25 DE ABRIL? SEMPRE!

Quando uma estrela nasce é garantido que acabará por morrer, acabando nesse processo do fim por gerar o material de que a própria vida, a nossa vida, é feita.

Na prática, tudo o que nos rodeia já fez parte do núcleo de uma estrela e por isso somos todos um pedacinho de céu e nem a transformação que a morte implica nos retira esse estatuto.

O legado de uma estrela, a vida nascida a partir do resultado da sua explosão, corresponderá ao que cada um de nós consiga deixar aos que ficam e aos que virão a seguir, reduzindo a coisa à escala da nossa inquestionável pequenez.

 

Pouco mais fará sentido numa existência, depois de peneirado o essencial, a própria sobrevivência, do que esse rasto que deixamos, como cometas, feito das lembranças mais marcantes desse percurso que, tal como o das nossas antepassadas quentes e luminosas, não tem hora determinada para o fim.

Cultivamos a História que é o registo de rastos de outros e da influência da sua passagem nos percursos de todos e do resultado como o interpretamos deriva o legado colectivo que é a soma das partes, a forma como nos encaixamos no registo do tempo à luz da nossa visão subjectiva mas que outros irão avaliar sem filtros emocionais.

Por isso identificamos hoje um período da História como a Idade das Trevas, reduzindo séculos de existência à relação de forças entre os poderosos cruéis e prepotentes da altura e a imensa multidão de miseráveis oprimidos em nome de um deus menor e de uma organização social inquinada.

Por isso deveríamos preocupar-nos a todo o tempo, estrelas que somos, não com aquilo que outros hoje dizem de nós mas com aquilo que deixaremos para gerações futuras aprenderem amanhã.

 

Dos muitos legados de que nos podemos orgulhar enquanto grupo (grupo de pessoas que calhou coexistirem), o da liberdade parece ser dos mais apreciados pelos que acreditam poder reclamá-la. É esse pelo menos o ensinamento dos tais apontamentos que tomamos acerca do que está a acontecer para que os factos perdurem. E a lógica diz-nos que sem liberdade nem mesmo essas notas podem ser levadas a sério, se desconfiarmos da autenticidade das motivações, se percebermos que se trata da versão imposta por ser mais favorável à imagem de uma besta qualquer que por algum acaso chegou ao poder de abusar que a liberdade e a democracia sua aliada nunca permitirão tolerar.

 

Há pouca volta a dar quanto a alguns valores que hoje podemos, na nossa arrogância de meninos mimados a sós no topo de uma cadeia alimentar, apelidar de universais. Nenhum regime, em tempo algum, conseguiu legitimar a privação da liberdade como um conceito duradouro, como uma alternativa para a vida das pessoas ser uma realidade melhor. Cedo ou tarde alguém se revolta e não raras vezes esta alastra como que por contágio e a maioria acaba por derrubar qualquer poder que sinta errado de raiz.

E são-no todos, quando a liberdade é reprimida de alguma forma pois só pela mentira e pela omissão um poder excessivo consegue prevalecer. A verdade liberta e enquanto existirem pessoas que pensam e que falam para lá dos limites artificialmente impostos por quem tenha algo a esconder não haverá tréguas nem sossego para nenhuma forma de poder que queira arvorar-se de imutável. Ou de eterno, ainda pior.

 

Uma das forças da vida, um dos seus motores, é a evolução e compete-nos a todos fazer força no leme para a encaminhar num sentido bom, num rumo que sentimos perfeito para nós e não hipoteca um futuro diferente, se possível melhor, para os filhos que são nossa responsabilidade e fazem parte do tal legado que deixamos e são quem mais queremos felizes para usufruir.

E qualquer vislumbre de um amanhã que possamos pensar para os descendentes de todos os que andamos por aqui agora, qualquer previsão, inclui a liberdade por inerência como componente fundamental.

 

É isso que está em causa quando celebramos este dia, estrelas que somos, na constelação da democracia.

E essa brilha sempre como um imenso farol no firmamento da esperança.

publicado por shark às 20:15 | linque da posta | sou todo ouvidos