A POSTA NA SEPARAÇÃO DAS ÁGUAS

Quando o Fernando Nobre entendeu embarcar no suicídio da sua imagem, afundando-se como se viu nas tormentas eleitorais, certamente a AMI comeu por tabela.

Muitas instituições acabam coladas à figura dos seus líderes mais empenhados, mais competentes ou simplesmente mais carismáticos e acabam dependentes do desempenho pessoal dessas figuras de proa que dão rosto à missão que visam cumprir. É algo de compreensível, justo ou não, até porque quando o rosto da causa está na mó de cima isso acarreta resultados positivos directos e mensuráveis, o que implica a aceitação tácita do reverso da medalha.

 

Tendo isso em mente, Isabel Jonet também deveria ter ponderado previamente as suas declarações ao DN a propósito do Estado Social. E ainda que dessa ponderação não resultasse uma coerente (com o cargo) mudança de opinião, teria sido boa ideia poupar o Banco Alimentar às consequências de uma sinceridade política que fica bem a qualquer cidadão mas, como o outro exemplo mais acima tão bem ilustra, o preço a pagar pelo usufruto de um direito de liberdade de expressão e de opinião que ninguém pode limitar é o de lesarem seriamente os interesses das instituições que os notabilizam.

 

O contrário também pode acontecer e não raras vezes figuras públicas deixam-se apanhar por esquemas, por organizações e por pessoas que julgam bem intencionadas e depois descobrem tratar-se de embusteiros. Acontece e pode manchar a popularidade de quem dela mais precisa.

Por isso todos os cuidados são poucos na gestão das intervenções públicas por parte de quem possui a fama (e o proveito) e a influência capazes de fazerem a diferença na divulgação de uma causa ou de um projecto de índole humanitária, da mesma forma que devem usar de extrema prudência na selecção das causas pelas quais dão a cara.

 

Isabel Jonet tem feito um trabalho notável no BA. Tem desempenhado a sua função com tamanho sucesso e mestria que os resultados estão à vista, com reconhecimento internacional incluído, ao ponto de ser ela o rosto da instituição.

Claro que isso não invalida que eu discorde imenso das suas posições acerca do Estado Social e que até as ache contraditórias relativamente ao cariz da causa que abraçou. Mas isso são outros quinhentos: existe a Isabel Jonet do BA e existe a Isabel Jonet de si mesma, pessoa com opiniões, com inclinações políticas, e sem dúvida com todo o direito a expressá-las.

Por isso não acho justa ou sequer inteligente a reacção de quem já afirma nas redes sociais a sua intenção de suspender a generosidade para com o Banco Alimentar como retaliação pelas opiniões da respectiva responsável.

E porquê?

 

Porque se aceitarmos que pessoas (que ocupam cargos de forma sempre transitória) possam de alguma forma denegrir e ou mesmo destruir uma qualquer causa ou instituição a que estejam ligadas vou querer que me expliquem o que vamos fazer em relação à instituição Parlamento, à instituição Governo e mesmo à instituição Presidência da República depois de por lá terem passado os que sabemos…

publicado por shark às 15:18 | linque da posta | sou todo ouvidos