SUPER-PODERES A SÉRIO: O DOM DO PERDÃO

O perdão é algo de tão raro e especial que ao longo dos tempos foi sempre conotado como um poder de deuses e de profetas.

Conseguir perdoar é tão complicado para a esmagadora maioria dos seres humanos que na nossa religião predominante reza-se não para obter esse dom mas para que outros sejam beneficiados por essa dádiva valiosa, Deus te perdoe, pois desde cedo aprendemos a lidar com situações que apelam precisamente a essa capacidade. E não tardamos a percebê-la ausente da nossa reacção instintiva.

 

O perdão é confundido com variantes soft da sua essência. Perdoar implica literalmente passar uma esponja sobre memórias e até sobre instintos, é ultrapassar obstáculos internos, mecanismos de defesa inatos que nos conservam viva a sensação sofrida por culpa ou apenas por responsabilidade de alguém.

É generoso, altruísta, quase extraterrestre no conjunto de virtudes que reúne e no regimento de defeitos que consegue derrotar.

Muitas desilusões nascem dessa confusão natural entre o perdão genuíno e as cedências por via de necessidade absoluta, de chantagem emocional ou qualquer outro pretexto para que perdoar se constitua quase uma obrigação.

Mas a coisa não funciona assim.

 

O perdão não deixa rastos à sua passagem, é como se o mau passado fosse apagado pelo vento como meras pegadas num areal. Qualquer resíduo, qualquer resquício de ressentimento, pode transformar-se numa bomba relógio interior e explodir a qualquer momento no rosto de quem ofendeu e mesmo no de quem julgava ter sido capaz de uma proeza tão pouco ao alcance da pessoa comum.

A natureza humana, mesmo com um esforço suplementar por parte de quem opta pelo caminho do Bem (seja lá o que isso for nesta época confusa em matéria de valores), é imprevisível pelas infinitas combinações possíveis entre acções, reacções e características dos respectivos protagonistas. Claro que os mais optimistas dirão que a maioria das pessoas consegue perdoar porque as pessoas serão, supostamente, gente boa na sua maioria. Todavia, confundem perdão com uma simples manifestação de intenções que acaba por se revelar um adiamento, uma trégua temporária, uma paz podre à espera do primeiro desatino para descambar com ainda mais gravidade do que a situação “perdoada”.

 

Cada um de nós vive de forma distinta as peles de vítima (que para poder perdoar veste a toga) ou de réu, tal como não existe uma medida de aferição para a intensidade daquilo que sentimos perante um mesmo cenário e ainda que desempenhando o mesmo papel de outrem. Isso torna aleatório o desfecho de cada situação e, regra geral, esta acaba por ser resolvida da pior forma ou com a panaceia que qualquer segunda oportunidade constitui quando a vontade de perdoar enfrenta o inimigo interno que é a sede de vingança e o externo que é o da reincidência (o golpe de misericórdia tradicional nas melhores intenções).

 

Por tudo isto, saber perdoar equivale a possuir um conjunto de características e uma personalidade tão forte, tão pautada pela bonomia, que poucos seres humanos podem reclamar esse super-poder sem incorrerem numa mentira. Sobretudo a si próprios.

publicado por shark às 16:20 | linque da posta | sou todo ouvidos