LUGAR CATIVO

Tinha lugar cativo ao fundo do balcão e todos os dias fazia questão de por lá passar, nem que fosse para marcar o lugar que era o seu naquele espaço onde vivia uma parte do seu dia em função de como o dia viesse a acontecer.

Se corria mal abancava ali a beber, horas perdidas, olhar alucinado a vaguear pelas garrafas nas quais projectava as imagens que o consumiam. Sempre discreto, deixado em paz ao fundo do balcão na sua privada solidão que não dispensava a companhia da rotina daquelas paredes imutáveis que lhe lembravam algo de seu que algures perdera.

E nos dias melhores comportava-se como um forasteiro. Entrava, sentava-se e bebia. Depois pagava e saía em silêncio, como se mais ninguém frequentasse aquele bar. Nem mesmo com o proprietário do estabelecimento, o mesmo há mais de dez anos, trocava uma palavra.

Bebia e no fim pagava e até então saíra sempre pelo seu pé e nunca desatinava senão com ele mesmo, zangado como parecia nos gestos que fazia e nas expressões perturbadas dos dias menos bons.

Ninguém sabia sequer o que os distinguia, pois afinal ninguém conhecia o homem grisalho que em cada dia marcava presença ao fundo do balcão, na zona menos iluminada, na zona menos frequentada por quem pudesse interferir naquele momento que era só seu.

Sentado, com o olhar concentrado num copo quase vazio. Sempre apresentável apesar da barba de dias, elegante na forma de se movimentar, cinquentão.

Acenava com a cabeça quando se deixava dominar pela boa disposição, bom dia, boa tarde e boa noite sempre dessa maneira, um aceno ligeiro com a cabeça como se via no filmes do tempo do Errol Flynn. Nunca falava para os outros mas não era mudo pois falava imenso para si, em voz baixa quanto bastasse para ninguém o conseguir entender.

E ninguém o entendia, pois ele entrava e ele saía sem deixar pistas a seu respeito. Era um cliente de pleno direito e vivia algum do seu tempo como se fizesse parte do cumprimento de um estranho ritual.

Ninguém levava a mal a sua forma de estar a sós nas bordas do grupo que ali se reunia, alguns passavam ali boa parte do dia a entreterem o tempo desempregado, e só por uma vez um carapau de corrida, brincalhão, fizera de conta que ia sentar-se ao fundo do balcão quando ele entrou.

No olhar que lhe lançou voavam ameaças e quase se conseguia afiançar-lhes a solidez na convicção. E o outro, calmeirão, ficou sem jeito e só lhe ocorreu ajeitar o assento para o cliente habitual que não recolheu o olhar no coldre até finalmente se sentar à espera do costume, servido de forma automática pelo barman consoante o período do dia em que lá parasse o freguês.

E a vida continuava à sua volta mas para ele era como estar numa sala vazia, alheio a tudo quanto se passava em seu redor, estava ali para beber e para trocar umas impressões consigo próprio acerca daquilo que o atormentava e era ali que a vida continuava ligada a um ponto fixo de paragem qualquer.

Ninguém lhe conhecera alguma mulher, nem endereço ou outro paradeiro que não o bar onde um dia entrou e simplesmente apontou para uma garrafa pousada sobre o balcão, na outra ponta daquela que a partir daí ocupou como sua, sem voz e sem nome que o pudessem identificar ou pudessem até criar laços de alguma espécie com todos quantos o ignoravam e pelos vistos já o consideravam parte integrante do mobiliário.

Tal como o cabide dos anos 70, gasto por tanto uso, também ele era uma constante daquele lugar.

Todos os dias sem falhar, como um pistoleiro entrado no saloon, caminhava sem pressa, às vezes acenava com a cabeça, e depois sentava-se sozinho na ponta mais distante do balcão onde debatia a solidão em surdina, perante testemunhas que era como se não estivessem lá, naquele lugar só seu e ninguém se atrevia a disputar tal território, sem que alguém conseguisse explicar com clareza porquê.

 

Um dia ele não apareceu.

E no dia seguinte, quando no noticiário da uma falaram de um sem-abrigo, encontrado sem vida num descampado a alguns quilómetros dali, muitos engoliram em seco mas nem um arriscaria ser o primeiro a falar do assunto desde esse sepulcral momento de televisão.

Tal como ninguém voltaria a ocupar a cadeira sempre vazia, mesmo ao fundo do balcão.

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publicado por shark às 17:14 | linque da posta | sou todo ouvidos