A POSTA NO PODER SEM AÇAIME

Chamam teorias da conspiração a todas as acusações por parte de muita gente com credibilidade e argumentos relativamente à actuação de Estados (ditos) democráticos no que respeita ao exercício do poder, nomeadamente pelos abusos cometidos sobretudo em nome da segurança, da estabilidade que não passa de uma paz podre que muito interessa aos mandantes do mundo inteiro.

Muitas dessas acusações põem em causa as motivações dos governantes, cada vez mais suspeitos de alimentarem verdadeiras réplicas das cortes feudais à custa de um fenómeno crescente de corrupção, de compadrio, de alianças de conveniência supra-partidárias e nada ideológicas que visam perpetuar o esquema de manutenção de uma elite intocável.

Quando alguém se destaca da multidão que prefere organizada em rebanho, o poder reage como um cão pastor e recorre aos meios colocados ao seu alcance para defender os cidadãos das muitas ameaças que uma sociedade produz. Esses meios, polícias de todo o tipo e a Lei devidamente aligeirada na interpretação por juízes com imensa flexibilidade na coluna vertebral, são afinal utilizados sem hesitações contra as próprias populações que os sustentam.

Um trio de exemplos recolhidos de diferentes pontos do planeta confere outra cor às tais teorias da conspiração: a caça impiedosa a Assange, a condenação vergonhosa das Pussy Riot e a chacina odiosa dos mineiros em greve na África do Sul.

Se as consequências dos três episódios diferem pelo grau de tragédia dos mesmos, as motivações reúnem-se em torno de um perigoso paralelo, de um ponto em comum que é o de constituírem reacções do poder a actos de revolta de pessoas com coragem para lutarem por convicções ou apenas por desespero de causa.

 

Assange rima com revenge

 

Assange colocou a cabeça a prémio no dia em que ousou desafiar alguns pressupostos que constituíam vacas sagradas da apatia generalizada que tanto agrada a qualquer líder nacional por o poupar a beliscadelas na imagem heroica que, de uma forma ou de outra, sempre tentam impingir.

Só como verdadeiros salvadores de pátrias conseguem legitimar todo o conjunto crescente de privilégios que parasitam, tantas vezes com tanta voracidade que acabam por destruir nações inteiras, as suas e as dos outros e por isso reagem por instinto com a força mais à mão.

Para o australiano mais temido (odiado?) por governantes com esqueletos nos armários estão a ser mobilizados todos os recursos de vários Estados, com o nítido intuito de silenciarem um indivíduo, ajustando contas, e de dissuadirem por tabela os restantes candidatos à repetição da façanha.

 

Free Pussy!

 

Um raciocínio idêntico terá presidido à gigantesca farsa judicial que culminou com a condenação pesada para a irreverência de três raparigas russas, inevitável como sinal do poder (ainda muito) soviético cujo rasto de prepotência tresanda mesmo a totalitário e sem tolerância para com qualquer tipo de contestação.

O mínimo que as jovens poderiam enfrentar seria mesmo a prisão, destino diferente do imposto a diversos jornalistas e outras figuras da oposição mas igualmente paradigmático do aviso à navegação que os poderosos sentem necessidade de emitir para evitarem males maiores que, na perspectiva de qualquer tirano ou tiranete, são o perigo de contágio das ideias mais rebeldes.

Foi a rebeldia das Pussy Riot que as tramou e não qualquer das acusações de treta com que as privaram do estatuto de preso político que Putin jamais lhes reconheceria.

E nem o tribunal escapa à suspeita de ser movido por cordelinhos invisíveis a partir de um Kremlin que se esforçou (mas pelos vistos não conseguiu) por não transformar em mártires de uma causa as artistas que apanharam um ano de pena por cada um dos tomates que exibiram aos russos de todos os géneros e às alimárias de todo o Ocidente que se deixam dormir enquanto as suas democracias descambam aos poucos para a mesma privação de liberdades por amor à estabilidade governativa de cada figurão instalado num pedestal dos que o poder constrói.

 

Por terrenos minados

 

Por fim, o extremo desta corda que ameaça partir entre populações cada vez mais desconfiadas e insatisfeitas com as lideranças que lhes tocam na rifa e estas últimas, cada vez mais descaradas no leque de abusos a que se permitem mais os favores que pagam com a sua permissão.

O massacre sul-africano, ao nível do que de pior o apartheid produziu, constitui-se exemplo da derradeira etapa de perversão dos valores e das obrigações dos líderes políticos, mais violentos quanto financeiramente mais relevantes os interesses a proteger.

A polícia atirou a matar quando podia recorrer a outros meios e esse tipo de decisão nunca é tomada sem ordens superiores. Em causa estava uma mina de dimensão mundial e uma empresas britânica sem tempo (que é dinheiro) a perder com a contestação que de imediato foi rotulada de ilegal e o presidente da África do Sul deixou bem clara a sua intenção de pôr um fim ao prejuízo em causa.

Foram mais de 30 os que conheceram o fim sob as balas de agentes da autoridade às ordens de um Governo que deixa claro que as ordens são para executar.

Correm mundo as imagens da execução de mineiros armados com varapaus e catanas com as quais fica mais uma vez bem clara a inexistência de limites para o uso da força, mesmo numa democracia de tom mais ou menos ocidental, dependendo apenas da relevância da causa, da dimensão do interesse ou do estado de degradação dos regimes a (des)proporção das reacções do poder às ameaças a si mesmo.

 

Perante exemplos tão flagrantes e aos quais se somam os excessos visíveis cometidos por quem manda no que é de todos mas parece propriedade apenas de alguns, os autores das teorias da conspiração soam menos... malucos.

Já aqueles que os ignoram ou tentam desacreditar, antes pelo contrário.

publicado por shark às 01:12 | linque da posta | sou todo ouvidos