DOMUS, DOCE DOMUS

Ouvi poucos automobilistas criticarem o imbecil-porreirismo dos que avisam os restantes com quem se cruzam da presença da Brigada de Trânsito com um solidário sinal de luzes e isso sempre me provocou alguma estranheza.

Mas ainda não ouvi um único a criticar o agente de autoridade que alegadamente terá aconselhado um condutor alcoolizado, que acabara de matar uma jovem mulher e o seu filho com 17 meses de idade, a abandonar o local do crime, perdão, do acidente e a apresentar-se voluntariamente num hospital para a despistagem do álcool no sangue apenas daí a seis horas.

E isso associa à estranheza uma repugnância que espero nem precisar de explicar na sua motivação instintiva.

 

Somos uns bacanos, ou pelo menos é essa a imagem que gostamos de cultivar, sobretudo junto dos estrangeiros cuja consciência cívica mais avançada os torna nuns chatos demasiado certinhos que alinham com tudo o que os mandam fazer e aceitam como naturais todas as proibições que a lei dos seus países consigna.

Contudo, se não consigo encontrar nada de bacano em alertarem com sinais de luzes os aceleras bêbedos que podem matar-me ou aos meus uns quilómetros adiante por não serem apanhados em flagrante pela polícia nos seus excessos, ainda menos porreiros achei os máximos acesos pelo tal (alegado) agente da autoridade que sentiu o apelo generoso, quiçá solidário, de tentar safar um assassino involuntário das consequências do seu crime e que, no caso concreto, atingiram a barbaridade de três anos de prisão. Com pena suspensa, para dar ao acusado a hipótese de ameaçar o viúvo e pai com represálias pela sua ingénua sede de justiça.

 

Eu sou muito português, em montes de coisas que nos distinguem dos outros e até são mesmo bacanas, mas não consigo rever-me nestas solidariedades latinas da treta que estão na origem, por lhes assegurarem a impunidade no juízo popular, de quase todas as cenas porreiras que multiplicadas por milhares têm destruído o país como uma praga de térmitas.

Depois a pessoa teve azar, coitada, de se calhar nesse dia ter ido ao casamento de um primo que até o ajudou imenso na construção da casita com materiais desviados de outra obra (provavelmente pública) qualquer e bebeu uns copitos e, coitado, foi enfaixar-se na senhora, tadinha, que ia feliz com o filho mais novo no colo até o destino cruzar os seus caminhos com o caramelo que acabou vivo e em liberdade para poder recolher o amparo dos amigos e da família naquele momento difícil em que teve que responder em tribunal por causa do malandro do gajo que perdeu a mulher e um filho mas perdeu tá perdido e a vida continua como o senhor (alegado) polícia tentou garantir com a sua actuação mas o gajo, cabrão, insistiu em dar cabo da do homem, coitado, que teve azar naquele dia mas nos outros todos foi sempre um bonzão.

 

Porreiro é uma pessoa saber distinguir entre tradições e aberrações e reunir a coragem para mandar uns murros na porta por detrás da qual os gritos de aflição de uma vizinha indicam que pode estar a ser espancada por um merdoso que, coitado, nesse dia até bebeu uns púcaros por estar desempregado ou para estender uma mão solidária à família do andar de cima que já não consegue esconder os efeitos devastadores da crise no seu quotidiano em vez de aproveitar a deixa para comentar a incapacidade do vizinho, um falhado, para conservar o emprego ou a sua actividade económica e aconchegar assim o espírito no consolo das comparações com situações piores do que a nossa.

Facilitar a vida aos coirões que renegam as regras do jogo para se facilitarem entre si na fuga às consequências posteriores equivale a alimentar uma paz podre imbecil, dependente da sorte de uns e do azar de outros, que pode culminar em tragédias cuja culpa ou responsabilidade a Justiça, tão porreira, coitada, comprovadamente não sabe gerir e um povo tão estupidamente bacano tanto faz por merecer.

publicado por shark às 12:21 | linque da posta | sou todo ouvidos