A POSTA EM MAIS UMA BATALHA PERDIDA

Nem Salazar, esse homem austero e pouco dado a folias, seria capaz.

Mas da mesma seita que matou a Feira Popular não deveria surpreender o entusiasmo por repescarem, com a crise mascarada de pretexto, uma ideia peregrina que o seu antigo guru agora Presidente não fez vingar: matar o Entrudo.

 

Se há coisa que me deixa intrigado é a multiplicação de apoios ao fim de feriados, sobretudo quando provindos de trabalhadores por conta de outrem, precisamente aqueles que só têm a perder com a história.

Ao fim de um feriado, como os factos (e os números) cuidarão de provar, não corresponde necessariamente um aumento da produtividade do país mas apenas um aumento do número de horas de trabalho sem contrapartida na remuneração das pessoas. Dito por outras palavras, é uma medida que encaixa na perfeição nos interesses das entidades patronais e deita por terra mais uma conquista sacada a ferros na ressaca da revolução que tarda a acontecer outra vez.

 

À morte do Carnaval como o actual Governo tenciona decretar vão corresponder, isso sim, a agonia dos corsos que um pouco por todo o território animam as economias locais, a contrariedade dos mais foliões que nunca deixarão de sentir isto como uma perda, o desânimo de um povo que em tempos depressivos é cada vez mais privado dos recursos para sorrir.

O fim desta tradição integra-se na aniquilação sistemática de tudo quanto sirva de válvula de escape para o quotidiano medonho de quem enfrenta a pior crise em décadas, na destruição deliberada de prazeres populares que em nada servem os desígnios dos que vivem à custa da distribuição dos lucros que orientam agora todas as decisões dos lacaios de poderosos em desespero de causa.

 

Depois do dividir para reinar, essa receita infalível para o sucesso de poderes interesseiros que já vergou a unidade sindical e retalhou o espectro partidário à esquerda ao ponto de permitir, por duas vezes, a eleição de um candidato presidencial chamado Cavaco Silva, vem o quebrar da espinha a uma realidade que denominamos de classe trabalhadora.

Essa guerra sem quartel da finança oportunista contra tudo quanto se revelou hostil noutra conjuntura avança sobre um campo de batalha pejado de guerreiros sem alma, sem liderança, e também de cobardes seguidistas, desertores que tentam salvar a pele num clássico intemporal de traição.

E se a linguagem se torna belicista é precisamente porque às vezes o povo só acorda quando sente no rabo a picada das baionetas repressoras do inimigo.

 

Se ainda não sentiu, há razões para temer que tenha mesmo morrido.

publicado por shark às 15:46 | linque da posta | sou todo ouvidos