A POSTA INVERTEBRADA

Se há osso, ou conjunto de ossos, que queremos manter inteiro esse é sem dúvida a coluna vertebral.

Tudo indica que é mesmo a mais importante das nossas preocupações em matéria de impactos sofridos por esta frágil estrutura que nos alberga a existência.

Sem a coluna vertebral seríamos provavelmente criaturas rastejantes com um horror ancestral a bichos com patas e às tantas é daí que provém o sentido figurado que atribuímos ao que muita gente apelida de espinha (claro que a mim isso não aflige, sobretudo nesta pele de esqualo virtual).

 

A dignidade é o conceito mais associado, nesse sentido figurado, à coluna. Alguém que tenha abdicado de uma terá desistido da outra por tabela, nos meandros da sabedoria popular que nos ensina a valorizar por instinto aquilo que uns renegam por simples ambição e outros numa dolorosa cedência.

E aqui abrem-se dois caminhos para a terrível perda de algo que nos transforma, em sentido figurado mas nem por isso menos concreto, numa espécie de vermes que só não reconhecemos no espelho quando conseguimos atordoar a consciência com pretextos, por norma os valores mais altos que se erguem.

Podemos perder a coluna vertebral por doença ou por acidente, em qualquer dos sentidos que possamos atribuir à espinha que impede a cabeça de se afundar pelo tronco até aos intestinos.

Se virmos a coisa pela tal analogia entre os ossos e os princípios, a ganância pode representar a doença e a aflição vestirá bem o acidente.

 

Em ambos os casos acima podemos lidar com o problema: muitas doenças têm cura e para a ganância até existem vacinas, bastam as lições do passado acerca das vidas de quem optou de livre vontade entre a tal coluna a fingir e o proveito a sorrir ali mesmo à mão, o pecado da tentação que leva as pessoas a acreditarem que vale a pena essa troca que se pode revelar fatal para quem não consiga eliminar os escrúpulos e outros resquícios da pessoa de bem lançada ao chão para uma existência reptilínea. Por outro lado, as mazelas do tal pseudo-acidente, as consequências de decisões condicionadas pela conjuntura de uma ausência de escolhas, podem ser tratadas até só restar a cicatriz que, lamentavelmente, acaba por exercer no acidentado um efeito idêntico ao da lucidez no adoentado.

As hipóteses de esse tumor maligno surgido no percurso de alguém que jamais o seguiria de forma voluntária entrar em remissão ficam assim reduzidas à respectiva insignificância, pelos efeitos perniciosos da combinação do remorso, do possível arrependimento, da inevitável vergonha e consequente perda de auto-estima, de imensos factores aos quais os crápulas, os vermes propriamente ditos, são imunes.

 

Neste contexto a coluna vertebral acaba por ter a importância que lhe queiramos atribuir, partindo do princípio de que há quem consiga abdicar dos seus por inteiro e ainda assim apertar os atacadores dos sapatos com os quais caminham, homo erectus, por entre muitos dos lesados pela sua actuação, da mesma forma que podemos acreditar que outros sobrevalorizam a coisa em qualquer sentido possível e passam a vida a penar pela defesa da integridade quase figurada porque tão facilmente esmagada pelo peso dos fardos que às vezes o destino nos impõe.

As colunas dos que delas abdicam apenas porque sim, porque podem e a vida lhes oferece de bandeja uma cenoura, um isco apetecível para fincarem as dentolas sem olharem a meios para morderem os fins não sofrem esse tipo de pressão esmagadora. E nunca vergam, tal como não partem, porque isso não acontece a algo que não se tem.

 

O maior dilema dos que agonizam com a noção de terem dobrado em demasia a espinha e se apercebem da verdadeira dimensão das lesões na sua imagem de si próprios é precisamente o que resulta da certeza da irreversibilidade dos factos, sobretudo quando se vêem chantageados pelo azar mas entendem a factura da cedência.

A perda da coluna nessas condições é irreparável, pois por mais que o lesado tente endireitar o tronco sobre a estrutura fragilizada esta ficará para sempre estigmatizada por uma cicatriz externa.

E essa marca indelével do momento decisivo agarra o perdedor a uma cadeira de rodas psicológica da qual dificilmente conseguirá levantar-se um dia.

publicado por shark às 00:21 | linque da posta | sou todo ouvidos