UM ANO DEPOIS

 

josé saramago

 

 Foto: Shark

 

 

É difícil de contestar o pressuposto de que não há insubstituíveis, pois a vida continua muito para lá do fim da de cada um de nós. Três gerações passadas e já somos não mais do que uma referência secundária, uma imagem difusa que outras, com a nitidez que só o presente confere, substituem no quotidiano dos que cá ficam.

Essa é a verdade, dura para quem não gosta de encarar estes factos ainda que os reconheça na sua própria realidade de contacto com antepassados distantes por algumas décadas, para a esmagadora maioria de nós.

 

Sim, somos substituíveis e somos substituídos mas há sempre quem sinta que saiu a perder, filhos, pais, gente próxima demais para ignorar a nossa falta e conseguir de alguma forma compensá-la.

Porém, existem pessoas que de tão dotadas estendem a sua presença para lá das fronteiras normais, acabam adoptadas, figuras públicas, por desconhecidos que as sentem como verdadeiros familiares ou até mais.

Essas pessoas também são substituíveis, outras nascerão em seu lugar para lhes ocuparem os mesmos espaços em tempos distintos, e outras a seguir. Mas a presença dos melhores, dos mais reconhecidos nos talentos que o mundo mais valoriza em cada época, acompanha gerações a fio, preenche a memória dos que acompanham a história e vivem a vida, às tantas, sob a influência de estranhos que nos seus legados deixaram a influência decisiva para definir os contornos do caminho a seguir porque ninguém os conseguiria substituir nessa dimensão transcendente que é privilégio de apenas alguns.

 

Insubstituíveis não haverá, pois a vida sempre encontrará uma alternativa, acontece nas pessoas como nas flores que nascem de entre as fissuras de um muro quando o vento do acaso transporta as suas sementes para um lugar assim.

Mas o rasto dos eleitos perdura no tempo, numa ausência sentida a cada momento, a imortalidade garantida sob a forma de uma saudade espalhada por contágio e que parece não ter fim.

publicado por shark às 16:59 | linque da posta | sou todo ouvidos