AQUELA NUVEM

Foto: Shark

 

Aquela nuvem ao longe, tão escura mas tão distante que não intimidava quem queria usufruir dos dias com sol, avançou devagar no horizonte e começou a desenhar no céu a sua imagem sinistra de ampulheta invertida, o tempo esgotado no espaço cada vez mais ocupado pelo manto de breu que vinha pousado sobre os ombros do temporal.

Ao longe, tão escura mas ainda a uma distância segura que permitia ambicionar o desvio, para passar só de raspão, empurrada pelo Verão para as terras cinzentas de outros mais habituados a borrascas, a chuvadas sempre imprevistas para quem nunca usou um chapéu protector.

Aquela nuvem logo ali, olhos nos olhos, tão escura e cada vez menor a abertura disponível na janela azul reservada para o brilho do sol. O tempo encurtado grão a grão, entornado na ampulheta invertida que apesar de imaginada exprime o essencial da desconfortável sensação de estar tão próxima a perdição encharcada, a aflição por vezes chorada pelos que, já debaixo daquela nuvem, enfrentam a enxurrada porque o seu tempo ensolarado acabou.

Tão escura, tão perto, o último dique desabou à vista desarmada da multidão apanhada de surpresa pela violência da tormenta até que alguém mais atento comenta que ouviu dizer na televisão que vinha aí um furacão financeiro, um colossal aspirador de dinheiro que já havia atravessado outras regiões com a devastação dos seus raios e trovões mais a chuva muito intensa, a torrente tão imensa que pouco ou nada lhe resistia.

E agora chegara o dia em que aquela nuvem ao longe, tão escura mas tão distante na percepção distorcida, optimista, do horizonte enegrecido pelo temporal, havia avançado na direcção menos desejada.

 

A água já cobria a única estrada de acesso à salvação quando falaram na evacuação emergente, qualquer espécie de fuga em frente naquela batalha perdida contra forças poderosas de um mal que esmagava qualquer esforço individual pela sobrevivência e aos poucos tomaram todos consciência de que aquela nuvem tão escura abdicara de ser futura e cobria agora o presente com um desastre iminente e para muitos terminal.

 

Só aí a maioria se deu conta de como a sua negligência apática braços dados com uma esperança excessiva, patética, haviam resultado para as suas expectativas numa combinação fatal. 

publicado por shark às 10:43 | linque da posta | sou todo ouvidos