Nas bordas de um parapeito

São pontos de viragem. Surgem nos caminhos da vida como as curvas imprevistas em estradas com muitos quilómetros sempre a direito. Ou como os entroncamentos.

De repente, o destino obriga-nos a abrandar para fazermos escolhas ou simplesmente nos empurra para uma alternativa que nem ousaríamos considerar.

São pontos de exclamação que interrogamos, pelo medo do desconhecido ou apenas pela curiosidade que o futuro sempre despertará. E depois desta viragem como será?

 

Nem sempre tomamos consciência desses instantes cruciais que nos aproximam ou afastam de um objectivo ou de um sonho qualquer de futuro desejável que afinal é um amanhã impossível de acontecer tal e qual alguém o imaginou.

Os acontecimentos encadeiam-se com as conjunturas, imprevistos e riscos mal calculados, sorte e azar, reflexão ou impulso, esquerda ou direita e aí vamos nós a caminho completamente a leste do paraíso que contemplamos pelo retrovisor que a nostalgia ou o remorso nos podem facultar.

 

Damos connosco a abraçar aquilo que a vida nos dá. Ou nos impõe. Ou se esbanja nas oportunidades perdidas pelos que não as percebem ou não as conseguem agarrar. Abraçamos o rumo mais feliz ou precisamente o que nos conduz direitinhos à bocarra da perdição. Ou coisa parecida que é como se sentem as coisas dentro de tudo quanto de relativo um problema, uma aflição, podem englobar.

De um momento para o outro tudo pode desabar como pode acontecer aos bocadinhos sob o castigo da erosão, a vida madrasta, o lado B ao qual ninguém presta a devida atenção até ser essa a única canção a tocar como banda sonora de um pano de fundo que julgamos serem as cortinas do espectáculo que entretanto acabou.

 

A crise, o galo, a porra da sorte ou a pouco reconhecida mas quase omnipresente estupidez, mesmo ao virar da esquina para o beco sem saída que julgávamos inexistente ao longo da avenida das descobertas que são como surpresas que dão para o torto e nos apanham sempre com as calças na mão, borrados de medo pelas consequências terríveis de um erro somente ou de uma inegável acumulação desse e de outros factores que se controlam ou antes pelo contrário.

A granada sem cavilha nas palmas e paralisamos sem saber como sairmos dessa situação, às voltas com o mapa mental de um percurso que não estava traçado para levar-nos ali.

 

São pontos na viagem, ligados entre si pelos traços que coincidem com os rastos da passagem de qualquer um de nós, que interpretamos ou decidimos parágrafos depois de eliminados os pontos que as reticências têm sempre a mais.

São pontos de interrogação, todos eles.

O pressuposto da nossa arrogância consolida-se na ignorância que tantas vezes nos despista na leitura apressada.

E depois a história pode não ter um ponto final feliz.

publicado por shark às 00:33 | linque da posta | sou todo ouvidos