A POSTA QUE JÁ FOI ASSIM

Desde o princípio dos tempos blogueiros, um dos estilos mais apreciados foi sempre o que apela à atribuição mental de carapuças com base num exercício de maledicência em torno de um alvo com contornos difusos.

Será que se está a falar de fulano? Será que se está a referir a sicrana? Merda, isto parece mesmo acerca de mim...

 

Embora não esteja ao alcance de todos, a habilidade para enviar um recado subliminar a um ou mais pequenos ódios de estimação sem, paradoxalmente, lhes destapar a careca enfiando-lhes a carapuça constitui um esforço criativo digno de registo e merece, quando inteligente, a minha admiração.

Para construir uma posta dessa natureza, uma catapulta de palavras instalada numa fortaleza de rodeios em manhã de nevoeiro, são necessários alguns ingredientes difíceis de reunir num mesmo espaço (de tempo).

A receita deste cocktail de insultos que, depois dos 40 mil euros do médico que explicou a medicina a intelectuais mas algures foi sincero demais, tem caminho aberto para reconquistar um lugar ao sol em html, inclui uma colher de sopa de pachorra, cinco litros de emoção mal contida (convém manter em lume brando para não levantar fervura), dois dedos de testa bem medidos, um pacote de vocábulos fortes e originais mas de fácil digestão e uma pitada de humor para apimentar a coisa ao ponto de provocar um pequeno laivo de rubor no/na visado/a.

O pitéu é servido frio, em sintonia com uma das suas mais costumeiras motivações, como aperitivo para o banquete que resulta quando se encontram à mesa catedráticos/as ou como brinde surpresa.

 

Claro que este exercício de camuflagem de um ou mais alvos acaba por despertar interesse a um grupo restrito, nomeadamente o(s) visado(s), um reduzido séquito de fervorosos seguidores e, naturalmente, o próprio autor da coisa. Este último, aliás, finge ignorar que o gozo obtido pode não passar de uma ilusão, a de que alguém irá entender pevas do que lhe pareceu um acto brilhante mas afinal resulta quase sempre falhado.

Contudo, a maioria das pessoas que blogam é composta por gente de fé.

 

A fé de que algures entre a meia dúzia de visitas desse dia tenha existido o leitor imprescindível para justificar que alguns escritos publicados não tivessem permanecido na gaveta de onde, em muitos casos, jamais deveriam ter saído.

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publicado por shark às 23:57 | linque da posta | sou todo ouvidos