A POSTA QUE APRENDEMOS SEMPRE À NOSSA CUSTA

Na minha actividade profissional de agente de seguros acabo por ter contacto directo com uma faceta da realidade empresarial portuguesa que explica alguma da sua debilidade perante esta crise ou qualquer outra.

É arrepiante perceber a quantidade de empresas sem seguros facultativos como o das instalações ou mesmo obrigatórios como o de acidentes de trabalho.

No fundo, o empresário português típico é uma pessoa de fé. Se a coisa corre bem compra o tal BMW em leasing e se correr mal, logo se vê

 

O exemplo dos seguros, que é porreiro porque estou na minha praia, apenas ilustra uma forma de estar sem rede que requer muito equilíbrio. Se um empreendedor entende que nas suas preocupações os seguros são coisa secundária acaba por entregar o futuro da sua iniciativa aos caprichos do destino, o que explica como de repente quase toda a gente parece ter sido apanhada com as calças na mão, mesmo no meio de uma crise em câmara lenta como nunca vivemos uma.

A malta acha sempre que vai correr tudo bem. Da mesma forma que acreditam piamente que aquilo do euromilhões é mais uma questão de tempo, também confiam na mesma conjugação astral favorável para darem emprego a uns quantos desgraçados que não vislumbram, por entre a fezada de terem um posto de trabalho, o quanto abraçam a mesma política do logo se vê quando nem por curiosidade tentam perceber se existe um seguro para lhes valer se tiverem um acidente no exercício das suas funções.

 

Parece coisa de somenos importância, mas acaba por ser uma forma de precariedade quase tão clara como a de um trabalhador a prazo ou mesmo temporário.

Há direitos dos quais não podemos abdicar apenas para facilitar a vida dos que negligenciam as suas obrigações.

Um trabalhador com o azar de cair de uma escada no horário de trabalho e ficar sem capacidade para prover ao seu sustento e ao da sua família não pode só nessa altura descobrir que a sua vida futura está nas mãos da habilidade dos advogados do patrão para o pouparem ao encargo imprevisto em causa.

 

Essa fé no logo se vê está na origem de boa parte da caldeirada em que o país mergulhou, confiado a gente incapaz de se preocupar a sério precisamente por desconhecer o conceito de preocupação, gente capaz de reclamar o doutor antes do nome depois de completar uma licenciatura sem esforço, sem mérito e mesmo sem moral. Entendidos na matéria que é precisamente aquela que contornaram à custa da mesma esperteza saloia dos empresários que poupam na prevenção para esbanjarem nos sinais exteriores de uma solidez tão aparente como a sua capacidade para liderarem seja o que for.

 

Se há lição que Portugal precisa de aprender desta provação em lume brando é a de que é preciso fiscalizar quem manda, pois a vida, como o ciclo económico, é como os interruptores e a qualquer momento as luzes do sucesso dos figurões de circunstância deixam de cintilar.

E quando a festa deles acaba sobram sempre espalhadas pelo chão as canas dos foguetes para outrém apanhar.

publicado por shark às 14:38 | linque da posta | sou todo ouvidos