A POSTA NOS QUE JÁ DEVIAM TER EMIGRADO HÁ MUITO

Revolta-me ouvir portugueses ilustres, ou simplesmente mediáticos o bastante para serem entrevistados por jornalistas estrangeiros, falarem com enorme desdém do nosso país.

Mais do que me revolta, repugna-me esse destilar das fraquezas circunstanciais de uma Nação que acaba por ser vítima do fraco nível das suas figuras de proa que tanta trampa soltam pela popa ao longo do seu percurso privilegiado no país que enxovalham perante os de fora.

Numa fase tão dramática em que até a soberania foi amputada pela gangrena provocada por medíocres que, regra geral, fazem parte da mesma elite que agora insulta o país com o seu desprezo mal contido, cai mal, muito mal, esta sede de protagonismo daqueles que apontam dedos acusadores a uma Pátria que nada fizeram para proteger dos males que a afligem.

 

Uma das regras mais razoáveis do funcionamento das organizações é a que recomenda que os assuntos delicados sejam tratados em sede própria, dentro de portas, e não discutidos na praça pública. É uma lógica fácil e aplica-se a organizações de qualquer dimensão, desde pequenos grupos de cidadãos ao conjunto dos que partilham uma Pátria.

Existe, por outro lado, uma diferença clara entre o impacto negativo do alardear de verdades inconvenientes para europeu ver (e atenção ao tom utilizado) e a mensagem positiva que se pode transmitir a partir dessas mesmas realidades desconfortáveis, transmitindo uma imagem colectiva muito mais favorável aos interesses do país.

Mas não são esses que preocupam os queixinhas (piegas?) mais desbocados, sempre tão deslumbrados com o destaque garantido pela presença de microfones ou de câmaras de televisão.

 

Afirmar o descalabro de Portugal perante os estrangeiros, denegrir a imagem do país ao enfatizar as suas misérias em detrimento das muitas grandezas ao alcance de um povo bem liderado, como este já provou, é impossível de defender enquanto gesto patriota. É um exercício desnecessário de lavar de roupa suja aos olhos de estranhos, de observadores facilmente impressionáveis por estas impressões deixadas por pequenos traidores que ocupam, neste período difícil, posições de (demasiado) relevo e (ab)usam-nas na excitação do momento, sem equacionarem sequer o efeito que as suas palavras (volto a chamar a atenção para o tom) provocam em quem não possui dados suficientes para as interpretar, para as enquadrar num contexto que possa ser benéfico, em termos de opinião pública europeia, para o nosso país.

Estes factos tornam-se ainda mais relevantes, reitero, por serem produzidos por quem possui voz e influência reconhecidas o bastante para merecer tal destaque. E essa voz e influência possuem-nas igualmente na sociedade que em nada conseguiram melhorar mas denigrem sem hesitar quando a oportunidade lhes é, inexplicavelmente, concedida.

 

Com o país tão necessitado de gente de bem que dele se orgulhe e queira acima de tudo libertá-lo da actual condição, revolta-me, repugna-me que os comprovadamente incapazes andem a dar a cara aos de fora como denunciantes de males a que se consideram alheios, preocupando-se mais em sacudir água do capote do que com a imagem já de si fragilizada que a situação financeira sempre implica, para os indivíduos como para as nações, como os gregos já sentem na pele.

E não, ainda não somos a Grécia no grau de aflição.

 

Mas parece ser esse o desejo secreto desta seita sem vergonha, desta elite impostora que tenta desesperadamente, prioridades bem definidas, descartar-se das suas responsabilidades directas ou por omissão no estado de um país do qual só lhes interessa defender uma zona restrita: a periferia apátrida dos próprios umbigos.

publicado por shark às 00:18 | linque da posta | sou todo ouvidos