A POSTA QUE FAÇO NA MESMA

Pelos vistos a coisa obedece a um padrão qualquer. Quem se afirmou favorável à despenalização do aborto passou a ser a favor da respectiva prática. Quem advoga a eutanásia é um entusiasta do homicídio. E quem rejeita os excessos legislativos no que respeita ao tabaco veste de imediato a pele do adepto fervoroso da prática fumadora.

 

Uma pessoa acredita que o senso comum consegue distinguir a defesa da liberdade de escolha, no caso do aborto, e a apologia da sua prática. Mas isso do senso comum foi chão que deu uvas no tempo em que as consciências pareciam uniformizadas num conjunto de valores que se queriam universais à força mas depressa a liberdade, essa marota, os liberalizou ao ponto de quase se substituírem os valores colectivos pela soma de uma colorida paleta de interpretações individuais.

A verdade dos factos ensina-nos que, sobretudo nas questões ditas fracturantes, a emoção sobrepõe-se à lucidez e por isso a compaixão para com o sofrimento terminal de alguém que me move na defesa do direito individual à escolha do momento do fim será sempre distorcida na perspectiva de quem se sinta insultado por essa heresia como muitos a sentem.

 

Na Islândia, esse país gelado com molho de lava quente, depois de serem banidas coisas tão perniciosas para cérebros congelados como a pornografia, parece que a próxima cruzada nacional incidirá no tabagismo.

Ao que sei os islandeses estão a considerar algo que nem aos fanáticos anti-tabagistas norte-americanos lembrou: condicionar a compra de tabaco à emissão de uma receita médica para o efeito.

Ou seja, e espero ter percebido mal, a pessoa tem que ir ao Centro de Saúde para obter o ámen de um médico para poder comprar um maço de tabaco.

E lá estou eu outra vez na função de advogado do diabo por sentir como uma heresia tentarem impor uma espécie de pedido de licença, de beija-mão, a quem gosta ou depende do consumo de uma substância que a partir desse precedente passa a estar na fronteira da ilegalidade que tresanda ser o objectivo último de quem decide assim.

 

Mais uma vez não estão em causa as melhores intenções de quem gostaria de ver erradicado no futuro o consumo do tabaco. Esse é o ponto de convergência entre mim e os paladinos anti-tabagistas e sou um apoiante fervoroso de todas as iniciativas tendentes a afastar os mais jovens do contacto com algo que os pode matar no futuro (como o uso de um motociclo, mas esse ainda não entrou na lista negra proibicionista).

Porém, o abuso de poder inerente a esta interpretação da pessoa que fuma, a este misto de infantilização com marginalização sistemática por via legislativa, pode provocar uma alteração de mentalidades que na minha visão do mundo não encaixa.

Estes cruzados das causas politicamente correctas nunca saciam a sua ânsia proibicionista e compram guerras à peça para se manterem activos na perseguição de tudo quanto consideram feio, sujo ou mau. E assim vão impondo um modelo de perfeição com base na intensa pressão exercida sobre quem possa dar corpo às suas pretensões.

 

É esta a ameaça que representa para mim o mesmo que o sexo, o tabaco, as drogas leves e qualquer fonte de prazer vulnerável do ponto de vista de uma moral duvidosa nas cabeças pseudo-impolutas de autênticas seitas que se congregam em torno das batalhas por uma sociedade sem vícios públicos e, numa intrusão inadmissível, cada vez mais também os privados.

É esta a minha opinião e defendo-a com todos os argumentos ao meu alcance.

Mas não vou por isso tentar mudar a dos outros à força. A da Lei ou outras.

publicado por shark às 11:11 | linque da posta | sou todo ouvidos