A POSTA NO COELHO À PERDEDOR

nobre português

 

Há quem louve a enorme nobreza na insistência de Passos Coelho em honrar o seu compromisso perante o Nobre das galinhas. Coerência, disse ele, avançando destemido com a primeira amostra da sua capacidade decisória em matéria de selecção de recursos humanos.

E o outro, coitado, pouco habituado a estas cenas pornográficas da política hardcore, lá se deixou embarcar no sonho do prémio de consolação para o anterior fracasso nas presidenciais.

Ia ser Presidente da Assembleia da República, até a vitória retumbante dos social-democratas parecia abrir-lhe as portas do cadeirão.

 

Tudo começou quando o Nobre percebeu que grão a grão enche a galinha o papo mas quando surgiu no horizonte a hipótese de a ave poedeira ser a dos ovos de ouro imaginou logo que conseguia encher um silo num instante e toca de dar um ar da sua graça junto de uma aposta que lhe pareceu segura.

Olá, estou aqui e subscrevo o conteúdo programático do Bloco de Esquerda ao ponto de, com enorme sacrifício pessoal (era semear para colher, pois não havia um cargo decente disponível na altura), me assumir mandatário (talvez porque soava parecido com a palavra mandar, algo a que se habituara no âmbito do seu percurso de dirigente humanitário).

E lá se pendurou no magnífico resultado eleitoral do BE para fazer as primeiras aparições no fascinante mundo da política partidária que, coerente, nunca deixaria de criticar enquanto pessoa fora do sistema.

 

Claro está que o passo seguinte era a eleição mais à mão e o bom do Nobre acreditou que a sua colagem a homem de esquerda bastaria para afiambrar os votos desorientados de quem não se revia na multidão de candidatos que começa a ser tradição entre os kamikaze presidenciais da esquerda espartilhada.

Porém, nem a ameaça de suicídio assistido (o número artístico do tiro na cabeça, um clássico do drama na política contemporânea) evitou a vitória do opositor, logo à primeira volta, e um lugar no pódio que terá sabido a pão que o diabo amassou no bico palerma de muitos, públicos e anónimos, que se deixaram arrastar pelo ímpeto expansionista do homem que se desmentiu sempre na qualidade de político embora na política pareça, de forma coerente, insistir em desmentir-se pela qualidade. Pela sua falta.

 

Mas o bom do Nobre, homem de grande fôlego, viu na vitória de Cavaco a janela de oportunidade adequada para o envio dos seguintes cupões. De resto, toda a gente percebeu o quanto a participação de Nobre nas presidenciais contribuiu para a eleição do homem de bolo-rei no bico e o Fernando, mais astuto do que o Pedro (o que não constitui proeza por aí além, mas enfim...), sabia que o desespero de causa alimentado pelas sondagens à tangente poderia ser determinante para que o líder laranja, à rasca, olhasse para ele, o Fernando Nobre da AMI, e visse algo que a mais ninguém lembraria: um coelho caído de bandeja na cartola para dar a volta aos números da angústia.

Um magnífico candidato do PSD para Presidente da Assembleia da República que quase partilhava, por ir lá muitas vezes, o estatuto de africano honorário reclamado pelo futuro Primeiro-Ministro, nem mais.

 

E lá voltou o Nobre à ribalta da cena política, essa coisa estranha de que nunca fez parte e por isso poderia mudar para melhor por dentro, como se habituara no seu percurso pela Cirurgia Geral.

Mas este desafio abraçado pelo doutor mais parecia uma autópsia, quando somados os votos da sua candidatura ficou claro que nem os do próprio partido que o recomendou conseguiu recolher por inteiro.

Não foi uma tenda de campanha, foi uma barracada das antigas que, queiramos ou não, retira um pedaço da mística ao líder laranja.

 

É um bocado como uma prova de ciclismo na qual o camisola amarela começa manco e arranca para a corrida na cauda do pelotão, mesmo a jeito para o carro vassoura que vai afastando para a berma (é fazer a conta a quantas vezes a camisola mudou de dono) aqueles que conseguem montar a bicicleta mas não logram disfarçar o seu ritmo irregular e com pouca pedalada.

publicado por shark às 20:13 | linque da posta | sou todo ouvidos