomba-relógio oculta, discreta num canto para ninguém a descobrir. Quando dão por ela, nem os especialistas conseguem desarmar alguns detonadores.
E depois pum!
publicado por shark às 11:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Quarta-feira, 15.12.04

MANTENHA-SE VIGILANTE!

so jesus salva.jpg

Preparava-me para tomar um duche e o Futebol Clube do Porto preparava-se para se sagrar campeão mundial pela segunda vez. Nóque, nóque!
Confesso que não é costume baterem-me à porta nos domingos de manhã. Quem o faz arrisca-se a enfrentar a fúria do tubarão. Vesti qualquer coisa à pressa e abri a porta com ar de quem acabou de sair da cama e não está com disposição para socializar. Deparei-me com uma gaiata, adolescente, vestida à anos 50, mais o pai, um invisual cinquentão.
O protesto morreu na minha garganta e acabei por balbuciar um fáchavôr de dizer.
E eles disseram. Com a eficácia de dois chineses praticantes de pingue-pongue em alta competição. O pai afirmava, a filha folheava a Bíblia durante cinco segundos e recitava o trecho da confirmação.
Eu insistia na minha firmeza agnóstica e a dupla contrapunha sem hesitar. O pai afirmava e a filha zás! E eu olhava alternadamente para um ou para outro, apoiado na porta entreaberta. O Porto falhava uma grande penalidade, era o que me parecia, do pouco que captava do ruído de fundo da televisão, ao longe na sala.
O pai, compenetrado, utilizava a minha argumentação como um judoca. Cada vez que me era concedida a palavra, o efeito bumerangue estava lá para me arrepender. Aliás, o meu arrependimento parecia o objectivo último daquela dupla disciplinada. Um apocalipse ao virar da esquina e a salvação oferecida à minha porta, em versão familiar, mais uma revista gratuita para consolidar a argumentação.
Medonha, a revista Mantenha-se Vigiante!. Na ortografia (desastrosa) e sobretudo na intimidação dos pecadores da grande Babilónia. Como eu, agnóstico confesso, punido à porta de casa com o sermão enfatizado em altos berros pela eucaristia televisiva da vizinha muito católica de cima, um ritual de fé a que já me habituei como ao apito do despertador.
As únicas testemunhas do meu martírio, que deixa de haver vizinhos em casa quando algum otário se deixa caçar, eram o pai e a filha, transbordantes de satisfação por outro passo significativo rumo ao Paraíso de Jeová. E eu cada vez menos convicto do meu lugar cativo no Céu, com a cidade do Porto a festejar a tremenda vitória a que não pude assistir e o meu Benfica goleado pelo Belenenses, sem apelo, para complementar. Mais a ameaça do extermínio (quase) total do Mundo às mãos dos anjos vingadores e de um Jesus Cristo regressado com muito mau humor, tudo bem claro no panfleto em brasileirês. Mais a música sacra da vizinha, banda sonora do meu purgatório dominical.
Nosso Senhor que me castigou algum defeito me encontrou...
publicado por shark às 09:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (28)
Terça-feira, 14.12.04

VOTO MAIS ÚTIL NÃO HÁ...

ricardo1.jpg
Toda a regra tem excepção...

... Mas gostava que a composição dos governos fosse determinada pelos mesmos critérios com que se designam os seleccionados para a nossa equipa nacional de futebol.
No Governo ou na oposição, os partidos trabalhariam para promover o desempenho dos melhores de entre si e só os melhores chegariam ao poder. Um só objectivo, muito acima de quaisquer ideologias, servir bem a Pátria que os escolheu para liderar uma mudança efectiva para melhor.
Políticos com seriedade, com pudor, rigorosos, determinados em recolherem orgulhosos o reconhecimento de um país que é o seu. Cidadãos capazes, conhecedores, acima da média na competência e na motivação.
Que me importa se a Manuela Ferreira Leite toma conta das Finanças se, por outro lado, o Francisco Louçã tiver a seu cargo o Trabalho e a Segurança Social? Que me interessa se o José Sócrates é o Primeiro-Ministro, se a equipa por ele chefiada integrar os mais qualificados de qualquer partido ou mesmo de um movimento de cidadãos com impacto visível na melhoria das condições de vida dos portugueses?
Nessa perspectiva, porque haverei de preocupar-me se é comunista o Ministro das Cidades, sendo quase unânime a noção de que é boa a capacidade de execução dos autarcas PC? Ou se o Ministro da Saúde é um excelente gestor hospitalar militante do PP?
A minha preocupação é a estagnação de uma Democracia entregue ao livre arbítrio das segundas e terceiras escolhas, um sistema que repele em vez de atrair os publicamente aceites como melhor qualificados para dada função. Limitados pelas idiotas guerrilhas inter pares, os partidos condicionam a ascensão das pessoas à sua habilidade política, a uma boa gestão de alianças circunstanciais. Nada tem que ver com mérito ou valor intrínseco, mas apenas com o talento para a representação e a astúcia para farejar as oportunidades de promoção onde quer que estas surjam e sob quaisquer condições. Dá vontade de votar em branco e de fazer uma campanha eleitoral digna de um Prémio Nobel da Literatura.
Gostava de votar em candidatos com provas dadas na construção de um país melhor, em vez de líderes políticos de fachada, manietados pelas diversas pressões. Gostava de votar com a certeza de que contribuo com o meu quinhão para o bem do meu país.
Isto é pedir demais a uma democracia, porra?
publicado por shark às 14:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)

A POSTA PIEGAS

tubarao2.jpg

Se alguma vez eu estiver mais de 30 dias sem blogar podem ter como certo um de dois pressupostos: ou estou internado num hospital ou morri.
Impedimentos da mais diversa ordem, desde o impensável ridículo até ao mais próximo que se arranja de tragédia grega, afastaram-me da blogosfera por mais de 48 horas. É terrível, para um blogueiro com uma ligação forte à coisa. Eu descobri, com esta ausência forçada, que estou mesmo muito ligado à coisa. E a coisa são vocês, pois o que eu digo ou faço aqui não tem importância nenhuma se eu guardar o meu trabalho para consumo interno ou se vocês não lhe passarem cartão.
Tive saudades, assumo. E não tive saudades de postar, mas sim das vossas reacções ao que posto. Também senti a falta do que os outros blogam, de me rir, de pensar acerca de assuntos que não me ocorreriam, de aprender as lições que esta dimensão virtual da minha vida ensina. Eu gosto de aprender e sinto necessidade de saber mais e de partilhar convosco o que sei e o que sinto, de me divertir com as vossas reacções e com as minhas.
Já por diversas vezes referi que o meu fascínio pela blogosfera assenta num único pilar: as pessoas que blogam. Blogueiras e blogueiros, comentadoras e comentadores, gente na sua maioria porreira e interessante a que esta gratificante actividade me permite aceder. É aí que reside a motivação para espartilhar ainda mais o meu tempo para nele encaixar esta minha nova paixão.

Sinto a vossa falta como se vos conhecesse há uma data de anos. Isto pode soar piegas, mas estou-me nas tintas. A minha matriz latina descontrola-me as emoções e toda a vida tenho enfrentado as consequências, boas ou más, desta propensão para extremar de forma irracional os meus amores e os meus ódios. Faz parte do que sou, deste tubarão forçado que queria ser golfinho mas a blogosfera não deixou. Um esqualo de água doce, barbatanas bem estendidas para o abraço que vos quero dar. Todos os dias, de preferência.
Tags:
publicado por shark às 09:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Sábado, 11.12.04

A POSTA DESABAFADA

Bored_man.gif

Daqui a nada vou participar num almoço de família. Nesse momento de convívio pode acontecer uma de duas coisas:

a) Assistirei a uma triste comédia, uma encenação destinada a encobrir um problemão a que sou alheio mas de modo algum indiferente;
b) Serei oficialmente posto a par do problemão (do qual já tomei conhecimento por portas e travessas) e inevitavelmente arrastado para o vórtice da bronca.

Note-se que quando a bronca apenas existia em potência nas minhas previsões mais pessimistas tudo fiz para dissuadir quem se preparava para mergulhar de cabeça numa decisão que só podia produzir um péssimo resultado.
E acrescente-se que as potenciais consequências da bronca podem ser devastadoras para a família em causa. Eu comerei por tabela, como sempre acontece na sequência das minhas intervenções generosas mas excessivamente emocionais.

De pouco me valerão as sedutoras propostas da ementa. O meu apetite pelo evento é proporcional à vontade que tenho de comer alguma coisa. Até porque o entusiasmo canino do meu fiel amigo acaba de me custar a perda de um componente destacado da minha cremalheira(*), outro problema em vias de resolução, mas só em vias, e que me obriga a manter a boca fechada.
Porém, palpita-me que não encontrarei ao longo do repasto quaisquer motivos para sorrir. E só falarei sob coacção...

(*) dentição, em charquinhês
publicado por shark às 12:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Sexta-feira, 10.12.04

UM SONORO PORRA!

Tal como as fases da lua, os ciclos da economia e os interruptores, as nossas existências oscilam. Um dia está tudo numa boa, nos dias seguintes parece que os astros se conjugam para nos apresentar um lote de facturas pelos diversos pecados e omissões em que incorremos algures pelo caminho.
Nessas fases aziagas, tudo parece avançar às arrecuas e existe sempre uma esquina imprevista em rota de colisão com os nossos joelhos. Ou com a testa. Ou com o dedo mindinho do pé.
São períodos em que nos dá vontade de gritar o desatino num sonoro porra, a cada instante. Para toda a gente saber e assim poder partilhar o nosso desalento pelas sucessivas bordoadas sob a forma de pequenos ou médios dramas do quotidiano.
Neste particular, um blogue é muito funcional e terapêutico.
publicado por shark às 17:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)

A POSTA CONGELADA

Icebergue.jpg

Se eu gostasse de rapar um briol assim tinha ido viver para a Lapónia.
publicado por shark às 14:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Quarta-feira, 08.12.04

SEXO, NA SUA MAIORIA

caught.JPG

Descobri, pela leitura de uma posta do Ruínas – esse manancial de descobertas, um recurso das estatísticas deste blogue que passará a constituir um tema mensal para a reflexão acerca do Charquinho e do tipo de pessoas que o procuram.
Não levem demasiado a sério esta introdução. Atribuo ao referido recurso apenas a importância inerente a um tópico passível de alimentar uma posta típica de um feriado. Como esta.

Assim sendo, partilharei convosco uma amostra representativa das expressões utilizadas nos motores de busca para encontrarem este caminho para a salvação, esta lufada de peixe fresco na blogosfera nacional e estrangeira. São indicadores do que procuram neste estranho mundo da internet algumas das pessoas que a frequentam. Interessam-me para já as que vêm cá parar. E como...

‘Sexo implícito’ – Esta visita não veio ao engano. Temos sim senhores, nas entrelinhas.
‘Blog de sexo’ – Parece-me excessiva a definição. É mais de nexo. A causalidade é a minha. E a vossa, também, bem vistas as coisas.
‘Bigamia’ – A sua dúvida é mais exactamente...?
‘Imagens picantes’ – Hoje temos um biriani de borrego. Visto de cima.
‘Sexo boneco posição foto’ – Vou ver. Mas acho que não temos...

As expressões acima podem ser integradas na categoria Sexo - Diversos. Sempre um must.
Mas as seguintes são mais ambíguas, podendo partilhar categorias.

‘Fucking republicans’ – Vai ser mais o contrário, nos anos mais próximos. A menos que não estejamos a falar de política.
‘Como fazer uma sapateira’ – Aqui há duas hipóteses. Ou estamos a falar do maravilhoso bicho com pinças e eu faço um molho cinco estrelas mas não dou a receita. Ou estamos a falar de uma senhora que conserta sapatos. Fica na categoria de Gastronomia & Culinária. Secção Mariscos. Ou em Pormenores da Criação. Secção Mariscos na mesma.
‘Charadas homens correm da chuva’ – Os mais sensatos, sim. Os restantes constipam-se. Porquê, não sei. Por isso, categoria Atletismo – Pista Coberta.

E para terminar, duas que me sensibilizaram particularmente. Quem veio parar ao Charquinho a partir de uma das seguintes expressões bateu à porta certa.

‘Amigos virtuais’ – De braços abertos para os receber.
‘Combinação de palavras sem sentido’.
Palavras para quê?
publicado por shark às 20:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (25)
Terça-feira, 07.12.04

A POSTA ORÇAMENTAL

brasao2.jpg

Um desaguisado por email fez-me perder um rendimento fixo mensal de trezentos euros.
Uma decisão adiada vai custar-me entre 550 a 1000 euros.
Um desleixo menor acarretou-me um prejuízo directo de cerca de duzentos euros.

A minha personalidade e o meu dinheiro estão demasiado interligados. Como é prática no comércio tradicional, terei que inventariar por esta altura o espólio e fazer o balanço dos ganhos e das perdas. À primeira vista, que a crueza de um extracto de conta não dá margem para devaneios, a minha estrutura financeira foi significativamente abalada ao longo do corrente ano fiscal.
Na origem da derrapagem orçamental estão intervenções directas (ou a sua lamentável ausência) da minha personalidade na fluidez dos rendimentos e das despesas. Donde se conclui que terei que proceder a alguns cortes.
De cutelo em punho, pondero os luxos supérfluos de que abdicarei, a moderação no consumo, as decisões de compra ‘inadiáveis’ relegadas para o plano das fantasias incomportáveis. Depois equaciono a possibilidade de trabalhar mais, horas extras, um part time qualquer, um esforço suplementar que me permita o milagre da recuperação económica.
Mas a minha personalidade tudo veta. Não cortas coisa nenhuma. E que merda de ideia é essa de trabalhar mais? Achas pouco, sábados de manhã e tudo? Não senhor, tens que avançar sem medos e aguardar pacientemente a retoma. As cadelas apressadas...

A minha personalidade tomou de novo o controlo das rédeas do poder. O meu dinheiro, minoritário, não tem a força necessária para lhe fazer oposição. Sou ingovernável, do ponto de vista financeiro. E não estão reunidas as condições para um golpe de estado, para a imposição de um regime ditatorial que vergue esta personalidade indisciplinada.
Vou ficar na cauda da minha rua, com o pior nível de vida do primeiro piso do edifício onde resido. Vou ser remediado outra vez, sempre à rasca para honrar compromissos e para pagar as prestações, lixado pela conjuntura aziaga e pelo feitio estuporado cuja combinação preconiza a minha ruína.

No entanto, o pessimismo não se instala. Flexível, a minha personalidade engloba mil e uma compensações, pão e circo, para as agruras que um aperto circunstancial me possa causar. O dinheiro é de quem o gasta e não de quem o possui. Vil metal, abomino essa treta. Amanhã é outro dia e ainda por cima é feriado nacional, aleluia.
Pego no cutelo e corto umas fatias de presunto e de pão. Mais uma pinga de eleição. Família e amigos, patuscada. Um fadinho para animar.
Pontapé prá frente e fé na virgem.
Estas épocas de crise alimentam o meu nacionalismo mais bacoco e justificam as minhas mais desastradas negligências e uma perniciosa tendência para o deixa andar.

Fazem de mim um europeu cada vez mais portuga.
publicado por shark às 12:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Segunda-feira, 06.12.04

CELEBRATION OF LIFE

782.jpg

O vocalista parou de cantar por alguns minutos, prestando vassalagem ao sensacional guitarrista cujos dedos passeavam pelas cordas em busca do acorde mais próximo da perfeição. O baterista, sorrindo, marcava o ritmo de forma mais discreta e parecia acariciar os címbalos. Em fundo, o teclista simulava violinos com o seu teclado mágico.
Com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, entreguei o corpo e a alma ao som divinal, pele arrepiada pela vibração das gigantescas colunas a escassos metros de mim.

A guitarra, no que me pareceu uma eternidade, falava connosco e milhares de corpos e de almas respondiam, em absoluto transe. Todos naquele instante sabíamos estar a viver uma experiência irrepetível e o ambiente no recinto era o mais próximo de hipnose colectiva que eu poderia conceber.

O vocalista decidiu contribuir para o improviso do feiticeiro da guitarra e recitou o mais belo poema que a banda havia cantado na sua carreira. Pianíssimo, como os violinos do teclista, murmurou as palavras por detrás da portentosa exibição do parceiro. As lágrimas de alegria tingiram ainda mais de vermelho os meus olhos e agachei-me para apanhar a lata de cerveja. Quando retomei a posição, uma mulher linda duas filas adiante estava a olhar para mim.
Seria impossível ignorar a beleza da sua expressão e não desviei o olhar, nem mesmo para acender o que tirei da algibeira do casaco. A música como que se transformou num manto que nos isolava da multidão. E ela, encantadora, sorria e dançava para mim.

Por entre o meu fumo e o dos convivas mais próximos deu-me a sensação de que ela caminhava na minha direcção. A guitarra acelerou o ritmo e o meu coração também. Inalei e ela chegou perto de mim, ajeitou-me a cabeleira sobre os ombros e colou-se a mim num beijo apaixonado e aspirou o meu ar respirado e o meu fumo de celebração da vida. Soprou para o céu, braços esticados, olhos fechados para ouvir melhor a felicidade que acontecia naquele lugar.
Depois olhou de novo para mim e retribuiu o melhor sorriso que consegui oferecer-lhe, escapulindo-se de seguida por entre a confusão de cabeças maravilhadas.
Nunca voltei a encontrá-la, essa mulher-anjo que me lacrou nos lábios e na memória um instantâneo da beleza que o vocalista recitava e do poder do amor que a guitarra interpretou.
Mas para mim a história tem um final feliz na mesma. Ainda a procissão vai no adro...
publicado por shark às 10:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Domingo, 05.12.04

A POSTA QUE UM DIA APAGAREI

huverrobot2.gif

Chateia-me a mania de nos noticiários conferirem uma importância danada às competições idiotas entre robôs, a versão pré-histórica dos Medabots. Uns rapazolas de predominância japonesa investem fortunas e neurónios numa maquineta capaz de empurrar um objecto na direcção do que se presume ser uma baliza.
Trôpegos, imbecis, feios que dói. Alguns ficam de patas para o ar, como tartarugas, patéticos. Outros empurram o objecto (a bola?) em todas as direcções menos a pretendida. E os telejornais compram a notícia, as imagens idiotas, os sorrisos de satisfação dos, enfim, vencedores.

Porém, as coisas podem ser postas noutra perspectiva quando recordamos uma outra notícia de índole similar. A do computador que aprende com os próprios erros e obriga os melhores do mundo a transpirarem para lhe ganharem uma partida de xadrez. Uma máquina, qualquer máquina, capaz de progredir na aprendizagem é um sinónimo de tecnologia demasiado na ponta.

Se um computador parece à partida inofensivo, tão imóvel como um cinzeiro ou um umbral de porta, as coisas tornam-se menos simples quando imaginamos um equipamento pensante capaz de interagir com uma máquina com rodas. É disso que estamos a falar, quando adivinhamos a tentação do cruzamento de espécies na natureza das pessoas. Rottweilers e Pittbulls em potência, eléctricos, metálicos, autónomos e demasiado inteligentes dentro das portas de cada casa...

Isto é ficção científica (ou lunática, se preferirem). Claro. Em 1920, o space shuttle também era. Em 1960 achariam um piadão ao conceito de internet. Em 2004 acomodo-me e encaro sem medos o monitor.
Mas tenho a certeza de que não serei avô quando enfrentar pela primeira vez o momento de olhar para o meu computador com rodas, desconfiado, sabendo que nesse momento ele também pode estar a olhar para mim.
publicado por shark às 16:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

Postas mais frescas

Para cuscar

2017:

 J F M A M J J A S O N D

2016:

 J F M A M J J A S O N D

2015:

 J F M A M J J A S O N D

2014:

 J F M A M J J A S O N D

2013:

 J F M A M J J A S O N D

2012:

 J F M A M J J A S O N D

2011:

 J F M A M J J A S O N D

2010:

 J F M A M J J A S O N D

2009:

 J F M A M J J A S O N D

2008:

 J F M A M J J A S O N D

2007:

 J F M A M J J A S O N D

2006:

 J F M A M J J A S O N D

2005:

 J F M A M J J A S O N D

2004:

 J F M A M J J A S O N D

Tags

A verdade inconveniente

Já lá estão?

Berço de Ouro

BERÇO DE OURO

blogs SAPO