(S)EM SENTIDO

Sem poder assumir-me pacifista no sentido restrito do termo, consigo ainda assim odiar qualquer guerra. Não existe pretexto válido para acontecer uma, embora depois de iniciada por uma parte seja inevitável o mesmo recurso pela outra, a legítima defesa que é reconhecida aos indivíduos como às nações.

Odeio tanto a guerra como desprezo quem dirige esse ódio a quem as combate, ignorantes do facto de a maioria das guerras serem provocadas pelos políticos e não pelos generais.

Os militares, sobretudo os que pisaram um campo de batalha, são pessoas cuja coragem, espírito de sacrifício e abnegação merecem todo o respeito daqueles a quem salvaguardam desse cenário de terror, oferecendo a própria vida na defesa de quem não a pode assegurar.

 

Num combate, onde quer que ele aconteça, essas pessoas fardadas são quase sempre obrigadas a experimentarem em simultâneo a maioria das emoções mais fortes que conhecemos, levadas ao extremo que o instinto de sobrevivência induz.

O medo, paradoxo, só serve quando devidamente encaminhado para a prudência que sob fogo pode fazer a diferença entre matar ou morrer.

A coragem pode até implicar o risco excessivo, pois é sabido que os heróis acabam quase sempre tombados na sequência de um gesto típico de uma pessoa de bem.

Essa é uma das matérias odiosas que uma guerra tem, os melhores são os mais vulneráveis porque as balas inimigas não respeitam valores.

 

Em nenhum conflito militar alguém pode no fim sentir-se vencedor, tamanha a perda sofrida por cada parte envolvida nessa solução radical. Ninguém ouse ambicionar uma guerra sem vítimas, com uniforme ou não, e a simples existência destas perdas já constitui uma derrota para quem as enfrentou, qualquer que seja o desfecho no tempo e na conjuntura em que ele se verificar.

O tempo pode apagar todas as cicatrizes de um campo de batalha onde ocorra a maior carnificina, da mesma forma que os ventos da História mudam repentinamente de direcção.

E um dia no futuro, o exército, o país, o bloco vitorioso de hoje poderá vestir a pele do derrotado sem ser disparada uma arma sequer, apenas na sequência de um processo de evolução que pode alterar de forma significativa os equilíbrios que sustentam, na prática, os benefícios obtidos a partir de uma vitória relativa em dado momento e em circunstâncias que podem ser alteradas em menos de uma geração.

 

Mas seja como for, muito acima dos sarilhos arranjados por políticos e diplomatas de mãos dadas com os poucos que entendem as guerras como um ganho pessoal e raramente as disputam onde deve ser, estão os soldados que no passado empunharam armas e no futuro, tudo indica, continuarão alerta à espera das ordens que lhes compete cumprir sem dúvidas ou hesitações.

Não existe para um guerreiro qualquer espaço de manobra para a indisciplina e uma ordem, por quão absurda, não é coisa passível de questionar quando existem outros homens dispostos a matar o pensador distraído ou o rebelde atrevido mais os camaradas de armas que dependem da execução perfeita de um plano, do cumprimento escrupuloso das regras de um jogo onde a parada é sempre a mais alta que se pode conceber.

A ideia é matar e não morrer e esse tipo de pressão não é identificável no conforto de um sofá a partir do qual é tão fácil criticar os que andam aos tiros quanto é exigível que se entenda primeiro o sacrifício em causa por parte dos que, como na nossa guerra ultramarina, a mais recente, arriscam uma vida estropiada ou perdida de vez.

 

A guerra é sempre uma estupidez e ninguém melhor para o afirmar do que quem nela participou, alguém que enfrentou horrores impensáveis, que viveu tormentos virtualmente impossíveis de esquecer. Um civil pode sentir-se traumatizado para a vida pelo momento em que atropelou um cão na estrada, por isso não é assim tão complicada a compreensão do que está em causa para quem escolhe ou é obrigado por ser apanhado por uma armadilha da política externa, uma mina que explodirá em primeira instância sob as botas daquelas e daqueles que enviamos para lutar sem perdão para os desertores.

 

A guerra é um palco de horrores cuja intensidade pode conduzir à insanidade dos menos capazes, dos menos preparados, dos mais sensíveis ao sofrimento de outros seres humanos que, no meio da refrega, podem ser os melhores amigos que o soldado conheceu e a quem jurou proteger, com a vida se o destino o quiser.

E por isso, ao meu ódio pela guerra sobrepõe-se o respeito e a admiração por todos quantos algum dia a tiveram (ou terão) de enfrentar.

Isso é algo de que no meu conjunto de valores e no reconhecimento dos que se exigem aos combatentes de qualquer tempo e em qualquer lugar jamais poderei abdicar.

publicado por shark às 22:33 | linque da posta | sou todo ouvidos