Da convergência impossível nas realidades paralelas

Por norma, as classes dirigentes englobam pessoas com níveis de vida acima da média. São, na sua maioria, pessoas de classe média ou média-alta que tiveram acesso a boa formação escolar, que cresceram em ambientes estáveis e puderam abraçar as carreiras que sonharam ou simplesmente lhes pareceram mais favoráveis na altura de tomarem as mais importantes decisões acerca do seu futuro. Puderam tomar essas decisões num presente que lhes foi garantido pela sorte, pelo mérito, pela inteligência, pela conjuntura, por qualquer um dos factores que contribuem para estarem reunidas as melhores condições para alguém poder controlar o seu caminho, a sua vida.

Essas classes dirigentes, empresários, políticos, salvo raras excepções, não enfrentaram ao longo da vida qualquer tipo de obstáculo sério à sua progressão e puderam concentrar-se na evolução dos seus conhecimentos, das suas aptidões. Puderam gerir o seu destino sem lidarem com o medo concreto do que o dia seguinte lhes poderia reservar, pelo menos no que dizia respeito ao essencial, aos dados adquiridos como um frigorífico atestado ou a roupa adequada para qualquer ocasião.

 

A pessoas com este tipo de percurso, com as referências de estabilidade e de controlo sobre as suas vidas, o sossego de alguém que até pode ter conhecido dificuldades de vária ordem mas nunca teve em causa uma condição financeira sólida e uma posição privilegiada de acesso às catapultas para os patamares mais elevados da pirâmide social, não se pode exigir que entendam e ainda menos que consigam sentir o efeito da pressão que se instala na vida daqueles a quem uma crise retira o comando da situação, apanhados de surpresa num turbilhão de acontecimentos que minam aos poucos a resistência de quem percebe o chão a fugir-lhe sob os pés e pouco ou nada pode fazer para evitar um trambolhão tão sério como a perda de um pequeno negócio, de um emprego precário, do rendimento à justa para manter o mínimo de normalidade que passa, por exemplo, pela certeza de ter no mês seguinte um tecto para morar, angústia multiplicada por mil quando há filhos na equação.

Não existe forma de explicar a alguém que o nunca tenha experimentado esse conjunto de emoções intensas que nos arrebatam quando somos mãe ou pai. As palavras podem transmitir quase tudo o que quisermos, se as soubermos utilizar. Mas existem realidades que transcendem até a nossa capacidade de compreensão e tornam-se por isso impossíveis de partilhar na sua essência. Tem-se uma vaga ideia, mas só a experiência pode trazer a luz.

 

A aflição de quem perde o controlo da sua vida por via do descalabro financeiro, levada ao extremo quando existem outras vidas dependentes da sua, é uma emoção igualmente impossível de descrever de uma forma clara e que faça entender a quem decide aquilo que verdadeiramente está em causa por detrás dos números que nos traduzem o desespero.

Torna-se por isso impossível de acreditar que existem, nos vários poderes que gerem os destinos de um país, as pessoas necessárias, as pessoas suficientes com a consciência do que está em causa para que as decisões possam ser influenciadas por tudo aquilo que lhes está vedado por desconhecimento de causa. Aquilo que interessa porque interessam mais as pessoas do que os sistemas.

 

Torna-se por isso impossível pactuar com discursos e com decisões emanadas de onde a vida acontece diferente da realidade que lhes compete enfrentar.

 

publicado por shark às 15:27 | linque da posta | sou todo ouvidos