Até ver

Patético, caminhava sobre as brasas da fogueira acesa pelo sol no areal por debaixo dos seus pés. Parecia que dançava, na expressão alucinada do olhar. Parecia que planava, braços abertos em vão para o abraço que ignorava não passar de um fruto podre camuflado por entre um cesto cheio concebido pela sua imaginação.

Padecia de uma loucura com pele de camaleão, discreta, secreta, impossível de detectar no meio dos cadáveres amontoados daquilo que outrora apelidava de lucidez.

Sem conhecer a realidade da sua condição, avançava para um ponto distante no horizonte interminável que o seduzia com miragens, falsas imagens que se desfaziam em pó quando se aproximava demais.

Parecia tactear o mundo em seu redor, cego por dentro pelo excesso de luz no pensamento perdido em raciocínios circulares, arrastado pelo vento até paradeiros desconhecidos, os passos entorpecidos pelo calor, como uma marioneta do destino, sem conhecer o caminho ou um ponto de chegada para a sua caminhada solitária, interior.

Apenas não queria parar, movido por uma força qualquer para a qual não encontrava uma justificação.

 

Ridículo, marchava num campo de batalha ressequido, um terreno marcado pelas pegadas cobardes de um exército de desertores. E ele ali, desarmado, braços abertos com o peito oferecido às balas de um inimigo que mal conseguia identificar, dentro de si, passos perdidos no meio de um chão que ardia e ele já nem sentia, anestesiado pela distracção que os fantasmas do passado lhe proporcionavam enquanto o alucinavam com memórias falsas e visões adulteradas de um futuro repleto de oásis que não conseguia encontrar.

Caminhava sobre o fogo que o sol teimava em atear, ignorante da sua condição, ambulante embrenhado numa simulação que lhe testava a resistência e lhe incutia a persistência que o levara até ali.

 

Ao ponto de partida dentro de si.

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publicado por shark às 00:16 | linque da posta | sou todo ouvidos